Domingo, Dezembro 19, 2010

Desalmado

Eu acho que eram as contas, às vezes penso que era o meu momento conturbado com a Elisa. Enfim, eu andava nervoso naquela época e tudo me irritava. Eu era um animal acuado e inseguro. A falta de dinheiro e de amor me deixam extremamente assombrado e toda essa ausência de elementos de conforto me fazem ouvir jazz melancólico. Eu geralmente me fecho num mundo de tom esverdeado como lodo, como um pântano, um brejo amaldiçoado. Me alimento de sombras e fugas, de tristeza auto-induzida, de lágrimas saborosas. Quem não gosta de sofrer quieto num canto, curtir a sarjeta e se rastejar nos espinhos de uma depressão? O homem precisa disso, todos precisam. Mas santo Deus, estou me perdendo com toda essa divagação.

Eu lembro que eu ouvia Charlie Parker no meu iPod, tentando acalmar todo o turbilhão de pensamentos violentos que apareciam em série na minha mente. Eu andava tão preocupado e carente que existiam duas linhas de pensamentos: as violentas e as indecentes. Ou eu estava com raiva de algum cidadão sofrido que trafegava à minha frente tentando um lugar na lotada escada rolante da plataforma do trem que ia para a Julio Prestes, na Barra Funda ou estava babando em algum rabo. Seria melhor dizer ‘qualquer’ rabo. Eu me flagrava falando em voz baixa: preciso de uma boceta. Eu me envergonhava disso. Eu me auto-julgava, eu me auto-condenava e eu me auto-castigava. E toda aquela situação começava a me irritar porque eu - logo eu - um cara tão simpático e popular, estava impaciente para conversas junto às pessoas mais próximas. Eu não tinha saco para pequenos papos, estava cansado da humanidade. Olhar todos trafegando, entrando no trabalho, sabendo que fariam a mesma coisa de sempre, com o olhar conformado ou o sorriso de pobre estúpido, com todos os diabos, como isso me cansava.

Caminhei até a frente do meu trabalho e finalizei o meu cigarro. Meu pulmão estava pedindo arrego e eu, teimoso que sou, continuei a fumar, no pior clima seco e calorento que a cidade nos oferecia. Eu precisava daquela merda de vício. Puxei me crachá e me identifiquei no portão. Abaixei minha cabeça como um bom operário dos anos 20 faria, e me arrastei pelas estreitas ruas da empresa. Avistei a porta do meu setor e suspirei.

- Mais um dia, puta que pariu... – deixei escapar um breve murmúrio.
- É, mais um dia, amigão! – era Lopes, um paspalho pelego que sempre portava um sorriso pronto para os seus superiores na hierarquia da corporação.
- Hum... – olhei para o lado e ao avistá-lo tentando repousar sua mão em meu ombro direito, me desvencilhei e o desprezei.

Ele permanecia com um sorriso brilhante enquanto eu me afastava rapidamente de suas mãos sujas. Subi a escada e praguejei levemente, amaldiçoando os cigarros que raptaram e esquartejaram minha saúde. Malditos cigarros. Bati o cartão e percebi que estava dentro da tolerância de atraso. Pisquei os olhos lentamente, sentindo que minhas pálpebras pesavam toneladas. Bebi três copinhos de água e alguma garota de má-fama se dirigiu a mim.

- Que bela ressaca, Nelson! A noite foi foda, hein? – era Creusa, uma mulher horrorosa, mal penteada, mal organizada, mal compilada, enfim, mal feita. Deus não foi o responsável por ela. Não o Criador do Universo. Não teria feito tamanha presepada.
- Foda? Faz tempo que não fodo, coração. E não bebi ontem. Tô sem dinheiro. E se tivesse dinheiro, não beberia porque só beberia se não tivesse dinheiro...
- Você está confuso, isso sim.

Esbocei uma réplica à constatação da lambisgóia, mas preferia me reservar. Apenas fuzilei-a com meu olhar de homem vencido e me retirei do recinto. Cheguei em minha mesa e dei outro suspiro. Um peido sacana ameaçou abandonar meu corpo, mas o aprisionei com uma apertada no cu. De mim ele só sairia no banheiro. Chega de constrangimentos. Já vivo constrangido por viver, porra. Me acomodei na cadeira e iniciei minhas operações.

- Bom dia, Nelson! – Diogo me cumprimentava sem pretensão alguma.
- Bom dia – fui seco na resposta, mas ele entenderia, eu estava focado no trabalho.

E dentro do foco, eu passei boa parte do dia, sem olhar para o relógio, sem trocar uma bendita palavra com alguém, a não ser com os clientes que vez em outra insistiam em complicar minha bela vida. Mas eu estava lá, sentado como um velho negro sábio às margens do rio Mississippi, fumando um bom cachimbo e conversando com os pássaros. Eu era o senhor do meu trabalho. Eu era bom naquilo. Enquanto viajava, pensando em New Orleans, com toda aquela música e comida, fui interrompido pelo Diogo.

- Estou com dores, cara. Dor na nuca, sabe?
- Sei sim, tem um ambulatório lá embaixo, passa lá – eu não desviava o olhar da tela de meu computador.
- Putz, não sei se vou chegar até lá. Tô com uma dormência, um formigamento no rosto! O que pode ser? – Diogo estava angustiado, perdido em seus sintomas.
- Bom Deus, man. Deve ser dor de cabeça.
- Meu Deus, minha cabeça parece que vai explodir! Minha nuca, Pai Eterno, o que é isso?! – Diogo exaltou de vez a sua voz e se ergueu.

Como um raio partindo minha mente, parei para pensar: “ele está sofrendo um AVC!”. Levantei de minha cadeira e fui beber mais alguns copinhos d’água. Observei a feição do rosto de Diogo e era de dar dó. Ele estava atordoado, e sentia que ele tentava reagir, mas não conseguia se levantar. Eu realmente estava amargo naqueles dias. Fiquei ao lado do bebedouro, avistando de longe o pobre diabo. Estava esperando ele empacotar de vez para voltar ao meu lugar. Eu não sentia compaixão. Nenhuma boa atitude me atraía, eu queria paz, e paz significava silêncio e distância de qualquer confusão. E o Diogo era a tradução de uma boa confusão. Se ele morre ao meu lado, ou tem um derrame ou sabe Deus o quê, todos cairiam em cima de mim, com perguntas, fofocas do tipo: “ele não socorreu porque não quis” , “ele tinha inveja do Diogo e o deixou morrer” ou “o Nelson é um covarde e desalmado”. Pelo amor do que é mais sagrado, eu quero quilômetros de distância dessas picuinhas.

Diogo permanecia com um mão na cabeça e outra na nuca. Ninguém teve o trabalho de o notar. Nenhuma alma sequer parou para auxiliá-lo, para ouvir seus gemidos de dor. Um pingo de remorso se apoderou de mim, mas logo o sequei e voltei ao meu estado de sentinela. Eu esperava pelo desmaio do Diogo para voltar ao meu assento e continuar meu bom trabalho. Eu estava numa verdadeira tocaia sacana, bebendo litros e mais litros de água. O café chegou na hora certa e lentamente despejei uma boa quantidade do liquido negro no copinho de plástico. Fiquei assoprando e bebendo aos poucos, sempre de olho no desgraçado do Diogo que não cedia à pressão alta. Comecei a ficar impaciente e fui até o restaurante da empresa. Perguntei qual seria o cardápio do dia e quando a senhora que servia o almoço foi conferir as panelas, peguei um saleiro e o enfiei no bolso.

- Carne de panela, arroz, feijão e salada – a mulher me anunciou a lista de atrações do almoço.
- Ah ta, ta certo. Bem, até mais – me despedi com passos apressados. Minha produtividade no trabalho estava comprometida por um homem doente que me assolava com seus pedidos de ajuda.

Voltei ao bebedouro e alcancei um outro copinho de plástico. Abri lentamente a tampa do saleiro e despejei o equivalente a uma colher de sopa de sal. Preenchi o resto com água e misturei com o dedo indicador. “Agora ele morre de vez”, pensei, guardando o saleiro novamente no bolso. Não posso deixar de repetir, eu estava muito amargo naqueles dias. Pelo amor de Deus.

Quando me dirigia para a mesa dele, para oferecer meu elixir da morte, o desgraçado apareceu como uma visão infernal, correndo em minha direção, gritando e praguejando.

- Nelson, me ajude! Nelson! Minha cabeça vai explodir! Maldição! – dizendo isso, trombou comigo, me fazendo cair de bunda, derramando toda a água com sal.
- Vai se foder, Diogo! Que ideia idiota é essa? Sai de cima, desgraçado! - ele caiu como um dejeto por cima de minha barriga.

Ao virar seu corpo, seu rosto estava ensanguentado. Muito sangue saía de seu nariz e seus olhos estavam fechados. Ainda o ameacei, mais pela raiva que por qualquer outra coisa. Mas ele estava imóvel. Pessoas correram ao nosso encontro até que alguém gritou “chamem um ambulância!”. Me livrei do peso de Diogo e o larguei no chão. Um enfermeiro do ambulatório chegou com pressa e mandou as pessoas se afastarem.

- Porra, o que aconteceu com ele? Alguém sabe se ele estava se queixando de algo? Algum sintoma? – o enfermeiro tinha voz firme e inquiria a multidão enquanto segurava a cabeça do Diogo com seu braço direito.

Todos ficaram calados, inclusive eu. Eu não queria ser estrela naquela palhaçada. “Foda-se”, pensei. Mantive silêncio sepulcral.

- Alguém pode me ajudar a carregar o coitado lá pra baixo? – o enfermeiro deixava vazar um pouco de pânico em sua voz. As pessoas estavam paradas, atônitas e inutilizadas pela curiosidade.

Eu prontamente me afastei e fui para a minha mesa. E voltei a trabalhar. Aos poucos as pessoas se dispersaram e em alguns minutos aquela pausa coletiva havia acabado. Claro que o clima era outro. Pessoas tagarelavam sobre a boa pessoa que Diogo era, outras especulavam o que poderia ter acontecido. Eu olhei finalmente para o relógio e vi que faltava ainda um bom tempo para o fim do expediente.

- O Diogo não disse nada para você, Nelson? – minha supervisora era asquerosa com seus quarenta e tantos anos. Dentes apodrecidos e fantasia por homens de fio dental.
- Não me disse nada. Conversávamos sobre um pedido absurdo que presenciamos. Estávamos questionando algumas atitudes do setor de entregas. Só isso. Quando fui beber água, ele começou a sentir os sintomas.
- Que desgraça. Temos que esperar pelo diagnóstico do hospital.
- Vamos esperar. Tomara que dê tudo certo – voltei meu olhar para o monitor.
- Que Deus o abençoe... – ela estava transtornada, com olhar de piedade digno de santa da igreja católica.
- Amém – respondi sem ânimo, tentando fazer com que ela percebesse que estava sendo inconveniente naquele momento.
- Vou te deixar trabalhar agora.

Não respondi, apenas a chamei de galinha grávida em meu pensamento e permaneci hipnotizado pelas luzes de meu monitor.

As horas enfim passaram. Às dezessete horas, a supervisora chegou com a cara inchada, cheia de lágrimas besuntando suas bochechas flácidas e avermelhadas. Ela abraçava um analista enquanto uma outra mulher apertava sua mão.

- Foi um derrame! Ele está entre a vida e a morte! Meu Deus, ajude ele! Por favor, meu Deus! –
ela clamava no meio de todo o setor. As pessoas se sensibilizaram e foram até a triste mulher para consolá-la.
- Vamos rezar por ele, minha querida... – a faxineira ensaiou um abraço tímido.
- Vamos fazer uma corrente de oração. Vai dar tudo certo! – outra boa alma se pronunciou.
- O foda é que esses derrames em pessoas novas são como um enfarto, muito difíceis de se recuperar, acho que ele vai ficar com sequelas – resolvi quebrar meu silêncio.
- Como você é desalmado, Nelson! Agora é hora de pensamento positivo! – uma colega de meu setor, negra como um tição, vociferou como se convocasse um tipo de greve.
- Vá pro inferno, porra. Estou dando meu parecer – eu mantinha uma frieza impressionante.
- Tá certo, Nelson. Vá trabalhar que é melhor – minha supervisora me orientou em meio aos soluços.
- Que Deus tenha misericórdia do Diogo – fui sarcástico e dramático. As pessoas aceitaram minha invocação por misericórdia e se acalmaram.

O expediente chegava ao fim. Pessoas fofocavam à todo vapor. Pessoas se apinhavam ao redor do relógio para bater seus pontos. O Diogo era o assunto da vez. Mensagens de solidariedade invadiram nossas caixas internas de e-mail. Uma mulher, em seus quarenta e dois anos convocava pessoas para uma oração pelo Diogo.

- Você vai visitá-lo, Nelson? – um homem pálido como um doente de lepra se aproximou de mim, expelindo um bafo que misturava merda, cigarro e café.
- Deus de amor, Arnaldo, o que você andou comendo? Seu bafo está horrível, e é sério!

Arnaldo fechou sua mão direita em concha, levou-a até seu nariz e baforou um pouco de hálito na palma da mão.

- Caralho, ainda bem que você me avisou! – dizendo isso, puxou um Trident de canela e começou a mastigá-lo.
- Isso só vai piorar. Vá lavar a boca, escovar os dentes, sei lá.
- Será que é o estômago?
- Pode ser uma úlcera, sei lá. Vai saber, né?
- Deus me livre! E então? Vai visitar o Diogo? – o hálito estava repulsivo.
- Primeiro, vire a cara pra falar comigo. Segundo, não, eu não vou visitar. Deixe a família se encarregar disso – acendi meu primeiro cigarro em horas.
- Olha, primeiro é que quem tem cara é cavalo. E segundo, você é um desalmado, Nelson.
- Eu já cansei de ser chamado de desalmado. E se você não tem cara de cavalo, pelo menos bafo de cavalo pangaré você tem, meu camarada.
- Eu te mostro quem tem bafo de cavalo – Arnaldo se lançou contra mim, irritado com todas as ofensas gratuitas.

Me esquivei do primeiro soco, mas a joelhada veio logo em seguida. Consegui colocar uma mão nos meus bagos para protegê-los. Mas o choque entre o osso do joelho dele com a minha frágil mão de pianista classudo, foi doloroso. Ele deu uma derrapada e se recuperou, porém não esperava que eu me aproveitaria de seu descuido, afinal, ele ficou de costas para mim. Chutei seu traseiro, na parte entre as bolas e o cu. Ele gemeu e deu um leve salto com o impacto do peito de meu pé em seu rabo. Logo em seguida chutei o seu tornozelo direito, o que o fez iniciar uma corrida de fuga desengonçada. Segui o miserável por vinte metros, porém meu pulmão me limitou. Ergui meu punho direito, tremulando-o e gritando.

- Corra, cavalo filho da puta! Corra!

Pessoas estavam paradas, observando a curta briga que ocorreu, todas paradas na calçada do outro lado da rua. Peguei meu cigarro que havia caído no chão e o coloquei de volta em minha boca. Arrumei minha camiseta e sacudi o cabelo. Estava tudo em ordem. Atravessei a rua e percebi que todos os espectadores da luta apertavam seus passos, constrangidos com minha presença. Enquanto caminhava rumo à estação de trem de Presidente Altino, pensava em como eu estava estressado. Aquilo não estava certo, mas acabei misturando esses pensamentos com a vontade de ter um revolver na cinta, para sair atirando à esmo, para cima, para baixo, nas pessoas, nos cachorros, na polícia, enfim, trocando em miúdos, virar um maníaco ensandecido.

Verifiquei meu maço de cigarros e haviam apenas dois restantes. Parei na padaria e comprei mais um. Aproveitei e levei uma garrafinha de cerveja para me refrescar. Matei toda a bebida em poucos goles e me senti muito bem. Enfim eu estava em meu caminho de volta para casa e eu sentia uma sensação de alívio maravilhosa. Cheguei à catraca da estação, passei meu bilhete único e escutei o clássico barulho do trem atacando os trilhos em sua velocidade cambaleante. Ensaiei uma arrancada, mas minha corrida era preguiçosa e precavida, afinal, qualquer esforço a mais e eu poderia apagar, acordando em algum hospital fodido, sem minha carteira, iPod e outros pertences. Mas consegui chegar com tranquilidade, e ainda achei um assento vazio. Ao sentar, suspirei e me senti velho. Dei uma leve checada nas pessoas e todas pareciam gelatinas cinzas, tremulando com o movimento irregular do trem. Em meu iPod - que já estava bem ultrapassado – passeei pelos nomes que constavam em minha lista de artistas e resolvi escolher o bom e velho Cat Stevens, ou para quem gosta de atualizações, Yossuf Islam. Fui direto em minha música preferida dele, “Morning Has Broken”, e quando a voz serena dele começou a reverberar por minha mente, pensei: “puta merda, como sou brega”. Mas algo na voz dele me acalmava, talvez fosse o instrumental, eu realmente não sei, mas tudo o que ele canta me soa nostálgico, e no meu caso, isso é bom.

Os trens da CPTM – especificamente naquela linha – são muito lentos, mas são de uma lentidão pirracenta. O governo anda reformando todas as estações, está uma beleza, toda a modernidade, mas e as porras dos trens? O que importa no final das contas são os trens! Mas o óbvio da população não é óbvio para os governantes. Talvez eles sejam avançados demais. Por isso que estão lá, mandando e roubando, sem impedimentos. Esse pensamento invadiu minha mente e comecei a ficar irritado, ainda levando em consideração que eu suava em bicas, molhando meus finos cabelos, dando ao meu penteado um aspecto esculachado, largado. Comecei a mexer minha perna direita, exibindo clara ansiedade e o trem nem havia chegado à estação seguinte, que era relativamente próxima. De repente o trem finalmente fez o que parecia tencionar, parou e permaneceu assim por um bom tempo. Muitos trabalhadores impacientes começaram a se lamentar, alguns ironizavam o serviço de transporte público. Mas o que mais faziam era rir. Era melhor rir que chorar, eu concordo, mas será que será sempre assim? Rindo pra não chorar? E se o povo chorasse um pouco? Eu pareço um comunista pensando na solução para os problemas. Chega de crítica política e social, pelo amor de Deus, chega.

Em meio ao fuzuê que se instalou, um erro da natureza, assentado à minha frente, com sua boca semi-aberta, óculos de aro fino e cabelo duro mas cuidadosamente penteado, olhava para mim. Reuni todos os traumas da minha vida, lembrei de todos os valentões que assolaram minha vida, as pessoas que me ameaçaram de morte, bêbados que me perturbavam em baladas e nem todos eles unidos, não conseguiram me irritar tanto quanto aquela figura bizarra que permanecia imóvel, me encarando. O olhar dele era extremamente desafiador e um pouco disperso. Não sei como diabos isso seria possível, mas era assim que ele me olhava. Às vezes levantava o queixo me encarando por cima de seu nariz. Às vezes de forma sombria, inclinava sua cabeça para baixo e me olhava com ar suspeito. Eu não estava gostando e estava de saco cheio. O trem se arrastava lentamente saindo de sua paralisação e o Cat Stevens cantava “Into White” e essa canção é muito parada. Peguei meu iPod como se ele portasse alguma culpa pela irritação e troquei para “Prayer to God” do Shellac. A pior música que eu poderia ouvir naquela hora. O vocalista da banda vomita tanto ódio entre os versos, que eu não pude evitar de me contaminar. Todo aquele papo de “MATEI-OS, JÁ MATEI-OS!”, começou a compactar a minha paciência e finalmente meus braços fervilhavam. Eu já não os sentia. Era o sinal de que eu iria entrar numa briga, sempre foi assim. E o panaca permanecia olhando, arrumando a posição de seu óculos, como se quisesse focar uma imagem. Sua cabeça mexia, mas seus olhos me perseguiam. Ele deu um sorriso e isso foi a maldita gota d’água. Me levantei tirando os fones de ouvido e me dirigi a ele. Ele sorriu e não demonstrou surpresa alguma. Ele queria briga, só podia ser.

- Tá olhando o que? Eu posso saber? – tentei moderar ao máximo o volume de minha voz.
Ele continuava me observando, como se eu fosse algum objeto de estudo, uma espécie de macaco em extinção.
- Ei, fale comigo, filho de uma puta! – apontei o dedo para ele e em seguida dei um tapa em seus óculos.

Os óculos caíram no chão e os chutei. Ele permanecia em estado de observação, sem aparentar cautela ou medo. Minha cabeça estava latejando de raiva e resolvi descer um bom tapa em sua cara. Ele soltou um som, que parecia o sopro de um flauta e isso me impressionou. “Que porra de homem é esse?”, pensei. Ao redor, as pessoas começaram a reclamar, e eu podia ouvir cochichos.

- Porra, deixa o cara em paz! Eu trabalhei o dia inteiro, cacete! – um homem de farto bigode gritou do meio do vagão.

Eu mostrei meu dedo do meio para ele e voltei minha atenção para o maluco. Ele não falava nada, apenas olhava. Ele tinha um deboche instalado nas curvas de sua expressão facial, um sarcasmo tão ostensivo, que comecei a recear. Mas o que me tirou do sério foi um sinal de positivo com o dedo polegar direito que ele fez, para mim. Ele caçoava da minha força, devia achar meu tapa uma piada. Fechei minha mão direita e com destreza desloquei perfeitamente meu ombro para trás, e joguei meu braço com toda força do mundo ao encontro do rosto dele. Aquilo que era um murro bem encaixado. A massa de dedos fechados sofreu o impacto na fronteira entre a narina direita e os lábios superiores. Ao me concentrar no soco, perdi estabilidade com o movimento e pra variar, o trem tremeu. Cai em cima de uma senhora. Um homem moreno, com barba por fazer e cabelos grisalhos se ergueu e me puxou pela gola da camiseta, me lançando contra a barra de alumínio que ficava ao lado da porta do vagão. Me ergui rapidamente e me posicionei para a briga. O homem era forte, mãos calejadas e os braços com circunferência duas vezes maior que a dos meus. Mas eu ainda estava com muito ódio e meu orgulho me impulsionava para a confusão. Eu estava liquidado, todos estavam incomodados com o brigão e em breve eu estaria numa delegacia ou algo do gênero.

- Meu Deus do céu! O que aconteceu com ele? Meu Jesus! – a senhora, em quem caí, gritava horrorizada.
- Aquele homem bateu nele! – era o grisalho me denunciando.
- MAS POR QUE VOCÊ BATEU NELE? ELE É AUTISTA!
- Puta que pariu... – eu falei com voz trêmula.
- A senhora disse que ele é autista? – novamente o grisalho se intrometia no assunto.
- Sim, ele tem problemas mentais, meu senhor! Por que ele bateu no rapaz? – a senhora perguntava com os nervos à flor da pele.
- ESSE HOMEM É LOUCO! – um homem loiro, bem apanhado, de cabelos arrepiados e muito bem perfumado, se aproximou de mim.
- O que você tem a ver com isso, seu merda?! – gritei tentando intimidá-lo.
- Você bateu num deficiente, seu bosta! – uma negra com uma bunda enorme e calça extremamente apertada vociferou por trás de mim, batendo com sua sombrinha em minha nuca.
- Mas que ideia é essa, sua preta desgraçada?! – me virei para ela, colocando as mãos na nuca.
- Você é um maníaco e ainda é racista? Vamos pegar ele de porrada! – o grisalho de novo estava no centro das atenções.

E o pau comeu solto. Senti uma braçada em meu ombro esquerdo. Um ponta pé na lateral de meu joelho. O trem chegou na estação Domingos de Moraes e as pessoas na plataforma, ao ver o linchamento, evitaram entrar .
- Deus, me ajude! – gritei embaixo da saraivada de mãos que caia sobre mim.

Mas Deus, se estivesse em carne e osso por ali, também me daria uma boa coça. Uma pessoa entrou no trem, um adolescente com uma tatuagem de estrela no ante-braço, e sem perguntar o motivo, começou a largar o pé pra cima de minhas costelas. Eu entrei em pânico, erguendo minhas pernas e tentando acertar alguém, mas foi em vão. Alguém segurou meu pé direito e o torceu. Tentei aliviar a dor, fazendo meu corpo seguir para o lado da torcida, mas alguém travou meu corpo com murros no peito. As portas do trem fecharam e seguiram para a Lapa. A senhora que cuidava do maldito altista, bateu sua bolsa em minha cabeça. Eu estava apagando e ouvi um estalar de ossos. “Merda, quebrou”, pensei. Avistei minha camiseta encharcada de sangue e pensei na quantidade de litros de sangue que um homem precisa perder para morrer. Meu tênis havia sido retirado e deram um jeito de sumir com minha carteira e iPod. Meu celular, ainda estava no bolso direito, mas eu me conformei com a ideia de nunca mais vê-lo. O estranho de tudo foi que eu não pensava na morte. Pensava em meus bens sendo roubados. Eu era um miserável.

As pessoas, de uma hora pra outra cansaram de me espancar. Ficaram entediadas e fizeram uma roda ao meu redor. Eu ouvia algumas vozes, algumas especulações. Sugestões sobre os motivos do espancamento. Eu ainda me mexia, vagarosamente, como se quisesse alertá-los de que ainda estava vivo. Mas o que eu não esperava aconteceu: eles me ergueram e quando chegamos à Lapa, fui retirado do trem nos braços de todos os meus molestadores, como um Cristo prestes à ser crucificado, rumo ao seu calvário. “O mundo está cheio de ódio”, pensei. E nos braços do povo, fui exibido para tudo e todos, o homem cansado, uma verdadeira vítima da vida moderna, com todos os relacionamentos frios, trabalhos abusivos e transportes públicos precários. Um mártir da correria do dia-a-dia, sendo removido do trem e lançado na plataforma. Meu corpo rolou até a parede da estação, cheia de lindos grafites coloridos. E ali jazi por alguns minutos. Meus espancadores voltaram correndo para o trem e ficaram com expressão de alarde. Mais pessoas presenciaram a desgraça, ao meu redor, é claro. Pensei em quantas rodas de pessoas são formadas no mundo, apenas para presenciar coletivamente uma desgraça.

Por incrível que pareça, sentia o fim cada vez mais distante. Sorri um sorriso vermelho, vermelho vivo. Eu estava em frangalhos, mas naquele dia me libertei. A Elisa e sua frieza não valiam a pena. O trabalho e o dinheiro não valiam tudo aquilo. Finalmente eu vi a luz no fim do túnel. Custou uma boa quantidade de sangue, alguns dentes e a integridade de uns pares de ossos, mas finalmente eu, Nelson, mais conhecido como o homem cansado e estressado, estava livre.

Segunda-feira, Novembro 15, 2010

O Chefe


- Opa chefe, tem um desses pra me descolar? – um homem com cabelos lisos e oleosos, com cavanhaque suspeito e óculos surrados se aproximou apontando para meu cigarro.
- Quem tem chefe é índio, amigão... – e sentei a mão na cara do homem estranho.
Ele caiu rapidamente, mais pelo susto que pela força. Eu nunca venci uma briga, nem em meus sonhos. São frequentes os sonhos onde apanho, ou então, na melhor das hipóteses, bato em alguém porém sem força alguma. Acordo me sentindo impotente, levemente desesperado, pensando na fraqueza dos meus socos. Enfim, o homem sentou-se com a palma da mão esfregando a maçã do rosto, claramente transtornado.
- Eu pedi um cigarro... – o homem tentou se erguer, falando com voz mansa.
- Tome – estendi minha mão entregando dois cigarros ao pobre diabo - pegue um de brinde.
- Eu merecia um maço por isso.
- Vá tomar no cu, rapaz. Não tente me explorar – ergui novamente o braço para ajudá-lo a levantar.
Ele se ergueu, limpou a parte traseira da calça e o ombro direito. Acendeu um cigarro e ficou me fitando com expressão atordoada. Deu três longas tragadas e olhou para baixo.
- Eu to cansado de ser escorraçado. Eu já fui um bom professor de história. Mas acho que ler aquelas merdas de Marx e Engels só contribuiu para minha ruína. Você não pode lutar contra o sistema.
- Bom Deus, você é comunista? – perguntei enquanto me distraía com uma mulher rabuda que passava pela calçada no outro lado da avenida.
- Sou. Mas como eu acabei de dizer, não há como lutar contra o sistema.
- E o que faz hoje em dia?
- Simplesmente ando por aí. Não pertenço ao sistema, não pago impostos para esses bandidos...
- E nem trabalha – interrompi o homem.
- Nem trabalho – complementou com olhar soturno –, mas não por falta de oportunidades. Simplesmente não vou me entregar ao jogo.
- Então você resolveu mendigar, pedir cigarros e bebida pra gente desconhecida?
- Em tese sim. Participo aleatoriamente de passeatas, manifestações e tento me manter longe da confusão. Mas como você vê, vivo me fodendo.
- Vamos ali naquele boteco – apontei para a pocilga – te pago uma cerveja.
- Ta querendo me comer, é? – agora o homem sofrido me olhava confuso.
- Ta querendo morrer? Acha que quero enfiar meu pau no seu cu sujo de pedinte?
- Tomo dois banhos ao dia. Sou limpo.
- Você ta querendo dar a bunda?
- Ta louco? Você que ta querendo me pagar cerveja.
- E você ta dizendo que é limpinho... Precisa dar satisfação pra mim?
- Só quis explicar que não sou um porco.
- Tudo bem, foda-se. Vai querer uma cervejinha?
- Ta certo, chefe.
Acertei um soco oportunista na região do fígado do homem estranho. Ele grunhiu e praguejou algumas curtas palavras. Suas pernas tremiam enquanto se encurvava. Tossiu por alguns segundos e cuspiu uma bola considerável de catarro esverdeado.
-Eu já disse te disse que quem tem chefe é índio, seu malandro.
- Tudo bem, tudo bem. Vamos ao boteco.
Atravessamos a avenida sem trocar palavras. Eu estava aproveitando o momento. Eu era o fortão, o violento.  Eu era o cara mau da história e estava gostando da sensação. Há muito tempo não andava de rosto erguido. Utilizei de alguns trejeitos para simular uma virilidade exagerada. “Eu poderia ser assim para sempre”, pensei. Mas olhei para meus braços finos e decidi que seria assim somente diante do comunista indigente.
Chegamos à espelunca que chamavam de boteco e sentamos diante de uma mesa de ferro vermelha, patrocinada pela Brahma. As cadeiras, também de ferro, apresentavam sinais de ferrugem em estado avançado. Um homem obeso não poderia utilizar uma cadeira como aquela. Ergui minha mão e fiz sinal para o atendente, solicitando uma cerveja. O atendente me olhou com o rosto traçado pelo marasmo e me chamou ao balcão. Reclamei em voz baixa e fui rapidamente saber o que ele queria.
- Olha aqui, chefe... Nós não servimos cerveja na mesa. Tá vendo algum garçom por aqui? – enquanto falava, gesticulava como se quisesse me mostrar algo.
- Do que você me chamou?
- Chefe...
Peguei um chumaço de cabelos do atendente e os puxei até o balcão, fazendo sua testa estalar contra a superfície dura. O impacto gerou um pequeno estrondo.
- Quem tem chefe é índio, seu puto – dizendo isso, acendi um cigarro e olhei para o homem ainda desorientado. Soprei fumaça em sua cabeça e novamente puxei seus cabelos – Agora você vai nos servir a cerveja na mesa, você me ouviu?
- Sim, agora me solte! – sentia o desespero dele vibrando em meus nervos.
O homem se recompôs, arrumando o cabelo. Caminhou até a geladeira e buscou uma Brahma gelada. Abriu a garrafa e a deixou em nossa mesa.
- Sirva nossos copos, seu palerma! – dessa vez deixei minha frieza de lado e me exaltei.
- Não é necessário, eu sirvo – o comunista se antecipou fazendo gesto apaziguador.
- Quando eu pedir para um comunista intervir em assuntos de boteco, eu te chamo. Mas por hora, fique na sua.
- Você é um cara estranho. Você me dá pena.
- O pedinte na história é você, eu tenho pena de você.
Enquanto isso, o atendente ficava pardo ouvindo nossa discussão.
- Não fique parado aí! – apontei meu dedo indicador, torto na ponta, para a cara do atendente.
- Pois não – e lentamente o atendente despejou cerveja em nossos copos.
- Ah! Finalmente um pouco de classe nessa maloca do caralho! – enfim despejei algumas palavras denotando prepotência e desprezo.
- Meu Deus do céu... – o andarilho vermelho lamentava discretamente por todas as minhas atitudes.
- Você é comunista, seu homem ruim. Você não acredita em Deus.
- É uma expressão que todo mundo usa.
- Pro inferno com as expressões! Vamos beber!
O atendente pediu licença e eu consenti. Um grande galo se formou em sua testa. Eu dei uma risada de satisfação e peguei um palito de dentes. Comecei a mordiscá-lo deixando a pequena peça de madeira repousada no canto de minha boca.
- Você quer um emprego? Posso te conseguir – inquiri a triste figura que bebia comigo.
- Eu já disse que não me faltam oportunidades. Eu não vou me entregar à esse sistema falido
- Sistema? Cara, desde que o mundo é mundo, existem fortes e fracos. Sempre vai valer a máxima: “quem pode manda, quem tem juízo obedece”. Não adianta se excluir e achar que está fazendo algo.
- Eu tenho o direito de fazer o que quiser com minha existência.
- Direito? – fiz um ruído de desprezo com meus lábios – Balela! Você deveria agradecer ao bom Deus a graça de poder existir. E eu deveria blasfemar contra todo tipo de divindade por causa de sujeitos como você.
- Qual é o problema com sujeitos iguais a mim? – dizendo isso, tirou seus óculos e limpou as lentes utilizando hálito e a camisa.
- Sujeitos como você são ditadores enrustidos. Se dessem o poder à vocês, vermelhos desgraçados, vocês iriam cortar todas as liberdades básicas do povo, dando pão e salsicha de comida e trabalhos braçais que não tem nada a ver com nosso tempo.
- O que tem a ver com nosso tempo?
- Tecnologia. Você viu os avanços da nanologia? Os chips estão cada vez menores e armazenando cada vez mais dados. A internet, os serviços... o ser humano está evoluindo, trabalhando com a mente e deixando as máquinas cuidarem do esforço.
- O homem está ficando obeso e relaxado, é isso o que acho.
- Mas é a maldita evolução das espécies, pelo amor de Deus! – ensaiei uma levantada triunfal, erguendo os braços, detendo a razão em minhas mãos, mas eu estava muito próximo à mesa e percebi que o movimento demandaria mais habilidade. Desisti.
- Evolução. O homem estagnou. Ele não evoluirá mais. Somente o socialismo poderá nos levar rumo à uma sociedade mais justa. Esse papo de evolução trata o homem como um indivíduo. Precisamos pensar no coletivo! – Agora o revolucionário de meia pataca estava se exaltando – O egoísmo está fodendo com a base da sociedade, está destruindo a família!
- Calma, aê, sua imitação barata de Che Guevara – acalmei seus ânimos fazendo sinal de silêncio com o dedo indicador torto – Por que você não mata um presidente? Por que não monta uma guerrilha armada?
- E quem se juntaria á mim? São todos revolucionários de butique.
- E você é um revolucionário exemplar? Você não passa de uma ruína ambulante. Só isso.
- Olha aqui, chefe...
Peguei meu copo preenchido com cerveja até a metade e esparramei o líquido dourado no rosto dele. Ele prontamente esfregou os olhos e deu um soco na mesa pois sentiu as bolhas de gás da cerveja estourarem em seus olhos. Mas sua revolta foi abafada por um tapa que desferi em seu rosto, com as costas de minha mão direita. Ele gemeu levemente e desviou seu olhar para um cartaz de cerveja. A mulher no cartaz era gostosa.
- Quem tem chefe é índio. Eu já te disse, seu comuna vagabundo. Mas nunca te disse uma coisa: você parece com o Trotsky, sabia? – acendi outro cigarro.
- É, eu sei. Quem conhece o Trotsky sempre me diz isso.
- Pois então te chamarei de Trotsky. Ou prefere Leon?
- Eu prefiro meu nome, Demétrio.
- Que nome ridículo. Seus pais estavam de ressaca quando te registraram, aposto minhas bolas nisso.
- Provavelmente isso é verdade, pois eles era alcoólatras.
- Pais alcoólatras... você só poderia ter virado comunista – deixei aflorar mais um pouco de minhas inclinações de extrema  direita – pelo menos não virou poeta ou vegetariano. Embora vocês todos, no final das contas, não passam da mesma coisa.
- E qual é o seu nome? Posso saber?
- Artur. E quero ver meu nome tatuado no seu rabo – soprei fumaça na cara dele.
- Artur, você é uma espécie de neo-nazista? Integralista? Pertence a alguma frente nacionalista?
- Pro inferno com a política e suas ideologias, Trotsky.
- Me chame de Demétrio – me interrompeu enquanto furtava um cigarro de meu maço.
- Não, seu nome é Trotsky. E pare de se aproveitar de meus cigarros, seu meliante.
- Você fala como um militar dos anos 50. Isso é repugnante.
- E você se veste como um comunista dos anos 20. Parece os políticos do Partido da Causa Operária ou do PCB.
- O velho partidão... Remanescente das ideias do grande Luis Carlos Prestes!
- Luis Carlos Prestes... – fiz novo ruído de desprezo com os lábios – Perambulou pelo Brasil e não fez porra nenhuma... – coloquei mais cerveja em meu copo, esperando a resposta que o bastardo me daria.
Ele não respondeu. Ajeitou os óculos em seu rosto e pediu licença. Levantou-se lentamente e caminhou até o balcão. Seus sapatos eram surrados, como os de um vagabundo americano dos anos 30. Usava um blazer grosso de algodão com os cotovelos de couro, típico de um professor fracassado com tendências esquerdistas. Dei uma risada de deboche ao perceber que ele conversava em voz baixa com o atendente. O galo na testa do atendente era evidente e vergonhoso. Os dois conversavam sem dar pista do que poderia ser o assunto. Comecei a ficar intrigado.
- Meninas, podem parar de confidenciar a cor de suas calcinhas? Seu imprestável, traga mais cerveja aqui na mesa!
Ninguém me respondia. Coloquei outro palito de dentes na boca e me irritei. Eu estava extremamente embriagado pelo poder que o testosterona proporcionava.
- Seus paspalhos! O que vocês estão confabulando? – utilizei de meu vocabulário inadequado para impressionar um pouco.
Eles se voltaram para mim e ficaram parados, inexpressíveis e imóveis. Trotsky tinha um par de óculos opaco e riscado e aquilo me deixava indignado. Nunca confie num homem de óculos sem brilho. Tentei insultá-los mais um pouco, mas nada os fazia alterar a expressão.  Fiquei enfezado e quando me preparava para levantar e dar uma lição naqueles homens mal-criados. Mas eles foram mais rápidos e se correram em minha direção. Levantei-me derrubando a mesa, fazendo um obstáculo para meus agressores. Funcionou melhor do que eu esperava. O comunista caiu no chão, em cima de seu ombro e ganiu, desta vez com tom escandaloso. O atendente era mais esperto e conseguiu frear sua corrida antes de se encontrar com a mesa. Cacos de vidro se espalhavam por todo o chão. Lamentei pelo Trotsky não ter se ferido em um deles. O atendente alcançou uma vassoura reclinada ao lado da porta do banheiro e começou a gritar como se fosse um guerreiro mongol conquistando algum reino sofrido asiático. Tomei uma cacetada no braço pois tentei me defender. Como doeu. Mas tive a frieza de pensar que não poderia gritar. Não eu, o homem violento do Cambuci. Cerrei meus dentes exibindo ódio e me joguei contra o pobre diabo. Eu me sentia vivo, meus braços estavam leves, anestesiados pelo ódio. Finalmente aprendi a brigar.
- Por favor, por favor! Não me bata! – o atendente estava caído no chão em posição vexatória.
- Eu vou te currar as orelhas! – não sei de onde tirei essa frase, mas soou bastante agressiva.
- Por favor, leve o que quiser, mas não me espanque! Oh, meu Deus!
- Eu não quero nada desse bar maldito! Apenas jure que nunca mais vai tentar agredir um cliente! – sempre quis fazer alguém jurar em estado de humilhação.
- Eu juro! Eu juro! – o atendente estava de joelhos. Percebi que havia um corte na parte calva de sua cabeça.
- Que Deus tenha misericórdia da sua alma. Ponha-se em pé, seu vadio – eu estava soberbo em meu papel de senhor das ruas.
O atendente levantou-se e prontamente correu para trás do balcão. Olhei para a jukebox e resolvi  procurar por uma boa canção. Procurei no arquivo da máquina por algum disco conhecido. Apenas apareciam álbuns de forró. Malditos nordestinos que estão morando perto do Largo do Cambuci. Todos os porteiros dos prédios e vigias de lojas da região estão bebendo nesses botecos. Comecei a me irritar com a jukebox. Encaixei um bom murro no equipamento e olhei para trás, verificando a situação do bar. O Trotsky estava sentado no chão, sem ânimo para nada. Um farrapo de gente. O atendente permanecia atrás do balcão, manipulando um pote de vidro cheio de ovos cozidos, rosados e em conserva. Um nojo só.
- Não tem música decente nessa jukebox, caralho? – intimei o pobre atendente que escolhia as palavras para me responder.
- A... A... A ma... maioria é forró. Ma... Mas tem coisa bo... boa sim – o homem sofrido gaguejada constrangido. Senti uma leve pena.
- Qual é o seu nome?
- Carlos. Mas me... me chamam de Ca... Carlão – e continuava gaguejando com seu triste sotaque de pernambucano.
- Carlão? Pra mim é Carlinhos – menosprezei seu apelido e apontei para os cigarros expostos numa estante na parede atrás do balcão – Carlinhos, me jogue um maço de Lucky Strikes vermelhos.
Ele rapidamente trouxe até a jukebox, com um cinzeiro limpo. Agradeci o fraco homem com um leve toque em seus ombros. E voltei a procurar um bom álbum na merda da jukebox. Depois de alguns segundos de pura atenção, achei uma preciosidade: Nelson Gonçalves. Meus nervos se acalmaram e escolhi a música “Negue”. Aquele compasso de bolero começou a preencher todos os espaços da espelunca. Dei um sorriso e acendi um cigarro.
- Agora você vai ouvir uma boa cantiga, Carlinhos. Nada de risca-faca nessa porra.
Ele ficou em silêncio, sem reação. Continuou seu trabalho. Trotsky permanecia sentado. Achei aquela cena ridícula.
- Trotsky, levanta daí, seu miserável, ou vou te erguer em meio a pontapés! – meu esporro foi imponente e enérgico.
O deplorável marmanjo levantou-se e procurou uma cadeira. Joguei dois cigarros para ele e o isqueiro. Mandei ele devolver depois.
Nem percebi que a noite já havia chegado. Fui para fora do boteco verificar a avenida. A Lins de Vasconcelos estava cada vez mais movimentada. Pessoas não paravam de passar na calçadas. Carros cada vez mais bonitos passeavam pelo asfalto novo que se prolongava por quilômetros. Voltei ao bar e sentei  numa cadeira, cruzando minhas pernas. Ergui meu rosto e passeei meu olhar por todo o boteco.
- Cavalheiros, isso que é música! – ergui meu copo de cerveja – Carlinhos, pegue uma cerveja para beber. Sou generoso. Sou mau, mas generoso! E não esqueça de servir o Trotsky.
Ele me obedeceu e serviu os copos. Preencheu o que faltava no meu e foi para trás do balcão.
- Só mais uma coisa, Carlinhos. Isso é uma espelunca, mas nada justifica essa baderna toda. Quero esse lugar arrumado! E é pra hoje, seu picareta!
- Sim senhor.
Resolvi que frequentaria aquele bar daquele momento em diante. A jukebox precisava de uns ajustes, mas o preço da cerveja estava decente e o Carlinhos era um pelego frustrado e cabisbaixo. Sobre o Trotsky, bem, darei um jeito de fazê-lo frequentar aquela espelunca. Depois que ele tatuar meu nome no rabo, é claro.
De repente um toque de relógio começou a soar. Cada vez mais alto e irritante, como se fosse uma sirene de bombardeio. Olhei para os lados e Trotsky não estava mais lá. Carlinhos evaporou e o som do relógio era cada vez mais insuportável. Minha cabeça estava por explodir.
- Alguém pare com essa porra! Vou espancar o dono desse relógio! EU VOU MATAR O MALDITO DONO DO RELÓGIO!
Quando percebi, estava em minha cama, tonto e confuso. Levantei em um pulo e corri para o banheiro. Me olhei no espelho e toquei em meu rosto. A barba estava por fazer e meu cabelo estava amarrotado. Voltei para a cama e o relógio ainda tocava. Como um soco, veio a percepção: eu sonhei com tudo aquilo. Dei um murro no relógio e praguejei. Senti uma frustração terrível e abaixei a cabeça. O rosto do Trotsky e do Carlinhos ainda voavam pela minha mente.
- Trotsky, seu comunista safado. Se você existisse, eu acabaria com sua raça! – quando ergui meu rosto, minha cabeça latejou. Ressaca.
Fechei a janela do quarto e acendi um cigarro. Busquei dois comprimidos de Anador e os tomei. Pensei no covarde do Carlinhos e no respeito que conquistei à base da violência gratuita.
- Diabos, ao menos venci uma briga em sonho. 
Deitei na cama e esperei o sono voltar.

Quarta-feira, Julho 28, 2010

Sombras no Paredão

- Sabe aquela concepção de futuro cheio de libertinagem nas ruas? Putas sagradas, estátuas exaltando a sacanagem de alguma forma bem vulgar? – cocei minha testa enquanto procurava conectar meu olhar com o de Alberto.
- Sei sim, aquelas maluquices daquele quadrinho adulto lá, qual é o nome mesmo? Porra, ta na ponta da língua... – ele permanecia imóvel, sentado com um braço apoiado no joelho direito e coluna inclinada para frente.
- Trasmetropolitan? Não é esse?
- Isso, exatamente! Então, acho que nunca vai rolar um futuro assim. As pessoas são moralistas demais, preocupadas demais em esconder suas vergonhas – enfim se livrou da posição incômoda e com um sorriso de satisfação, se aconchegou no encosto do sofá.
- Concordo com você. Malditos cristãos – soltei um peido - E aquele careca? O Spider Jerusalem, porra, é sensacional! Acho que tenho um pouco daquele personagem.
- Todo mundo que é adepto do livre pensamento, tem um pouco daquele cara.
- Insano – troquei o cinzeiro de lugar – aquele cara é extremamente insano.
- Insano foi o dia que procurei informações sobre vender a alma para o diabo.
- Hã? – me arrumei no sofá deixando cair uma chuva de cinzas em meu colo – Porra!
- Graças ao John Constantine. Hellblazer, manja?
- Sei sim. Cacete, eu era o maior fã, mas nunca quis imitar o cara tão profundamente, hahaha.
- É, eu geralmente me entrego demais para personagens que admiro. Aliás, me entregava. Hoje eu sou um rato apegado ao personagem mais idiota que existe, Alberto Mascarenhas.
- Não seja tão duro, man. Você é uma bicha depressiva. Parece até o Alfredo lá do meu trabalho. Vive trazendo à tona sua depressão. Se a gente estiver falando sobra o porra do Papa, ele vai dar um jeito de desviar o assunto até chegar nos traumas dele.
- Sei lá, minha mente ta meio baleada por tanta pressão. O estresse realmente é a doença do século vinte e um. Caralho, eu não consigo mais me concentrar – Alberto bebia uma caneca generosa de café.
- Você devia parar com isso.
- Com isso o que? Cigarro?
- Café. Você toma café demais. Tem cafeína pra caramba, sabia? E aposto vinte mangos como você passa o dia inteiro bebendo café no trabalho – enquanto eu falava, apontava para a caneca dele.
- É, você ganharia a aposta. Colocaram uma maldita máquina de café no meu departamento. E você sabe, né? Escritório de advocacia, todo aquele papo de “peça ao estagiário que me traga café”. E no embalo, eu bebo café também. Altas doses.
- Eu já passei por todo esse processo de estresse, pânico, ansiedade. O Maulin tem muito disso também. Sabe o que é bom? Passiflora em comprimidos. Pelo menos comigo funciona.
- Alguém já comentou comigo, mas eu acabei esquecendo o nome dessa merda. Onde eu acho? – Alberto já estava inclinado novamente, denunciando seu grau de curiosidade e interesse.
- Qualquer farmácia. Mas porra, não é pra se entupir daquela merda – exaltei minha voz em advertência – Você toma dois em dias em que a coisa está preta. Mas você tem que se acalmar, desencanar um pouco da vida, não dar muita importância pras coisas.
- Caralho, mas é muita pressão. Aqueles advogados são um carrapato nas minhas bolas, man, eu to dizendo! – deu um soco no braço do sofá.
- Eu sei, mas se você achar que aquele é o último lugar do mundo, você vai ficar paranóico. Ou você confia em si, ou então você ta liquidado – fiz um sinal de garganta cortada, deixando uma chuva de saliva voar pelo ar.
- Faz sentido. Mas pra você crescer nessa carreira, você precisa de colhão, ambição, malandragem. Você precisa ser um rato pra conquistar clientes, achar brechas na lei, analisar processos. Eu quero ser juiz – me fuzilou com os olhos.
- Você quer enlouquecer, isso sim. Porra, você não sabe que todo homem que tem um cargo alto, de responsabilidade, tem alguma retaguarda para salvar o rabo?
- Do que você ta falando, man?
- Tem algum passatempo, alguma coisa que faz a cabeça desconectar do mundo. Segue alguma religião, pinta quadros, coleciona selos, faz alguma merda que o protege do profissional que existe dentro de si, sabe?
- Sei. Mas eu não sei o que fazer. Eu gosto de música. Eu gosto de rock. O que você faz?
- Eu escrevo ouvindo jazz, eu coleciono vinis e tento não levar o mundo tão a sério. Claro que nem sempre funciona, mas o esquema é morrer tentando.

Eu parecia um maldito guru decaído dando dicas para um amigo. Eu não sabia do que estava falando ao certo. Mas quando você vence uma pequena batalha contra sim mesmo, você se acha o mestre dos mares, o deus das putas, o profeta da canalhice.

- Eu gosto de viajar. Sempre sonhei em sair do Brasil. Conhecer novos horizontes, comer alguma gringa e quem sabe, ser sustentado por ela, morando na Espanha, por exemplo.
- É uma boa linha de raciocínio, man. Tem gente que junta grana o ano inteiro, e depois complementa com a grana das férias. Vai pra algum lugar exótico, faz mochilão na Europa. Porra, já imaginou assistir um show do Nada Surf num festival cheio de loucos europeus?
- Caralho, pode crer! Isso sim é o esquema! Vou passar na livraria e comprar algum guia, acho que vou pra Espanha mesmo – o entusiasmo tomou conta da voz de Alberto.
- É meio embaçado de entrar lá. Os caras estão em crise de desemprego, acham que qualquer estrangeiro vai roubar o emprego dos caras. Eles dificultam de qualquer jeito. Mas sei lá, vá se informar na embaixada da Espanha, sei lá, porra – girei meu cigarro olhando para a janela.
- Você iria pra onde?
- Paris ou Nice ou Lyon. Resumindo: França.
- Aquele lance do Serge Gainsbourg é coisa séria então?
- Porra, man. Quero comer croissants num café francês. Comprar aquelas baguetes e colocar no sovaco e assobiar algum som do Jaques Briel. Fumar cigarros nas margens do rio Sena, xavecar aquelas beldades francesas – eu olhava para o teto com saudosismo em meu semblante, como se já estivesse por lá em alguma época.
- É, você já tem o roteiro pronto, Nelson. Eu iria pra Barcelona ou Madri.
- São belas cidades, com belas garotas – fiz um losango juntando meus dois polegares e indicadores, fazendo alusão a uma vagina.

Eu sou um merda, nunca me senti muito útil, a não ser para a função de companheiro de bebida. Eu confesso que sou um cara legal pra conversar, mas o tempo passa e confesso também que geralmente o conteúdo da minha cabeça não acrescenta nada de aproveitável aos meus amigos. Mas quando ajudo de alguma forma, entre fumaças de cigarros e goles de café, me sinto recompensado. Como se as minhas experiências ruins não tivessem acontecido em vão. Daí se origina o prazer em ajudar o próximo. Alguns sentem um prazer orgástico ao fazer o bem, outros apenas sentem uma sensação diferente, mas prazerosa. O que é meu caso.

Após algumas canecas de café, sentimos a necessidade de uns bons drinques. Fomos até o mercado e compramos uma garrafa de vodka e uma garrafa de suco de laranja. Fizemos alguns Hi-fis e enchemos a cara. Os assuntos estavam cada vez mais dinâmicos. Alberto quando bebia falava rapidamente sobre diversos assuntos. A discussão sobre o sentido da vida para ele não poderia tomar mais que dois minutos. A morte do Elvis era papo para trinta segundos. Ele ficava extremamente elétrico, como se cheirasse uma carreira de pó do tamanho de um cabo de vassoura.

Colocamos um som pra rolar, e pedimos uma pizza. Bebíamos sem pausa e comíamos como refugiados de guerra. Foi uma boa noite, mesmo sabendo-se que o dia seguinte era apenas quarta-feira. Ressaca no trabalho era uma questão de estado. Talvez fosse a grande epidemia corporativa, claro, depois do assédio sexual, afinal, nenhum chefe gostava de acalmar sua cobra mesmo em ambiente de trabalho.

- Cara, tem uma secretária lá no meu trabalho. A vadia é escancaradamente uma puta de escritório! – Alberto não gostava muito de sacanagem em ambiente de trabalho, desde quando descobriu que sua ex-namorada fazia hora extra num motel.
- Eu já saquei muito dessas galinhas do caralho – eu apontei o dedo como se houvesse flagrado alguma cena secreta, com um sorriso carniceiro exposto.
- O foda não é trepar com um colega de trabalho. Elas têm o direito, porra, mas deixar uma rola crescer dentro dela só pra crescer dentro da empresa? Isso eu acho feio. É mais digno virar puta, ao menos você não esconde de ninguém que tem competência apenas pra dar o rabo... – deu um curto gole em sua bebida e girou os olhos.
- É, gosto das putas e dos travestis porque eles fazem o que fazem e querem mais é que a opinião do mundo se foda. Se gostam ou não, pelo menos têm colhões pra fazer.
- Putas com colhões, mais conhecidas como travestis – Alberto começou a rir – Entendeu?
- Hahaha, boa piada! – coisas da vida.
- Você tem uma amiga travesti, não tem? – não sei de onde ele tirou essa informação, talvez eu num momento em que eu estava bêbado.
- É, a Magda. Moça legal. Bem bonita, engana bem. Com travesti é assim. Não existe traveco bonito ou feio, existe traveco parecido ou não com mulher. Esse é o grau de beleza deles. Se eles enganam um cara, então isso é uma satisfação pessoal. Eles querem virar mulher, e só não cortam a rola porque não deixa de ser o órgão de prazer deles – matei meu drinque e me levantei para preparar outro – quer mais um copo?
- Sim, mas agora sem o suco. Coloque só um gelo – Alberto esticou o braço e se espreguiçou.

Fui até a cozinha e fiz os dois drinques. Peguei a caixa da pizza que contava com três pedaços remanescentes e levei pra sala junto aos copos. Me apoderei de um pedaço e dei uma boa mordida. Um peperoni caiu no chão.

- Nessas horas um cachorro seria útil. É só chamar o bicho e ele vem limpar o chão – disse enquanto pegava o peperoni e o desprezava na caixa de pizza junto aos caroços de azeitona preta.
- Caralho, mas você já comeu essa sua amiga travesti? – Alberto era insistente em prosseguir com o assunto. Geralmente - como disse há pouco - os assuntos duravam trinta segundos. Mas esse prometia ser longo e revelador.
- Já sim. Conheci a Magda em uma balada. A velha história: tudo escuro, mulher bem gostosa e bonita. Enchia minha mão em sua bunda e a beijava com paixão. Eu me achava o cara mais sortudo de todos com aquele mulherão em meus braços. Mas antes do clima ficar pornográfico demais, com todas as passadas de mão e beijos acalorados, tivemos uma conversa tão inteligente, fiquei impressionado com a inteligência dela.
- E a voz, porra? Não deu pra perceber? – Alberto alcançou o maço de cigarros e acendeu um.
- Cacete, não deu pra perceber! Ela disse que foi muito hormônio feminino. Ela já tinha voz fina quando era homem.
- Caralho – ao dizer isso, assoprou fumaça na minha cara.
- Se assoprar fumaça na minha cara de novo, te encho de porrada, man... – o ameacei com o punho cerrado – Então, eu a levei aqui pro apê e sem pensar muito, tiramos as roupas em meio aos beijos. Parecia uma cena de filme mesmo – eu já estava gesticulando mais que um italiano epilético.
- E a rola dele? Vai dizer que sumiu com os hormônios também?
- Vai se foder, Alberto. Quando fui dar uma dedada na boceta da moça, senti que o clitóris dela era muito grande! Hahaha – Alberto não riu comigo. Me recompus desajeitado e continuei – O foda de tudo isso é que ela era gente boa. A conversa foi legal, dei muita risada com as coisas que ela falava.
- E você fez o que? Chupou o pau dele? – continuava a se referir à Magda como ‘ele’.
- Não, man! Eu levei um susto. Ela saiu da cama só com a blusinha e o pau duro feito uma espada. Ela disse que podia explicar e quando disse isso, puxou um canivete de sua bolsa e disse “se afaste de mim, vou pegar minhas coisas e dar o fora, mas não venha me bater!”.
- Porra, ele estava esperto! – Alberto se divertia com a história e parecia não ser deboche.
- Estava bem esperta. Quando a vi ali em alerta, acuada, querendo se defender, parei pra pensar na vida desses travestis que querem somente se divertir. Eu disse a ela para guardar o canivete pois eu não iria tentar nada com ela. Me jogou um olhar de desconfiança e enquanto a cena se desenvolvia, o pau dela já tinha amolecido.
- MAS O QUE ACONTECEU AFINAL? – já estava impaciente com minha enrolação.
- Eu a comi. Mas juro pela alma do Serge Gainsbourg que não dei meu rabo.
- Caralho velho, que nojo! – fez uma cara de desgosto e amassou o filtro do cigarro no cinzeiro.
- Nojo? Ela não é homem, porra. O cu dela era uma delícia, os peitos firmes e grandes. Ela tinha um bundão imenso!
- Mas tem uma rola imensa lá na frente! – e fez como se pegasse seu pau e o masturbasse.
- O que ela me disse na manhã é que ela estava realizada. Finalmente foi a uma balada, ficou com um cara, transou com ele e apenas deu o cu. Não precisou comer o cara. Se sentiu uma mulher por não ter sido ativa, apenas passiva – acendi um cigarro e jorrei a fumaça na direção de Alberto -
- Faz sentido. E ela quis te namorar?
- Não, porra. Ela virou uma amiga muito próxima. Às vezes a gente bebe lá pelos lados de São Judas. Ela tem um ponto na avenida Indianópolis. Sempre bebemos antes do expediente dela. Ela faz faculdade, mas agora que entrou de férias, foi para a Itália gravar uns filmes pornôs. Ela tem grana pra cacete, essa vida de prostituição dá grana, man.
- É, vamos brindar às putas e aos travestis! – ergueu seu copo cheio de vodka pura e o bateu contra o meu.
- É, às putas e aos travestis! À Magda que ta dando o rabo na Itália e enchendo o mesmo rabo de dinheiro!
- Acho que vou virar michê. Comer mulheres velhas, levar chupada no pau e ganhar grana por isso – Alberto tinha altas doses de satisfação em seu rosto e com os olhos fechados, se reclinou no encosto do sofá, como se estivesse sonhando.
- É, mas vai ter que comer o cu de velhos de sessenta anos. E de vez em quando, dar o rabo pra eles também! Hahaha!
- Porra, que nojo. Deixa eu sonhar com o meu estilo de prostituição... – e fechou os olhos novamente.

O meu segredo com Magda foi secreto até eu beber gim e quase vomitar meu fígado. Eu estava rodeado de amigos e amigos de amigos. Falavam de sacanagem e eu completamente agraciado pelo álcool que corria em minhas veias, metralhei as sombras que escondiam esse detalhe de minha vida sexual.

A noite começava a esfriar e as ruas já não emanavam sua energia. As pessoas de bem se abrigavam em suas casas, prontas para mais um dia árduo de trabalho. “Deus ajuda quem cedo madruga”. Então estou fodido. Menos um pra me ajudar nessa vida. Ainda eu estava por cima: tinha um punhado de amigos, os cigarros e as bebidas. O futuro não me parecia brilhante, mas sabia que o sol queimaria minha cabeça no outro dia, sua luz espancaria minha vista, ajudando a ressaca a rasgar minha alma.

Anjinhos Violados

- Agora me passe logo o nori, Nelson – Samuel solicitou sem olhar para mim, apenas com a mão estendida.
- Que porra é nori? – eu passeava meu olhar por todas as tranqueiras japonesas na mesa de minha cozinha mas não fazia idéia do que era um nori.
- Puta merda, você nunca comeu comida japonesa?
- Já sim, mas eu gosto de comer, não fiz um curso.
- Todo mundo deveria fazer um curso de culinária japonesa – Samuel arqueava a sobrancelha olhando para mim, como se me revelasse a solução de um mistério da humanidade.
- Você é um filho de uma puta exagerado. Um maluco, pra ser exato.
- Nori é a alga, essa folha escura e crocante aí – ignorando minhas constatações sobre ele, apontou para um pacote cheio de folhas negras – sem isso, não existe maki sushi.
- Maki sushi? Porra, pare de falar como se eu manjasse alguma merda da culinária japonesa!
- Maki sushi é todo sushi envolvido por nori, a folha de alga. Entendeu?
- É, entendi. Mas já vi sushis sem essa alga, com gergelim por fora, manja?
- Manjo. E esses sushis têm alga sim, só que ficam dentro.
- Eu nunca vou entender esse papo de sushi. Como é que se faz a alga ficar por dentro? – meu cérebro foi dobrado e redobrado após tentar imaginar como se fazia aquilo.
- Bem, o segredo é o filme de PVC, sabe? Filme plástico – Samuel cortava uma pequena peça de salmão fresco enquanto respondia minhas perguntas com semblante soberbo.

Samuel é um velho amigo, que eu costumava ver ocasionalmente, mais ou menos de seis em seis meses. Mas era um cara engraçado demais para ser ignorado. Eu gostaria de vê-lo mais vezes, mas ele sempre estava fazendo algo diferente, e sempre quando ele aprendia algo novo, fazia questão de se exibir. Um defeito fodido nele é que gostava de cultivar a soberba que citei há pouco, como se todos fossem fracassados por não saber o que ele acabara de aprender.

Resolvi promover uma pequena reunião de amigos, com mulheres incluídas. A minha intenção basicamente era chamar uns amigos pra conversar, beber e cantarolas velhas canções. Samuel queria mesmo se exibir para todos, mostrando que sabia fazer comida japonesa. Eu admiro muito quem entende os mistérios daquela culinária, mas tava pouco me fodendo se iria comer sushi ou torresmo.

Eu terminava de lavar as louças enquanto comentava sobre algumas mulheres que andei comendo. Samuel me interrompeu.

- Caralho, não deixe cair essas gotas em cima do nori! – Samuel se exaltava erguendo sua faca.
- Então tire o nori da pia, porra! Pra ser um bom sushiman, você precisa ser organizado! – respondi à exaltação com uma boa lição de moral.
- E o que você sabe sobre tudo isso? – Samuel me olhou de lado com desconfiança.
- Eu não sei de porra nenhuma, mas isso é óbvio, sua mula! – peguei uma cerveja na velha geladeira – E é bom você acalmar seus ânimos, porque eu não sou suas nêgas pra você gritar desse jeito! – abri a lata e esperei a reação dele.
- Vai tomar no seu cu – me mandou um insulto soturno e evasivo.

Samuel continuou a trabalhar em seus sushis e sashimis e eu escapei para a sala. Liguei a televisão e sentei no sofá, bebericando aos poucos minha cerveja. Eu ouvia os palavrões que Samuel desferia na cozinha e tudo o que eu podia fazer era dar risadas da desgraça dele.

Meu celular tocou. Levantei com certa relutância, deixando a maldita lata em minha mão espirrar um pouco de cerveja no chão.

- Porra de cerveja... Alô? – atendi o telefone sem muita cerimônia.
- Nelson? É o Alfredo, tudo bem?

Alfredo é meu colega de trabalho que acabou se transformando em um grande amigo de bebedeira. Bebemos sempre às sextas-feiras após o expediente e de vez em quando, ele acaba dormindo no sofá da minha sala, sempre bêbado, falando uma mistura de russo com japonês. É um boa-praça, embora tenha um toque de melancolia e traços de depressão. Mas por incrível que pareça, ele não é um cara misterioso. Ele sempre me falou de sua vida, dos tempos de fome, de seu irmão Carlinhos que havia morrido jovem. Sua vida sentimental conturbada, enfim, era um cara com problemas comuns. Tinha seus momentos de cafajeste como todo homem. E claro, não poderia falar do Alfredo sem citar sua devoção por Bob Dylan. O cara tem todos os álbuns em vinil, DVDs, fitas cassete e ainda manda muito bem no violão quando o assunto é tocar aquele folk do velho Dylan.

- Fala Alfredo! Cara, to tossindo feito um carneiro alucinado, mas fora isso, está tudo bem. E por aí, como estão as coisas?
- Ah, tudo tranquilo por aqui. Tranquilo até demais. E aê? Vai rolar aquele jantar aí na sua casa? – a voz dele era despretensiosa e mansa.
- Sim, o Samuel, um amigo meu, ta preparando todos os sushis, sashimis, tempurás e o caralho a quatro. Eu desisti de ajudar aquele rato. Mas acho que vai dar certo.
- CLARO QUE VAI DAR CERTO, NELSON! EU OUVI, HEIN?! – Samuel se intrometeu na conversa, gritando enquanto enrolava a esteira e formava seus belos sushis.
- Calado, Samuel, seu viado! – ergui minha lata em protesto e deixei mais cerveja cair no chão – Então Alfredo, apareça sim!
- Cara, eu vou levar a Mari, aquela amiga que vivo falando sobre. Tudo bem? – a voz de Alfredo ficou abafada, como se estivesse contando um segredo.
- Sem problemas! Quanto mais mulher, melhor! – dei uma curta risada, encerrando a conversa – Você sabe o endereço, não?
- Sei sim, você me mandou por e-mail. Então, até mais tarde.
- Inté.

Joguei o celular no sofá e fui averiguar o trabalho do Samuel, que estava silencioso demais. A bandeja já tinha alguns sushis enrolados e enfileirados. Finalmente acreditei que Samuel havia se tornado um sushiman. Eram feitos de pepino, kani e salmão. Não sou o maior fã da comida oriental, mas meus olhos brilharam, afinal, é um luxo grandioso ter alguém fazendo aquelas iguaria em sua casa.

Voltei para a sala e desliguei a televisão. Uma mulher havia matado seu filho de dois anos. Até aí não é novidade. O problema é que a louca o esquartejou e o jogou num saco de lixo junto com uma chupeta, cascas de batata, uma caixa de leite e cascas de ovos. A filha da puta desalmada foi presa hoje e todas as emissoras estão exibindo cenas, análises e teorias jurídicas. Eu odeio sensacionalismo. Concordo que esses casos devem ser denunciados e expostos, mas porra, só porque o Brasil está cheio de velhas ávidas por justiça e têm como deus o Luís Datena, não significa que precisam alugar toda a população com a exposição exaustiva desses crimes. Ninguém dá a mínima bola para os crimes que acontecem em São Luís do Caralho a Quatro, nos confins do Brasil. Pau no cu desses diretores de televisão.

Liguei o computador e o conectei ao aparelho de som. A tarde começava a se despedir, com seus pássaros voando por todos os cantos, voltando para seus abrigos, para suas crias. O Sol já não era mais o senhor absoluto dos céus e a Lua, donzela fodida e pálida, se preparava para dançar seu espetáculo pornô noturno. Fiquei vasculhando as músicas que tinha em meu iTunes e resolvi voltar para as minhas origens. Cliquei em ‘Procession’ do Queen. É a primeira faixa do álbum ‘Queen II’, segundo álbum da banda. Para quem conhece Queen, esse é o melhor álbum de todos, mas pra quem só manja das mais conhecidas, esse álbum é um grande mistério. Ele contém um som totalmente diferente daquele que a banda apresentou no final dos anos setenta em diante. A primeira música do álbum é apenas instrumental, mas os acordes da guitarra de Brian May são tão detectáveis que, pra reconhecer o Queen, você apenas precisa ouvir a guitarra. Mas a faixa seguinte, ‘Father to Son’ é linda, imponente e tem uma letra maravilhosa sobre conselhos de um pai para seu filho. O Queen é a banda da minha vida, eu aprendi a gostar de rock ouvindo o álbum ‘A Night at the Opera’, o mais famoso deles. Toda a musicalidade deles sempre me atraiu e nunca consegui enjoar deles. Eles tocam praticamente de tudo, até flamenco espanhol misturado ao rock. E pra se ter uma ideia, eu comecei a gostar deles antes do Serge Gainsbourg. São geniais.

Um solo monstruoso e perfeitamente longo de guitarra se desenhou na atmosfera de minha sala e Samuel gritou impressionado.

- Caralho, Nelson, que banda é essa? – eu podia ouvir o barulho da faca tocando levemente a tábua de cortes.
- É o Queen! – respondi entusiasmado.
- Nem fodendo! – Samuel se denunciava um ignorante sobre a banda.
- É o segundo álbum deles. Ninguém reconhece! E isso é só o começo! – eu gesticulava freneticamente, enquanto me direcionava até a cozinha.
- Caralho, então aumenta essa porra que eu quero ouvir! – ele permanecia concentrado no corte do salmão.

Numa rápida olhada, constatei que a bandeja estava cheia de sushis. Samuel pediu para que eu abrisse uma lata de cerveja para ele. Deixei a lata ao lado da tábua de cortes e fui mexer na internet. Maulin estava conectado e me chamou. Ele disse que aceitava o convite mas também avisou que Agnes não iria. Ainda estava puta da vida com o episódio da minha ejaculação em seu ouvido. Ele me disse que ela passou metade de um dia para lavar a porra que grudou em seu cabelo. Mas os dois não sabiam que eu tinha três verrugas no pau e que iria tirá-las na próxima semana, numa cirurgia marcada. Totalmente constrangedor. Agnes é uma porca impura e fazia bem em não aparecer no meu apartamento. Resolvi revelar esse meu segredo a Maulin. Ele riu muito e me ligou.

- Caralho, isso é sério? – Maulin ainda demonstrava rastros de risadas em sua voz.
- É, porra. Três malditas verrugas. E a piranha ainda fica nervosa! É bom a vadia nem sonhar em aparecer por aqui. Com certeza pediria pro Samuel fazer sashimi das tetas daquela vaca!
- PEÇA PRA OUTRO FAZER ISSO, NELSON! – Samuel se intrometia novamente em minha conversa.
- Pau no meio do seu cu, Samuel! – retruquei dando um murro na parede que separa a sala da cozinha.

Samuel apenas deu algumas risadas, repetindo a palavra VERRUGA por várias vezes. Eu me esforcei para ignorar a provocação e voltei à conversa com Maulin.

- Então, quando você vem?
- Estou meio travado no trabalho, cara. Meus cabelos estão caindo aos blocos! Apareço aí umas oito, ok? – o deboche havia saído da voz de Maulin e um leve desespero tomava conta de seu relato.
- Tudo bem. O Samuel está fazendo comida pra um batalhão de samurais. Te espero. Inté.
- Inté, man.

O Queen tocava com toda emoção e eu terminava mais uma lata de cerveja. Tive um estalo e liguei para o Maulin. Pedi para ele trazer uma caixa de cerveja. Sempre esqueço esses detalhes. Fui até a cozinha afim de pegar outra lata. Resolvi ficar na cozinha e acompanhar o Samuel. Ele começou a fazer outro tipo de sushi.

- Qual é o nome desse prato? – perguntei enquanto abria a lata.
- Niguiri. Niguiri sushi. Esse é o mais antigo. São filés de peixes por cima de um bolinho de arroz. Mas você pode por camarão, polvo, até omelete japonês. Mas com omelete eu acho sem graça.
- Também não sou muito fã. O que diferencia um omelete normal do japonês? – dei uma boa golada na cerveja.
- O tamagô yaki, como chamam o omelete japonês, é mais adocicado. E geralmente é quadrado. Você tem que fazê-lo, preferencialmente numa frigideira quadrada, fazendo mais ou menos quatro camadas dele – sua cara de soberba permanecia enquanto me ensinava.
- Ah sim. Entendi. Eu gosto mais desses niguiris que o... Como se chamam esses enrolados mesmo?
- Uramakis – sua fisionomia chegou ao máximo da expressão esnobe.
- Então, prefiro os niguiris. Você trouxe o saquê? – perguntei enquanto procurava pela garrafa da bebida japonesa.
- Sim, está naquela sacola que deixei na sala. Sabe como descobriram o niguiri?
- Como assim descobriram? Não inventaram? – minha cara era o resumo da confusão.
- Não, Nelson – soltou uma risada dispersa típica da velha e nojenta aristocracia inglesa – eles descobriram. Quando os japoneses iam pescar, ficavam longos períodos no mar. Para que os peixes não apodrecessem, eles intercalavam camadas de arroz cozido entre os peixes. A fermentação do arroz preservava os peixes. Aí um japonês, sabe Deus o motivo, comeu o peixe com o arroz. Acharam um sucesso e desenvolveram aos poucos essa iguaria.
- Caralho. Nada é por acaso, Samuel – apontei para ele balançando o dedo indicador, como se quisesse chamar sua atenção - Muitas coisas aconteceram assim. A vida tem disso.
- Me cite outro exemplo então – o corno me olhou com olhar desafiador.
- Vai se foder, não me lembro de um caso, mas tenho certeza desses fatos.
- Sei – e Samuel ficou em silêncio cortando espessas fatias de salmão.

‘The March of the Black Queen’ é minha canção preferida daquele álbum do Queen e ela estava por todo ar quando voltei para a sala. Parei para refletir sobre os arranjos musicais e o telefone tocou novamente. O número no identificador de chamadas era privado.

- Alô? Quem é?
- Oi Nelson, é a Marcela. Tudo bem, querido?

Marcela. Marcela Piacenza, a italianinha mais gostosa que conheci. Mulher independente, inteligente como o demônio, atrevida, provocadora e solteira por opção. Longos cabelos ruivos e ondulados, olhos grandes e redondos, dentes brancos e pequenos, um sorriso maldito de tão encantador. O rosto levemente corado, seios fartos e duros, sua bunda de uma firmeza rara e o formato arredondado era um capricho sádico e cruel dos deuses. O modo de conversar era hipnótico e seus gestos entusiasmados teimavam em exibir uma classe natural de uma deusa desenhada por Michelangelo.

- Marcela! Como está? Tudo certo, meu bem? – eu gesticulava como Marcello Mastroiani, aquele puto.
- Sim, querido. Quer dizer que vai ter comida japonesa aí? Eu adoro comida japonesa! – sua voz me entorpeceu. Fiquei de pau duro.
- Vai sim! Quem te contou? – eu não lembrava de ter enviado convite algum à Marcela.
- O Fernando me ligou e acabou comentando. Fiquei com vontade e resolvi te ligar. Posso ir então? – filha de uma puta sedutora.
- Claro, Marcela! Minha casa é sua casa! Vem logo! – não escondi minha empolgação.
- Calma, meu bem! Tô chegando em casa. Vou me arrumar e já saio, ta certo?
- Tudo bem! Qualquer coisa, me liga!
- Tá certo, Nelson. Beijo!
- Beijo! – meu pau latejava.

Joguei novamente o celular no sofá e corri para o banheiro. Não, não fui bater uma punheta. Fui apenas mijar, mas o pau duro atrapalhava a execução do serviço. Sentei na privada e mijei abaixando meu membro o máximo que podia. Sim, era uma cena ridícula, mas era necessária. Enquanto eu me sentia ridículo sentando na privada para mijar, a campainha tocou – meu prédio não tem porteiro e basta apertar um botão no interfone para que a porta lá embaixo seja aberta. O engraçado é que não ouvi nenhum alerta do interfone. Toquei a descarga e me dirigi até a sala. A porta já estava aberta e Fernando conversava com Samuel.

- Fala Fernando! Dá um abraço aqui! – cheguei na cozinha como uma avó acolhedora.
- Nelson, seu rato maldito! – Fernando me abraçou forte, e falou algumas coisas perto de mim o que me fez constatar, pelo seu hálito, que já havia bebido alguma coisa.
- Trouxe algo pra gente beber? – perguntei olhando ao redor, tentando localizar algo de novo no cenário de minha cozinha.
- Sim, o uísque está no sofá. Trouxe um Passport e um Jack Daniels. E o Alberto? Vai aparecer?
- Não. Ele viajou para o interior, esqueci o nome da porra da cidade, mas é bem pequena mesmo. Ele ta de licença no trabalho, lembra?
- Lembro sim, estresse no trabalho, eu lembro – Fernando coçou sua sobrancelha direita.
- Então, já faz uns três dias. Vou ligar depois no celular dele pra saber como é que estão as coisas por lá.
- Cara, sabe o Aristeu? – ele se referia ao seu companheiro crente de apartamento.
- Hã... – fiz uma cara de insatisfação e tédio – O que tem ele?
- Depois que acordou da porrada que dei na boca dele, ele disse que me perdoava. Pediu a Deus que não “imputasse culpa a nós” – Fernando fez o gesto de aspas com os dedos –, fez aquela cara de mártir que está pra morrer e disse que gostou de sua calma na argumentação.
- Da minha calma? Ele gostou? Mas eu desarmei o vagabundo com meus argumentos! Ele só pode ser louco, meu Deus do céu!
- Bem, – Fernando deixava escapar risadas de deboche – ele disse que você é bem vindo por lá.
- Agora é que não volto mais lá! – fui pegar duas latas de cerveja.

Meu telefone tocou. Alfredo estava perto de minha casa, mas não achava a rua. Porra, o Cambuci não tem uma teia de ruas complicada. Ele era meio lento para as coisas. Passei as instruções mais detalhadas possíveis e para ajudar, fiquei de encontrá-los na esquina. Avisei ao Samuel que iria encontrá-los na esquina e perguntei se havia algo faltando. ‘Cerveja’, Samuel respondeu. Fui conferir a geladeira e realmente faltava. Convoquei Fernando para a missão na rua e resolvemos que iríamos aguardar o Alfredo e a Mariana e depois compraríamos o necessário. Para um fumante, o bom da espera é poder sacar um cigarro, acendê-lo e esquecer as noções de tempo por alguns minutos. E foi isso que fizemos. Por uns sete minutos, eu acho, aguardamos o casal chegar. Eu já havia terminado meu cigarro e Fernando, que fumava cigarros de filtros vermelhos, demorava mais para finalizar. E quando ele estava pronto para a última tragada, os dois apareceram, Alfredo com cara de alívio e Mariana irritada.

- Caralho, toda vez que fui parar na sua casa, eu estava bêbado! – Alfredo nos saudou com uma boa desculpa para sua falta de senso de localização.
- Pois é, eu mesmo não lembro de alguma vez você ter entrado na minha casa em são consciência – me aproximei armando um abraço de recepção.
- Bem, precisamos comprar as cervejas, Nelson. Onde a gente pode comprar? É longe? Acho que vou voltar pro seu apê – Fernando denunciava uma certa agonia em suas perguntas.
- Deus do céu, que porra de desespero é esse? – perguntei apontando para a direção do mercado.
- Só estou cansado, só isso.
- Eu também, - Mariana finalmente resolveu falar alguma coisa – posso ir com o Fernando?
- Por mim, quero mais é que se foda – respondeu Alfredo autorizando a saída de sua amiga.
- Pois bem, chegando lá, é só tocar o interfone e o Samuel abre a porta pra vocês.

Sem despedida alguma, cada metade do grupo virou para um lado oposto e seguiu seu caminho. Acendi um cigarro, mesmo sabendo que o caminho até o mercado era curto.

- Que Samuel é esse? – Alfredo cerrou um cigarro meu e me olhou com cara de amnésia enquanto acendia o isqueiro.
- Um amigo das antigas. Aprendeu como fazer comida japonesa e veio se exibir pro pessoal. Você sabe, quase todo mundo gosta de comida japonesa. E quem gosta, venera quem sabe fazer. E o Samuel adora holofotes virados para ele, sabe?
- Sei. Grande merda. Se eu pedir uma pizza, será que ele vai se ofender? – Alfredo me lançava um olhar provocador.
- Por quê? Você não gosta de comida japa?
- Sim, eu gosto. Mas o cara não pode entrar na casa dos outros se achando o rei da cocada preta, quer dizer, do sushi preto.
- Ah, não, Alfredo. O cara comprou todos os ingredientes e ta entusiasmado com a nova habilidade. Deixa ele se divertir, porra.
- Você ta muito bonzinho nos últimos tempos, cara – Alfredo circulava seu cigarro em gestos excessivos - O que ta pegando?
- Sei lá, mano. Talvez o fato de a Bárbara ter saído da minha vida. Ah, você sabe o que quero dizer... – achei que ele entenderia minha colocação.
- Não, não sei. O que tem a Bárbara?
- Eu vivia gastando minha grana com ela. Meu apê estava feminino, feminino até demais. Agora eu vejo algumas possibilidades de aventuras rápidas. Alguma viagem de feriado pra comer alguma amiga por aí. É a tal liberdade, Alfredo.

Pausamos a conversa para jogar os cigarros fora e adentrar o mercado. Estava um pouco cheio, com apenas um caixa atendendo. Eu odiava isso.

- Cacete, liberdade é uma coisa tão normal. Acho que as pessoas não deviam idolatrar tanto a liberdade. Quando valorizamos algo, começamos a proteger esse algo excessivamente – Alfredo pegou uma caixa de cerveja - Por isso que tem tanta gente neurótica, reclamando com os outros, gritando por todos os lados “não tire minha liberdade!” ou “estamos num país livre” e essas merdas. Eu quero mais é que se foda, Nelson.
- Você diz isso porque nunca namorou, nunca manteve relacionamento algum. Aliás, você ta comendo a Mariana?
- Não Nelson, não mesmo! Ela só chupou meu pau uma vez, mas a gente estava cheio de haxixe na cabeça, ouvindo Nelson Rodrigues. Eu estava naquele momento de depressão, pensando na infância, e as músicas do Nelson Rodrigues fodem minha mente. Aí a gente já tinha fumado tudo que podia aguentar e a Mari aproveitou e veio serpenteando no colchão, abrindo minha calça e mandando ver.

Alfredo em um raro momento de bom-humor, fez um gesto indicando um boquete rápido, fazendo movimentos de vai-e-vem com a mão fechada, como se enfiasse uma pica na própria boca e ao mesmo tempo, simulava o preenchimento da boca com a língua forçando sua bochecha, dando a impressão de que realmente havia uma rola dentro. Dei um tapa na mão dele, ao avistar uma senhora que se aproximava de nós à espera no caixa. Pedi que a senhora passasse à nossa frente. A velha mulher nos agradeceu e foi lentamente nos ultrapassando.

Mudamos de assunto na volta para casa e não nos atrevemos a acender cigarros. Chegamos ao meu apê e segui direto para a cozinha para repor a geladeira com as novas latas. Molhei algumas latas e coloquei-as no congelador, sempre gelam mais rápido dessa forma, velho macete. Dentro da geladeira, já havia duas bandejas repletas de sushis e sashimis caprichosamente cortados e dispostos.

- Cadê aquelas decorações, Samuel? – me referia aos fios de nabo, às flores de gengibre e aqueles sushis ornamentais que formavam estrelas.
- Aprendi a fazer sushis e não a decorar bandejas – Samuel e a velha arrogância que lhe era peculiar.

Mandei ele tomar no cu e fui até a sala. Eu estava esperando o Samuel ficar bêbado. Ele ficava muito engraçado com seu lado extremamente nervoso, criticando tudo e todos. Era um verdadeiro espetáculo envolto em nervos. Mas enquanto estava sóbrio, era um poço sem fundo de presunção. Dessa forma, abri a garrafa de uísque, o Passport, e servi diversas doses. Levei uma para o Samuel, dando início ao meu ímpeto de embebedá-lo. Na sala começamos a conversar a todo vapor. Mariana que na rua estava fechada a qualquer conversa, já começava a se soltar. Deus salve o álcool e o bem social que ele proporciona. Alfredo sacou uma pequena bola de maconha e começou a dichavar a erva prensada. Mariana foi até sua bolsa e pegou duas folhas de seda, especiais para fumar maconha. Os dois começaram a minúcia que o preparo de um bom baseado exige. O silêncio que a concentração deles impôs ao ambiente começou a me torturar. Fui até o computador e digitei Radiohead. Cliquei na execução aleatória no iTunes e deixei o som rolar. Comecei com ‘Lucky’, que é bem mais serena e não deixaria todo aquele silêncio entrar de uma vez em colapso. A voz de Thom Yorke sempre me despertou ótimas sensações, seja quando estava em pura euforia ou quando se arrastava em versos funestos.

- É pra hoje essa porra? – Fernando esfregava as palmas das mãos, se acusando em pura ansiedade.
- Caralho de junkie desgraçado, que se foda... – Alfredo balbuciava enquanto preparava a língua para selar o cigarrinho.

Começamos a fumar, os dois baseados de uma vez. Assim a alternância das tragadas era bem menor e mais veloz. Dessa forma começamos a conversar, nada de papo-cabeça, apenas coisas triviais, comentários sobre alguns casos de alta repercussão na televisão e claro, um pouco de futebol. Por incrível que pareça, não foi registrado conflito algum e o silêncio voltou. O Radiohead estava na caixa de som entoando a bela ‘Fake Plastic Tree’ e todos nós parecíamos críticos de música, apreciando cada acorde, olhando para o teto. Samuel ensaiou um descanso, mas ao vislumbrar todos com cara de recém-acordados, voltou para a cozinha, para sua faca e esteira.

- A gente podia bolar um baseadão na esteirinha de sushi do Samuel, hein? – eu propus começando uma boa gargalhada.
- SUDARÊ! SE CHAMA SUDARÊ! – Samuel vociferou com ímpeto, como se estivesse defendendo a honra de sua mãe.
- Do que você está falando, Samuel? É esse o nome para baseado no Japão? – Fernando testou o ‘bom’ temperamento do amigo cozinheiro.
- Sudarê é o nome da esteira pra fazer sushi, Fernando!
- Quero mais é que se foda – Alfredo sempre desejando que as coisas se fodessem.

‘Paranoid Android’ é uma das músicas mais incríveis que conheço e foi ela quem começou a tocar. Sempre primei por arranjos nada convencionais. O Alberto que havia me apresentado esse som em 1999, dois anos após ter sido lançado. Ele indicava cada detalhe, desde as notas de violão perfeitamente executadas até a voz aguda e preguiçosa do Thom Yorke. A letra totalmente desconexa me atraiu de primeira. Me apaixonei pela intensidade da canção que era totalmente instável, variando com trechos violentos onde pratos de bateria explodiam e trechos que nos remetiam a uma consagração religiosa, quando ele cantava “rain down, come on, rain down on me”. E comecei a passar, para todos na sala que estavam anestesiados pela erva do capeta, toda minha opinião sobre a canção, apontando para cima, pedindo para prestarem atenção em uma parte específica aqui, outra parte acolá. Todos entraram na minha viagem e o silêncio voltou, exceto quando alguém deixava escapar um empolgado “pode crer” ou um perplexo “caralho, que foda”. Quando Yorke cantou “God loves his children”, senti que as guitarras entrariam em colisão e o pau iria comer, levantei trôpego e fiz um air guitar, simulando cada toque de corda em minha guitarra imaginária. Todos riram quando caí sobre o sofá e ergui meu dedo indicador e o mínimo, saudando o deus do rock. Palmas rolaram e eu me ergui buscando meu uísque.

- Porra! Preciso de um trago! – vi que meu copo estava vazio – Alguém quer mais?

Alguns se manifestaram e fui servindo várias doses. Dei uma boa talagada em meu copo e fui até o Samuel que comia um cone feito de nori, cheio de arroz e pelo que vi, cheio de salmão fatiado.

- E qual é o nome desse prato? Cone japonês? Rolinho Inverno? – meu copo viajava suavemente junto à minha mão.
- Temaki é o nome. Nunca viu uma temakeria por aí? Tem um monte delas pela cidade - e deu uma mordida lenta em seu temaki.
- Nunca vi. Mas acho que alguém já falou de temaki para mim – minha voz era lenta e esparramada.
- Uma ova que você nunca comeu um temaki, Nelson.
- Nunca comi! Juro pra você! Faz um pra mim – meus dedos amolecidos apontavam para lugar nenhum.
- Vou fazer um pequeno pra você provar – finalmente Samuel agia positivamente ante alguma proposta minha.

Sentei numa cadeira que havia em minha cozinha e fiquei dando pequenas bicadas em meu drinque. Ele pegou uma folha inteira de alga e a dividiu em quatro. Pegou uma parte e a colocou suavemente na palma de sua mão esquerda. Colocou uma porção de arroz na direção diagonal. Na direção diagonal oposta, despejou outra porção, agora de salmão fatiado, com cebolinha e alguma coisa estranha. Jogou gergelim e levou a extremidade esquerda de baixo até a parte acima, na direita. Com jeito enrolou lentamente, formando um cone um pouco desajeitado. Selou a alga com uma passada rápida de água e me entregou o temaki. Mordi a iguaria instantaneamente.

- Que maravilha, Samuel! Que maravilha! A alga é crocante, esse negócio que você fez com o salmão! Porra, isso é muito bom!
- O que é bom, Nelson? – Fernando perguntou lá da sala.
- Temaki! Venham ver! Vem cá, porra! – convoquei todos os dementes a comparecer na cozinha.
- Nem fodendo, Nelson! Deixa o Maulin chegar! Aí eu vou servindo tudo! Vai lá pra sala, vai!

Enxotado de minha própria cozinha, sentei no sofá e fiquei olhando para a janela. Alguém falava sobre a invenção da roda.

- Cacete, imaginem a viagem do cara que inventou a roda! Caralho mano, que viagem! – Alfredo tinha um pequeno sorriso que insistia em permanecer na boca.
- Porra, e quem inventou o eixo, que ligava as rodas, fazendo uma carroça andar? Porra, isso que é viagem! – Fernando contribuía com o debate.
- Pode crer – Mariana dava mais um pega, cerrando os olhos e segurando a fumaça dentro de si o máximo de tempo possível.

O interfone tocou. Eu gritei o nome do Maulin e fui correndo para a cozinha. Samuel já havia atendido e disse que era uma tal de Marcela. “Puta que pariu”, pensei, “vou recebê-la noiado desse jeito!”. Corri até o banheiro e arrumei o cabelo, molhei o rosto e voltei para a sala apressadamente. Tomei posse do copo de uísque e sentei no sofá, bancando o indiferente, me intrometendo em alguma conversa.

- Olá pra todos! – Marcela chegou com todo aquele encanto maldito.
- Oi coração! – levantei lentamente e estendi meus braços, como se fosse cumprimentá-la apenas com um aperto de mãos.
- Tudo bem, Nelson! Quanto tempo, meu bem... – me abraçou forte, tocando com a ponta dos dedos a minha cabeça, fazendo um rápido cafuné. Meu pau deu sinal de vida, o que fez com que eu me apartasse rapidamente dela.
- Vem aqui, quer um drinque? – para disfarçar meu brusco movimento, apresentei a garrafa de uísque.
- Claro. Onde deixo essa cerveja?
- Deixe comigo. Guarde a bolsa lá no meu quarto – apontei para a direção do corredor.

Fui até a cozinha e, como não havia mais espaço para latas na geladeira, deixei a caixa no chão da área de serviço, ao lado da máquina de lavar.

- Você peidou, velho? – perguntei ao Samuel que estava compenetrado num corte suave de um filé avermelhado de peixe.
- O que? – ele largou a faca na tábua de cortes e me olhou com reprovação, mas sem erguer a cabeça.
- Você peidou, porra? – repeti com veemência.
- Vá se foder! Claro que não!
- Então deve ser esse peixe podre aí! – apontei para a pia, enquanto dava risadas.
- Sai daqui, caralho!

Alfredo ouviu a voz exaltada de Samuel e levantou-se para conferir o que acontecia.

- O que ta pegando, Nelson? – Alfredo me perguntou, olhando nos olhos de Samuel.
- Nada, saia você daqui também! – Samuel respondeu por mim, com a mesma exaltação anterior.
- Eu falei com o Nelson, não com a senhorita – Alfredo ergueu a voz e cerrou seus punhos se aproximando de Samuel, que ao mesmo tempo apanhou a faca e a manteve na altura de sua cintura.
- Ei, ei, porra! Vão se foder! Nada de homicídios aqui na minha casa. Talvez algum tipo de luta livre, isso eu permito. Mas facadas não! – me coloquei entre os dois encrenqueiros e alternei meu olhar para o rosto dos dois.
- Eu só quero fazer meus sushis tranquilamente. Então por favor, poderiam sair daqui? – Samuel pela primeira vez deixava escapar educação de sua boca.
- Seu trouxa, não venha bancar o sabichão pra cima de mim, seu bosta! – Alfredo ia sendo aos poucos afastado por mim até chegar na sala.

Chegando na sala, Marcela me encarava atônita e com um sorriso no rosto. Eu acalmei os ânimos e fiz uma pequena massagem nas costas da minha musa italiana.

- Ele ficou com o cu na mão, Nelson – Alfredo contava vantagem em relação ao conflito enquanto acendia um cigarro.
- Quem vai bolar o próximo baseado? A Marcela não pode ficar sem umas tragadas, hã? – ninguém me respondeu.
- Ah, pega o bagulho aqui, faça você mesmo, eu to de boa... – Mariana falava e me passava a impressão de que iria derreter.

“Puta merda” foi a primeira expressão que apareceu em minha mente. Eu nunca havia bolado um baseado. Nem comprado, nem bolado, nem nada. Sempre fumava se alguém tivesse, mas maconha nunca foi uma coisa que me atraísse. Mariana trocou a música e colocou ‘Concrete Jungle’ do Bob Marley. Ao ouvir os primeiros acordes acompanhados de uma batida grudenta, me senti um favelado jamaicano, na periferia de Kingstown. Peguei a seda na bolsa da Mariana e dei um sorriso, me sentindo ridículo, até porque a sensação de ser um favelado em Concrete Jungle já havia passado. Dichavei a erva novamente e quem já fez isso sabe que é um trabalho filho da puta. Minutos depois, julguei ter separado bem os pedaços de erva seca. Juntei-os na seda, colocando toda a maconha no centro do papel. Prensei bem o conteúdo do cigarro, passei a língua e rasquei uma parte do papel. Selei o baseado com uma lambida caprichosa e pensei em algo parecido com ‘sushi jamaicano’. Dei uma risada e peguei o isqueiro. Ficou uma merda. A erva não queimava de forma uniforme e a toda hora apagava. Passei para a Marcela que se esforçou muito para puxar alguma fumaça, mas depois de um pouco de perseverança, conseguimos fazer bom proveito. A música que rolava era ‘Slave Driver’. É um reggae tão folgado, tão relaxado, que me lembrou as boas semanas que fiquei em Ubatuba, nas férias passadas, quando vivia de peixe assado, bicicletas e reggae. Cerveja e cigarros não contavam, estão presentes sempre. Foram boas semanas.

- Vou pedir pizza – Alfredo anunciou.
- E a comida japonesa? – Marcela ficou intrigada.
- É, eu vim para comer sushi – Mariana advertiu – Nada de pizza.
- Eu quero pizza, e vou comer sozinho. Eu quero mais é que se foda – novamente Alfredo desejava que algo desconhecido se fodesse.
- Vou dar uma olhada na cozinha – Marcela se separou do grupo com seu copo de uísque na mão.

Comecei a ouvir uma série de gentilezas da parte de Samuel. Ele explicava com carinho todas as questões lançadas por Marcela. Oferecia a faca para que ela experimentasse a sensação de cortar um rolo de sushi e ensinava a simples receita do tempurá. E eu comecei a me remoer de raiva e revolta.

Todos ainda estavam baqueados pelo anúncio de Alfredo. Eu com raiva lancei lenha na fogueira.

- Peça uma de peperoni, Alfredo – solicitei uma pizza com olhar enfurecido dirigido à cozinha.
- É assim que se fala, chefe! – ele percebeu que eu estava morrendo de ciúmes em relação à Marcela e Samuel.

Confesso que foi infantilidade de minha parte, mas quem consegue se conter numa hora dessas? Marcela apareceu na sala na hora em que Alfredo pedia as pizzas no telefone. E quando confirmei a pizza de peperoni, Marcela me questionou.

- Vai comer pizza também? – Marcela tinha um semblante confuso naquele rosto perfeito.
- Sim, perdi a vontade de comer essas coisas japonesas.
- Poxa, mas eu pensei que você comeria também...
- Pois é, eu pensei também. Mas vou comer pizza – eu me afundava cada vez mais na merda do ciúme.

Marcela voltou para a cozinha e fez um comentário irônico sobre as pizzas. Samuel deu uma risada altiva e começou a contar algumas dicas sobre evidências do frescor de um peixe. Eu ficava cada vez mais enfurecido. Maulin chegou dez minutos depois e me deu um murro no braço.

- Seu gozador! – fez uma analogia ao fato de eu ter gozado no ouvido da Agnes, aquela vadia que me passou verrugas.
- É, piada manjada da porra! – dei um abraço em Maulin.
- Porra, que merda de trabalho! Tô de saco cheio, cadê os drinques? – Maulin acenava para as pessoas deitadas no tapete, ainda entorpecidas pela ervinha de Satanás - O que aconteceu com eles? – e começou a servir sua dose.
- Maconha misturada com uísque e um pouco de cerveja.
- Hã, bem... Preferia entrar nesse estado de graça aí – apontou para Mariana que estava deitada de costas para nós, deixando um pouco de sua calcinha preta aparecer - Trabalhar em dia de sábado, porra! Caralho, aqueles relatórios, aqueles números todos, estou começando a sentir pânico só de olhar para minha mesa, para meus colegas de trabalho.

Maulin trazia em sua fisionomia uma série de curvas sofridas, rugas precoces e barba por fazer. Ele vivia se queixando de queda de cabelo e palpitações incessantes, tudo devido à sua jornada de trabalho cada vez mais torturante e opressiva. Talvez seja o maior sintoma de uma vida onde se ambiciona dinheiro demais e a qualidade de vida que se foda. Ele mesmo mora bem, tem seus hobbies, ainda tem a paciência de suportar e abrigar a merda da Agnes. Mas não faz o que gosta, o que sabe. Ele é um ótimo músico, conhece muito sobre diversos estilos musicais, quando era mais novo, se esforçava para entrar no mercado musical como produtor, aquele cara que fica por trás das estrelas. Mas ele entrou na conversa de alguns amigos que iniciaram faculdade de tecnologia da informação e como se trata de uma carreira bem rentável, Maulin acabou seduzido pelos salários iniciais mais altos que os de outras carreiras. Ele sempre foi bom em matemática, sempre leu muito e isso foi essencial para seu ingresso na carreira de analista de sistemas. Mas do que vale toda a grana que ganhou se ele dorme mal, tem ataques de pânico e vive em constante pressão? Lembro de um amigo que dizia: “o que importa é ser feliz, não importa como!”, e acho que acabou virando meu lema por uns anos. Hoje estou preso num trabalho desgraçado, apenas para pagar minhas contas. Igual o meu infeliz amigo. Mas esses são outros quinhentos.

- E essa música deprê? Vâmo trocar isso aqui – Maulin se dirigiu até o computador e ficou por alguns minutos passeando pelo meu acervo de músicas.

Com acordes violentos e bruscos, ‘Moonage Daydream’ do David Bowie começou a tocar. Me senti bem e com o polegar erguido, aprovei a escolha dele. Peguei o resto da erva que sobrou daquela imensa bola que a Mariana e o Alfredo trouxeram e o entreguei a Maulin junto a um papel de seda.

- Bola essa merda, você vai relaxar um pouco.
- Cacete, faz tempo que não dou uns pegas... Maconha é droga de retardado, Nelson.
- Eu sei, aliás, todo mundo aqui nessa sala sabe. Mas quem ta ligando pra isso? Foda-se, Maulin, fuma esse troço logo – sentei no sofá e acendi outro cigarro.

Ele desistiu de resistir à ideia de fumar um mato do capeta e sentou no chão, colocando a erva em cima da caixa de som e ali mesmo pôs-se a trabalhar na confecção do cigarrinho. Ficamos em silêncio e ‘Starman’ começou a tocar nas caixas. Lembrei da versão brasileira dessa música que fizeram no início dos anos 90, mas não conseguia lembrar da banda que fez aquela merda. Após a finalização do pequeno trampo por parte do Maulin, que diga-se de passagem estava deplorável, dividimos aquilo, dando algumas risadas e eu tentando de todas as formas fazê-lo não tocar em assuntos relacionados ao trabalho. Nos postamos em frente à janela e ficamos observando o movimento da rua.

Marcela continuava proseando com o Samuel, mas confesso que havia esquecido deles dois por alguns bons minutos. Porém a pizza chegou e eu tive que resgatar o Alfredo de sua viagem na nave cannabis. Peguei a grana com ele e inteirei o valor total. Fui até a porta aos trancos e barrancos, com a sensação de flutuar e olhei para a cozinha e não havia ninguém lá. Estranhei e me intriguei. Fui até o térreo, peguei as pizzas e voltei correndo pelas escadas. Deixei as pizzas em cima da pia na cozinha e fui procurar por Marcela e Samuel. Jurava que o som de suas vozes saía da cozinha, mas estava enganado. Acho que era a porra da maconha fodendo meu cérebro. Olhei para a mesa na sala e percebi que todos os sushis e afins estavam servidos. “Caralho, como eu não notei tudo isso?”, pensei e dei um grito, chamando a todos que foram derrotados pelas substâncias entorpecentes para comer a pizza ou os sushis. Em passos largos, fui até meu quarto e qual não é minha surpresa: os dois estavam deitados, olhando para o teto, com dois drinques no chão ao lado da cama, falando suavemente e dando pequenos risos. Naquele momento percebi que havia perdido a mulher para o arrogante do Samuel. Ele era um desgraçado de um contador de vantagens. Sabe de tudo um pouco e com certeza a burra da Marcela caiu na ladainha dele.

Voltei enfurecido para a sala e tirei um pedaço de pizza de peperoni e o comi em três mordidas. Bebi um gole de cerveja e peguei outro pedaço. Alfredo comia a de frango com catupiry como se fosse a última pizza do mundo. A famosa larica atacava. A Mariana se levantou coçando a cabeça e reclamando do mundo que girava. Ela pegou um copo d’água e bebeu rapidamente, sentou-se à mesa e vislumbrou a comida japonesa.

- Caramba, que fome! – e pegou os pauzinhos para atacar os sushis.

Molhava-os no shoyu e os comia com vontade. Maulin a acompanhou e questionou a presença da pizza na mesa. Eu disse que depois explicava. Fernando alternava entre os temakis e a pizza de peperoni.

Samuel resolveu não ficar bêbado ao perceber que havia uma grande chance de comer a Marcela. Ao invés disso, ele embebedava a pobre coitada. Eu sei disso porque, quando Samuel está bêbado, ele fica invariavelmente nervoso com as coisas da vida, criticando personalidades, ironizando fatos, o que sem dúvida arrancava gargalhadas das pessoas ao seu redor. Mas ele estava muito sorridente, com voz firme e sedutora. Ele não era nenhum trouxa. Após comer toda a pizza que tinha direito, cheguei ao lado de Alfredo que terminava sua cerveja, olhando compenetrado para a lata.

- Ainda ta com raiva do Samuel? – perguntei sussurrando e com olhar vigilante.
- Tô esperando a hora em que vamos quebrar ele na porrada! Quero mais é que se foda! – Alfredo se alterou jogando a lata no chão.
- Ta porra, fala baixo! Pega a lata, vai...

Alfredo se prostrou e apanhou a lata e colocando-a na mesa, mas antes, a amassou. Eu tinha um plano para foder a vida do Samuel.

- Então, eu tenho um monte de calmantes naturais, sabe? De passiflora, manja?
- Eu sei sim. Aquilo não faz efeito em mim mais, sabia? Minha insônia ta tão foda que só tarja preta pra me salvar.
- Calado, Alfredo! – sussurrei com fervor – Vamos amassar alguns comprimidos daquela merda e transformar em pó. E vamos jogar no drinque deles.
- Mas qual drinque?
- Sabe o saquê que ele trouxe? Ainda está fechado. Vâmo fazer umas caipirinhas pros dois e encher o rabo dele de calmante.
- E a Marcela vai beber? – Alfredo se levantava e se dirigia até a cozinha, enquanto eu o seguia.
- Vai! Vamos fazer dois drinques de passiflora. Quando ela dormir, vou meter a pica na boceta dela – meu olhar era maligno, lascivo.
- Caralho, eu posso não meter a vara, mas quero chupar os peitos dela – Alfredo cerrou os olhos e deu uma risada.
- Feito. Se quiser dar umas dedadas nela, fique a vontade – propus uma nova cláusula no pacto com o diabo.

Fui até o banheiro e apanhei o frasco de calmante. Fui até a cozinha onde Alfredo me esperava com o martelo de bater carne. Dentro de um saco de supermercado, despejei todos os trinta comprimidos e começamos o trabalho. Fechei a porta da cozinha e nesse momento Fernando me questionou sobre o que estávamos fazendo. Respondi que estávamos apenas fazendo caipirinhas. Cortei alguns kiwis que o Samuel havia trazido e enquanto Alfredo transformava as cápsulas em pó calmante, eu fazia os drinques com todo esmero possível. O pó não estava muito fino em sua totalidade, mas dava pra disfarçar bem. Terminamos todas as bebidas e dispomos os copos em uma grande bandeja. Pedi que o Alfredo servisse os dois pombinhos no quarto, enquanto eu servia o povo lá na sala, que ainda investia sua vontade em cima dos sushis, tempurás e tudo mais.

- Os idiotas adoraram o meu gesto e começaram a bebericar os drinques, man! – Alfredo parecia um assistente de algum vilão relatando o andamento de algum plano malévolo.
- Que sucesso... Agora é esperar um pouquinho e conferir depois se eles querem mais – olhei para um ponto fixo na parede e pensei um pouco.
- O que foi, Nelson?

Demorei um pouco para responder.

- Porra, ali tem muito calmante. Caralho, é muito calmante mesmo! – sussurrei da forma mais alta possível.
- Pau no cu daquele corno, Nelson. Pau no cu dele! – Alfredo também sussurrava com ódio.

Aguardamos por vinte minutos e pedi para o Alfredo verificar. Ele foi até o quarto, ficou por um minuto mais ou menos e voltou dando risadas. Senti um frio na barriga.

- E aí? O que pega? – perguntei com ansiedade vazando entre meus dentes.
- A Marcela está lerda, lerdinha! E o Samuel ta meio contrariado, meio sonolento. Parecem dois zumbis deitados. Mas ta um cheiro de rola lá dentro! Puta que pariu!
- Que se foda. A vaca deve ter chupado o pau dele no mínimo.
- Pode crer. O cara ainda ganhou um boquetinho! Eu quero mais é que se foda...
- É, eu também quero mais é que se foda. Vamos esperar mais um pouco. Vamos fumar uns cigarros, beber mais cerveja e deixar o tempo rolar. Quanto mais profundo o sono, melhor!

E fizemos isso. Criei uma playlist com músicas intercaladas do Serge Gainsbourg e do Bob Dylan, nossos dois ídolos. Eu estava eufórico com o som e em pé, balançava a cabeça e deixava minhas mãos flutuarem. Mariana de barriga cheia me observava e deixava escapar um sorriso. Eu sorria de volta e a chamava para dançar comigo. Ela apontava para a barriga e dizia sem emitir som a palavra ‘cheia’. Eu dava de ombros e permanecia usufruindo de minha loucura, um misto de entorpecentes e alegria pelo êxito de meu plano. Era a última vez que o Samuel me sacanearia na vida.

- Vamos lá, Nelson! – Alfredo me pegou pela mão e me puxou discretamente.

Cannabis do Serge Gainsbourg tocava na caixa de som e aquilo me deixava extremamente feliz. A voz dele me acompanhou durante a vida em todos os momentos, bons ou maus. O canalha sempre estava lá cantarolando com aquele francês sujo, aquele cuidado em garantir um nível alto de acidez às suas palavras. E naquele momento glorioso de vingança, o desgraçado cantava para mim. Caminhamos pelo corredor e um ruído alto se desprendia do quarto. Chegando lá, acendi a luz e os dois dormiam. Samuel babava muito e roncava alto. Marcela dormia de boca aberta, mas nada de estrondoso. Apenas um som saía de sua boca, aquele que denuncia um sono pesado. Cheguei perto de Samuel e dei um tapa em sua cara. Nenhuma reação. Comecei a rir e chamei Alfredo, que nessa hora, tinha voltado para a sala, pois Mariana o havia chamado.

- Corre aqui, porra! Vem ver essa merda! – fiz sinal com a mão direita, para que viesse logo.
- Peraê, Mari.

Mariana não ficou nem um pouco curiosa. Apenas desviou o olhar e começou a conversar com o Fernando. Alfredo chegou correndo, eufórico e sussurrando.

- E aí? Dormiram?
- Capotaram! Olha isso! – dei um outro bofetão em Samuel, sem que o corno reagisse.
- Hahaha! O filho da puta ta roncando! – Alfredo chegou ao lado dele e deu um soco na maça direita do rosto.
- Calma porra! Não vamos ferir o cara! Se não vai dar na cara!

Olhei novamente para um ponto fixo na parede e fiquei pensativo, coçando meu queixo. Alfredo olhava para o casal adormecido e dava risadas.

- E essa gostosa? Tá mesmo dormindo? – dizendo isso, se abaixou e enfiou o dedo por dentro da calça de Marcela, até encontrar seu cu. Ficou dedilhando a pobre coitada.
- Tira o dedo do cu dela, porra... Vamos lá na cozinha. Tive uma ideia!
- Espera um minutinho!

Alfredo tirou um dos seios de Marcela para fora e começou a chupá-lo com afinco. Sacou sua pica para fora e começou a se masturbar. Eu não aguentei a tentação da cena e retirei a calça dela. Com cuidado removi sua calcinha e desci até sua boceta. Era linda, parecia até uma vagina de virgem. Mas tenho certeza que aquela perseguida já havia sido capturada por muitas rolas. Alfredo já estava com sua calça arriada na altura das canelas e começou a chupar a boca dela. Eu estava firme e forte lá embaixo e senti o pau dele roçar em minha cabeça.

- Ô caralho! Tira essa rola de perto de mim! – o empurrei com força.
- Foi mal, Nelson! Porra, nem percebi sua cabeça aqui! – me respondeu voltando a posição, porém com certo cuidado.
- Presta atenção caralho!

Depois dessa, me levantei e me arrumando, caminhei até a cozinha. Quando olhei para a sala, presenciei uma cena que não imaginaria nem em mil anos. Mariana apenas de sutiã, sem calcinha, de quatro em frente a Fernando, que estava sentado no sofá, com o pau duro de fora. Mariana passava a língua suavemente na cabeça da rola dele e sempre que fazia isso, dava uma risadinha. Fernando se esticou um pouco e conseguiu colocar o dedo médio na boceta exposta dela. Um detalhe: Maulin dormia profundamente cansado, estirado no chão. Fiquei de pau duro e após a pausa para verificar aquela pornografia toda, fui até a cozinha. Alcancei o pote de margarina e voltei até o quarto. Claro que parei mais um pouco para admirar aquela cena maravilhosa de sexo. Mariana tinha um corpo muito atraente, isso era inegável. Diferente da vagabunda da Agnes que me passou as malditas verrugas.

- Olha o que eu trouxe, Alfredo – cheguei sacudindo o pote de margarina.
- O que vai fazer com isso? Vai comer quem aqui dentro?
- Você, porra! – respondi com sarcasmo.
- Hã? O que? – Alfredo realmente se assustou.
- Porra, às vezes você parece inocente... – enquanto falava, abria o pote.

Expliquei o meu plano de sodomizar o Samuel. Alfredo ficou um pouco resistente à ideia, mas logo se interessou quando prometi que ele poderia comer o cu da Marcela. Samuel permanecia num ronco ensurdecedor, quase se afogando em sua própria baba. Peguei um pacote de camisinha e o destaquei. Embrulhei meu pau e retirei a calça e a cueca do fura-olho. Coloquei-o de lado e passei margarina na ponta do meu pau. Aos poucos, pincelava o cu dele, até lambuzá-lo por completo. De ladinho mesmo enfiei meu pau com facilidade em seu cu. Pedi para o Alfredo - que naquele momento assistia a tudo, se masturbando - apagar a luz. Fiquei por três minutos num ritmo bem frenético, forçando a rosca do meu amigo com toda potência possível. Gozei litros de porra e urrei sem muito escândalo. Alfredo que estava com o pau duro, latejando, logo que saí do cu de Samuel, engatou em seguida sua rola dentro do serrador de canela. Foi de bruços mesmo. Foi intenso e demorado. Eu apenas ria da cara do corno dorminhoco. Ele roncava e tomava boas estocadas. O tédio tomou conta de mim e fui até a sala para verificar o casal que transava por lá. Estava apenas de camiseta e fingindo ir até o computador, cheguei perto dos dois e revezava minha atenção entre as músicas e a cena. Mariana viu que eu estava pelado e começou a rir.

- Do que está rindo, Mari? – Fernando ficou encucado com a reação dela.
- O Nelson, com esse pau mole, como se nada estivesse acontecendo aqui.
- Fiquem tranquilos, acho legal esse clima liberal, sabe? Todo mundo pelado, putaria rolando solta. Assim que eu gosto!
- Você é foda, Nelson! – Mariana teve que tirar o pau de Fernando de sua boca para me elogiar.
- Se vocês não se incomodam, vou bater uma olhando para vocês – comecei a acariciar minha rola, aguardando a autorização deles.
- Fique a vontade, man – Fernando colocava seu pau novamente na boca dela.

Meu pau cresceu logo, mas fiquei um pouco constrangido pois o pau do Fernando tinha quase o dobro do tamanho do meu. Não é de se impressionar que a Mariana caísse de boca nele tão indiscretamente. Aliás, o Fernando tinha a boa fama de ser o pauzudo da turma. Isso garantia boas fodas. Lembro de ter visto um pau tão grande apenas quando comi um travesti num assunto mal explicado. A filha da puta era gostosa, tinha um rabo descomunal, mas o pau dela era enorme, muito grande mesmo. Quase perdi a concentração enquanto a comia, pensando na possibilidade dela virar o jogo e me penetrar violentamente. Eu já visualizava as manchetes: “homem morre após ser empalado por um travesti”. Trágico.

Pedi para Mariana deixar eu gozar em seus peitos. Ela disse que podia, mas Fernando disse que seria uma merda, pois ele queria abraçá-la. Então tive que gozar em seu quadril, de costas. Após ejacular pouco sêmen, dei um beijo nela e quase o pau dele esbarrou na minha boca. Eu estava bêbado, todos, inclusive eu mesmo, me perdoaram por isso. Fui até o quarto e Alfredo estava dentro de Marcela, por trás. Acendi um cigarro enquanto via os olhos brilhantes de meu amigo. Conheci uma face de Alfredo nessa ocasião, até então jamais imaginável. Ele parecia uma criança completamente satisfeita. Ele apertava os seios dela com força e não se continha de prazer. Quando eu estava na metade do cigarro, o sexo entre eles acabou. Para o meu alívio, Alfredo estava com a camisinha em seu pau. Fui até o banheiro e peguei minha toalha. Com cuidado, sequei a boceta de Marcela, que estava bem avermelhada e inchada. O cheiro de látex dos preservativos invadiu o ar, mas isso era o de menos. Tudo o que eu queria ver era a reação de Samuel quando sentisse finalmente a dor no cu.

- Vamos jogar fora aquele pano com os resquícios de pó do calmante – fui objetivo e por incrível que pareça, sóbrio, em minha observação.
- Tudo bem. Vai fazendo isso enquanto eu visto a roupa dela.
- E a dele também, né? – olhei com firmeza para Alfredo.
- Puta que pariu, tudo bem. E a margarina no rabo dele?
- Passe aquela toalha ali no rabo dele. Não custa nada.

Terminamos nossas funções de acobertamento e nos abraçamos com força, dando longas risadas. Podia ser uma cena bem gay, mas estávamos juntos naquilo até o fim, independente das consequências. Havia uma sensação de dever cumprido, um alívio que só uma boa vingança proporcionava. Muitas pessoas que se vingam, posteriormente em arrependimento, não vêem mais sentido em suas atitudes. Nós víamos sentido e prazer em tudo que fizemos, o momento que o homem se vangloria de ter fodido seu oponente. Bem, no nosso caso, fodemos literalmente.

Chegamos até a sala e Fernando conversava com Mariana dando risadas. Ela estava claramente exausta pelo sexo, pelas drogas e pelos sushis. Quando percebi, todos tinham um cigarro em mãos e um silêncio teimava em importunar aquele começo de madrugada. Todos estavam cansados, bêbados, drogados e extasiados. Cada um tinha seu motivo para comemorar . Verifiquei por garantia o meu quarto e a visão era amável: Alfredo havia colocado Marcela deitada na cama junto ao Samuel. Os dois acordariam confusos. Ele pensaria que ela aplicara o bom e velho fio terra em sua retaguarda. Ela pensaria que teve a foda mais devassa de sua curta vida sexual. Cômico.

Dois lindos anjinhos. Anjinhos violados.