<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492</id><updated>2012-02-16T04:36:35.866-02:00</updated><title type='text'>Viva o Lado Negativo da Vida</title><subtitle type='html'>Visões negativas, cômicas e até filosóficas da vida... sim, como ela é.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>54</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-8323415095867272415</id><published>2010-12-19T00:59:00.003-02:00</published><updated>2010-12-29T10:23:33.165-02:00</updated><title type='text'>Desalmado</title><content type='html'>Eu acho que eram as contas, às vezes penso que era o meu momento conturbado com a Elisa. Enfim, eu andava nervoso naquela época e tudo me irritava. Eu era um animal acuado e inseguro. A falta de dinheiro e de amor me deixam extremamente assombrado e toda essa ausência de elementos de conforto me fazem ouvir jazz melancólico. Eu geralmente me fecho num mundo de tom esverdeado como lodo, como um pântano, um brejo amaldiçoado. Me alimento de sombras e fugas, de tristeza auto-induzida, de lágrimas saborosas. Quem não gosta de sofrer quieto num canto, curtir a sarjeta e se rastejar nos espinhos de uma depressão? O homem precisa disso, todos precisam. Mas santo Deus, estou me perdendo com toda essa divagação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu lembro que eu ouvia Charlie Parker no meu iPod, tentando acalmar todo o turbilhão de pensamentos violentos que apareciam em série na minha mente. Eu andava tão preocupado e carente que existiam duas linhas de pensamentos: as violentas e as indecentes. Ou eu estava com raiva de algum cidadão sofrido que trafegava à minha frente tentando um lugar na lotada escada rolante da plataforma do trem que ia para a Julio Prestes, na Barra Funda ou estava babando em algum rabo. Seria melhor dizer ‘qualquer’ rabo. Eu me flagrava falando em voz baixa: preciso de uma boceta. Eu me envergonhava disso. Eu me auto-julgava, eu me auto-condenava e eu me auto-castigava. E toda aquela situação começava a me irritar porque eu - logo eu - um cara tão simpático e popular, estava impaciente para conversas junto às pessoas mais próximas. Eu não tinha saco para pequenos papos, estava cansado da humanidade. Olhar todos trafegando, entrando no trabalho, sabendo que fariam a mesma coisa de sempre, com o olhar conformado ou o sorriso de pobre estúpido, com todos os diabos, como isso me cansava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhei até a frente do meu trabalho e finalizei o meu cigarro. Meu pulmão estava pedindo arrego e eu, teimoso que sou, continuei a fumar, no pior clima seco e calorento que a cidade nos oferecia. Eu precisava daquela merda de vício. Puxei me crachá e me identifiquei no portão. Abaixei minha cabeça como um bom operário dos anos 20 faria, e me arrastei pelas estreitas ruas da empresa. Avistei a porta do meu setor e suspirei. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mais um dia, puta que pariu... – deixei escapar um breve murmúrio. &lt;br /&gt;- É, mais um dia, amigão! – era Lopes, um paspalho pelego que sempre portava um sorriso pronto para os seus superiores na hierarquia da corporação.&lt;br /&gt;- Hum... – olhei para o lado e ao avistá-lo tentando repousar sua mão em meu ombro direito, me desvencilhei e o desprezei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele permanecia com um sorriso brilhante enquanto eu me afastava rapidamente de suas mãos sujas. Subi a escada e praguejei levemente, amaldiçoando os cigarros que raptaram e esquartejaram minha saúde. Malditos cigarros. Bati o cartão e percebi que estava dentro da tolerância de atraso. Pisquei os olhos lentamente, sentindo que minhas pálpebras pesavam toneladas. Bebi três copinhos de água e alguma garota de má-fama se dirigiu a mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que bela ressaca, Nelson! A noite foi foda, hein? – era Creusa, uma mulher horrorosa, mal penteada, mal organizada, mal compilada, enfim, mal feita. Deus não foi o responsável por ela. Não o Criador do Universo. Não teria feito tamanha presepada.&lt;br /&gt;- Foda? Faz tempo que não fodo, coração. E não bebi ontem. Tô sem dinheiro. E se tivesse dinheiro, não beberia porque só beberia se não tivesse dinheiro...&lt;br /&gt;- Você está confuso, isso sim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esbocei uma réplica à constatação da lambisgóia, mas preferia me reservar. Apenas fuzilei-a com meu olhar de homem vencido e me retirei do recinto. Cheguei em minha mesa e dei outro suspiro. Um peido sacana ameaçou abandonar meu corpo, mas o aprisionei com uma apertada no cu. De mim ele só sairia no banheiro. Chega de constrangimentos. Já vivo constrangido por viver, porra. Me acomodei na cadeira e iniciei minhas operações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bom dia, Nelson! – Diogo me cumprimentava sem pretensão alguma.&lt;br /&gt;- Bom dia – fui seco na resposta, mas ele entenderia, eu estava focado no trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E dentro do foco, eu passei boa parte do dia, sem olhar para o relógio, sem trocar uma bendita palavra com alguém, a não ser com os clientes que vez em outra insistiam em complicar minha bela vida. Mas eu estava lá, sentado como um velho negro sábio às margens do rio Mississippi, fumando um bom cachimbo e conversando com os pássaros. Eu era o senhor do meu trabalho. Eu era bom naquilo. Enquanto viajava, pensando em New Orleans, com toda aquela música e comida, fui interrompido pelo Diogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estou com dores, cara. Dor na nuca, sabe?&lt;br /&gt;- Sei sim, tem um ambulatório lá embaixo, passa lá – eu não desviava o olhar da tela de meu computador.  &lt;br /&gt;- Putz, não sei se vou chegar até lá. Tô com uma dormência, um formigamento no rosto! O que pode ser? – Diogo estava angustiado, perdido em seus sintomas. &lt;br /&gt;- Bom Deus, man. Deve ser dor de cabeça.&lt;br /&gt;- Meu Deus, minha cabeça parece que vai explodir! Minha nuca, Pai Eterno, o que é isso?! – Diogo exaltou de vez a sua voz e se ergueu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como um raio partindo minha mente, parei para pensar: “ele está sofrendo um AVC!”. Levantei de minha cadeira e fui beber mais alguns copinhos d’água. Observei a feição do rosto de Diogo e era de dar dó. Ele estava atordoado, e sentia que ele tentava reagir, mas não conseguia se levantar.  Eu realmente estava amargo naqueles dias. Fiquei ao lado do bebedouro, avistando de longe o pobre diabo. Estava esperando ele empacotar de vez para voltar ao meu lugar. Eu não sentia compaixão. Nenhuma boa atitude me atraía, eu queria paz, e paz significava silêncio e distância de qualquer confusão. E o Diogo era a tradução de uma boa confusão. Se ele morre ao meu lado, ou tem um derrame ou sabe Deus o quê, todos cairiam em cima de mim, com perguntas, fofocas do tipo: “ele não socorreu porque não quis” , “ele tinha inveja do Diogo e o deixou morrer” ou “o Nelson é um covarde e desalmado”. Pelo amor do que é mais sagrado, eu quero quilômetros de distância dessas picuinhas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diogo permanecia com um mão na cabeça e outra na nuca. Ninguém teve o trabalho de o notar. Nenhuma alma sequer parou para auxiliá-lo, para ouvir seus gemidos de dor. Um pingo de remorso se apoderou de mim, mas logo o sequei e voltei ao meu estado de sentinela. Eu esperava pelo desmaio do Diogo para voltar ao meu assento e continuar meu bom trabalho. Eu estava numa verdadeira tocaia sacana, bebendo litros e mais litros de água. O café chegou na hora certa e lentamente despejei uma boa quantidade do liquido negro no copinho de plástico. Fiquei assoprando e bebendo aos poucos, sempre de olho no desgraçado do Diogo que não cedia à pressão alta. Comecei a ficar impaciente e fui até o restaurante da empresa. Perguntei qual seria o cardápio do dia e quando a senhora que servia o almoço foi conferir as panelas, peguei um saleiro e o enfiei no bolso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Carne de panela, arroz, feijão e salada – a mulher me anunciou a lista de atrações do almoço.&lt;br /&gt;- Ah ta, ta certo. Bem, até mais – me despedi com passos apressados. Minha produtividade no trabalho estava comprometida por um homem doente que me assolava com seus pedidos de ajuda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei ao bebedouro e alcancei um outro copinho de plástico. Abri lentamente a tampa do saleiro e despejei o equivalente a uma colher de sopa de sal. Preenchi o resto com água e misturei com o dedo indicador. “Agora ele morre de vez”, pensei, guardando o saleiro novamente no bolso. Não posso deixar de repetir, eu estava muito amargo naqueles dias. Pelo amor de Deus. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando me dirigia para a mesa dele, para oferecer meu elixir da morte, o desgraçado apareceu como uma visão infernal, correndo em minha direção, gritando e praguejando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nelson, me ajude! Nelson! Minha cabeça vai explodir! Maldição! – dizendo isso, trombou comigo, me fazendo cair de bunda, derramando toda a água com sal. &lt;br /&gt;- Vai se foder, Diogo! Que ideia idiota é essa? Sai de cima, desgraçado!  - ele caiu como um dejeto por cima de minha barriga. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao virar seu corpo, seu rosto estava ensanguentado. Muito sangue saía de seu nariz e seus olhos estavam fechados. Ainda o ameacei, mais pela raiva que por qualquer outra coisa. Mas ele estava imóvel. Pessoas correram ao nosso encontro até que alguém gritou “chamem um ambulância!”.  Me livrei do peso de Diogo e o larguei no chão. Um enfermeiro do ambulatório chegou com pressa e mandou as pessoas se afastarem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porra, o que aconteceu com ele? Alguém sabe se ele estava se queixando de algo? Algum sintoma? – o enfermeiro tinha voz firme e inquiria a multidão enquanto segurava a cabeça do Diogo com seu braço direito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos ficaram calados, inclusive eu. Eu não queria ser estrela naquela palhaçada. “Foda-se”, pensei. Mantive silêncio sepulcral. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alguém pode me ajudar a carregar o coitado lá pra baixo? – o enfermeiro deixava vazar um pouco de pânico em sua voz. As pessoas estavam paradas, atônitas e inutilizadas pela curiosidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu prontamente me afastei e fui para a minha mesa. E voltei a trabalhar. Aos poucos as pessoas se dispersaram e em alguns minutos aquela pausa coletiva havia acabado. Claro que o clima era outro. Pessoas tagarelavam sobre a boa pessoa que Diogo era, outras especulavam o que poderia ter acontecido. Eu olhei finalmente para o relógio e vi que faltava ainda um bom tempo para o fim do expediente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O Diogo não disse nada para você, Nelson? – minha supervisora era asquerosa com seus quarenta e tantos anos. Dentes apodrecidos e fantasia por homens de fio dental. &lt;br /&gt;- Não me disse nada. Conversávamos sobre um pedido absurdo que presenciamos. Estávamos questionando algumas atitudes do setor de entregas. Só isso. Quando fui beber água, ele começou a sentir os sintomas.&lt;br /&gt;- Que desgraça. Temos que esperar pelo diagnóstico do hospital.&lt;br /&gt;- Vamos esperar. Tomara que dê tudo certo – voltei meu olhar para o monitor.&lt;br /&gt;- Que Deus o abençoe... – ela estava transtornada, com olhar de piedade digno de santa da igreja católica. &lt;br /&gt;- Amém – respondi sem ânimo, tentando fazer com que ela percebesse que estava sendo inconveniente naquele momento.&lt;br /&gt;- Vou te deixar trabalhar agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não respondi, apenas a chamei de galinha grávida em meu pensamento e permaneci hipnotizado pelas luzes de meu monitor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As horas enfim passaram. Às dezessete horas, a supervisora chegou com a cara inchada, cheia de lágrimas besuntando suas bochechas flácidas e avermelhadas. Ela abraçava um analista enquanto uma outra mulher apertava sua mão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi um derrame! Ele está entre a vida e a morte! Meu Deus, ajude ele! Por favor, meu Deus! – &lt;br /&gt;ela clamava no meio de todo o setor. As pessoas se sensibilizaram e foram até a triste mulher para consolá-la. &lt;br /&gt;- Vamos rezar por ele, minha querida... – a faxineira ensaiou um abraço tímido.&lt;br /&gt;- Vamos fazer uma corrente de oração. Vai dar tudo certo! – outra boa alma se pronunciou.&lt;br /&gt;- O foda é que esses derrames em pessoas novas são como um enfarto, muito difíceis de se recuperar, acho que ele vai ficar com sequelas – resolvi quebrar meu silêncio.&lt;br /&gt;- Como você é desalmado, Nelson! Agora é hora de pensamento positivo! – uma colega de meu setor, negra como um tição, vociferou como se convocasse um tipo de greve. &lt;br /&gt;- Vá pro inferno, porra. Estou dando meu parecer – eu mantinha uma frieza impressionante.&lt;br /&gt;- Tá certo, Nelson. Vá trabalhar que é melhor – minha supervisora me orientou em meio aos soluços.&lt;br /&gt;- Que Deus tenha misericórdia do Diogo – fui sarcástico e dramático. As pessoas aceitaram minha invocação por misericórdia e se acalmaram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O expediente chegava ao fim. Pessoas fofocavam à todo vapor. Pessoas se apinhavam ao redor do relógio para bater seus pontos. O Diogo era o assunto da vez. Mensagens de solidariedade invadiram nossas caixas internas de e-mail. Uma mulher, em seus quarenta e dois anos convocava pessoas para uma oração pelo Diogo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você vai visitá-lo, Nelson? – um homem pálido como um doente de lepra se aproximou de mim, expelindo um bafo que misturava merda, cigarro e café.&lt;br /&gt;- Deus de amor, Arnaldo, o que você andou comendo? Seu bafo está horrível, e é sério! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arnaldo fechou sua mão direita em concha, levou-a até seu nariz e baforou um pouco de hálito na palma da mão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Caralho, ainda bem que você me avisou! – dizendo isso, puxou um Trident de canela e começou a mastigá-lo.&lt;br /&gt;- Isso só vai piorar. Vá lavar a boca, escovar os dentes, sei lá.&lt;br /&gt;- Será que é o estômago?&lt;br /&gt;- Pode ser uma úlcera, sei lá. Vai saber, né?&lt;br /&gt;- Deus me livre! E então? Vai visitar o Diogo? – o hálito estava repulsivo.&lt;br /&gt;- Primeiro, vire a cara pra falar comigo. Segundo, não, eu não vou visitar. Deixe a família se encarregar disso – acendi meu primeiro cigarro em horas.&lt;br /&gt;- Olha, primeiro é que quem tem cara é cavalo. E segundo, você é um desalmado, Nelson.&lt;br /&gt;- Eu já cansei de ser chamado de desalmado. E se você não tem cara de cavalo, pelo menos bafo de cavalo pangaré você tem, meu camarada.&lt;br /&gt;- Eu te mostro quem tem bafo de cavalo – Arnaldo se lançou contra mim, irritado com todas as ofensas gratuitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me esquivei do primeiro soco, mas a joelhada veio logo em seguida. Consegui colocar uma mão nos meus bagos para protegê-los. Mas o choque entre o osso do joelho dele com a minha frágil mão de pianista classudo, foi doloroso. Ele deu uma derrapada e se recuperou, porém não esperava que eu me aproveitaria de seu descuido, afinal, ele ficou de costas para mim. Chutei seu traseiro, na parte entre as bolas e o cu. Ele gemeu  e deu um leve salto com o impacto do peito de meu pé em seu rabo. Logo em seguida chutei o seu tornozelo direito, o que o fez iniciar uma corrida de fuga desengonçada. Segui o miserável por vinte metros, porém meu pulmão me limitou. Ergui meu punho direito, tremulando-o e gritando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Corra, cavalo filho da puta! Corra!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pessoas estavam paradas, observando a curta briga que ocorreu, todas paradas na calçada do outro lado da rua. Peguei meu cigarro que havia caído no chão e o coloquei de volta em minha boca. Arrumei minha camiseta e sacudi o cabelo. Estava tudo em ordem. Atravessei a rua e percebi que todos os espectadores da luta apertavam seus passos, constrangidos com minha presença. Enquanto caminhava rumo à estação de trem de Presidente Altino, pensava em como eu estava estressado. Aquilo não estava certo, mas acabei misturando esses pensamentos com a vontade de ter um revolver na cinta, para sair atirando à esmo, para cima, para baixo, nas pessoas, nos cachorros, na polícia, enfim, trocando em miúdos, virar um maníaco ensandecido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Verifiquei meu maço de cigarros e haviam apenas dois restantes. Parei na padaria e comprei mais um. Aproveitei e levei uma garrafinha de cerveja para me refrescar. Matei toda a bebida em poucos goles e me senti muito bem. Enfim eu estava em meu caminho de volta para casa e eu sentia uma sensação de alívio maravilhosa. Cheguei à catraca da estação, passei meu bilhete único e escutei o clássico barulho do trem atacando os trilhos em sua velocidade cambaleante. Ensaiei uma arrancada, mas minha corrida era preguiçosa e precavida, afinal, qualquer esforço a mais e eu poderia apagar, acordando em algum hospital fodido, sem minha carteira, iPod e outros pertences. Mas consegui chegar com tranquilidade, e ainda achei um assento vazio. Ao sentar, suspirei e me senti velho. Dei uma leve checada nas pessoas e todas pareciam gelatinas cinzas, tremulando com o movimento irregular do trem. Em meu iPod - que já estava bem ultrapassado – passeei pelos nomes que constavam em minha lista de artistas e resolvi escolher o bom e velho Cat Stevens, ou para quem gosta de atualizações, Yossuf Islam. Fui direto em minha música preferida dele, “Morning Has Broken”, e quando a voz serena dele começou a reverberar por minha mente, pensei: “puta merda, como sou brega”. Mas algo na voz dele me acalmava, talvez fosse o instrumental, eu realmente não sei, mas tudo o que ele canta me soa nostálgico, e no meu caso, isso é bom.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os trens da CPTM – especificamente naquela linha – são muito lentos, mas são de uma lentidão pirracenta. O governo anda reformando todas as estações, está uma beleza, toda a modernidade, mas e as porras dos trens? O que importa no final das contas são os trens! Mas o óbvio da população não é óbvio para os governantes. Talvez eles sejam avançados demais. Por isso que estão lá, mandando e roubando, sem impedimentos. Esse pensamento invadiu minha mente e comecei a ficar irritado, ainda levando em consideração que eu suava em bicas, molhando meus finos cabelos, dando ao meu penteado um aspecto esculachado, largado. Comecei a mexer minha perna direita, exibindo clara ansiedade e o trem nem havia chegado à estação seguinte, que era relativamente próxima. De repente o trem finalmente fez o que parecia tencionar, parou e permaneceu assim por um bom tempo. Muitos trabalhadores impacientes começaram a se lamentar, alguns ironizavam o serviço de transporte público. Mas o que mais faziam era rir. Era melhor rir que chorar, eu concordo, mas será que será sempre assim? Rindo pra não chorar? E se o povo chorasse um pouco? Eu pareço um comunista pensando na solução para os problemas. Chega de crítica política e social, pelo amor de Deus, chega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meio ao fuzuê que se instalou, um erro da natureza, assentado à minha frente, com sua boca semi-aberta, óculos de aro fino e cabelo duro mas cuidadosamente penteado, olhava para mim. Reuni todos os traumas da minha vida, lembrei de todos os valentões que assolaram minha vida, as pessoas que me ameaçaram de morte, bêbados que me perturbavam em baladas e nem todos eles unidos, não conseguiram me irritar tanto quanto aquela figura bizarra que permanecia imóvel, me encarando. O olhar dele era extremamente desafiador e um pouco disperso. Não sei como diabos isso seria possível, mas era assim que ele me olhava. Às vezes levantava o queixo me encarando por cima de seu nariz. Às vezes de forma sombria, inclinava sua cabeça para baixo e me olhava com ar suspeito. Eu não estava gostando e estava de saco cheio. O trem se arrastava lentamente saindo de sua paralisação e o Cat Stevens cantava “Into White” e essa canção é muito parada. Peguei meu iPod como se ele portasse alguma culpa pela irritação e troquei para “Prayer to God” do Shellac. A pior música que eu poderia ouvir naquela hora. O vocalista da banda vomita tanto ódio entre os versos, que eu não pude evitar de me contaminar. Todo aquele papo de “MATEI-OS, JÁ MATEI-OS!”, começou a compactar a minha paciência e finalmente meus braços fervilhavam. Eu já não os sentia. Era o sinal de que eu iria entrar numa briga, sempre foi assim. E o panaca permanecia olhando, arrumando a posição de seu óculos, como se quisesse focar uma imagem. Sua cabeça mexia, mas seus olhos me perseguiam. Ele deu um sorriso e isso foi a maldita gota d’água. Me levantei tirando os fones de ouvido e me dirigi a ele. Ele sorriu e não demonstrou surpresa alguma. Ele queria briga, só podia ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá olhando o que? Eu posso saber? – tentei moderar ao máximo o volume de minha voz. &lt;br /&gt;Ele continuava me observando, como se eu fosse algum objeto de estudo, uma espécie de macaco em extinção. &lt;br /&gt;- Ei, fale comigo, filho de uma puta! – apontei o dedo para ele e em seguida dei um tapa em seus óculos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os óculos caíram no chão e os chutei. Ele permanecia em estado de observação, sem aparentar cautela ou medo.  Minha cabeça estava latejando de raiva e resolvi descer um bom tapa em sua cara. Ele soltou um som, que parecia o sopro de um flauta e isso me impressionou. “Que porra de homem é esse?”, pensei. Ao redor, as pessoas começaram a reclamar, e eu podia ouvir cochichos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porra, deixa o cara em paz! Eu trabalhei o dia inteiro, cacete! – um homem de farto bigode gritou do meio do vagão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu mostrei meu dedo do meio para ele e voltei minha atenção para o maluco. Ele não falava nada, apenas olhava. Ele tinha um deboche instalado nas curvas de sua expressão facial, um sarcasmo tão ostensivo, que comecei a recear. Mas o que me tirou do sério foi um sinal de positivo com o dedo polegar direito que ele fez, para mim. Ele caçoava da minha força, devia achar meu tapa uma piada. Fechei minha mão direita e com destreza desloquei perfeitamente meu ombro para trás, e joguei meu braço com toda força do mundo ao encontro do rosto dele. Aquilo que era um murro bem encaixado. A massa de dedos fechados sofreu o impacto na fronteira entre a narina direita e os lábios superiores. Ao me concentrar no soco, perdi estabilidade com o movimento e pra variar, o trem tremeu. Cai em cima de uma senhora. Um homem moreno, com barba por fazer e cabelos grisalhos se ergueu e me puxou pela gola da camiseta, me lançando contra a barra de alumínio que ficava ao lado da porta do vagão. Me ergui rapidamente e me posicionei para a briga. O homem era forte, mãos calejadas e os braços com circunferência duas vezes maior que a dos meus. Mas eu ainda estava com muito ódio e meu orgulho me impulsionava para a confusão. Eu estava liquidado, todos estavam incomodados com o brigão e em breve eu estaria numa delegacia ou algo do gênero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu Deus do céu! O que aconteceu com ele? Meu Jesus! – a senhora, em quem caí, gritava horrorizada. &lt;br /&gt;- Aquele homem bateu nele! – era o grisalho me denunciando. &lt;br /&gt;- MAS POR QUE VOCÊ BATEU NELE? ELE É AUTISTA!&lt;br /&gt;- Puta que pariu... – eu falei com voz  trêmula.&lt;br /&gt;- A senhora disse que ele é autista? – novamente o grisalho se intrometia no assunto. &lt;br /&gt;- Sim, ele tem problemas mentais, meu senhor! Por que ele bateu no rapaz? – a senhora perguntava com os nervos à flor da pele. &lt;br /&gt;- ESSE HOMEM É LOUCO! – um homem loiro, bem apanhado, de cabelos arrepiados e muito bem perfumado, se aproximou de mim. &lt;br /&gt;- O que você tem a ver com isso, seu merda?! – gritei tentando intimidá-lo. &lt;br /&gt;- Você bateu num deficiente, seu bosta! – uma negra com uma bunda enorme e calça extremamente apertada vociferou por trás de mim, batendo com sua sombrinha em minha nuca.&lt;br /&gt;- Mas que ideia é essa, sua preta desgraçada?! – me virei para ela, colocando as mãos na nuca.&lt;br /&gt;- Você é um maníaco e ainda é racista? Vamos pegar ele de porrada! – o grisalho de novo estava no centro das atenções. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o pau comeu solto. Senti uma braçada em meu ombro esquerdo. Um ponta pé na lateral de meu joelho. O trem chegou na estação Domingos de Moraes e as pessoas na plataforma, ao ver o linchamento, evitaram entrar . &lt;br /&gt;- Deus, me ajude! – gritei embaixo da saraivada de mãos que caia sobre mim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Deus, se estivesse em carne e osso por ali, também me daria uma boa coça. Uma pessoa entrou no trem, um adolescente com uma tatuagem de estrela no ante-braço, e sem perguntar o motivo, começou a largar o pé pra cima de minhas costelas. Eu entrei em pânico, erguendo minhas pernas e tentando acertar alguém, mas foi em vão. Alguém segurou meu pé direito e o torceu. Tentei aliviar a dor, fazendo meu corpo seguir para o lado da torcida, mas alguém travou meu corpo com murros no peito. As portas do trem fecharam e seguiram para a Lapa. A senhora que cuidava do maldito altista, bateu sua bolsa em minha cabeça. Eu estava apagando e ouvi um estalar de ossos. “Merda, quebrou”, pensei. Avistei minha camiseta encharcada de sangue e pensei na quantidade de litros de sangue que um homem precisa perder para morrer. Meu tênis havia sido retirado e deram um jeito de sumir com minha carteira e iPod. Meu celular, ainda estava no bolso direito, mas eu me conformei com a ideia de nunca mais vê-lo. O estranho de tudo foi que eu não pensava na morte. Pensava em meus bens sendo roubados. Eu era um miserável. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas, de uma hora pra outra cansaram de me espancar. Ficaram entediadas e fizeram uma roda ao meu redor. Eu ouvia algumas vozes, algumas especulações. Sugestões sobre os motivos do espancamento. Eu ainda me mexia, vagarosamente, como se quisesse alertá-los de que ainda estava vivo. Mas o que eu não esperava aconteceu: eles me ergueram e quando chegamos à Lapa, fui retirado do trem nos braços de todos os meus molestadores, como um Cristo prestes à ser crucificado, rumo ao seu calvário. “O mundo está cheio de ódio”, pensei. E nos braços do povo, fui exibido para tudo e todos, o homem cansado, uma verdadeira vítima da vida moderna, com todos os relacionamentos frios, trabalhos abusivos e transportes públicos precários. Um mártir da correria do dia-a-dia, sendo removido do trem e lançado na plataforma. Meu corpo rolou até a parede da estação, cheia de lindos grafites coloridos. E ali jazi por alguns minutos. Meus espancadores voltaram correndo para o trem e ficaram com expressão de alarde. Mais pessoas presenciaram a desgraça, ao meu redor, é claro. Pensei em quantas rodas de pessoas são formadas no mundo, apenas para presenciar coletivamente uma desgraça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por incrível que pareça, sentia o fim cada vez mais distante. Sorri um sorriso vermelho, vermelho vivo. Eu estava em frangalhos, mas naquele dia me libertei. A Elisa e sua frieza não valiam a pena. O trabalho e o dinheiro não valiam tudo aquilo. Finalmente eu vi a luz no fim do túnel. Custou uma boa quantidade de sangue, alguns dentes e a integridade de uns pares de ossos, mas finalmente eu, Nelson, mais conhecido como o homem cansado e estressado, estava livre.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-8323415095867272415?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/8323415095867272415/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=8323415095867272415' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/8323415095867272415'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/8323415095867272415'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2010/12/libertem-o-homem-cansado.html' title='Desalmado'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-6897332446078471741</id><published>2010-11-15T12:38:00.003-02:00</published><updated>2010-11-15T12:38:11.947-02:00</updated><title type='text'>O Chefe</title><content type='html'>&lt;link href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CFELIPE%7E1%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_filelist.xml" rel="File-List"&gt;&lt;/link&gt;&lt;link href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CFELIPE%7E1%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_themedata.thmx" rel="themeData"&gt;&lt;/link&gt;&lt;link href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CFELIPE%7E1%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_colorschememapping.xml" rel="colorSchemeMapping"&gt;&lt;/link&gt;    &lt;m:smallfrac m:val="off"&gt;    &lt;m:dispdef&gt;    &lt;m:lmargin m:val="0"&gt;    &lt;m:rmargin m:val="0"&gt;    &lt;m:defjc m:val="centerGroup"&gt;    &lt;m:wrapindent m:val="1440"&gt;    &lt;m:intlim m:val="subSup"&gt;    &lt;m:narylim m:val="undOvr"&gt;   &lt;/m:narylim&gt;&lt;/m:intlim&gt; &lt;/m:wrapindent&gt;&lt;style&gt;&lt;!-- /* Font Definitions */ @font-face	{font-family:"Cambria Math";	panose-1:2 4 5 3 5 4 6 3 2 4;	mso-font-charset:1;	mso-generic-font-family:roman;	mso-font-format:other;	mso-font-pitch:variable;	mso-font-signature:0 0 0 0 0 0;}@font-face	{font-family:Calibri;	panose-1:2 15 5 2 2 2 4 3 2 4;	mso-font-charset:0;	mso-generic-font-family:swiss;	mso-font-pitch:variable;	mso-font-signature:-1610611985 1073750139 0 0 159 0;} /* Style Definitions */ p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal	{mso-style-unhide:no;	mso-style-qformat:yes;	mso-style-parent:"";	margin-top:0cm;	margin-right:0cm;	margin-bottom:10.0pt;	margin-left:0cm;	line-height:115%;	mso-pagination:widow-orphan;	font-size:11.0pt;	font-family:"Calibri","sans-serif";	mso-ascii-font-family:Calibri;	mso-ascii-theme-font:minor-latin;	mso-fareast-font-family:Calibri;	mso-fareast-theme-font:minor-latin;	mso-hansi-font-family:Calibri;	mso-hansi-theme-font:minor-latin;	mso-bidi-font-family:"Times New Roman";	mso-bidi-theme-font:minor-bidi;	mso-fareast-language:EN-US;}.MsoChpDefault	{mso-style-type:export-only;	mso-default-props:yes;	mso-ascii-font-family:Calibri;	mso-ascii-theme-font:minor-latin;	mso-fareast-font-family:Calibri;	mso-fareast-theme-font:minor-latin;	mso-hansi-font-family:Calibri;	mso-hansi-theme-font:minor-latin;	mso-bidi-font-family:"Times New Roman";	mso-bidi-theme-font:minor-bidi;	mso-fareast-language:EN-US;}.MsoPapDefault	{mso-style-type:export-only;	margin-bottom:10.0pt;	line-height:115%;}@page Section1	{size:595.3pt 841.9pt;	margin:70.85pt 3.0cm 70.85pt 3.0cm;	mso-header-margin:35.4pt;	mso-footer-margin:35.4pt;	mso-paper-source:0;}div.Section1	{page:Section1;}--&gt;&lt;/style&gt;  &lt;/m:defjc&gt;&lt;/m:rmargin&gt;&lt;/m:lmargin&gt;&lt;/m:dispdef&gt;&lt;/m:smallfrac&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Opa chefe, tem um desses pra me descolar? – um homem com cabelos lisos e oleosos, com cavanhaque suspeito e óculos surrados se aproximou apontando para meu cigarro.&lt;br /&gt;- Quem tem chefe é índio, amigão... – e sentei a mão na cara do homem estranho.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Ele caiu rapidamente, mais pelo susto que pela força. Eu nunca venci uma briga, nem em meus sonhos. São frequentes os sonhos onde apanho, ou então, na melhor das hipóteses, bato em alguém porém sem força alguma. Acordo me sentindo impotente, levemente desesperado, pensando na fraqueza dos meus socos. Enfim, o homem sentou-se com a palma da mão esfregando a maçã do rosto, claramente transtornado.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Eu pedi um cigarro... – o homem tentou se erguer, falando com voz mansa.&lt;br /&gt;- Tome – estendi minha mão entregando dois cigarros ao pobre diabo - pegue um de brinde.&lt;br /&gt;- Eu merecia um maço por isso.&lt;br /&gt;- Vá tomar no cu, rapaz. Não tente me explorar – ergui novamente o braço para ajudá-lo a levantar.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Ele se ergueu, limpou a parte traseira da calça e o ombro direito. Acendeu um cigarro e ficou me fitando com expressão atordoada. Deu três longas tragadas e olhou para baixo. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Eu to cansado de ser escorraçado. Eu já fui um bom professor de história. Mas acho que ler aquelas merdas de Marx e Engels só contribuiu para minha ruína. Você não pode lutar contra o sistema. &lt;br /&gt;- Bom Deus, você é comunista? – perguntei enquanto me distraía com uma mulher rabuda que passava pela calçada no outro lado da avenida.&lt;br /&gt;- Sou. Mas como eu acabei de dizer, não há como lutar contra o sistema. &lt;br /&gt;- E o que faz hoje em dia? &lt;br /&gt;- Simplesmente ando por aí. Não pertenço ao sistema, não pago impostos para esses bandidos...&lt;br /&gt;- E nem trabalha – interrompi o homem.&lt;br /&gt;- Nem trabalho – complementou com olhar soturno –, mas não por falta de oportunidades. Simplesmente não vou me entregar ao jogo.&lt;br /&gt;- Então você resolveu mendigar, pedir cigarros e bebida pra gente desconhecida?&lt;br /&gt;- Em tese sim. Participo aleatoriamente de passeatas, manifestações e tento me manter longe da confusão. Mas como você vê, vivo me fodendo.&lt;br /&gt;- Vamos ali naquele boteco – apontei para a pocilga – te pago uma cerveja.&lt;br /&gt;- Ta querendo me comer, é? – agora o homem sofrido me olhava confuso.&lt;br /&gt;- Ta querendo morrer? Acha que quero enfiar meu pau no seu cu sujo de pedinte?&lt;br /&gt;- Tomo dois banhos ao dia. Sou limpo.&lt;br /&gt;- Você ta querendo dar a bunda?&lt;br /&gt;- Ta louco? Você que ta querendo me pagar cerveja.&lt;br /&gt;- E você ta dizendo que é limpinho... Precisa dar satisfação pra mim?&lt;br /&gt;- Só quis explicar que não sou um porco.&lt;br /&gt;- Tudo bem, foda-se. Vai querer uma cervejinha?&lt;br /&gt;- Ta certo, chefe.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Acertei um soco oportunista na região do fígado do homem estranho. Ele grunhiu e praguejou algumas curtas palavras. Suas pernas tremiam enquanto se encurvava. Tossiu por alguns segundos e cuspiu uma bola considerável de catarro esverdeado. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;-Eu já disse te disse que quem tem chefe é índio, seu malandro.&lt;br /&gt;- Tudo bem, tudo bem. Vamos ao boteco.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Atravessamos a avenida sem trocar palavras. Eu estava aproveitando o momento. Eu era o fortão, o violento.&amp;nbsp; Eu era o cara mau da história e estava gostando da sensação. Há muito tempo não andava de rosto erguido. Utilizei de alguns trejeitos para simular uma virilidade exagerada. “Eu poderia ser assim para sempre”, pensei. Mas olhei para meus braços finos e decidi que seria assim somente diante do comunista indigente.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Chegamos à espelunca que chamavam de boteco e sentamos diante de uma mesa de ferro vermelha, patrocinada pela Brahma. As cadeiras, também de ferro, apresentavam sinais de ferrugem em estado avançado. Um homem obeso não poderia utilizar uma cadeira como aquela. Ergui minha mão e fiz sinal para o atendente, solicitando uma cerveja. O atendente me olhou com o rosto traçado pelo marasmo e me chamou ao balcão. Reclamei em voz baixa e fui rapidamente saber o que ele queria.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Olha aqui, chefe... Nós não servimos cerveja na mesa. Tá vendo algum garçom por aqui? – enquanto falava, gesticulava como se quisesse me mostrar algo.&lt;br /&gt;- Do que você me chamou?&lt;br /&gt;- Chefe...&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Peguei um chumaço de cabelos do atendente e os puxei até o balcão, fazendo sua testa estalar contra a superfície dura. O impacto gerou um pequeno estrondo. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Quem tem chefe é índio, seu puto – dizendo isso, acendi um cigarro e olhei para o homem ainda desorientado. Soprei fumaça em sua cabeça e novamente puxei seus cabelos – Agora você vai nos servir a cerveja na mesa, você me ouviu?&lt;br /&gt;- Sim, agora me solte! – sentia o desespero dele vibrando em meus nervos.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O homem se recompôs, arrumando o cabelo. Caminhou até a geladeira e buscou uma Brahma gelada. Abriu a garrafa e a deixou em nossa mesa.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Sirva nossos copos, seu palerma! – dessa vez deixei minha frieza de lado e me exaltei.&lt;br /&gt;- Não é necessário, eu sirvo – o comunista se antecipou fazendo gesto apaziguador.&lt;br /&gt;- Quando eu pedir para um comunista intervir em assuntos de boteco, eu te chamo. Mas por hora, fique na sua.&lt;br /&gt;- Você é um cara estranho. Você me dá pena.&lt;br /&gt;- O pedinte na história é você, eu tenho pena de você.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Enquanto isso, o atendente ficava pardo ouvindo nossa discussão.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Não fique parado aí! – apontei meu dedo indicador, torto na ponta, para a cara do atendente.&lt;br /&gt;- Pois não – e lentamente o atendente despejou cerveja em nossos copos.&lt;br /&gt;- Ah! Finalmente um pouco de classe nessa maloca do caralho! – enfim despejei algumas palavras denotando prepotência e desprezo.&lt;br /&gt;- Meu Deus do céu... – o andarilho vermelho lamentava discretamente por todas as minhas atitudes.&lt;br /&gt;- Você é comunista, seu homem ruim. Você não acredita em Deus.&lt;br /&gt;- É uma expressão que todo mundo usa.&lt;br /&gt;- Pro inferno com as expressões! Vamos beber!&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O atendente pediu licença e eu consenti. Um grande galo se formou em sua testa. Eu dei uma risada de satisfação e peguei um palito de dentes. Comecei a mordiscá-lo deixando a pequena peça de madeira repousada no canto de minha boca. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Você quer um emprego? Posso te conseguir – inquiri a triste figura que bebia comigo.&lt;br /&gt;- Eu já disse que não me faltam oportunidades. Eu não vou me entregar à esse sistema falido&lt;br /&gt;- Sistema? Cara, desde que o mundo é mundo, existem fortes e fracos. Sempre vai valer a máxima: “quem pode manda, quem tem juízo obedece”. Não adianta se excluir e achar que está fazendo algo.&lt;br /&gt;- Eu tenho o direito de fazer o que quiser com minha existência. &lt;br /&gt;- Direito? – fiz um ruído de desprezo com meus lábios – Balela! Você deveria agradecer ao bom Deus a graça de poder existir. E eu deveria blasfemar contra todo tipo de divindade por causa de sujeitos como você.&lt;br /&gt;- Qual é o problema com sujeitos iguais a mim? – dizendo isso, tirou seus óculos e limpou as lentes utilizando hálito e a camisa.&lt;br /&gt;- Sujeitos como você são ditadores enrustidos. Se dessem o poder à vocês, vermelhos desgraçados, vocês iriam cortar todas as liberdades básicas do povo, dando pão e salsicha de comida e trabalhos braçais que não tem nada a ver com nosso tempo.&lt;br /&gt;- O que tem a ver com nosso tempo?&lt;br /&gt;- Tecnologia. Você viu os avanços da nanologia? Os chips estão cada vez menores e armazenando cada vez mais dados. A internet, os serviços... o ser humano está evoluindo, trabalhando com a mente e deixando as máquinas cuidarem do esforço. &lt;br /&gt;- O homem está ficando obeso e relaxado, é isso o que acho.&lt;br /&gt;- Mas é a maldita evolução das espécies, pelo amor de Deus! – ensaiei uma levantada triunfal, erguendo os braços, detendo a razão em minhas mãos, mas eu estava muito próximo à mesa e percebi que o movimento demandaria mais habilidade. Desisti.&lt;br /&gt;- Evolução. O homem estagnou. Ele não evoluirá mais. Somente o socialismo poderá nos levar rumo à uma sociedade mais justa. Esse papo de evolução trata o homem como um indivíduo. Precisamos pensar no coletivo! – Agora o revolucionário de meia pataca estava se exaltando – O egoísmo está fodendo com a base da sociedade, está destruindo a família!&lt;br /&gt;- Calma, aê, sua imitação barata de Che Guevara – acalmei seus ânimos fazendo sinal de silêncio com o dedo indicador torto – Por que você não mata um presidente? Por que não monta uma guerrilha armada? &lt;br /&gt;- E quem se juntaria á mim? São todos revolucionários de butique.&lt;br /&gt;- E você é um revolucionário exemplar? Você não passa de uma ruína ambulante. Só isso.&lt;br /&gt;- Olha aqui, chefe...&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Peguei meu copo preenchido com cerveja até a metade e esparramei o líquido dourado no rosto dele. Ele prontamente esfregou os olhos e deu um soco na mesa pois sentiu as bolhas de gás da cerveja estourarem em seus olhos. Mas sua revolta foi abafada por um tapa que desferi em seu rosto, com as costas de minha mão direita. Ele gemeu levemente e desviou seu olhar para um cartaz de cerveja. A mulher no cartaz era gostosa.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Quem tem chefe é índio. Eu já te disse, seu comuna vagabundo. Mas nunca te disse uma coisa: você parece com o Trotsky, sabia? – acendi outro cigarro. &lt;br /&gt;- É, eu sei. Quem conhece o Trotsky sempre me diz isso. &lt;br /&gt;- Pois então te chamarei de Trotsky. Ou prefere Leon? &lt;br /&gt;- Eu prefiro meu nome, Demétrio.&lt;br /&gt;- Que nome ridículo. Seus pais estavam de ressaca quando te registraram, aposto minhas bolas nisso.&lt;br /&gt;- Provavelmente isso é verdade, pois eles era alcoólatras.&lt;br /&gt;- Pais alcoólatras... você só poderia ter virado comunista – deixei aflorar mais um pouco de minhas inclinações de extrema&amp;nbsp; direita – pelo menos não virou poeta ou vegetariano. Embora vocês todos, no final das contas, não passam da mesma coisa.&lt;br /&gt;- E qual é o seu nome? Posso saber?&lt;br /&gt;- Artur. E quero ver meu nome tatuado no seu rabo – soprei fumaça na cara dele.&lt;br /&gt;- Artur, você é uma espécie de neo-nazista? Integralista? Pertence a alguma frente nacionalista?&lt;br /&gt;- Pro inferno com a política e suas ideologias, Trotsky.&lt;br /&gt;- Me chame de Demétrio – me interrompeu enquanto furtava um cigarro de meu maço.&lt;br /&gt;- Não, seu nome é Trotsky. E pare de se aproveitar de meus cigarros, seu meliante.&lt;br /&gt;- Você fala como um militar dos anos 50. Isso é repugnante.&lt;br /&gt;- E você se veste como um comunista dos anos 20. Parece os políticos do Partido da Causa Operária ou do PCB.&lt;br /&gt;- O velho partidão... Remanescente das ideias do grande Luis Carlos Prestes!&lt;br /&gt;- Luis Carlos Prestes... – fiz novo ruído de desprezo com os lábios – Perambulou pelo Brasil e não fez porra nenhuma... – coloquei mais cerveja em meu copo, esperando a resposta que o bastardo me daria.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Ele não respondeu. Ajeitou os óculos em seu rosto e pediu licença. Levantou-se lentamente e caminhou até o balcão. Seus sapatos eram surrados, como os de um vagabundo americano dos anos 30. Usava um blazer grosso de algodão com os cotovelos de couro, típico de um professor fracassado com tendências esquerdistas. Dei uma risada de deboche ao perceber que ele conversava em voz baixa com o atendente. O galo na testa do atendente era evidente e vergonhoso. Os dois conversavam sem dar pista do que poderia ser o assunto. Comecei a ficar intrigado.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Meninas, podem parar de confidenciar a cor de suas calcinhas? Seu imprestável, traga mais cerveja aqui na mesa!&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Ninguém me respondia. Coloquei outro palito de dentes na boca e me irritei. Eu estava extremamente embriagado pelo poder que o testosterona proporcionava. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Seus paspalhos! O que vocês estão confabulando? – utilizei de meu vocabulário inadequado para impressionar um pouco. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Eles se voltaram para mim e ficaram parados, inexpressíveis e imóveis. Trotsky tinha um par de óculos opaco e riscado e aquilo me deixava indignado. Nunca confie num homem de óculos sem brilho. Tentei insultá-los mais um pouco, mas nada os fazia alterar a expressão. &amp;nbsp;Fiquei enfezado e quando me preparava para levantar e dar uma lição naqueles homens mal-criados. Mas eles foram mais rápidos e se correram em minha direção. Levantei-me derrubando a mesa, fazendo um obstáculo para meus agressores. Funcionou melhor do que eu esperava. O comunista caiu no chão, em cima de seu ombro e ganiu, desta vez com tom escandaloso. O atendente era mais esperto e conseguiu frear sua corrida antes de se encontrar com a mesa. Cacos de vidro se espalhavam por todo o chão. Lamentei pelo Trotsky não ter se ferido em um deles. O atendente alcançou uma vassoura reclinada ao lado da porta do banheiro e começou a gritar como se fosse um guerreiro mongol conquistando algum reino sofrido asiático. Tomei uma cacetada no braço pois tentei me defender. Como doeu. Mas tive a frieza de pensar que não poderia gritar. Não eu, o homem violento do Cambuci. Cerrei meus dentes exibindo ódio e me joguei contra o pobre diabo. Eu me sentia vivo, meus braços estavam leves, anestesiados pelo ódio. Finalmente aprendi a brigar. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Por favor, por favor! Não me bata! – o atendente estava caído no chão em posição vexatória. &lt;br /&gt;- Eu vou te currar as orelhas! – não sei de onde tirei essa frase, mas soou bastante agressiva.&lt;br /&gt;- Por favor, leve o que quiser, mas não me espanque! Oh, meu Deus!&lt;br /&gt;- Eu não quero nada desse bar maldito! Apenas jure que nunca mais vai tentar agredir um cliente! – sempre quis fazer alguém jurar em estado de humilhação.&lt;br /&gt;- Eu juro! Eu juro! – o atendente estava de joelhos. Percebi que havia um corte na parte calva de sua cabeça.&lt;br /&gt;- Que Deus tenha misericórdia da sua alma. Ponha-se em pé, seu vadio – eu estava soberbo em meu papel de senhor das ruas.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O atendente levantou-se e prontamente correu para trás do balcão. Olhei para a jukebox e resolvi &amp;nbsp;procurar por uma boa canção. Procurei no arquivo da máquina por algum disco conhecido. Apenas apareciam álbuns de forró. Malditos nordestinos que estão morando perto do Largo do Cambuci. Todos os porteiros dos prédios e vigias de lojas da região estão bebendo nesses botecos. Comecei a me irritar com a jukebox. Encaixei um bom murro no equipamento e olhei para trás, verificando a situação do bar. O Trotsky estava sentado no chão, sem ânimo para nada. Um farrapo de gente. O atendente permanecia atrás do balcão, manipulando um pote de vidro cheio de ovos cozidos, rosados e em conserva. Um nojo só. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Não tem música decente nessa jukebox, caralho? – intimei o pobre atendente que escolhia as palavras para me responder.&lt;br /&gt;- A... A... A ma... maioria é forró. Ma... Mas tem coisa bo... boa sim – o homem sofrido gaguejada constrangido. Senti uma leve pena.&lt;br /&gt;- Qual é o seu nome?&lt;br /&gt;- Carlos. Mas me... me chamam de Ca... Carlão – e continuava gaguejando com seu triste sotaque de pernambucano.&lt;br /&gt;- Carlão? Pra mim é Carlinhos – menosprezei seu apelido e apontei para os cigarros expostos numa estante na parede atrás do balcão – Carlinhos, me jogue um maço de Lucky Strikes vermelhos.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Ele rapidamente trouxe até a jukebox, com um cinzeiro limpo. Agradeci o fraco homem com um leve toque em seus ombros. E voltei a procurar um bom álbum na merda da jukebox. Depois de alguns segundos de pura atenção, achei uma preciosidade: Nelson Gonçalves. Meus nervos se acalmaram e escolhi a música “Negue”. Aquele compasso de bolero começou a preencher todos os espaços da espelunca. Dei um sorriso e acendi um cigarro. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Agora você vai ouvir uma boa cantiga, Carlinhos. Nada de risca-faca nessa porra.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Ele ficou em silêncio, sem reação. Continuou seu trabalho. Trotsky permanecia sentado. Achei aquela cena ridícula.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Trotsky, levanta daí, seu miserável, ou vou te erguer em meio a pontapés! – meu esporro foi imponente e enérgico.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O deplorável marmanjo levantou-se e procurou uma cadeira. Joguei dois cigarros para ele e o isqueiro. Mandei ele devolver depois. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Nem percebi que a noite já havia chegado. Fui para fora do boteco verificar a avenida. A Lins de Vasconcelos estava cada vez mais movimentada. Pessoas não paravam de passar na calçadas. Carros cada vez mais bonitos passeavam pelo asfalto novo que se prolongava por quilômetros. Voltei ao bar e sentei&amp;nbsp; numa cadeira, cruzando minhas pernas. Ergui meu rosto e passeei meu olhar por todo o boteco.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Cavalheiros, isso que é música! – ergui meu copo de cerveja – Carlinhos, pegue uma cerveja para beber. Sou generoso. Sou mau, mas generoso! E não esqueça de servir o Trotsky.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Ele me obedeceu e serviu os copos. Preencheu o que faltava no meu e foi para trás do balcão. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Só mais uma coisa, Carlinhos. Isso é uma espelunca, mas nada justifica essa baderna toda. Quero esse lugar arrumado! E é pra hoje, seu picareta!&lt;br /&gt;- Sim senhor.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Resolvi que frequentaria aquele bar daquele momento em diante. A jukebox precisava de uns ajustes, mas o preço da cerveja estava decente e o Carlinhos era um pelego frustrado e cabisbaixo. Sobre o Trotsky, bem, darei um jeito de fazê-lo frequentar aquela espelunca. Depois que ele tatuar meu nome no rabo, é claro.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;De repente um toque de relógio começou a soar. Cada vez mais alto e irritante, como se fosse uma sirene de bombardeio. Olhei para os lados e Trotsky não estava mais lá. Carlinhos evaporou e o som do relógio era cada vez mais insuportável. Minha cabeça estava por explodir.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Alguém pare com essa porra! Vou espancar o dono desse relógio! EU VOU MATAR O MALDITO DONO DO RELÓGIO!&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Quando percebi, estava em minha cama, tonto e confuso. Levantei em um pulo e corri para o banheiro. Me olhei no espelho e toquei em meu rosto. A barba estava por fazer e meu cabelo estava amarrotado. Voltei para a cama e o relógio ainda tocava. Como um soco, veio a percepção: eu sonhei com tudo aquilo. Dei um murro no relógio e praguejei. Senti uma frustração terrível e abaixei a cabeça. O rosto do Trotsky e do Carlinhos ainda voavam pela minha mente.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Trotsky, seu comunista safado. Se você existisse, eu acabaria com sua raça! – quando ergui meu rosto, minha cabeça latejou. Ressaca. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Fechei a janela do quarto e acendi um cigarro. Busquei dois comprimidos de Anador e os tomei. Pensei no covarde do Carlinhos e no respeito que conquistei à base da violência gratuita.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Diabos, ao menos venci uma briga em sonho.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Deitei na cama e esperei o sono voltar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-6897332446078471741?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/6897332446078471741/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=6897332446078471741' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/6897332446078471741'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/6897332446078471741'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2010/11/o-chefe.html' title='O Chefe'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-6762356890865555548</id><published>2010-07-28T18:22:00.001-03:00</published><updated>2010-07-28T18:24:23.764-03:00</updated><title type='text'>Sombras no Paredão</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:11.5pt;"&gt;- Sabe aquela concepção de futuro cheio de libertinagem nas ruas? Putas sagradas, estátuas exaltando a sacanagem de alguma forma bem vulgar? – cocei minha testa enquanto procurava conectar meu olhar com o de Alberto.&lt;br /&gt;- Sei sim, aquelas maluquices daquele quadrinho adulto lá, qual é o nome mesmo? Porra, ta na ponta da língua... – ele permanecia imóvel, sentado com um braço apoiado no joelho direito e coluna inclinada para frente.&lt;br /&gt;- Trasmetropolitan? Não é esse?&lt;br /&gt;- Isso, exatamente! Então, acho que nunca vai rolar um futuro assim. As pessoas são moralistas demais, preocupadas demais em esconder suas vergonhas – enfim se livrou da posição incômoda e com um sorriso de satisfação, se aconchegou no encosto do sofá.&lt;br /&gt;- Concordo com você. Malditos cristãos – soltei um peido - E aquele careca? O Spider Jerusalem, porra, é sensacional! Acho que tenho um pouco daquele personagem.&lt;br /&gt;- Todo mundo que é adepto do livre pensamento, tem um pouco daquele cara.&lt;br /&gt;- Insano – troquei o cinzeiro de lugar – aquele cara é extremamente insano.&lt;br /&gt;- Insano foi o dia que procurei informações sobre vender a alma para o diabo.&lt;br /&gt;- Hã? – me arrumei no sofá deixando cair uma chuva de cinzas em meu colo – Porra!&lt;br /&gt;- Graças ao John Constantine. Hellblazer, manja?&lt;br /&gt;- Sei sim. Cacete, eu era o maior fã, mas nunca quis imitar o cara tão profundamente, hahaha.&lt;br /&gt;- É, eu geralmente me entrego demais para personagens que admiro. Aliás, me entregava. Hoje eu sou um rato apegado ao personagem mais idiota que existe, Alberto Mascarenhas.&lt;br /&gt;- Não seja tão duro, man. Você é uma bicha depressiva. Parece até o Alfredo lá do meu trabalho. Vive trazendo à tona sua depressão. Se a gente estiver falando sobra o porra do Papa, ele vai dar um jeito de desviar o assunto até chegar nos traumas dele.&lt;br /&gt;- Sei lá, minha mente ta meio baleada por tanta pressão. O estresse realmente é a doença do século vinte e um. Caralho, eu não consigo mais me concentrar – Alberto bebia uma caneca generosa de café.&lt;br /&gt;- Você devia parar com isso.&lt;br /&gt;- Com isso o que? Cigarro?&lt;br /&gt;- Café. Você toma café demais. Tem cafeína pra caramba, sabia? E aposto vinte mangos como você passa o dia inteiro bebendo café no trabalho – enquanto eu falava, apontava para a caneca dele.&lt;br /&gt;- É, você ganharia a aposta. Colocaram uma maldita máquina de café no meu departamento. E você sabe, né? Escritório de advocacia, todo aquele papo de “peça ao estagiário que me traga café”. E no embalo, eu bebo café também. Altas doses.&lt;br /&gt;- Eu já passei por todo esse processo de estresse, pânico, ansiedade. O Maulin tem muito disso também. Sabe o que é bom? Passiflora em comprimidos. Pelo menos comigo funciona.&lt;br /&gt;- Alguém já comentou comigo, mas eu acabei esquecendo o nome dessa merda. Onde eu acho? – Alberto já estava inclinado novamente, denunciando seu grau de curiosidade e interesse.&lt;br /&gt;- Qualquer farmácia. Mas porra, não é pra se entupir daquela merda – exaltei minha voz em advertência – Você toma dois em dias em que a coisa está preta. Mas você tem que se acalmar, desencanar um pouco da vida, não dar muita importância pras coisas.&lt;br /&gt;- Caralho, mas é muita pressão. Aqueles advogados são um carrapato nas minhas bolas, man, eu to dizendo! – deu um soco no braço do sofá.&lt;br /&gt;- Eu sei, mas se você achar que aquele é o último lugar do mundo, você vai ficar paranóico. Ou você confia em si, ou então você ta liquidado – fiz um sinal de garganta cortada, deixando uma chuva de saliva voar pelo ar.&lt;br /&gt;- Faz sentido. Mas pra você crescer nessa carreira, você precisa de colhão, ambição, malandragem. Você precisa ser um rato pra conquistar clientes, achar brechas na lei, analisar processos. Eu quero ser juiz – me fuzilou com os olhos.&lt;br /&gt;- Você quer enlouquecer, isso sim. Porra, você não sabe que todo homem que tem um cargo alto, de responsabilidade, tem alguma retaguarda para salvar o rabo?&lt;br /&gt;- Do que você ta falando, man?&lt;br /&gt;- Tem algum passatempo, alguma coisa que faz a cabeça desconectar do mundo. Segue alguma religião, pinta quadros, coleciona selos, faz alguma merda que o protege do profissional que existe dentro de si, sabe?&lt;br /&gt;- Sei. Mas eu não sei o que fazer. Eu gosto de música. Eu gosto de rock. O que você faz?&lt;br /&gt;- Eu escrevo ouvindo jazz, eu coleciono vinis e tento não levar o mundo tão a sério. Claro que nem sempre funciona, mas o esquema é morrer tentando.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:11.5pt;"&gt;Eu parecia um maldito guru decaído dando dicas para um amigo. Eu não sabia do que estava falando ao certo. Mas quando você vence uma pequena batalha contra sim mesmo, você se acha o mestre dos mares, o deus das putas, o profeta da canalhice. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:11.5pt;"&gt;- Eu gosto de viajar. Sempre sonhei em sair do Brasil. Conhecer novos horizontes, comer alguma gringa e quem sabe, ser sustentado por ela, morando na Espanha, por exemplo.&lt;br /&gt;- É uma boa linha de raciocínio, man. Tem gente que junta grana o ano inteiro, e depois complementa com a grana das férias. Vai pra algum lugar exótico, faz mochilão na Europa. Porra, já imaginou assistir um show do Nada Surf num festival cheio de loucos europeus?&lt;br /&gt;- Caralho, pode crer! Isso sim é o esquema! Vou passar na livraria e comprar algum guia, acho que vou pra Espanha mesmo – o entusiasmo tomou conta da voz de Alberto.&lt;br /&gt;- É meio embaçado de entrar lá. Os caras estão em crise de desemprego, acham que qualquer estrangeiro vai roubar o emprego dos caras. Eles dificultam de qualquer jeito. Mas sei lá, vá se informar na embaixada da Espanha, sei lá, porra – girei meu cigarro olhando para a janela.&lt;br /&gt;- Você iria pra onde?&lt;br /&gt;- Paris ou Nice ou Lyon. Resumindo: França.&lt;br /&gt;- Aquele lance do Serge Gainsbourg é coisa séria então?&lt;br /&gt;- Porra, man. Quero comer croissants num café francês. Comprar aquelas baguetes e colocar no sovaco e assobiar algum som do Jaques Briel. Fumar cigarros nas margens do rio Sena, xavecar aquelas beldades francesas – eu olhava para o teto com saudosismo em meu semblante, como se já estivesse por lá em alguma época.&lt;br /&gt;- É, você já tem o roteiro pronto, Nelson. Eu iria pra Barcelona ou Madri.&lt;br /&gt;- São belas cidades, com belas garotas – fiz um losango juntando meus dois polegares e indicadores, fazendo alusão a uma vagina.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:11.5pt;"&gt;Eu sou um merda, nunca me senti muito útil, a não ser para a função de companheiro de bebida. Eu confesso que sou um cara legal pra conversar, mas o tempo passa e confesso também que geralmente o conteúdo da minha cabeça não acrescenta nada de aproveitável aos meus amigos. Mas quando ajudo de alguma forma, entre fumaças de cigarros e goles de café, me sinto recompensado. Como se as minhas experiências ruins não tivessem acontecido em vão. Daí se origina o prazer em ajudar o próximo. Alguns sentem um prazer orgástico ao fazer o bem, outros apenas sentem uma sensação diferente, mas prazerosa. O que é meu caso. &lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt; &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:11.5pt;"&gt;Após algumas canecas de café, sentimos a necessidade de uns bons drinques. Fomos até o mercado e compramos uma garrafa de vodka e uma garrafa de suco de laranja. Fizemos alguns Hi-fis e enchemos a cara. Os assuntos estavam cada vez mais dinâmicos. Alberto quando bebia falava rapidamente sobre diversos assuntos. A discussão sobre o sentido da vida para ele não poderia tomar mais que dois minutos. A morte do Elvis era papo para trinta segundos. Ele ficava extremamente elétrico, como se cheirasse uma carreira de pó do tamanho de um cabo de vassoura. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:11.5pt;"&gt;Colocamos um som pra rolar, e pedimos uma pizza. Bebíamos sem pausa e comíamos como refugiados de guerra. Foi uma boa noite, mesmo sabendo-se que o dia seguinte era apenas quarta-feira. Ressaca no trabalho era uma questão de estado. Talvez fosse a grande epidemia corporativa, claro, depois do assédio sexual, afinal, nenhum chefe gostava de acalmar sua cobra mesmo em ambiente de trabalho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:11.5pt;"&gt;- Cara, tem uma secretária lá no meu trabalho. A vadia é escancaradamente uma puta de escritório! – Alberto não gostava muito de sacanagem em ambiente de trabalho, desde quando descobriu que sua ex-namorada fazia hora extra num motel.&lt;br /&gt;- Eu já saquei muito dessas galinhas do caralho – eu apontei o dedo como se houvesse flagrado alguma cena secreta, com um sorriso carniceiro exposto.&lt;br /&gt;- O foda não é trepar com um colega de trabalho. Elas têm o direito, porra, mas deixar uma rola crescer dentro dela só pra crescer dentro da empresa? Isso eu acho feio. É mais digno virar puta, ao menos você não esconde de ninguém que tem competência apenas pra dar o rabo... – deu um curto gole em sua bebida e girou os olhos.&lt;br /&gt;- É, gosto das putas e dos travestis porque eles fazem o que fazem e querem mais é que a opinião do mundo se foda. Se gostam ou não, pelo menos têm colhões pra fazer.&lt;br /&gt;- Putas com colhões, mais conhecidas como travestis – Alberto começou a rir – Entendeu?&lt;br /&gt;- Hahaha, boa piada! – coisas da vida.&lt;br /&gt;- Você tem uma amiga travesti, não tem? – não sei de onde ele tirou essa informação, talvez eu num momento em que eu estava bêbado.&lt;br /&gt;- É, a Magda. Moça legal. Bem bonita, engana bem. Com travesti é assim. Não existe traveco bonito ou feio, existe traveco parecido ou não com mulher. Esse é o grau de beleza deles. Se eles enganam um cara, então isso é uma satisfação pessoal. Eles querem virar mulher, e só não cortam a rola porque não deixa de ser o órgão de prazer deles – matei meu drinque e me levantei para preparar outro – quer mais um copo?&lt;br /&gt;- Sim, mas agora sem o suco. Coloque só um gelo – Alberto esticou o braço e se espreguiçou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:11.5pt;"&gt;Fui até a cozinha e fiz os dois drinques. Peguei a caixa da pizza que contava com três pedaços remanescentes e levei pra sala junto aos copos. Me apoderei de um pedaço e dei uma boa mordida. Um peperoni caiu no chão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:11.5pt;"&gt;- Nessas horas um cachorro seria útil. É só chamar o bicho e ele vem limpar o chão – disse enquanto pegava o peperoni e o desprezava na caixa de pizza junto aos caroços de azeitona preta.&lt;br /&gt;- Caralho, mas você já comeu essa sua amiga travesti? – Alberto era insistente em prosseguir com o assunto. Geralmente - como disse há pouco - os assuntos duravam trinta segundos. Mas esse prometia ser longo e revelador.&lt;br /&gt;- Já sim. Conheci a Magda em uma balada. A velha história: tudo escuro, mulher bem gostosa e bonita. Enchia minha mão em sua bunda e a beijava com paixão. Eu me achava o cara mais sortudo de todos com aquele mulherão em meus braços. Mas antes do clima ficar pornográfico demais, com todas as passadas de mão e beijos acalorados, tivemos uma conversa tão inteligente, fiquei impressionado com a inteligência dela.&lt;br /&gt;- E a voz, porra? Não deu pra perceber? – Alberto alcançou o maço de cigarros e acendeu um.&lt;br /&gt;- Cacete, não deu pra perceber! Ela disse que foi muito hormônio feminino. Ela já tinha voz fina quando era homem.&lt;br /&gt;- Caralho – ao dizer isso, assoprou fumaça na minha cara.&lt;br /&gt;- Se assoprar fumaça na minha cara de novo, te encho de porrada, man... – o ameacei com o punho cerrado – Então, eu a levei aqui pro apê e sem pensar muito, tiramos as roupas em meio aos beijos. Parecia uma cena de filme mesmo – eu já estava gesticulando mais que um italiano epilético.&lt;br /&gt;- E a rola dele? Vai dizer que sumiu com os hormônios também?&lt;br /&gt;- Vai se foder, Alberto. Quando fui dar uma dedada na boceta da moça, senti que o clitóris dela era muito grande! Hahaha – Alberto não riu comigo. Me recompus desajeitado e continuei – O foda de tudo isso é que ela era gente boa. A conversa foi legal, dei muita risada com as coisas que ela falava.&lt;br /&gt;- E você fez o que? Chupou o pau dele? – continuava a se referir à Magda como ‘ele’.&lt;br /&gt;- Não, man! Eu levei um susto. Ela saiu da cama só com a blusinha e o pau duro feito uma espada. Ela disse que podia explicar e quando disse isso, puxou um canivete de sua bolsa e disse “se afaste de mim, vou pegar minhas coisas e dar o fora, mas não venha me bater!”.&lt;br /&gt;- Porra, ele estava esperto! – Alberto se divertia com a história e parecia não ser deboche.&lt;br /&gt;- Estava bem esperta. Quando a vi ali em alerta, acuada, querendo se defender, parei pra pensar na vida desses travestis que querem somente se divertir. Eu disse a ela para guardar o canivete pois eu não iria tentar nada com ela. Me jogou um olhar de desconfiança e enquanto a cena se desenvolvia, o pau dela já tinha amolecido.&lt;br /&gt;- MAS O QUE ACONTECEU AFINAL? – já estava impaciente com minha enrolação.&lt;br /&gt;- Eu a comi. Mas juro pela alma do Serge Gainsbourg que não dei meu rabo.&lt;br /&gt;- Caralho velho, que nojo! – fez uma cara de desgosto e amassou o filtro do cigarro no cinzeiro.&lt;br /&gt;- Nojo? Ela não é homem, porra. O cu dela era uma delícia, os peitos firmes e grandes. Ela tinha um bundão imenso!&lt;br /&gt;- Mas tem uma rola imensa lá na frente! – e fez como se pegasse seu pau e o masturbasse.&lt;br /&gt;- O que ela me disse na manhã é que ela estava realizada. Finalmente foi a uma balada, ficou com um cara, transou com ele e apenas deu o cu. Não precisou comer o cara. Se sentiu uma mulher por não ter sido ativa, apenas passiva – acendi um cigarro e jorrei a fumaça na direção de Alberto -&lt;br /&gt;- Faz sentido. E ela quis te namorar?&lt;br /&gt;- Não, porra. Ela virou uma amiga muito próxima. Às vezes a gente bebe lá pelos lados de São Judas. Ela tem um ponto na avenida Indianópolis. Sempre bebemos antes do expediente dela. Ela faz faculdade, mas agora que entrou de férias, foi para a Itália gravar uns filmes pornôs. Ela tem grana pra cacete, essa vida de prostituição dá grana, man.&lt;br /&gt;- É, vamos brindar às putas e aos travestis! – ergueu seu copo cheio de vodka pura e o bateu contra o meu.&lt;br /&gt;- É, às putas e aos travestis! À Magda que ta dando o rabo na Itália e enchendo o mesmo rabo de dinheiro!&lt;br /&gt;- Acho que vou virar michê. Comer mulheres velhas, levar chupada no pau e ganhar grana por isso – Alberto tinha altas doses de satisfação em seu rosto e com os olhos fechados, se reclinou no encosto do sofá, como se estivesse sonhando.&lt;br /&gt;- É, mas vai ter que comer o cu de velhos de sessenta anos. E de vez em quando, dar o rabo pra eles também! Hahaha!&lt;br /&gt;- Porra, que nojo. Deixa eu sonhar com o meu estilo de prostituição... – e fechou os olhos novamente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;font-size:11.5pt;"&gt;O meu segredo com Magda foi secreto até eu beber gim e quase vomitar meu fígado. Eu estava rodeado de amigos e amigos de amigos. Falavam de sacanagem e eu completamente agraciado pelo álcool que corria em minhas veias, metralhei as sombras que escondiam esse detalhe de minha vida sexual.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;span style="line-height:115%;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:Calibri;mso-fareast-theme-font:minor-latin;mso-bidi-Times New Roman&amp;quot;;mso-bidi-theme-font:minor-bidi;mso-ansi-language:PT-BR; mso-fareast-language:EN-US;mso-bidi-language:AR-SAfont-family:&amp;quot;;font-size:11.5pt;"&gt;A noite começava a esfriar e as ruas já não emanavam sua energia. As pessoas de bem se abrigavam em suas casas, prontas para mais um dia árduo de trabalho. “Deus ajuda quem cedo madruga”. Então estou fodido. Menos um pra me ajudar nessa vida. Ainda eu estava por cima: tinha um punhado de amigos, os cigarros e as bebidas. O futuro não me parecia brilhante, mas sabia que o sol queimaria minha cabeça no outro dia, sua luz espancaria minha vista, ajudando a ressaca a rasgar minha alma.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-6762356890865555548?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/6762356890865555548/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=6762356890865555548' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/6762356890865555548'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/6762356890865555548'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2010/07/sombras-no-paredao.html' title='Sombras no Paredão'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-5134819363552435938</id><published>2010-07-28T18:20:00.001-03:00</published><updated>2010-08-02T15:36:44.697-03:00</updated><title type='text'>Anjinhos Violados</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="line-height: 55px; font-size: -webkit-xxx-large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"   style="font-family:'Trebuchet MS', sans-serif;font-size:130%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: 15px; line-height: 17px;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"   style="font-family:'Trebuchet MS', sans-serif;font-size:130%;"&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Agora me passe logo o nori, Nelson – Samuel solicitou sem olhar para mim, apenas com a mão estendida.&lt;br /&gt;- Que porra é nori? – eu passeava meu olhar por todas as tranqueiras japonesas na mesa de minha cozinha mas não fazia idéia do que era um nori.&lt;br /&gt;- Puta merda, você nunca comeu comida japonesa?&lt;br /&gt;- Já sim, mas eu gosto de comer, não fiz um curso.&lt;br /&gt;- Todo mundo deveria fazer um curso de culinária japonesa – Samuel arqueava a sobrancelha olhando para mim, como se me revelasse a solução de um mistério da humanidade.&lt;br /&gt;- Você é um filho de uma puta exagerado. Um maluco, pra ser exato.&lt;br /&gt;- Nori é a alga, essa folha escura e crocante aí – ignorando minhas constatações sobre ele, apontou para um pacote cheio de folhas negras – sem isso, não existe maki sushi.&lt;br /&gt;- Maki sushi? Porra, pare de falar como se eu manjasse alguma merda da culinária japonesa!&lt;br /&gt;- Maki sushi é todo sushi envolvido por nori, a folha de alga. Entendeu?&lt;br /&gt;- É, entendi. Mas já vi sushis sem essa alga, com gergelim por fora, manja?&lt;br /&gt;- Manjo. E esses sushis têm alga sim, só que ficam dentro.&lt;br /&gt;- Eu nunca vou entender esse papo de sushi. Como é que se faz a alga ficar por dentro? – meu cérebro foi dobrado e redobrado após tentar imaginar como se fazia aquilo.&lt;br /&gt;- Bem, o segredo é o filme de PVC, sabe? Filme plástico – Samuel cortava uma pequena peça de salmão fresco enquanto respondia minhas perguntas com semblante soberbo. &lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt; &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Samuel é um velho amigo, que eu costumava ver ocasionalmente, mais ou menos de seis em seis meses. Mas era um cara engraçado demais para ser ignorado. Eu gostaria de vê-lo mais vezes, mas ele sempre estava fazendo algo diferente, e sempre quando ele aprendia algo novo, fazia questão de se exibir. Um defeito fodido nele é que gostava de cultivar a soberba que citei há pouco, como se todos fossem fracassados por não saber o que ele acabara de aprender. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Resolvi promover uma pequena reunião de amigos, com mulheres incluídas. A minha intenção basicamente era chamar uns amigos pra conversar, beber e cantarolas velhas canções. Samuel queria mesmo se exibir para todos, mostrando que sabia fazer comida japonesa. Eu admiro muito quem entende os mistérios daquela culinária, mas tava pouco me fodendo se iria comer sushi ou torresmo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Eu terminava de lavar as louças enquanto comentava sobre algumas mulheres que andei comendo. Samuel me interrompeu.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Caralho, não deixe cair essas gotas em cima do nori! – Samuel se exaltava erguendo sua faca.&lt;br /&gt;- Então tire o nori da pia, porra! Pra ser um bom sushiman, você precisa ser organizado! – respondi à exaltação com uma boa lição de moral.&lt;br /&gt;- E o que você sabe sobre tudo isso? – Samuel me olhou de lado com desconfiança.&lt;br /&gt;- Eu não sei de porra nenhuma, mas isso é óbvio, sua mula! – peguei uma cerveja na velha geladeira – E é bom você acalmar seus ânimos, porque eu não sou suas nêgas pra você gritar desse jeito! – abri a lata e esperei a reação dele.&lt;br /&gt;- Vai tomar no seu cu – me mandou um insulto soturno e evasivo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Samuel continuou a trabalhar em seus sushis e sashimis e eu escapei para a sala. Liguei a televisão e sentei no sofá, bebericando aos poucos minha cerveja. Eu ouvia os palavrões que Samuel desferia na cozinha e tudo o que eu podia fazer era dar risadas da desgraça dele. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Meu celular tocou. Levantei com certa relutância, deixando a maldita lata em minha mão espirrar um pouco de cerveja no chão. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Porra de cerveja... Alô? – atendi o telefone sem muita cerimônia.&lt;br /&gt;- Nelson? É o Alfredo, tudo bem?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Alfredo é meu colega de trabalho que acabou se transformando em um grande amigo de bebedeira. Bebemos sempre às sextas-feiras após o expediente e de vez em quando, ele acaba dormindo no sofá da minha sala, sempre bêbado, falando uma mistura de russo com japonês. É um boa-praça, embora tenha um toque de melancolia e traços de depressão. Mas por incrível que pareça, ele não é um cara misterioso. Ele sempre me falou de sua vida, dos tempos de fome, de seu irmão Carlinhos que havia morrido jovem. Sua vida sentimental conturbada, enfim, era um cara com problemas comuns. Tinha seus momentos de cafajeste como todo homem. E claro, não poderia falar do Alfredo sem citar sua devoção por Bob Dylan. O cara tem todos os álbuns em vinil, DVDs, fitas cassete e ainda manda muito bem no violão quando o assunto é tocar aquele folk do velho Dylan.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Fala Alfredo! Cara, to tossindo feito um carneiro alucinado, mas fora isso, está tudo bem. E por aí, como estão as coisas?&lt;br /&gt;- Ah, tudo tranquilo por aqui. Tranquilo até demais. E aê? Vai rolar aquele jantar aí na sua casa? – a voz dele era despretensiosa e mansa.&lt;br /&gt;- Sim, o Samuel, um amigo meu, ta preparando todos os sushis, sashimis, tempurás e o caralho a quatro. Eu desisti de ajudar aquele rato. Mas acho que vai dar certo.&lt;br /&gt;- CLARO QUE VAI DAR CERTO, NELSON! EU OUVI, HEIN?! – Samuel se intrometeu na conversa, gritando enquanto enrolava a esteira e formava seus belos sushis.&lt;br /&gt;- Calado, Samuel, seu viado! – ergui minha lata em protesto e deixei mais cerveja cair no chão – Então Alfredo, apareça sim!&lt;br /&gt;- Cara, eu vou levar a Mari, aquela amiga que vivo falando sobre. Tudo bem? – a voz de Alfredo ficou abafada, como se estivesse contando um segredo.&lt;br /&gt;- Sem problemas! Quanto mais mulher, melhor! – dei uma curta risada, encerrando a conversa – Você sabe o endereço, não?&lt;br /&gt;- Sei sim, você me mandou por e-mail. Então, até mais tarde.&lt;br /&gt;- Inté.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Joguei o celular no sofá e fui averiguar o trabalho do Samuel, que estava silencioso demais. A bandeja já tinha alguns sushis enrolados e enfileirados. Finalmente acreditei que Samuel havia se tornado um sushiman. Eram feitos de pepino, kani e salmão. Não sou o maior fã da comida oriental, mas meus olhos brilharam, afinal, é um luxo grandioso ter alguém fazendo aquelas iguaria em sua casa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Voltei para a sala e desliguei a televisão. Uma mulher havia matado seu filho de dois anos. Até aí não é novidade. O problema é que a louca o esquartejou e o jogou num saco de lixo junto com uma chupeta, cascas de batata, uma caixa de leite e cascas de ovos. A filha da puta desalmada foi presa hoje e todas as emissoras estão exibindo cenas, análises e teorias jurídicas. Eu odeio sensacionalismo. Concordo que esses casos devem ser denunciados e expostos, mas porra, só porque o Brasil está cheio de velhas ávidas por justiça e têm como deus o Luís Datena, não significa que precisam alugar toda a população com a exposição exaustiva desses crimes. Ninguém dá a mínima bola para os crimes que acontecem em São Luís do Caralho a Quatro, nos confins do Brasil. Pau no cu desses diretores de televisão. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Liguei o computador e o conectei ao aparelho de som. A tarde começava a se despedir, com seus pássaros voando por todos os cantos, voltando para seus abrigos, para suas crias. O Sol já não era mais o senhor absoluto dos céus e a Lua, donzela fodida e pálida, se preparava para dançar seu espetáculo pornô noturno. Fiquei vasculhando as músicas que tinha em meu iTunes e resolvi voltar para as minhas origens. Cliquei em ‘Procession’ do Queen. É a primeira faixa do álbum ‘Queen II’, segundo álbum da banda. Para quem conhece Queen, esse é o melhor álbum de todos, mas pra quem só manja das mais conhecidas, esse álbum é um grande mistério. Ele contém um som totalmente diferente daquele que a banda apresentou no final dos anos setenta em diante. A primeira música do álbum é apenas instrumental, mas os acordes da guitarra de Brian May são tão detectáveis que, pra reconhecer o Queen, você apenas precisa ouvir a guitarra. Mas a faixa seguinte, ‘Father to Son’ é linda, imponente e tem uma letra maravilhosa sobre conselhos de um pai para seu filho. O Queen é a banda da minha vida, eu aprendi a gostar de rock ouvindo o álbum ‘A Night at the Opera’, o mais famoso deles. Toda a musicalidade deles sempre me atraiu e nunca consegui enjoar deles. Eles tocam praticamente de tudo, até flamenco espanhol misturado ao rock. E pra se ter uma ideia, eu comecei a gostar deles antes do Serge Gainsbourg. São geniais. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Um solo monstruoso e perfeitamente longo de guitarra se desenhou na atmosfera de minha sala e Samuel gritou impressionado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Caralho, Nelson, que banda é essa? – eu podia ouvir o barulho da faca tocando levemente a tábua de cortes.&lt;br /&gt;- É o Queen! – respondi entusiasmado.&lt;br /&gt;- Nem fodendo! – Samuel se denunciava um ignorante sobre a banda.&lt;br /&gt;- É o segundo álbum deles. Ninguém reconhece! E isso é só o começo! – eu gesticulava freneticamente, enquanto me direcionava até a cozinha.&lt;br /&gt;- Caralho, então aumenta essa porra que eu quero ouvir! – ele permanecia concentrado no corte do salmão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Numa rápida olhada, constatei que a bandeja estava cheia de sushis. Samuel pediu para que eu abrisse uma lata de cerveja para ele. Deixei a lata ao lado da tábua de cortes e fui mexer na internet. Maulin estava conectado e me chamou. Ele disse que aceitava o convite mas também avisou que Agnes não iria. Ainda estava puta da vida com o episódio da minha ejaculação em seu ouvido. Ele me disse que ela passou metade de um dia para lavar a porra que grudou em seu cabelo. Mas os dois não sabiam que eu tinha três verrugas no pau e que iria tirá-las na próxima semana, numa cirurgia marcada. Totalmente constrangedor. Agnes é uma porca impura e fazia bem em não aparecer no meu apartamento. Resolvi revelar esse meu segredo a Maulin. Ele riu muito e me ligou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Caralho, isso é sério? – Maulin ainda demonstrava rastros de risadas em sua voz.&lt;br /&gt;- É, porra. Três malditas verrugas. E a piranha ainda fica nervosa! É bom a vadia nem sonhar em aparecer por aqui. Com certeza pediria pro Samuel fazer sashimi das tetas daquela vaca!&lt;br /&gt;- PEÇA PRA OUTRO FAZER ISSO, NELSON! – Samuel se intrometia novamente em minha conversa.&lt;br /&gt;- Pau no meio do seu cu, Samuel! – retruquei dando um murro na parede que separa a sala da cozinha. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Samuel apenas deu algumas risadas, repetindo a palavra VERRUGA por várias vezes. Eu me esforcei para ignorar a provocação e voltei à conversa com Maulin.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Então, quando você vem?&lt;br /&gt;- Estou meio travado no trabalho, cara. Meus cabelos estão caindo aos blocos! Apareço aí umas oito, ok? – o deboche havia saído da voz de Maulin e um leve desespero tomava conta de seu relato.&lt;br /&gt;- Tudo bem. O Samuel está fazendo comida pra um batalhão de samurais. Te espero. Inté.&lt;br /&gt;- Inté, man.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;O Queen tocava com toda emoção e eu terminava mais uma lata de cerveja. Tive um estalo e liguei para o Maulin. Pedi para ele trazer uma caixa de cerveja. Sempre esqueço esses detalhes. Fui até a cozinha afim de pegar outra lata. Resolvi ficar na cozinha e acompanhar o Samuel. Ele começou a fazer outro tipo de sushi.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Qual é o nome desse prato? – perguntei enquanto abria a lata.&lt;br /&gt;- Niguiri. Niguiri sushi. Esse é o mais antigo. São filés de peixes por cima de um bolinho de arroz. Mas você pode por camarão, polvo, até omelete japonês. Mas com omelete eu acho sem graça.&lt;br /&gt;- Também não sou muito fã. O que diferencia um omelete normal do japonês? – dei uma boa golada na cerveja.&lt;br /&gt;- O tamagô yaki, como chamam o omelete japonês, é mais adocicado. E geralmente é quadrado. Você tem que fazê-lo, preferencialmente numa frigideira quadrada, fazendo mais ou menos quatro camadas dele – sua cara de soberba permanecia enquanto me ensinava.&lt;br /&gt;- Ah sim. Entendi. Eu gosto mais desses niguiris que o... Como se chamam esses enrolados mesmo?&lt;br /&gt;- Uramakis – sua fisionomia chegou ao máximo da expressão esnobe.&lt;br /&gt;- Então, prefiro os niguiris. Você trouxe o saquê? – perguntei enquanto procurava pela garrafa da bebida japonesa.&lt;br /&gt;- Sim, está naquela sacola que deixei na sala. Sabe como descobriram o niguiri?&lt;br /&gt;- Como assim descobriram? Não inventaram? – minha cara era o resumo da confusão.&lt;br /&gt;- Não, Nelson – soltou uma risada dispersa típica da velha e nojenta aristocracia inglesa – eles descobriram. Quando os japoneses iam pescar, ficavam longos períodos no mar. Para que os peixes não apodrecessem, eles intercalavam camadas de arroz cozido entre os peixes. A fermentação do arroz preservava os peixes. Aí um japonês, sabe Deus o motivo, comeu o peixe com o arroz. Acharam um sucesso e desenvolveram aos poucos essa iguaria.&lt;br /&gt;- Caralho. Nada é por acaso, Samuel – apontei para ele balançando o dedo indicador, como se quisesse chamar sua atenção - Muitas coisas aconteceram assim. A vida tem disso.&lt;br /&gt;- Me cite outro exemplo então – o corno me olhou com olhar desafiador.&lt;br /&gt;- Vai se foder, não me lembro de um caso, mas tenho certeza desses fatos.&lt;br /&gt;- Sei – e Samuel ficou em silêncio cortando espessas fatias de salmão. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;‘The March of the Black Queen’ é minha canção preferida daquele álbum do Queen e ela estava por todo ar quando voltei para a sala. Parei para refletir sobre os arranjos musicais e o telefone tocou novamente. O número no identificador de chamadas era privado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Alô? Quem é?&lt;br /&gt;- Oi Nelson, é a Marcela. Tudo bem, querido?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Marcela. Marcela Piacenza, a italianinha mais gostosa que conheci. Mulher independente, inteligente como o demônio, atrevida, provocadora e solteira por opção. Longos cabelos ruivos e ondulados, olhos grandes e redondos, dentes brancos e pequenos, um sorriso maldito de tão encantador. O rosto levemente corado, seios fartos e duros, sua bunda de uma firmeza rara e o formato arredondado era um capricho sádico e cruel dos deuses. O modo de conversar era hipnótico e seus gestos entusiasmados teimavam em exibir uma classe natural de uma deusa desenhada por Michelangelo.&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Marcela! Como está? Tudo certo, meu bem? – eu gesticulava como Marcello Mastroiani, aquele puto.&lt;br /&gt;- Sim, querido. Quer dizer que vai ter comida japonesa aí? Eu adoro comida japonesa! – sua voz me entorpeceu. Fiquei de pau duro.&lt;br /&gt;- Vai sim! Quem te contou? – eu não lembrava de ter enviado convite algum à Marcela.&lt;br /&gt;- O Fernando me ligou e acabou comentando. Fiquei com vontade e resolvi te ligar. Posso ir então? – filha de uma puta sedutora.&lt;br /&gt;- Claro, Marcela! Minha casa é sua casa! Vem logo! – não escondi minha empolgação.&lt;br /&gt;- Calma, meu bem! Tô chegando em casa. Vou me arrumar e já saio, ta certo?&lt;br /&gt;- Tudo bem! Qualquer coisa, me liga!&lt;br /&gt;- Tá certo, Nelson. Beijo!&lt;br /&gt;- Beijo! – meu pau latejava.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Joguei novamente o celular no sofá e corri para o banheiro. Não, não fui bater uma punheta. Fui apenas mijar, mas o pau duro atrapalhava a execução do serviço. Sentei na privada e mijei abaixando meu membro o máximo que podia. Sim, era uma cena ridícula, mas era necessária. Enquanto eu me sentia ridículo sentando na privada para mijar, a campainha tocou – meu prédio não tem porteiro e basta apertar um botão no interfone para que a porta lá embaixo seja aberta. O engraçado é que não ouvi nenhum alerta do interfone. Toquei a descarga e me dirigi até a sala. A porta já estava aberta e Fernando conversava com Samuel.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Fala Fernando! Dá um abraço aqui! – cheguei na cozinha como uma avó acolhedora.&lt;br /&gt;- Nelson, seu rato maldito! – Fernando me abraçou forte, e falou algumas coisas perto de mim o que me fez constatar, pelo seu hálito, que já havia bebido alguma coisa.&lt;br /&gt;- Trouxe algo pra gente beber? – perguntei olhando ao redor, tentando localizar algo de novo no cenário de minha cozinha.&lt;br /&gt;- Sim, o uísque está no sofá. Trouxe um Passport e um Jack Daniels. E o Alberto? Vai aparecer?&lt;br /&gt;- Não. Ele viajou para o interior, esqueci o nome da porra da cidade, mas é bem pequena mesmo. Ele ta de licença no trabalho, lembra?&lt;br /&gt;- Lembro sim, estresse no trabalho, eu lembro – Fernando coçou sua sobrancelha direita.&lt;br /&gt;- Então, já faz uns três dias. Vou ligar depois no celular dele pra saber como é que estão as coisas por lá.&lt;br /&gt;- Cara, sabe o Aristeu? – ele se referia ao seu companheiro crente de apartamento.&lt;br /&gt;- Hã... – fiz uma cara de insatisfação e tédio – O que tem ele?&lt;br /&gt;- Depois que acordou da porrada que dei na boca dele, ele disse que me perdoava. Pediu a Deus que não “imputasse culpa a nós” – Fernando fez o gesto de aspas com os dedos –, fez aquela cara de mártir que está pra morrer e disse que gostou de sua calma na argumentação.&lt;br /&gt;- Da minha calma? Ele gostou? Mas eu desarmei o vagabundo com meus argumentos! Ele só pode ser louco, meu Deus do céu!&lt;br /&gt;- Bem, – Fernando deixava escapar risadas de deboche – ele disse que você é bem vindo por lá.&lt;br /&gt;- Agora é que não volto mais lá! – fui pegar duas latas de cerveja.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Meu telefone tocou. Alfredo estava perto de minha casa, mas não achava a rua. Porra, o Cambuci não tem uma teia de ruas complicada. Ele era meio lento para as coisas. Passei as instruções mais detalhadas possíveis e para ajudar, fiquei de encontrá-los na esquina. Avisei ao Samuel que iria encontrá-los na esquina e perguntei se havia algo faltando. ‘Cerveja’, Samuel respondeu. Fui conferir a geladeira e realmente faltava. Convoquei Fernando para a missão na rua e resolvemos que iríamos aguardar o Alfredo e a Mariana e depois compraríamos o necessário. Para um fumante, o bom da espera é poder sacar um cigarro, acendê-lo e esquecer as noções de tempo por alguns minutos. E foi isso que fizemos. Por uns sete minutos, eu acho, aguardamos o casal chegar. Eu já havia terminado meu cigarro e Fernando, que fumava cigarros de filtros vermelhos, demorava mais para finalizar. E quando ele estava pronto para a última tragada, os dois apareceram, Alfredo com cara de alívio e Mariana irritada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Caralho, toda vez que fui parar na sua casa, eu estava bêbado! – Alfredo nos saudou com uma boa desculpa para sua falta de senso de localização.&lt;br /&gt;- Pois é, eu mesmo não lembro de alguma vez você ter entrado na minha casa em são consciência – me aproximei armando um abraço de recepção.&lt;br /&gt;- Bem, precisamos comprar as cervejas, Nelson. Onde a gente pode comprar? É longe? Acho que vou voltar pro seu apê – Fernando denunciava uma certa agonia em suas perguntas.&lt;br /&gt;- Deus do céu, que porra de desespero é esse? – perguntei apontando para a direção do mercado.&lt;br /&gt;- Só estou cansado, só isso.&lt;br /&gt;- Eu também, - Mariana finalmente resolveu falar alguma coisa – posso ir com o Fernando?&lt;br /&gt;- Por mim, quero mais é que se foda – respondeu Alfredo autorizando a saída de sua amiga.&lt;br /&gt;- Pois bem, chegando lá, é só tocar o interfone e o Samuel abre a porta pra vocês.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Sem despedida alguma, cada metade do grupo virou para um lado oposto e seguiu seu caminho. Acendi um cigarro, mesmo sabendo que o caminho até o mercado era curto. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Que Samuel é esse? – Alfredo cerrou um cigarro meu e me olhou com cara de amnésia enquanto acendia o isqueiro.&lt;br /&gt;- Um amigo das antigas. Aprendeu como fazer comida japonesa e veio se exibir pro pessoal. Você sabe, quase todo mundo gosta de comida japonesa. E quem gosta, venera quem sabe fazer. E o Samuel adora holofotes virados para ele, sabe?&lt;br /&gt;- Sei. Grande merda. Se eu pedir uma pizza, será que ele vai se ofender? – Alfredo me lançava um olhar provocador.&lt;br /&gt;- Por quê? Você não gosta de comida japa?&lt;br /&gt;- Sim, eu gosto. Mas o cara não pode entrar na casa dos outros se achando o rei da cocada preta, quer dizer, do sushi preto.&lt;br /&gt;- Ah, não, Alfredo. O cara comprou todos os ingredientes e ta entusiasmado com a nova habilidade. Deixa ele se divertir, porra.&lt;br /&gt;- Você ta muito bonzinho nos últimos tempos, cara – Alfredo circulava seu cigarro em gestos excessivos - O que ta pegando?&lt;br /&gt;- Sei lá, mano. Talvez o fato de a Bárbara ter saído da minha vida. Ah, você sabe o que quero dizer... – achei que ele entenderia minha colocação.&lt;br /&gt;- Não, não sei. O que tem a Bárbara?&lt;br /&gt;- Eu vivia gastando minha grana com ela. Meu apê estava feminino, feminino até demais. Agora eu vejo algumas possibilidades de aventuras rápidas. Alguma viagem de feriado pra comer alguma amiga por aí. É a tal liberdade, Alfredo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Pausamos a conversa para jogar os cigarros fora e adentrar o mercado. Estava um pouco cheio, com apenas um caixa atendendo. Eu odiava isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cacete, liberdade é uma coisa tão normal. Acho que as pessoas não deviam idolatrar tanto a liberdade. Quando valorizamos algo, começamos a proteger esse algo excessivamente – Alfredo pegou uma caixa de cerveja - Por isso que tem tanta gente neurótica, reclamando com os outros, gritando por todos os lados “não tire minha liberdade!” ou “estamos num país livre” e essas merdas. Eu quero mais é que se foda, Nelson.&lt;br /&gt;- Você diz isso porque nunca namorou, nunca manteve relacionamento algum. Aliás, você ta comendo a Mariana?&lt;br /&gt;- Não Nelson, não mesmo! Ela só chupou meu pau uma vez, mas a gente estava cheio de haxixe na cabeça, ouvindo Nelson Rodrigues. Eu estava naquele momento de depressão, pensando na infância, e as músicas do Nelson Rodrigues fodem minha mente. Aí a gente já tinha fumado tudo que podia aguentar e a Mari aproveitou e veio serpenteando no colchão, abrindo minha calça e mandando ver.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Alfredo em um raro momento de bom-humor, fez um gesto indicando um boquete rápido, fazendo movimentos de vai-e-vem com a mão fechada, como se enfiasse uma pica na própria boca e ao mesmo tempo, simulava o preenchimento da boca com a língua forçando sua bochecha, dando a impressão de que realmente havia uma rola dentro. Dei um tapa na mão dele, ao avistar uma senhora que se aproximava de nós à espera no caixa. Pedi que a senhora passasse à nossa frente. A velha mulher nos agradeceu e foi lentamente nos ultrapassando.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Mudamos de assunto na volta para casa e não nos atrevemos a acender cigarros. Chegamos ao meu apê e segui direto para a cozinha para repor a geladeira com as novas latas. Molhei algumas latas e coloquei-as no congelador, sempre gelam mais rápido dessa forma, velho macete. Dentro da geladeira, já havia duas bandejas repletas de sushis e sashimis caprichosamente cortados e dispostos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Cadê aquelas decorações, Samuel? – me referia aos fios de nabo, às flores de gengibre e aqueles sushis ornamentais que formavam estrelas.&lt;br /&gt;- Aprendi a fazer sushis e não a decorar bandejas – Samuel e a velha arrogância que lhe era peculiar. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Mandei ele tomar no cu e fui até a sala. Eu estava esperando o Samuel ficar bêbado. Ele ficava muito engraçado com seu lado extremamente nervoso, criticando tudo e todos. Era um verdadeiro espetáculo envolto em nervos. Mas enquanto estava sóbrio, era um poço sem fundo de presunção. Dessa forma, abri a garrafa de uísque, o Passport, e servi diversas doses. Levei uma para o Samuel, dando início ao meu ímpeto de embebedá-lo. Na sala começamos a conversar a todo vapor. Mariana que na rua estava fechada a qualquer conversa, já começava a se soltar. Deus salve o álcool e o bem social que ele proporciona. Alfredo sacou uma pequena bola de maconha e começou a dichavar a erva prensada. Mariana foi até sua bolsa e pegou duas folhas de seda, especiais para fumar maconha. Os dois começaram a minúcia que o preparo de um bom baseado exige. O silêncio que a concentração deles impôs ao ambiente começou a me torturar. Fui até o computador e digitei Radiohead. Cliquei na execução aleatória no iTunes e deixei o som rolar. Comecei com ‘Lucky’, que é bem mais serena e não deixaria todo aquele silêncio entrar de uma vez em colapso. A voz de Thom Yorke sempre me despertou ótimas sensações, seja quando estava em pura euforia ou quando se arrastava em versos funestos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- É pra hoje essa porra? – Fernando esfregava as palmas das mãos, se acusando em pura ansiedade.&lt;br /&gt;- Caralho de junkie desgraçado, que se foda... – Alfredo balbuciava enquanto preparava a língua para selar o cigarrinho. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Começamos a fumar, os dois baseados de uma vez. Assim a alternância das tragadas era bem menor e mais veloz. Dessa forma começamos a conversar, nada de papo-cabeça, apenas coisas triviais, comentários sobre alguns casos de alta repercussão na televisão e claro, um pouco de futebol. Por incrível que pareça, não foi registrado conflito algum e o silêncio voltou. O Radiohead estava na caixa de som entoando a bela ‘Fake Plastic Tree’ e todos nós parecíamos críticos de música, apreciando cada acorde, olhando para o teto. Samuel ensaiou um descanso, mas ao vislumbrar todos com cara de recém-acordados, voltou para a cozinha, para sua faca e esteira.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- A gente podia bolar um baseadão na esteirinha de sushi do Samuel, hein? – eu propus começando uma boa gargalhada.&lt;br /&gt;- SUDARÊ! SE CHAMA SUDARÊ! – Samuel vociferou com ímpeto, como se estivesse defendendo a honra de sua mãe.&lt;br /&gt;- Do que você está falando, Samuel? É esse o nome para baseado no Japão? – Fernando testou o ‘bom’ temperamento do amigo cozinheiro.&lt;br /&gt;- Sudarê é o nome da esteira pra fazer sushi, Fernando!&lt;br /&gt;- Quero mais é que se foda – Alfredo sempre desejando que as coisas se fodessem.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;‘Paranoid Android’ é uma das músicas mais incríveis que conheço e foi ela quem começou a tocar. Sempre primei por arranjos nada convencionais. O Alberto que havia me apresentado esse som em 1999, dois anos após ter sido lançado. Ele indicava cada detalhe, desde as notas de violão perfeitamente executadas até a voz aguda e preguiçosa do Thom Yorke. A letra totalmente desconexa me atraiu de primeira. Me apaixonei pela intensidade da canção que era totalmente instável, variando com trechos violentos onde pratos de bateria explodiam e trechos que nos remetiam a uma consagração religiosa, quando ele cantava “rain down, come on, rain down on me”. E comecei a passar, para todos na sala que estavam anestesiados pela erva do capeta, toda minha opinião sobre a canção, apontando para cima, pedindo para prestarem atenção em uma parte específica aqui, outra parte acolá. Todos entraram na minha viagem e o silêncio voltou, exceto quando alguém deixava escapar um empolgado “pode crer” ou um perplexo “caralho, que foda”. Quando Yorke cantou “God loves his children”, senti que as guitarras entrariam em colisão e o pau iria comer, levantei trôpego e fiz um air guitar, simulando cada toque de corda em minha guitarra imaginária. Todos riram quando caí sobre o sofá e ergui meu dedo indicador e o mínimo, saudando o deus do rock. Palmas rolaram e eu me ergui buscando meu uísque.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Porra! Preciso de um trago! – vi que meu copo estava vazio – Alguém quer mais?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Alguns se manifestaram e fui servindo várias doses. Dei uma boa talagada em meu copo e fui até o Samuel que comia um cone feito de nori, cheio de arroz e pelo que vi, cheio de salmão fatiado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- E qual é o nome desse prato? Cone japonês? Rolinho Inverno? – meu copo viajava suavemente junto à minha mão.&lt;br /&gt;- Temaki é o nome. Nunca viu uma temakeria por aí? Tem um monte delas pela cidade - e deu uma mordida lenta em seu temaki.&lt;br /&gt;- Nunca vi. Mas acho que alguém já falou de temaki para mim – minha voz era lenta e esparramada.&lt;br /&gt;- Uma ova que você nunca comeu um temaki, Nelson.&lt;br /&gt;- Nunca comi! Juro pra você! Faz um pra mim – meus dedos amolecidos apontavam para lugar nenhum.&lt;br /&gt;- Vou fazer um pequeno pra você provar – finalmente Samuel agia positivamente ante alguma proposta minha.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Sentei numa cadeira que havia em minha cozinha e fiquei dando pequenas bicadas em meu drinque. Ele pegou uma folha inteira de alga e a dividiu em quatro. Pegou uma parte e a colocou suavemente na palma de sua mão esquerda. Colocou uma porção de arroz na direção diagonal. Na direção diagonal oposta, despejou outra porção, agora de salmão fatiado, com cebolinha e alguma coisa estranha. Jogou gergelim e levou a extremidade esquerda de baixo até a parte acima, na direita. Com jeito enrolou lentamente, formando um cone um pouco desajeitado. Selou a alga com uma passada rápida de água e me entregou o temaki. Mordi a iguaria instantaneamente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Que maravilha, Samuel! Que maravilha! A alga é crocante, esse negócio que você fez com o salmão! Porra, isso é muito bom!&lt;br /&gt;- O que é bom, Nelson? – Fernando perguntou lá da sala.&lt;br /&gt;- Temaki! Venham ver! Vem cá, porra! – convoquei todos os dementes a comparecer na cozinha.&lt;br /&gt;- Nem fodendo, Nelson! Deixa o Maulin chegar! Aí eu vou servindo tudo! Vai lá pra sala, vai!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Enxotado de minha própria cozinha, sentei no sofá e fiquei olhando para a janela. Alguém falava sobre a invenção da roda. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Cacete, imaginem a viagem do cara que inventou a roda! Caralho mano, que viagem! – Alfredo tinha um pequeno sorriso que insistia em permanecer na boca.&lt;br /&gt;- Porra, e quem inventou o eixo, que ligava as rodas, fazendo uma carroça andar? Porra, isso que é viagem! – Fernando contribuía com o debate.&lt;br /&gt;- Pode crer – Mariana dava mais um pega, cerrando os olhos e segurando a fumaça dentro de si o máximo de tempo possível.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;O interfone tocou. Eu gritei o nome do Maulin e fui correndo para a cozinha. Samuel já havia atendido e disse que era uma tal de Marcela. “Puta que pariu”, pensei, “vou recebê-la noiado desse jeito!”. Corri até o banheiro e arrumei o cabelo, molhei o rosto e voltei para a sala apressadamente. Tomei posse do copo de uísque e sentei no sofá, bancando o indiferente, me intrometendo em alguma conversa. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Olá pra todos! – Marcela chegou com todo aquele encanto maldito.&lt;br /&gt;- Oi coração! – levantei lentamente e estendi meus braços, como se fosse cumprimentá-la apenas com um aperto de mãos.&lt;br /&gt;- Tudo bem, Nelson! Quanto tempo, meu bem... – me abraçou forte, tocando com a ponta dos dedos a minha cabeça, fazendo um rápido cafuné. Meu pau deu sinal de vida, o que fez com que eu me apartasse rapidamente dela.&lt;br /&gt;- Vem aqui, quer um drinque? – para disfarçar meu brusco movimento, apresentei a garrafa de uísque.&lt;br /&gt;- Claro. Onde deixo essa cerveja?&lt;br /&gt;- Deixe comigo. Guarde a bolsa lá no meu quarto – apontei para a direção do corredor. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Fui até a cozinha e, como não havia mais espaço para latas na geladeira, deixei a caixa no chão da área de serviço, ao lado da máquina de lavar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Você peidou, velho? – perguntei ao Samuel que estava compenetrado num corte suave de um filé avermelhado de peixe.&lt;br /&gt;- O que? – ele largou a faca na tábua de cortes e me olhou com reprovação, mas sem erguer a cabeça.&lt;br /&gt;- Você peidou, porra? – repeti com veemência.&lt;br /&gt;- Vá se foder! Claro que não!&lt;br /&gt;- Então deve ser esse peixe podre aí! – apontei para a pia, enquanto dava risadas.&lt;br /&gt;- Sai daqui, caralho! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Alfredo ouviu a voz exaltada de Samuel e levantou-se para conferir o que acontecia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- O que ta pegando, Nelson? – Alfredo me perguntou, olhando nos olhos de Samuel.&lt;br /&gt;- Nada, saia você daqui também! – Samuel respondeu por mim, com a mesma exaltação anterior.&lt;br /&gt;- Eu falei com o Nelson, não com a senhorita – Alfredo ergueu a voz e cerrou seus punhos se aproximando de Samuel, que ao mesmo tempo apanhou a faca e a manteve na altura de sua cintura.&lt;br /&gt;- Ei, ei, porra! Vão se foder! Nada de homicídios aqui na minha casa. Talvez algum tipo de luta livre, isso eu permito. Mas facadas não! – me coloquei entre os dois encrenqueiros e alternei meu olhar para o rosto dos dois.&lt;br /&gt;- Eu só quero fazer meus sushis tranquilamente. Então por favor, poderiam sair daqui? – Samuel pela primeira vez deixava escapar educação de sua boca.&lt;br /&gt;- Seu trouxa, não venha bancar o sabichão pra cima de mim, seu bosta! – Alfredo ia sendo aos poucos afastado por mim até chegar na sala.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Chegando na sala, Marcela me encarava atônita e com um sorriso no rosto. Eu acalmei os ânimos e fiz uma pequena massagem nas costas da minha musa italiana. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Ele ficou com o cu na mão, Nelson – Alfredo contava vantagem em relação ao conflito enquanto acendia um cigarro.&lt;br /&gt;- Quem vai bolar o próximo baseado? A Marcela não pode ficar sem umas tragadas, hã? – ninguém me respondeu.&lt;br /&gt;- Ah, pega o bagulho aqui, faça você mesmo, eu to de boa... – Mariana falava e me passava a impressão de que iria derreter. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;“Puta merda” foi a primeira expressão que apareceu em minha mente. Eu nunca havia bolado um baseado. Nem comprado, nem bolado, nem nada. Sempre fumava se alguém tivesse, mas maconha nunca foi uma coisa que me atraísse. Mariana trocou a música e colocou ‘Concrete Jungle’ do Bob Marley. Ao ouvir os primeiros acordes acompanhados de uma batida grudenta, me senti um favelado jamaicano, na periferia de Kingstown. Peguei a seda na bolsa da Mariana e dei um sorriso, me sentindo ridículo, até porque a sensação de ser um favelado em Concrete Jungle já havia passado. Dichavei a erva novamente e quem já fez isso sabe que é um trabalho filho da puta. Minutos depois, julguei ter separado bem os pedaços de erva seca. Juntei-os na seda, colocando toda a maconha no centro do papel. Prensei bem o conteúdo do cigarro, passei a língua e rasquei uma parte do papel. Selei o baseado com uma lambida caprichosa e pensei em algo parecido com ‘sushi jamaicano’. Dei uma risada e peguei o isqueiro. Ficou uma merda. A erva não queimava de forma uniforme e a toda hora apagava. Passei para a Marcela que se esforçou muito para puxar alguma fumaça, mas depois de um pouco de perseverança, conseguimos fazer bom proveito. A música que rolava era ‘Slave Driver’. É um reggae tão folgado, tão relaxado, que me lembrou as boas semanas que fiquei em Ubatuba, nas férias passadas, quando vivia de peixe assado, bicicletas e reggae. Cerveja e cigarros não contavam, estão presentes sempre. Foram boas semanas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Vou pedir pizza – Alfredo anunciou.&lt;br /&gt;- E a comida japonesa? – Marcela ficou intrigada.&lt;br /&gt;- É, eu vim para comer sushi – Mariana advertiu – Nada de pizza.&lt;br /&gt;- Eu quero pizza, e vou comer sozinho. Eu quero mais é que se foda – novamente Alfredo desejava que algo desconhecido se fodesse.&lt;br /&gt;- Vou dar uma olhada na cozinha – Marcela se separou do grupo com seu copo de uísque na mão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Comecei a ouvir uma série de gentilezas da parte de Samuel. Ele explicava com carinho todas as questões lançadas por Marcela. Oferecia a faca para que ela experimentasse a sensação de cortar um rolo de sushi e ensinava a simples receita do tempurá. E eu comecei a me remoer de raiva e revolta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Todos ainda estavam baqueados pelo anúncio de Alfredo. Eu com raiva lancei lenha na fogueira. &lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt; &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Peça uma de peperoni, Alfredo – solicitei uma pizza com olhar enfurecido dirigido à cozinha.&lt;br /&gt;- É assim que se fala, chefe! – ele percebeu que eu estava morrendo de ciúmes em relação à Marcela e Samuel. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Confesso que foi infantilidade de minha parte, mas quem consegue se conter numa hora dessas? Marcela apareceu na sala na hora em que Alfredo pedia as pizzas no telefone. E quando confirmei a pizza de peperoni, Marcela me questionou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Vai comer pizza também? – Marcela tinha um semblante confuso naquele rosto perfeito.&lt;br /&gt;- Sim, perdi a vontade de comer essas coisas japonesas.&lt;br /&gt;- Poxa, mas eu pensei que você comeria também...&lt;br /&gt;- Pois é, eu pensei também. Mas vou comer pizza – eu me afundava cada vez mais na merda do ciúme.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Marcela voltou para a cozinha e fez um comentário irônico sobre as pizzas. Samuel deu uma risada altiva e começou a contar algumas dicas sobre evidências do frescor de um peixe. Eu ficava cada vez mais enfurecido. Maulin chegou dez minutos depois e me deu um murro no braço.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Seu gozador! – fez uma analogia ao fato de eu ter gozado no ouvido da Agnes, aquela vadia que me passou verrugas.&lt;br /&gt;- É, piada manjada da porra! – dei um abraço em Maulin.&lt;br /&gt;- Porra, que merda de trabalho! Tô de saco cheio, cadê os drinques? – Maulin acenava para as pessoas deitadas no tapete, ainda entorpecidas pela ervinha de Satanás - O que aconteceu com eles? – e começou a servir sua dose.&lt;br /&gt;- Maconha misturada com uísque e um pouco de cerveja.&lt;br /&gt;- Hã, bem... Preferia entrar nesse estado de graça aí – apontou para Mariana que estava deitada de costas para nós, deixando um pouco de sua calcinha preta aparecer - Trabalhar em dia de sábado, porra! Caralho, aqueles relatórios, aqueles números todos, estou começando a sentir pânico só de olhar para minha mesa, para meus colegas de trabalho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Maulin trazia em sua fisionomia uma série de curvas sofridas, rugas precoces e barba por fazer. Ele vivia se queixando de queda de cabelo e palpitações incessantes, tudo devido à sua jornada de trabalho cada vez mais torturante e opressiva. Talvez seja o maior sintoma de uma vida onde se ambiciona dinheiro demais e a qualidade de vida que se foda. Ele mesmo mora bem, tem seus hobbies, ainda tem a paciência de suportar e abrigar a merda da Agnes. Mas não faz o que gosta, o que sabe. Ele é um ótimo músico, conhece muito sobre diversos estilos musicais, quando era mais novo, se esforçava para entrar no mercado musical como produtor, aquele cara que fica por trás das estrelas. Mas ele entrou na conversa de alguns amigos que iniciaram faculdade de tecnologia da informação e como se trata de uma carreira bem rentável, Maulin acabou seduzido pelos salários iniciais mais altos que os de outras carreiras. Ele sempre foi bom em matemática, sempre leu muito e isso foi essencial para seu ingresso na carreira de analista de sistemas. Mas do que vale toda a grana que ganhou se ele dorme mal, tem ataques de pânico e vive em constante pressão? Lembro de um amigo que dizia: “o que importa é ser feliz, não importa como!”, e acho que acabou virando meu lema por uns anos. Hoje estou preso num trabalho desgraçado, apenas para pagar minhas contas. Igual o meu infeliz amigo. Mas esses são outros quinhentos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- E essa música deprê? Vâmo trocar isso aqui – Maulin se dirigiu até o computador e ficou por alguns minutos passeando pelo meu acervo de músicas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Com acordes violentos e bruscos, ‘Moonage Daydream’ do David Bowie começou a tocar. Me senti bem e com o polegar erguido, aprovei a escolha dele. Peguei o resto da erva que sobrou daquela imensa bola que a Mariana e o Alfredo trouxeram e o entreguei a Maulin junto a um papel de seda. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Bola essa merda, você vai relaxar um pouco.&lt;br /&gt;- Cacete, faz tempo que não dou uns pegas... Maconha é droga de retardado, Nelson.&lt;br /&gt;- Eu sei, aliás, todo mundo aqui nessa sala sabe. Mas quem ta ligando pra isso? Foda-se, Maulin, fuma esse troço logo – sentei no sofá e acendi outro cigarro. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Ele desistiu de resistir à ideia de fumar um mato do capeta e sentou no chão, colocando a erva em cima da caixa de som e ali mesmo pôs-se a trabalhar na confecção do cigarrinho. Ficamos em silêncio e ‘Starman’ começou a tocar nas caixas. Lembrei da versão brasileira dessa música que fizeram no início dos anos 90, mas não conseguia lembrar da banda que fez aquela merda. Após a finalização do pequeno trampo por parte do Maulin, que diga-se de passagem estava deplorável, dividimos aquilo, dando algumas risadas e eu tentando de todas as formas fazê-lo não tocar em assuntos relacionados ao trabalho. Nos postamos em frente à janela e ficamos observando o movimento da rua. &lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Marcela continuava proseando com o Samuel, mas confesso que havia esquecido deles dois por alguns bons minutos. Porém a pizza chegou e eu tive que resgatar o Alfredo de sua viagem na nave cannabis. Peguei a grana com ele e inteirei o valor total. Fui até a porta aos trancos e barrancos, com a sensação de flutuar e olhei para a cozinha e não havia ninguém lá. Estranhei e me intriguei. Fui até o térreo, peguei as pizzas e voltei correndo pelas escadas. Deixei as pizzas em cima da pia na cozinha e fui procurar por Marcela e Samuel. Jurava que o som de suas vozes saía da cozinha, mas estava enganado. Acho que era a porra da maconha fodendo meu cérebro. Olhei para a mesa na sala e percebi que todos os sushis e afins estavam servidos. “Caralho, como eu não notei tudo isso?”, pensei e dei um grito, chamando a todos que foram derrotados pelas substâncias entorpecentes para comer a pizza ou os sushis. Em passos largos, fui até meu quarto e qual não é minha surpresa: os dois estavam deitados, olhando para o teto, com dois drinques no chão ao lado da cama, falando suavemente e dando pequenos risos. Naquele momento percebi que havia perdido a mulher para o arrogante do Samuel. Ele era um desgraçado de um contador de vantagens. Sabe de tudo um pouco e com certeza a burra da Marcela caiu na ladainha dele. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Voltei enfurecido para a sala e tirei um pedaço de pizza de peperoni e o comi em três mordidas. Bebi um gole de cerveja e peguei outro pedaço. Alfredo comia a de frango com catupiry como se fosse a última pizza do mundo. A famosa larica atacava. A Mariana se levantou coçando a cabeça e reclamando do mundo que girava. Ela pegou um copo d’água e bebeu rapidamente, sentou-se à mesa e vislumbrou a comida japonesa. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Caramba, que fome! – e pegou os pauzinhos para atacar os sushis. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Molhava-os no shoyu e os comia com vontade. Maulin a acompanhou e questionou a presença da pizza na mesa. Eu disse que depois explicava. Fernando alternava entre os temakis e a pizza de peperoni. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Samuel resolveu não ficar bêbado ao perceber que havia uma grande chance de comer a Marcela. Ao invés disso, ele embebedava a pobre coitada. Eu sei disso porque, quando Samuel está bêbado, ele fica invariavelmente nervoso com as coisas da vida, criticando personalidades, ironizando fatos, o que sem dúvida arrancava gargalhadas das pessoas ao seu redor. Mas ele estava muito sorridente, com voz firme e sedutora. Ele não era nenhum trouxa. Após comer toda a pizza que tinha direito, cheguei ao lado de Alfredo que terminava sua cerveja, olhando compenetrado para a lata.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Ainda ta com raiva do Samuel? – perguntei sussurrando e com olhar vigilante.&lt;br /&gt;- Tô esperando a hora em que vamos quebrar ele na porrada! Quero mais é que se foda! – Alfredo se alterou jogando a lata no chão.&lt;br /&gt;- Ta porra, fala baixo! Pega a lata, vai... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Alfredo se prostrou e apanhou a lata e colocando-a na mesa, mas antes, a amassou. Eu tinha um plano para foder a vida do Samuel. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Então, eu tenho um monte de calmantes naturais, sabe? De passiflora, manja?&lt;br /&gt;- Eu sei sim. Aquilo não faz efeito em mim mais, sabia? Minha insônia ta tão foda que só tarja preta pra me salvar.&lt;br /&gt;- Calado, Alfredo! – sussurrei com fervor – Vamos amassar alguns comprimidos daquela merda e transformar em pó. E vamos jogar no drinque deles.&lt;br /&gt;- Mas qual drinque?&lt;br /&gt;- Sabe o saquê que ele trouxe? Ainda está fechado. Vâmo fazer umas caipirinhas pros dois e encher o rabo dele de calmante.&lt;br /&gt;- E a Marcela vai beber? – Alfredo se levantava e se dirigia até a cozinha, enquanto eu o seguia.&lt;br /&gt;- Vai! Vamos fazer dois drinques de passiflora. Quando ela dormir, vou meter a pica na boceta dela – meu olhar era maligno, lascivo.&lt;br /&gt;- Caralho, eu posso não meter a vara, mas quero chupar os peitos dela – Alfredo cerrou os olhos e deu uma risada.&lt;br /&gt;- Feito. Se quiser dar umas dedadas nela, fique a vontade – propus uma nova cláusula no pacto com o diabo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Fui até o banheiro e apanhei o frasco de calmante. Fui até a cozinha onde Alfredo me esperava com o martelo de bater carne. Dentro de um saco de supermercado, despejei todos os trinta comprimidos e começamos o trabalho. Fechei a porta da cozinha e nesse momento Fernando me questionou sobre o que estávamos fazendo. Respondi que estávamos apenas fazendo caipirinhas. Cortei alguns kiwis que o Samuel havia trazido e enquanto Alfredo transformava as cápsulas em pó calmante, eu fazia os drinques com todo esmero possível. O pó não estava muito fino em sua totalidade, mas dava pra disfarçar bem. Terminamos todas as bebidas e dispomos os copos em uma grande bandeja. Pedi que o Alfredo servisse os dois pombinhos no quarto, enquanto eu servia o povo lá na sala, que ainda investia sua vontade em cima dos sushis, tempurás e tudo mais. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Os idiotas adoraram o meu gesto e começaram a bebericar os drinques, man! – Alfredo parecia um assistente de algum vilão relatando o andamento de algum plano malévolo.&lt;br /&gt;- Que sucesso... Agora é esperar um pouquinho e conferir depois se eles querem mais – olhei para um ponto fixo na parede e pensei um pouco.&lt;br /&gt;- O que foi, Nelson? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Demorei um pouco para responder. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Porra, ali tem muito calmante. Caralho, é muito calmante mesmo! – sussurrei da forma mais alta possível.&lt;br /&gt;- Pau no cu daquele corno, Nelson. Pau no cu dele! – Alfredo também sussurrava com ódio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Aguardamos por vinte minutos e pedi para o Alfredo verificar. Ele foi até o quarto, ficou por um minuto mais ou menos e voltou dando risadas. Senti um frio na barriga.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- E aí? O que pega? – perguntei com ansiedade vazando entre meus dentes.&lt;br /&gt;- A Marcela está lerda, lerdinha! E o Samuel ta meio contrariado, meio sonolento. Parecem dois zumbis deitados. Mas ta um cheiro de rola lá dentro! Puta que pariu!&lt;br /&gt;- Que se foda. A vaca deve ter chupado o pau dele no mínimo.&lt;br /&gt;- Pode crer. O cara ainda ganhou um boquetinho! Eu quero mais é que se foda...&lt;br /&gt;- É, eu também quero mais é que se foda. Vamos esperar mais um pouco. Vamos fumar uns cigarros, beber mais cerveja e deixar o tempo rolar. Quanto mais profundo o sono, melhor!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;E fizemos isso. Criei uma playlist com músicas intercaladas do Serge Gainsbourg e do Bob Dylan, nossos dois ídolos. Eu estava eufórico com o som e em pé, balançava a cabeça e deixava minhas mãos flutuarem. Mariana de barriga cheia me observava e deixava escapar um sorriso. Eu sorria de volta e a chamava para dançar comigo. Ela apontava para a barriga e dizia sem emitir som a palavra ‘cheia’. Eu dava de ombros e permanecia usufruindo de minha loucura, um misto de entorpecentes e alegria pelo êxito de meu plano. Era a última vez que o Samuel me sacanearia na vida.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Vamos lá, Nelson! – Alfredo me pegou pela mão e me puxou discretamente. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Cannabis do Serge Gainsbourg tocava na caixa de som e aquilo me deixava extremamente feliz. A voz dele me acompanhou durante a vida em todos os momentos, bons ou maus. O canalha sempre estava lá cantarolando com aquele francês sujo, aquele cuidado em garantir um nível alto de acidez às suas palavras. E naquele momento glorioso de vingança, o desgraçado cantava para mim. Caminhamos pelo corredor e um ruído alto se desprendia do quarto. Chegando lá, acendi a luz e os dois dormiam. Samuel babava muito e roncava alto. Marcela dormia de boca aberta, mas nada de estrondoso. Apenas um som saía de sua boca, aquele que denuncia um sono pesado. Cheguei perto de Samuel e dei um tapa em sua cara. Nenhuma reação. Comecei a rir e chamei Alfredo, que nessa hora, tinha voltado para a sala, pois Mariana o havia chamado. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Corre aqui, porra! Vem ver essa merda! – fiz sinal com a mão direita, para que viesse logo.&lt;br /&gt;- Peraê, Mari.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Mariana não ficou nem um pouco curiosa. Apenas desviou o olhar e começou a conversar com o Fernando. Alfredo chegou correndo, eufórico e sussurrando.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- E aí? Dormiram?&lt;br /&gt;- Capotaram! Olha isso! – dei um outro bofetão em Samuel, sem que o corno reagisse.&lt;br /&gt;- Hahaha! O filho da puta ta roncando! – Alfredo chegou ao lado dele e deu um soco na maça direita do rosto.&lt;br /&gt;- Calma porra! Não vamos ferir o cara! Se não vai dar na cara! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Olhei novamente para um ponto fixo na parede e fiquei pensativo, coçando meu queixo. Alfredo olhava para o casal adormecido e dava risadas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- E essa gostosa? Tá mesmo dormindo? – dizendo isso, se abaixou e enfiou o dedo por dentro da calça de Marcela, até encontrar seu cu. Ficou dedilhando a pobre coitada.&lt;br /&gt;- Tira o dedo do cu dela, porra... Vamos lá na cozinha. Tive uma ideia!&lt;br /&gt;- Espera um minutinho!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Alfredo tirou um dos seios de Marcela para fora e começou a chupá-lo com afinco. Sacou sua pica para fora e começou a se masturbar. Eu não aguentei a tentação da cena e retirei a calça dela. Com cuidado removi sua calcinha e desci até sua boceta. Era linda, parecia até uma vagina de virgem. Mas tenho certeza que aquela perseguida já havia sido capturada por muitas rolas. Alfredo já estava com sua calça arriada na altura das canelas e começou a chupar a boca dela. Eu estava firme e forte lá embaixo e senti o pau dele roçar em minha cabeça.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Ô caralho! Tira essa rola de perto de mim! – o empurrei com força.&lt;br /&gt;- Foi mal, Nelson! Porra, nem percebi sua cabeça aqui! – me respondeu voltando a posição, porém com certo cuidado.&lt;br /&gt;- Presta atenção caralho!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Depois dessa, me levantei e me arrumando, caminhei até a cozinha. Quando olhei para a sala, presenciei uma cena que não imaginaria nem em mil anos. Mariana apenas de sutiã, sem calcinha, de quatro em frente a Fernando, que estava sentado no sofá, com o pau duro de fora. Mariana passava a língua suavemente na cabeça da rola dele e sempre que fazia isso, dava uma risadinha. Fernando se esticou um pouco e conseguiu colocar o dedo médio na boceta exposta dela. Um detalhe: Maulin dormia profundamente cansado, estirado no chão. Fiquei de pau duro e após a pausa para verificar aquela pornografia toda, fui até a cozinha. Alcancei o pote de margarina e voltei até o quarto. Claro que parei mais um pouco para admirar aquela cena maravilhosa de sexo. Mariana tinha um corpo muito atraente, isso era inegável. Diferente da vagabunda da Agnes que me passou as malditas verrugas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Olha o que eu trouxe, Alfredo – cheguei sacudindo o pote de margarina.&lt;br /&gt;- O que vai fazer com isso? Vai comer quem aqui dentro?&lt;br /&gt;- Você, porra! – respondi com sarcasmo.&lt;br /&gt;- Hã? O que? – Alfredo realmente se assustou.&lt;br /&gt;- Porra, às vezes você parece inocente... – enquanto falava, abria o pote.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Expliquei o meu plano de sodomizar o Samuel. Alfredo ficou um pouco resistente à ideia, mas logo se interessou quando prometi que ele poderia comer o cu da Marcela. Samuel permanecia num ronco ensurdecedor, quase se afogando em sua própria baba. Peguei um pacote de camisinha e o destaquei. Embrulhei meu pau e retirei a calça e a cueca do fura-olho. Coloquei-o de lado e passei margarina na ponta do meu pau. Aos poucos, pincelava o cu dele, até lambuzá-lo por completo. De ladinho mesmo enfiei meu pau com facilidade em seu cu. Pedi para o Alfredo - que naquele momento assistia a tudo, se masturbando - apagar a luz. Fiquei por três minutos num ritmo bem frenético, forçando a rosca do meu amigo com toda potência possível. Gozei litros de porra e urrei sem muito escândalo. Alfredo que estava com o pau duro, latejando, logo que saí do cu de Samuel, engatou em seguida sua rola dentro do serrador de canela. Foi de bruços mesmo. Foi intenso e demorado. Eu apenas ria da cara do corno dorminhoco. Ele roncava e tomava boas estocadas. O tédio tomou conta de mim e fui até a sala para verificar o casal que transava por lá. Estava apenas de camiseta e fingindo ir até o computador, cheguei perto dos dois e revezava minha atenção entre as músicas e a cena. Mariana viu que eu estava pelado e começou a rir. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Do que está rindo, Mari? – Fernando ficou encucado com a reação dela.&lt;br /&gt;- O Nelson, com esse pau mole, como se nada estivesse acontecendo aqui.&lt;br /&gt;- Fiquem tranquilos, acho legal esse clima liberal, sabe? Todo mundo pelado, putaria rolando solta. Assim que eu gosto!&lt;br /&gt;- Você é foda, Nelson! – Mariana teve que tirar o pau de Fernando de sua boca para me elogiar.&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;- Se vocês não se incomodam, vou bater uma olhando para vocês – comecei a acariciar minha rola, aguardando a autorização deles.&lt;br /&gt;- Fique a vontade, man – Fernando colocava seu pau novamente na boca dela.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Meu pau cresceu logo, mas fiquei um pouco constrangido pois o pau do Fernando tinha quase o dobro do tamanho do meu. Não é de se impressionar que a Mariana caísse de boca nele tão indiscretamente. Aliás, o Fernando tinha a boa fama de ser o pauzudo da turma. Isso garantia boas fodas. Lembro de ter visto um pau tão grande apenas quando comi um travesti num assunto mal explicado. A filha da puta era gostosa, tinha um rabo descomunal, mas o pau dela era enorme, muito grande mesmo. Quase perdi a concentração enquanto a comia, pensando na possibilidade dela virar o jogo e me penetrar violentamente. Eu já visualizava as manchetes: “homem morre após ser empalado por um travesti”. Trágico. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Pedi para Mariana deixar eu gozar em seus peitos. Ela disse que podia, mas Fernando disse que seria uma merda, pois ele queria abraçá-la. Então tive que gozar em seu quadril, de costas. Após ejacular pouco sêmen, dei um beijo nela e quase o pau dele esbarrou na minha boca. Eu estava bêbado, todos, inclusive eu mesmo, me perdoaram por isso. Fui até o quarto e Alfredo estava dentro de Marcela, por trás. Acendi um cigarro enquanto via os olhos brilhantes de meu amigo. Conheci uma face de Alfredo nessa ocasião, até então jamais imaginável. Ele parecia uma criança completamente satisfeita. Ele apertava os seios dela com força e não se continha de prazer. Quando eu estava na metade do cigarro, o sexo entre eles acabou. Para o meu alívio, Alfredo estava com a camisinha em seu pau. Fui até o banheiro e peguei minha toalha. Com cuidado, sequei a boceta de Marcela, que estava bem avermelhada e inchada. O cheiro de látex dos preservativos invadiu o ar, mas isso era o de menos. Tudo o que eu queria ver era a reação de Samuel quando sentisse finalmente a dor no cu. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Vamos jogar fora aquele pano com os resquícios de pó do calmante – fui objetivo e por incrível que pareça, sóbrio, em minha observação.&lt;br /&gt;- Tudo bem. Vai fazendo isso enquanto eu visto a roupa dela.&lt;br /&gt;- E a dele também, né? – olhei com firmeza para Alfredo.&lt;br /&gt;- Puta que pariu, tudo bem. E a margarina no rabo dele?&lt;br /&gt;- Passe aquela toalha ali no rabo dele. Não custa nada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Terminamos nossas funções de acobertamento e nos abraçamos com força, dando longas risadas. Podia ser uma cena bem gay, mas estávamos juntos naquilo até o fim, independente das consequências. Havia uma sensação de dever cumprido, um alívio que só uma boa vingança proporcionava. Muitas pessoas que se vingam, posteriormente em arrependimento, não vêem mais sentido em suas atitudes. Nós víamos sentido e prazer em tudo que fizemos, o momento que o homem se vangloria de ter fodido seu oponente. Bem, no nosso caso, fodemos literalmente. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Chegamos até a sala e Fernando conversava com Mariana dando risadas. Ela estava claramente exausta pelo sexo, pelas drogas e pelos sushis. Quando percebi, todos tinham um cigarro em mãos e um silêncio teimava em importunar aquele começo de madrugada. Todos estavam cansados, bêbados, drogados e extasiados. Cada um tinha seu motivo para comemorar . Verifiquei por garantia o meu quarto e a visão era amável: Alfredo havia colocado Marcela deitada na cama junto ao Samuel. Os dois acordariam confusos. Ele pensaria que ela aplicara o bom e velho fio terra em sua retaguarda. Ela pensaria que teve a foda mais devassa de sua curta vida sexual. Cômico.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Dois lindos anjinhos. Anjinhos violados.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-5134819363552435938?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/5134819363552435938/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=5134819363552435938' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/5134819363552435938'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/5134819363552435938'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2010/07/anjinhos-violados.html' title='Anjinhos Violados'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-8373791555258153231</id><published>2010-07-21T17:32:00.000-03:00</published><updated>2010-07-21T17:33:25.756-03:00</updated><title type='text'>Em Nome do Pai</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Trebuchet MS', sans-serif; font-size: 15px; line-height: 17px; "&gt;Eu estava olhando para o teto, mais precisamente para o ventilador de teto que girava enlouquecido, fazendo pouco barulho, é verdade, mas parecia que a qualquer momento iria alçar vôo e repousar em meu pescoço, cortando-o com velocidade, me garantindo uma morte indolor. Sempre tive esse medo, e nunca soube instalar um maldito ventilador de teto com segurança. Enfim, ventilador de teto a parte, eu estava pensando na vida, ouvindo pela terceira vez o disco Hate dos Delgados. Estava sublimado com a voz da vocalista, os arranjos monumentais, mas ao mesmo tempo que eu me deliciava com cada detalhe cuidadoso da execução dos instrumentos, o refrão de ‘The Light Before We Land’ me desferia um golpe no peito, um golpe gelado, como se as dores do passado estivesse concentradas num raio e esse maldito raio escuro me atingisse com toda potência do mundo. Era a maldita sensação da nostalgia. O engraçado de tudo isso é que eu nunca ouvi esse som na minha infância – que eu saiba, eles nem existiam na época – mas uma vontade de chorar me tomava, como se eu houvesse detectado alguma lacuna vazia na minha história, algo que deixei de fazer ou algum pecado covarde de minha existência. Preparei-me para o momento em que minhas lágrimas cairiam, mas nada aconteceu. Senti meus olhos secarem ainda mais, me frustrando, afinal, esse papo de que homem não chora é pura balela. Todo homem, em algum momento na vida, precisa chorar, como se fosse um êxtase religioso, como uma iniciação em uma seita absurda ou seja o diabo que for, o homem precisa de lágrimas lavando seu rosto e sua alma. Piegas? Pau na sua bunda.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Tomei coragem para levantar da cama e verificar o estado da geladeira. Estava vazia, mas não tem nada a ver com minha situação financeira. Eu não compro muita comida, tenho o costume de jantar fora, na padaria ao lado do prédio que moro. Compro mais bebidas e a geladeira só está vazia porque estamos no fim do mês. Sem desespero. Dei uma rápida olhada no computador que estava ligado com o programa de torrents. Estava baixando um filme, ‘Em Nome do Pai’, história real e muito triste, de um pai que vai para cadeia apenas para acompanhar o filho que havia sido confundido com membro do IRA, aquele exército revolucionário da Irlanda. Enfim, tem uma boa história (jamaicanos na cadeia lambendo peças de quebra-cabeça banhados em ácido) , boa trilha sonora (Bob Marley e Kinks) e uma atuação sensacional da Emma Thompson – a desgraçada sempre teve aquela cara de velha? – como advogada do coitado irlandês. Esse filme me marcou desde os onze anos, quando o assisti pela primeira vez. Mas com todos os deuses, o fato é que uma janelinha de conversa do Messenger piscava. Era o Fernando, um dos poucos amigos que tenho. Depois da morte do Alfredo, me aproximei ainda mais dele, talvez seja pela grande semelhança entre Fernando e Alfredo. Gosto musical, repulsa por qualquer religião ou política, a vida que levam (que Alfredo levou até seu suicídio), enfim, eu me sentia extremamente completado ao conversar com qualquer um deles. Pois bem, o Fernando me convidou para ir a casa dele. Eu não gostava muito de ir até lá por um motivo de nome antiquado e ridículo: Aristeu. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Aristeu é um evangélico neo-pentecostal, daqueles que vivem com um adesivo grudado no rabo, escrito DEUS É FIEL. Vivem com uma bíblia postada embaixo de seus sovacos, e tem líderes que vivem inovando as doutrinas e o modo de usar a bíblia, guardando milhares de dólares dentro dela para enganar a fiscalização no aeroporto. Tatuam qualquer merda em hebraico na nuca e andam com uma estrela de Davi enrolada no pescoço. Aristeu é um deles. Sempre tem um versículo para se defender, mesmo que seja na hora errada, na ocasião menos favorável possível. E eu não tenho tolerância para pessoas cínicas como ele. Nem o próprio Fernando tem tolerância com o pobre diabo pois vive acertando socos na cara dele, sempre quando descamba em proferir discursos pré-calculados e copiados de seus pastores. Resolvi ligar para o Fernando, não gosto de conversas longas por Messenger.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Fala rapaz! Como estão as coisas, Fernando?&lt;br /&gt;- Opa meu jovem! Vão indo, vão indo... Ué, por que me ligou? Caiu sua conexão?&lt;br /&gt;- Não, é que não gosto de longas conversas por internet, fico de saco cheio de digitar, sabe?&lt;br /&gt;- Sei, então, o que me conta?&lt;br /&gt;- Cara, não sei se vou aí. O Aristeu, man. Esse filho de uma puta me tira do sério. Você ainda consegue amaciá-lo na porrada, já eu tenho vontade de enfiar uma faca no pescoço daquele viado. Ele fala muita bosta, ele é persistente em reproduzir as mentiras em que acreditou, sabe?&lt;br /&gt;- Eu sei, mas cola aqui, mano. Ele vai chegar tarde, hoje tem vigília na igreja dele. Estou livre dele hoje, por isso que te chamei. Além do mais, o Alberto vem também.&lt;br /&gt;- Caralho, faz tempo que não falo com aquele maldito! Se é assim, logo mais to aí.&lt;br /&gt;- Nelson, só uma coisa: traga uma garrafa de uísque – Fernando solicitou com voz sombria e ao mesmo tempo cheia de clemência.&lt;br /&gt;- Porra, você quer quebrar minhas pernas... É fim de mês, man. Não dá pra comprar um J&amp;amp;B.&lt;br /&gt;- Não tem problema, compre um Passport e tudo fica de boa.&lt;br /&gt;- Quanto é que ta uma garrafa dessa merda? Quarenta mangos?&lt;br /&gt;- Trinta e pouco, sei lá... Por aí.&lt;br /&gt;- Bem, ainda é melhor que comprar um J&amp;amp;B. Já já eu colo por aí. Abraço.&lt;br /&gt;- Abraço.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;A noite aplicava um mata-leão violento na tarde, e escurecia nosso lado do planeta. E nessa putaria toda, um frio se instalava com toda a malícia que uma massa de ar polar continha. Acho que fazia uns quinze graus e fui para o chuveiro tomar um banho rápido. Olhei para o sabonete seco e cheio de pêlos, e lamentei ter esquecido de tirá-los no banho anterior. Fiquei tirando-os com as unhas, enquanto elas ficavam cheias de sabonete e pêlos grudados. Passei as unhas na parede e comecei o banho. Estava pensando em tantas coisas que acabei terminando o banho sem passar o xampu. Percebi isso ao secar os cabelos e notar uma textura áspera. Detesto meus cabelos finos. Lembro das garotas dizendo: “Olha só que cabelo liso! Ele tem um cabelo tão lindo, e nós esse bombril”. Tudo o que eu queria era meter a rola nelas e elas invejando meus cabelos. Acho que é por isso que estão caindo. Malditas vadias. No final das contas, voltei para o chuveiro e lavei o cabelo. Vesti-me no banheiro mesmo – não queria sair no frio – só calcei o tênis na sala. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Peguei as poucas cervejas que havia na minha geladeira e coloquei numa sacola de supermercado. Eu iria bebê-las no caminho. Desci as escadas do prédio e ganhei a avenida, acendendo um cigarro. Caminhei até outra avenida paralela à que moro e parei numa loja de bebidas, na verdade é uma loja de vinhos, mas eles vendiam todos os tipos de destilados também. Comprei o uísque para o Fernando e dois potes de picles. Cheguei ao ponto de ônibus e aguardei por uns cinco minutos. O ônibus chegou cheio, típico de sexta-feira. Ele ia até o metrô São Judas. Desci lá mesmo e caminhei uns dez minutos até a rua Major Freire. Ele mora num bom apartamento de dois quartos, cheio de comércio ao redor, pizzarias, farmácias, um sucesso de bairro. O porteiro não gosta de mim, pois me olhou com desdém, porém ao remexer em suas memórias, lembrou de algumas noites em que estive lá, quando o barulho foi insuportável e os vizinhos ameaçaram chamar a polícia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Vê se pega leve essa noite, hein? – o porteiro solicitou com voz suave porém firme, enquanto eu atravessava a entrada do prédio.&lt;br /&gt;- Relaxa, chefe. O Aristeu não está hoje para torrar o meu saco – respondi erguendo meu polegar positivamente.&lt;br /&gt;- Coitado do Aristeu, não sei o que vocês vêem de tão ruim no coitado. Ele é decente, trabalhador e vai na igreja.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Fiquei intrigado com a disposição do porteiro em defender aquele porra do Aristeu.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt; &lt;/span&gt;- E o que o faz decente? Trabalhar? Ir à igreja? – destilei meu veneno com todo sarcasmo disponível.&lt;br /&gt;- Sim, ao menos o pessoal da minha igreja é tudo gente honesta, rapaz. Gostam de trabalhar e não causam problemas.&lt;br /&gt;- Ah sim, eu deveria desconfiar! Vocês estão em todos os lugares! Deus eterno!&lt;br /&gt;- Nós quem? Evangélicos?&lt;br /&gt;- Sim, vocês evangélicos... Com esse papo de honesto, trabalhador, digno... Ahhh! – dei um grito de desespero e desisti – olha, o Aristeu não está aqui e isso me faz feliz. Você não vai estragar minha noite.&lt;br /&gt;- Jesus te ama! – exclamou o porteiro me entregando um folheto.&lt;br /&gt;- Guarde isso pra alguém que agüente toda essa merda, chefe. Boa noite – me despedi andando apressadamente até o elevador.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Cheguei no corredor do oitavo andar e o cheiro era de feijão cozido. “Quem diabos resolve cozinhar feijão numa sexta à noite” e toquei a campainha do apartamento de Fernando.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Graaaande Nelson! Dá um abraço aqui! – Nelson me cumprimentou calorosamente, tomando de minhas mãos a sacola com uísque.&lt;br /&gt;- Fala, meu velho! Caralho, deixa de ser compulsivo, seu porra – respondi ao perceber a sacola sendo tomada de minha mão.&lt;br /&gt;- O uísque acabou e como você disse, é fim de mês e só você tem limite bancário por aqui!&lt;br /&gt;- Maldito rato – adentrei o apartamento e fiquei observando a decoração esculachada. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Apenas o computador na sala, dois sofás, uma televisão e dois quadros: um com um palhaço triste, a breguice em forma de arte, e o outro exibia uma paisagem praiana, o típico marasmo artístico. O sofá cheio de manchas, sabe Deus do quê. O computador jazia numa escrivaninha sem a mínima conexão visual com o resto da sala. Uma bíblia permanecia ao lado do monitor. “Graças a Deus o Aristeu não está aqui”, pensei.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Então, pedi duas pizzas, acho que é o suficiente, não? – Indagou Fernando enquanto servia duas doses de uísque com gelo.&lt;br /&gt;- Ué? E quem vai pagar por elas? – nesse momento meu saldo bancário apareceu em minha frente, como se estivesse estampado na parede, em neon.&lt;br /&gt;- Eu tenho o vale-refeição ainda, Nelson. Só que ninguém vende bebida com VR.&lt;br /&gt;- Caralho, que susto. Você tem essa mania de me quebrar as pernas, Fernando, vai se foder, rapaz...&lt;br /&gt;- Fica frio, mano. O VR aqui tem uma boa quantia pra torrar.&lt;br /&gt;- E por que não vendeu o VR pra comprar bebidas?&lt;br /&gt;- Os caras estão descontando quinze por cento na venda! Nem fodendo que vou entregar quinze por cento de bandeja assim!&lt;br /&gt;- Malditos desgraçados! Quinze por cento? Santo Padre!&lt;br /&gt;- Pois é, mano. É uma boa grana, dependendo da quantia que você vai vender.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Brindamos às almas dos compradores de VR e desejamos suas mortes. Bebemos nossos primeiros goles.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- E onde diabos está o Alberto? – perguntei cutucando os gelos de meu copo com os dedos.&lt;br /&gt;- Vem mais tarde. Ficou atolado de trabalho, o cara ta estressado pra caralho. Uma hora ou outra ele tem um colapso.&lt;br /&gt;- Cara, meu trabalho também está cheio de pepinos, por todos os lados. Aqueles judeus estão metendo no rabo de todo mundo por lá. Eles não têm a mínima noção comercial, não manjam porra nenhuma de marketing e um dos diretores é metido a sabichão, sabe? Leu de tudo um pouco, vive com aquela postura de arrogância, olhando para todo mundo, como se todos fossem lixo, puro lixo.&lt;br /&gt;- Eu sei qual é a desses caras...&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;– Fernando afirmou com olhar penetrando um baseado, o qual enrolava lentamente.&lt;br /&gt;- Mas o cara curte Harry Potter. Ele é o típico boçal que tem grana, mas ainda não descobriu que dinheiro não compra inteligência.&lt;br /&gt;- É, estamos cheios desses tipos... humm... por aí... – ele continuava concentrado no enrolar perfeito do baseado.&lt;br /&gt;- Malditos judeus. Cara, eles se acham o povo escolhido, se acham acima de qualquer coisa dentro daquela comunidade de retardados. Um amigo meu tentou se converter ao judaísmo...&lt;br /&gt;- Pelas barbas de Moisés, pra quê? – Fernando me interrompeu.&lt;br /&gt;- Sei lá, ele tem grana, tem classe e diz ele que o pau dele foi circuncidado por causa da boa e velha fimose. Tava com a faca e o queijo na mão, mas o maldito rabino cortou o barato dele. O coitado foi a uma entrevista com esse rabino, e o judeu o ouviu, ficou com olhar disperso, dizendo centenas de ‘ahãs’ e toda aquela ladainha de bom ouvinte. E o meu amigo ficou com todo aquele papo de “sempre fui apreciador e amante da cultura judaica” – cadê a garrafa do uísque? – interrompi a conversa.&lt;br /&gt;- Vou lá buscar, peraê. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Fernando chegou com a garrafa de Passport, sentou e deu um suspiro profundo, serviu os dois copos e correu até a cozinha pois havia esquecido das pedras de gelo. Voltou e concluiu o serviço.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- E aí? O que aconteceu com seu amigo? – Fernando deu um bom gole em sua bebida.&lt;br /&gt;- Então, o rabino apenas disse que iria apreciar a conversa que tiveram e iria conversar com anciãos da sinagoga e tudo mais. O fato é que nunca entraram em contato com ele, e o rabino vivia dando perdidos no pobre diabo. Ele ficou revoltado e começou a compartilhar da mesma opinião que a minha: são todos uns excluídos da sociedade, vivendo em seus círculos de amigos com a ponta da rola cortada, se metendo em bar-mitzvas, brindando suas bebedeiras gritando “l’chaim!” e fazendo cara de cu quando avistam uma boa feijoada, cheia de porco morto boiando.&lt;br /&gt;- Por isso que o Hitler jogou os caras nas câmaras de gás – Fernando acenou para o nada enquanto mastigava um pedaço grande de picles.&lt;br /&gt;- Sim, eu cresci vendo filmes como a Lista de Schindler, O Pianista, A Vida é Bela entre outros milhões deles, me acostumei a sentir dó daquele povo, mas à medida que você cresce, vai percebendo, sabe? – peguei um pedaço de picles e o mastiguei.&lt;br /&gt;- É... O único judeu que se salva é o Woody Allen.&lt;br /&gt;- Concordo. E também gosto do Adam Sandler. Só não gosto da mania dele em pôr sempre algo que nos faça lembrar a maldita estrela de Davi ou a cultura deles, comida kosher e essas esquisitices de povo semita branco.&lt;br /&gt;- Eles são brancos pelo tempo que passaram sugando os países da Europa, como Alemanha, Áustria, Polônia, Rússia... &lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt; &lt;/span&gt;– Fernando me lembrou esse fato e levantou rumando para a cozinha.&lt;br /&gt;- Para o inferno com eles, só isso que tenho a falar. São alienígenas e ponto final. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Acendi um cigarro e fiquei olhando o maldito quadro do palhaço.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Fernando, quem pintou essa merda aqui? – perguntei enquanto expelia fumaça pela boca.&lt;br /&gt;- Minha mãe – respondeu com voz falhada e constrangida, enquanto pegava umas latas de cerveja.&lt;br /&gt;- Que bosta, hein? Você gostava do Bozo?&lt;br /&gt;- Claro, quem não gostava?&lt;br /&gt;- Eu. Nunca achei graça naquele palhaço com cara sádica. Um dia liguei pro programa dele e mandei ele tomar no cu. Ele me respondeu que não gostava de tomate cru. Eu dei muita risada com a cara constrangida que ele fez – bati a cinza do cigarro no cinzeiro e o repousei para dar uma mijada rápida.&lt;br /&gt;- Confesso que ele era um tanto assustador. Mas o conjunto da obra era bom. Papai papudo, vovó Mafalda, toda aquela música! Caralho, lembro dos tempos da escola, eu chegava em casa, jogava a mochila no sofá e ligava a TV para assistir o Bozo! – Fernando exclamou com entusiasmo e olhar saudosista.&lt;br /&gt;- Preferia ver o Chaves! E o SBT ainda era TVS, lembra? – perguntei enquanto sacudia meu pau.&lt;br /&gt;- Cacete, é verdade! Lembra das vinhetas de natal, com todas aquelas canções calorosas, em harmonia? Meu, que bosta, vâmo parar com esse papo. Tá me deixando sentimental demais – os olhos de Fernando brilhavam.&lt;br /&gt;- Que bichona! Dá uma cerveja aqui – tomei uma lata das mãos dele enquanto ele estava em transe, lembrando da infância.&lt;br /&gt;- Você é um coração de pedra, Nelson. Não tem nada que te lembre a infância?&lt;br /&gt;- Claro que sim! Estava viajando num disco dos Delgados, o Hate, sabe?&lt;br /&gt;- Não, nunca ouvi – Fernando franziu a testa.&lt;br /&gt;- Depois eu te mostro – tomei um gole da cerveja que estava trincando -, o que eu achei estranho é que os Delgados são uma banda que aprendi a gostar depois dos meus vinte anos. Mas eles me fizeram viajar de volta à infância. Meu peito ardia, me deu vontade de chorar.&lt;br /&gt;- Que bichona... – Fernando sussurrou com tom de deboche.&lt;br /&gt;- Pau na sua bunda, man – o interfone do apartamento tocou. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Fernando atendeu e autorizou a subida de Alberto. O miserável do Alberto. Talvez o cara mais tranquilo que conheci na vida. Sua fala era bem mansa, suas pálpebras permanentemente semicerradas, e a boca dele estava quase sempre fechada, como se estivesse sempre por bocejar. O andar dele era uma espécie de rastejar vertical, e sua postura sempre inclinada para frente, com os ombros curvados e a cabeça baixa. Parece que estou falando de um derrotado, mas não, ele até se dava bem na vida. Trabalhava como estagiário de direito num escritório de advocacia, ganhava razoavelmente bem, mas vivia enlouquecido com tanto trabalho, com tantos processos a analisar. Diferente de mim, ele tinha um chefe genuinamente brasileiro e muito gente boa. Quando estava fora da opressão de seu curto expediente, Alberto irradiava um bom-humor contido porém agradável. Conhecia muito sobre música e nunca perdia tempo com as mulheres. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Alberto, seu miserável! – me levantei e fui abraçá-lo.&lt;br /&gt;- Deus do céu, Nelson! Deixou a barba crescer? – e me abraçou forte, talvez devido ao tempo, seis meses eu acho, que não nos víamos.&lt;br /&gt;- Porra, o que anda fazendo de bom nessa vida desgraçada? – me perguntou enquanto recebia de Fernando uma lata de cerveja.&lt;br /&gt;- Ah, entrei numa empresa de importação. Trabalho no comercial, mas ta uma merda sem igual. Meu chefe é um bosta arrogante. E você, ainda no estágio?&lt;br /&gt;- Sim, logo logo concluo o estágio, e tudo indica que serei efetivado. Assim espero – deu um gole curto na cerveja e deixou um pouco da bebida escorrer pelo canto da boca –, cacete de cerveja! – foi ao banheiro secar a boca na toalha de rosto.&lt;br /&gt;- Não Alberto! – gritou Fernando –, o merda do Aristeu vai chiar se sentir cheiro de cerveja nessa toalha!&lt;br /&gt;- Pau no cu do Aristeu! – Alberto colocou a toalha dentro de sua cueca e começou a simular uma punheta.&lt;br /&gt;- Puta merda, puta merda! Agora você que ponha esse pano pra lavar!&lt;br /&gt;- Parece uma porra de uma dona de casa, Fernando! Relaxa! Você não disse que o crente não vem hoje?&lt;br /&gt;- Sim, mas porra, deixa de bagunça. Quero que o Aristeu se foda. Você já ta bêbado? – Fernando perguntou enquanto chutava a toalha de rosto até a lavanderia.&lt;br /&gt;- Ainda não. Só to curtindo com sua cara. De boa, hahaha! – Alberto dava risadas altas.&lt;br /&gt;- E por que tanta alegria, Alberto? Tá confiante pra caralho, tudo isso é porque você vai&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;ser efetivado? – perguntei abrindo outra lata.&lt;br /&gt;- Também, mas cara, eu to com tanto estresse que o meu chefe me deu uma semana de licença para descansar – Alberto se assentou no sofá, com um sorriso largo no rosto.&lt;br /&gt;- Caralho, o que você fez para isso acontecer? Matou alguém? – perguntei, preparando-me para anotar as dicas.&lt;br /&gt;- Ah, um viado chato, não é viado, na verdade to só ofendendo. É um gordinho puxa-saco do chefe. Fofoqueiro pra caralho, vocês precisam ver pra crer. Ele simplesmente é viciado em fofoca e intriga. Tem uísque pra mim aí, Fernando? – Alberto interrompeu seu próprio relato.&lt;br /&gt;- Vem cá pegar, seu lixo! – Fernando estava estritamente irritado com a toalha de rosto violada sexualmente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Alberto levantou-se e começou a preparar o seu drinque, enquanto continuava seu relato.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Então, o gordinho veio fofocar comigo. Ele sabia que eu não curtia fofoquinha. Quando ele veio falar do Gouveia, um office-boy gente boa pra caralho, eu o expulsei da minha sala na base do ponta-pé! – Alberto falava empolgado e em voz alta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Eu dei muita risada, meio incrédulo. Ele voltou ao seu posto no sofá.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- O chefe sabia que o gordinho era um puxa-saco do caralho. Mas ele detectou um estresse cada vez maior nas minhas atitudes. Ele me chamou pra conversar. Eu pensei “santa merda, to fodido!”, mas ele reservadamente me propôs uma licença. Eu fiz cara de sofrido, e aceitei com um tom de relutância.&lt;br /&gt;- Bem, acho que vou espancar o psicólogo do RH da minha empresa. É um moleque e esse é viadão mesmo. Gosta de intriga, vive puxando o saco dos diretores. É repugnante. E ainda acha que tem uma carreira brilhante pela frente – me exaltei erguendo a lata de cerveja.&lt;br /&gt;- Pois então, dê uma boa surra nele, oras! – Fernando se intrometeu na conversa, voltando a sala, sentado na cadeira da escrivaninha.&lt;br /&gt;- Vontade eu tenho. O problema é que aquele bando de judeus vai pirar e me mandar embora por justa causa. Eles já não vão com a minha cara. Tudo que eles querem é dançar Hinei Matov em cima do meu túmulo! – minha voz continuou exaltada.&lt;br /&gt;- Então por que você não explode aquela merda, bem no estilo Hamas de vida? Hahaha! – Alberto propôs com deboche em cada letra que saía de sua boca.&lt;br /&gt;- Vou mandar uma cabeça de porco embrulhada com a bandeira do Irã, lá pra casa dele no Higienópolis! – enfim assumi a mente de um palestino sanguinolento.&lt;br /&gt;- Falando nisso, comi uma judia, há um tempo atrás. Estava curtindo um som no Milo e um amigo estava de olho numa branquelinha, feito neve, cara, vocês precisavam ver! Aí ele agitou uma amiga da garota para mim. Final da história: acabamos cada um num quarto. Olhei para o meu lado e estava uma garota linda que só vendo mesmo. Ela estava pelada, e a cama cheirava a lubrificação de camisinha – Fernando começava a se empolgar com seu relato – olhei pra baixo e eu estava pelado. Cutuquei o corpo dela e ela estava peladinha. Dei uma cutucada na buceta dela e ela apenas mexeu a boca e virou de costas para mim. Enfiei meu pau nela e nada dela se manifestar. Foi lindo. Gozei nela, foi bom demais. Tomara que tenha engravidado, aquela vaca.&lt;br /&gt;- E seu amigo? – perguntei extremamente curioso.&lt;br /&gt;- Porra, isso foi o mais engraçado. Ele saiu do quarto dele ao mesmo tempo em que eu saí do meu! Nos encontramos no corredor, só de cueca e camiseta e perguntamos quase ao mesmo tempo: onde a gente ta? Demos risada e fuçamos a geladeira das safadas. Pegamos um vinho e bebemos rapidamente. Comemos umas pizzas geladas, nos vestimos e fugimos. Queira Deus que eu tenha engravidado a vaca – Fernando fazia gestos simulando uma barriga grande.&lt;br /&gt;- Caralho, isso que é uma boa história! – Alberto comentou em voz alta enquanto ia até a cozinha atender o interfone. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;A pizza havia chegado. Uma de peperoni e outra de frango com catupiry. Alberto foi com relutância buscar as pizzas. Eu me prontifiquei a pegar mais umas latas de cerveja. Alberto chegou e comemos em silêncio, mas rapidamente. Comemos quase tudo, deixando uma pizza de cada sabor sobrando. Guardamos na geladeira e nos concentramos em finalizar a garrafa de uísque.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Esse papo de judeu, já deu no saco. Vamos falar de outra coisa, sei lá. – Fernando propôs buscando nossos olhares, que estavam dispersos, observando os quadros.&lt;br /&gt;- Cara, sabe o que os judeus têm mais que eu? – perguntou Alberto.&lt;br /&gt;- Dinheiro, mulheres? Saúde? – respondi com um leve sorriso contornando minha boca.&lt;br /&gt;- Não. Eles têm mais É QUE SE FODER! Hahahaha!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;A risada foi generalizada. Fernando engasgou com a cerveja que bebia no momento da conclusão da piada. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Sabe como é que cabem vinte judeus num fusca? – comecei a minha piada.&lt;br /&gt;- Sei lá, porra, como? – Fernando estava curioso e se inclinou esboçando uma risada.&lt;br /&gt;- Coloque eles no cinzeiro! Hahahaha! – comecei minha gargalhada conduzida pelo meu estado alcoólico.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Novamente a risada foi generalizada. Fernando fazia sinal de que estava sem ar e começamos a rir mais ainda. Estávamos bêbados feito gambás alegres. Alberto nos alcançou heroicamente e já tinha seu bom e velho olho semicerrado de volta. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Eu queria gravar essa nossa conversa e mandar para meu chefe! Ele ia surtar! – exclamei enquanto finalizava mais uma lata de cerveja. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;A campainha tocou nesse momento. Logo após ouvimos batidas. Nos entreolhamos e todos ficaram com cara de surpresa. Fernando foi até a porta, verificar quem batia, através do olho mágico. De repente o Fernando virou bruscamente para nossa direção, e fez uma cara de maníaco frustrado. Certo ódio e traços de melancolia misturados em seus olhos. Eu saquei na hora: Aristeu, o crente filho de uma puta suja.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Abre a porta logo, Fernando! Quero ir ao banheiro! – Aristeu estava impaciente, dando pequenos passos para todas as direções possíveis, segurando seu pinto.&lt;br /&gt;- Peraê! – Fernando voltou à porta e destrancou-a. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Aristeu olhou para o estado da sala, parou por um tempo e foi correndo até o banheiro. Aliviou-se e após lavar suas mãos, notou a ausência da toalha de rosto. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Fernando, cadê a toalha de rosto? – perguntou com a cara molhada e os olhos fechados.&lt;br /&gt;- Sei lá, onde está? Você viu? – Fernando respondeu com deboche.&lt;br /&gt;- Caramba, como vou secar meu rosto?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Percebi que a noite seria longa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Seque com a sua toalha de banho, Aristeu! – me intrometi, sugerindo uma solução rápida.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Aristeu me ignorou e continuou perguntando a Fernando sobre o paradeiro da toalha de rosto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Aristeu, vá se foder, ta ouvindo?! Se não vou aí quebrar sua cara! – Fernando respondeu lá da cozinha, com voz irritada.&lt;br /&gt;- Pra variar, a resposta de um animal. Meu Deus! – Aristeu retrucou com semblante arrogante.&lt;br /&gt;- Vá para o seu quarto se não quiser morrer de câncer com a fumaça de nossos cigarros! Aliás, vá se foder! Por que você não está na vigília de oração da sua igreja? – Fernando queria conflito, queria briga.&lt;br /&gt;- Foi remarcada para a próxima sexta-feira. O pastor está gripado. Hoje foi um culto normal mesmo.&lt;br /&gt;- O pastor ta gripado? Por que Jesus não o curou, porra? – Fernando realmente queria treta.&lt;br /&gt;- Ele é um ser humano e adoece como todo mundo. Ele não se autonomeou apóstolo de Cristo? Porra, o cara é um semideus!&lt;br /&gt;- Você precisa ser mais tolerante, mais educado, Fernando. Deus tenha misericórdia de você – Aristeu nem se deu ao trabalho de olhar para mim ou para o Alberto.&lt;br /&gt;- Enfia essa misericórdia no seu rabo, por favor!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Aristeu se trancou em seu quarto para se trocar. Ligou a televisão na rede Gospel e ficou por um tempo em sua cama. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Bem, acho que dá pra gente continuar bebendo e trocando ideia. O que acham da gente ir naquele mercadinho vinte e quatro horas para comprar mais um uísque? – Fernando propôs com olhar malicioso.&lt;br /&gt;- Eu voto em vodka – me manifestei.&lt;br /&gt;- Eu também. Um pouco de vodka não fará mal, man – Alberto complementou minha ideia.&lt;br /&gt;- Com todos os diabos, que assim seja – Fernando finalizou o pequeno concílio alcoólico.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Rumamos para a loja, fumando cigarros e falando sobre mulheres. Apenas Fernando estava mal vestido, com um short pequeno demais para os padrões masculinos do século vinte e um, e com um chinelo Rider. A camiseta era do Queen. Eu gostava muito de Queen. Nós três gostávamos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Ao voltar para o apartamento, o porteiro me fuzilou com os olhos e eu bêbado retruquei levantando meu dedo do meio para ele. Ele olhou para frente e permaneceu parado, com postura ereta, como se estivesse vendo um coral de anjos em sua frente. Não entendi a reação covarde dele. Chegamos à porta do apartamento e uma surpresa: estava trancada. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Abre essa porra, Aristeu! Abre essa porra! PUTA QUE ME PARIU, EU VOU MATAR VOCÊ! – Fernando libertou seus demônios e gritava com ódio, com todo o ódio do mundo concentrado. Pensei que apenas os gritos dele derrubariam a porta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;O interfone tocou no apartamento. Aristeu não foi atendê-lo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Tá vendo? Já tem vizinho reclamando! Tá vendo, porra?! – Fernando se dirigia à gente apontando para a porta, completamente contrariado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;De repente, como se um duende tivesse sussurrado em seu ouvido, Fernando se lembrou da chave reserva, que fica dentro da mangueira de incêndio do corredor. Enquanto Fernando destrancava a porta, podíamos ouvir o barulho do calcanhar de Aristeu cada vez mais distante. Com certeza estava correndo de volta para seu quarto. Quando entramos no apartamento, as luzes estavam apagadas, o computador desligado, e Aristeu havia comido as pizzas que sobraram. As cervejas estavam intactas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Abra essa porra de porta, seu viado maldito! ABRAAA!&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;- Fernando iria matá-lo e eu não iria me meter.&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Nunca gostei daqueles sujeitos que apartam brigas. Eu gosto de ver o circo pegar fogo. Alberto bebia outra lata de cerveja e servia uma dose de vodka. Pedi que servisse em meu copo também. Ele ligou pacientemente o computador e clicou no iTunes. Em seguida clicou em ‘Diamond Sea’ do Sonic Youth. A música tem quase vinte minutos de piração ruidosa, mas conta com uma linda canção. E ela começou linda, que harmonia maravilhosa. E Fernando continuava ensandecido junto à porta de Aristeu. E foi assim por trinta minutos, até a fera acalmar. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Uma hora você vai ter que me encarar, seu corno do caralho!&lt;br /&gt;- Tenha uma ótima noite, Fernando! – Aristeu o provocou.&lt;br /&gt;- FILHO DE UMA PUTA, EU VOU TE MATAR! – Fernando se inflamou novamente – É melhor virar politeísta, porque um só deus não vai te livrar de mim, seu crente sujo, maldito!&lt;br /&gt;- Essa foi boa, hahaha! – comentei, tentando descontrair o Alberto que parecia um pouco tenso.&lt;br /&gt;- Foi realmente boa, Nelson. Só não quero ver o que o Fernando vai fazer com o crente-rabo-quente!&lt;br /&gt;- Orei muito por você hoje, Fernando. Deus vai te transformar – Aristeu novamente lançava sua arma espiritual, a intercessão não solicitada, a oração que ninguém pediu.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Enfim Fernando voltou à sala e sentou no sofá. Servi uma dose dupla de vodka para o coitado que estava uma pilha de nervos. Ele bebeu lentamente, porém sem interrupção. Matou o copo todo. Acendeu um cigarro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Sabe o que acho? O Aristeu é como noventa e nove por cento dos crentes que existem: se fazem de santos, decoram alguns versículos para autodefesa e vão a igreja pra arranjar namoradinha. Eles casam cedo pra poder transar logo, se bem que tem muita crente-rabo-quente que dá o cu pra não perder a virgindade na buceta. Eu já comi mulher crente assim! Regulava aquela buceta velha mas deixava eu gozar no rabo dela! Olha só que cínica do inferno!&lt;br /&gt;- Acho que todos nós comemos uma crente-rabo-quente – dei o meu testemunho relâmpago.&lt;br /&gt;- Época boa era quando os crentes não estavam na mídia, na boca do povo. Eles eram mais puros, falavam mais de Deus e nem pensavam em entrar na política. Agora eles querem adequar a igreja deles com o mundo! Porra, deixe a gente em paz! – Fernando continuou.&lt;br /&gt;- Já ouviram o rock gospel? – perguntou Alberto – totalmente sem referência. Rock feijão com arroz, sem graça, sem inovação. É só pra pegar os trouxas que se converteram e os deixar interessados na igreja. Vivem dizendo: “vamos pegar o rock que era algo para o diabo e dedicá-lo a Deus!”, porra, por que eles não pegam o ramo pornográfico e não o dedicam a Deus também? Já pensou? Suruba Divina 2! Hahahaha!&lt;br /&gt;- Eles podiam criar os atores pornôs de Cristo, o que acham? Hahahaha! – Fernando finalmente se descontraiu.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Aristeu saiu de seu quarto enfurecido com os nossos comentários. Esqueceu do ódio de Fernando e do risco de morte que estava correndo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Isso! Parabéns! – Aristeu batia palmas com cara de impressionado – Continuem a usar o nome de Deus em vão!&lt;br /&gt;- Ah! Mas só me faltava essa! Seu filho de uma puta! – Fernando se ergueu para espancá-lo, mas Alberto e eu o seguramos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Eu realmente não gosto de sujeitos que apartam brigas, mas queria ouvir o que ele tinha a dizer.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Continue, Aristeu, seu bosta – finalmente o insultei.&lt;br /&gt;- Sem ofensas, Nelson, sem ofensas. Vocês usam o nome de Deus em vão e o próprio Senhor disse que não inocentaria quem fizesse isso. Vocês não temem a ira de Deus?&lt;br /&gt;- Vamos lá, Aristeu... Me responda:&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;qual é o nome do seu deus? – perguntei com olhar desafiador.&lt;br /&gt;- É Deus, mas pode ser Senhor, Todo-Poderoso, Senhor dos Exércitos... Uma infinidade de nomes.&lt;br /&gt;- Cacete, mas ele não tem nome? Os hebreus foram originais, hein? Os indianos têm milhões de deuses e todos têm um nome. Os babilônicos tinham seus deuses, todos identificados.&lt;br /&gt;- Mas existe um nome que está acima de todos os nomes! Jesus! Jesus Cristo! – Aristeu se entusiasmou e ergueu o olhar e os braços de forma teatral.&lt;br /&gt;- Ué, mas você não é monoteísta? Não serve a um deus apenas? Por que tem dois nomes? Ou tantos nomes, como você citou?&lt;br /&gt;- São três pessoas numa só, Nelson. Você sabe disso!&lt;br /&gt;- Não, eu não sei. Às vezes você ora a Deus em nome de Jesus. Às vezes ora a Jesus em nome de Jesus. Às vezes você ora a Deus em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Mas o Espírito Santo só é a voz da consciência, nunca é invocado ou adorado. Por que essa confusão toda?&lt;br /&gt;- Não vejo confusão nenhuma. É apenas uma concepção de Deus diferente das outras – Aristeu havia abandonado seu entusiasmo.&lt;br /&gt;- Mas esse Deus que na verdade é uma fusão de três pessoas, é meio dividido, não? O Pai manda, o Filho obedece, o Espírito Santo obedece. Mas no final das contas nem o Filho, nem o Espírito Santo foram criados pelo Pai, sempre existiram junto a Deus, certo? – eu estava chegando ao ponto que queria.&lt;br /&gt;- Deus é eterno, ninguém o criou. Isso é óbvio – Aristeu mostrou desprezo em sua resposta.&lt;br /&gt;- Então quem criou a hierarquia entre pai e filho lá no céu? Alguém é mais forte pra mandar naquela porra, não é?&lt;br /&gt;- Não chame o céu de porra.&lt;br /&gt;- Mas alguém manda no céu, né? Então essa trindade é mais confusa do que a gente imagina!&lt;br /&gt;- Não chame o céu de porra – repetiu com o olhar soturno e disperso.&lt;br /&gt;- Mas eu já parei. Quem repete frase é porque perdeu a razão, Aristeu – Alberto se infiltrou na conversa.&lt;br /&gt;- Você não foi chamado na conversa, Alberto – Aristeu continuou com o mesmo olhar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Fernando não se continha e sussurrava a toda hora que iria acertá-lo na cara, pra desmaiá-lo. Aristeu ainda tinha marcas de uma surra que tomou de seu companheiro de apartamento, após uma discussão que envolvia o sangue de Jesus, a besta do Apocalipse e uma conta atrasada da internet. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- E aí, Aristeu. Afinal, como você pede pra gente não usar o nome de Deus em vão se você nem sabe quem é quem no céu? – retomei a discussão de forma bem civilizada.&lt;br /&gt;- Por que você me importuna com tantas perguntas idiotas? Vocês não vão me desvirtuar do caminho de Deus, nunca! – Aristeu claramente sem razão apelava para o emocional.&lt;br /&gt;- Caralho, o caso dele é grave. Catarata espiritual, man! – Alberto constatou rapidamente a doença de Aristeu.&lt;br /&gt;- Vocês é que estão cegos. O pecado cegou seus olhos para a verdade. A sabedoria de Deus é loucura para o mundo! – Aristeu usou mais um chavão pré-fabricado.&lt;br /&gt;- Eu vou pegar ele de porrada agora! – Fernando se levantou novamente e jogou a vodka de seu copo no rosto do crente acuado.&lt;br /&gt;- Isso! Por amor a Cristo, eu sofro essas afrontas! Glória a Deus! – Aristeu ergueu suas mãos e falava algo com voz inaudível, como se fizesse alguma prece secreta.&lt;br /&gt;- Isso se chama lavagem cerebral, pessoal. O cara ouviu tantas mentiras, durante tanto tempo, que não consegue se livrar, não consegue raciocinar, mesmo com tantos argumentos lógicos. Ele é um maldito caso perdido – acendi um cigarro fazendo sinal negativo com a cabeça.&lt;br /&gt;- Ao menos ele já ta os miolos fodidos. Tenho um primo que é um devasso desgraçado, vive traindo a namorada, fala um monte de merda e participa de uma igreja, apresenta uns programas evangélicos para jovens no canal deles. Mas sabe por que ele não sai da igreja? Por que só consegue status lá. Às vezes ele sai da igreja, mas volta, porque tem um bom status lá, ele se acostumou àquele ambiente. Mas eu nunca vi nenhuma obra cristã dele – Alberto falava enquanto buscava o maço de cigarros em sua jaqueta.&lt;br /&gt;- Eu conheço esses tipos... Acho que todo mundo conhece – complementei.&lt;br /&gt;- Vocês não falam nada com nada. Vou orar por vocês agora...&lt;br /&gt;- Ah, mas não vai mesmo! – Fernando agarrou o pijama de Aristeu e o puxou.&lt;br /&gt;- Deixa, Fernando! Deixa ele ter seus minutos de atenção. Eu já saquei a dele! – supliquei ao meu amigo, que largou o pijama de Aristeu.&lt;br /&gt;- Senhor Deus, obrigado por mais esse momento onde a luz resplandece sobre as trevas. Obrigado pela vida de cada um que está nessa sala. Peço que o Senhor não considere as palavras deles, palavras de blasfêmia, de afronta ao Criador. Abra os olhos deles para a tua verdade que é a única que salva e liberta. Liberte-os, Pai, de toda opressão satânica, de todo mau costume, de todos os seus caminhos errados. Assim eu oro, em nome do Pai...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;Fernando interrompeu a oração acertando um murro na boca de Aristeu, que estava de olhos fechados e se mantinha bem concentrado em sua intercessão. Desabou no chão e desmaiou como uma donzela sonolenta. O sangue vertido ganhava cada vez mais território no chão do apartamento. Eu ainda fui até Aristeu para verificar se o mesmo estava vivo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:11.5pt;line-height:115%;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;"&gt;- Que vontade de incendiar esse corpo desgraçado! Filho da puta metido à mártir cristão! Tudo é um teatro, tudo é como na época dos apóstolos, quando o pau comia solto. Porra, se ele não falasse tanta merda, eu o deixaria em paz. Mas ele insiste em querer me converter! – Fernando falava cabisbaixo, olhando para Aristeu desmaiado e ensanguentado.&lt;br /&gt;- Precisamos mudar para a Europa, meu amigo. A cada ano que passa, o número de crentes-rabo-quente está aumentando. Você já imaginou essas igrejas escandalosas dominando nosso país? – perguntei enquanto repousava minha mão em seu ombro.&lt;br /&gt;- Enquanto houver razão e bons argumentos, quero ver quem se atreve a me evangelizar, Nelson.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-8373791555258153231?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/8373791555258153231/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=8373791555258153231' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/8373791555258153231'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/8373791555258153231'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2010/07/em-nome-do-pai.html' title='Em Nome do Pai'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-8538544036633631207</id><published>2010-07-16T21:45:00.009-03:00</published><updated>2010-07-16T22:25:31.487-03:00</updated><title type='text'>Uma Foda Empatada</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"   style="font-family:'Trebuchet MS', sans-serif;font-size:130%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style=" line-height: 17px;font-size:15px;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span class="Apple-style-span"   style="font-family:'Trebuchet MS', sans-serif;font-size:130%;"&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;São Paulo é uma maldita cidade tropical. O calor é só um ingrediente picante dentro do caldeirão infernal que essa selva falida reúne. Poluição, ar seco, muito barulho e cheiro de sovaco sofrido. Mas quando o frio assalta o clima, ele vem como um arrastão carioca. Se na segunda-feira você praguejou contra o calor, pode ser pego de surpresa no dia seguinte ao acordar. Você acorda inconsciente de madrugada atrás de um edredom ou cobertor para aliviar a brisa gelada que se abriga no escuro. Hoje é um dia desses. Acordei e já era uma da tarde, com o nariz gelado e tossindo ainda mais que o comum. Quando fui dar a mijada matinal, mal encontrei meu pau entre os pentelhos e adivinhem só: errei a mira e acabei molhando o chão. Toquei a descarga e fui procurar um pano de chão, mas lembrei que todos estavam deploráveis e jogados na lavanderia, esperando a minha misericórdia, quando eu os lavaria. Bem, após todo o trabalho desgraçado para limpar o banheiro, olhei para o calendário na cozinha e agradeci aos céus por hoje ser primeiro de maio, o dia internacional do trabalho. Sempre me perguntei o motivo dos trabalhadores descansarem justo no dia que homenageamos o labor. Hoje eu não me questiono, apenas relaxo. Quando faz muito frio, eu pareço um maldito inglês das músicas dos Kinks. Preguiçoso, bêbado e rejeitado. E para mim, o modo mais prazeroso de descanso é me recolher em meus pensamentos, bebendo até adormecer. Geralmente escolho um repertório triste para o frio e hoje não foi diferente. Os Kinks, que para mim foram melhores que os Beatles e os Rolling Stones, lideraram a minha parada pessoal de sucesso. Assim como um marujo britânico e barbudo em algum bar de má fama na zona portuária, me postei a beber e raciocinar sobre temas diversos. Fiquei juntando peças da minha vida, mas vi que o quebra-cabeça estava bem incompleto por sinal. ‘Sunny Afternoon’ começou a tocar e me identifiquei totalmente com a letra. O sentimento de perda e falta de orientação me assolou e assombrou. Acendi um cigarro e estou aqui estático:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;My girlfriend run off with my card&lt;br /&gt;And gone back to her ma’ and pa’&lt;br /&gt;Telling tales of drunkenness and cruelty&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Tá certo que a Bárbara não fugiu com meu cartão, mas eu realmente não sei o que ela vai dizer aos pais sobre mim. Talvez algum papo sobre eu ser um grande bêbado, mas cruel? Talvez eu seja bem cruel comigo mesmo, mas tenho sido um bom amante. Mas não um bom companheiro, seja lá o que isso signifique. Eu sempre canso as minhas namoradas, eu sempre sou acusado de não ter ambições, mas com todos os diabos, eu não nasci para ambicionar, para passar por cima das pessoas em prol de meus objetivos. Sei lá, acho que não me vendi para o capeta e pago o preço com essa vida pacata e miserável. As mulheres são realmente farinha do mesmo saco. Se um homem não pode garantir estabilidade financeira, a mulher descamba para outro. Malditas sarnas do demônio. Estou bem aqui sozinho, aliás, acho que já estou começando a divagar demais. Estou bêbado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O telefone tocou. Era o Maulin, um bom camarada porém muito estressado. Ele chegou ontem lá pelas oito da noite e só saiu às duas da madrugada após ser enxotado por mim, segundo seu relato. Quando bebo acima do suportável, tenho o péssimo costume de expulsar as pessoas de minha casa. Acredito que a Bárbara irá relatar isso aos pais dela. Que ela vá para o inferno, antes que eu me esqueça. Maulin vai aparecer mais tarde pra gente terminar as duas caixas de cerveja que sobraram aqui. Isso se eu não acabar com tudo antes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;--------------------------------------------------------------------&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Nelson foi despertado pelo telefone que tinha um toque muito alto. Pulou do sofá de dois lugares completamente manchado por todos os líquidos imagináveis e correu para atender a chamada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois não – Nelson atendeu o telefone tentando desenrolar o fio do aparelho.&lt;br /&gt;- Nelson, é o Maulin. Mudança de planos. Temos duas opções: ou vamos ao Tchê jogar uma sinuca e beber ou você vem pra cá.&lt;br /&gt;- Pra cá onde?&lt;br /&gt;- Meu apê. A Agnes não está se sentindo muito bem, está meio tonta. Nem vai rolar deixá-la aqui sozinha. E ela disse que prefere ir ao Tchê a ir na sua casa.&lt;br /&gt;- Você não engravidou a desgraçada, né?&lt;br /&gt;- Pelo amor de Deus, Nelson, vai se foder... Você sabe que não existe nada entre eu e aquela drogada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Agnes era uma mulher alta, cabelos ondulados e castanhos, assim como eram seus olhos. Trinta e sete anos, assim como era o tamanho do pé. A cara era de um desgaste descomunal, graças a anos de frustrações e bebedeiras como escapatória. Havia largado as drogas, mas todas as substâncias químicas haviam comprometido seu modo de pensar e reagir a certos imprevistos da vida. Ela estava rumando para a plataforma da loucura e Maulin era o único ser que se locomovia na Terra que podia suportá-la, dando moradia a ela.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- Sei. Bem, essa Agnes é fresquinha, hein? Só porque aqui é um pouco sujo? E não quero ir ao Tchê. Não dá mais pra fumar lá, e você sabe que sinuca e rock sem cigarro não rola. Maldito José Serra e essa lei anti-fumo. Aguarde a lei anti-sexo, man. Aguarde! – Nelson levemente embriagado sempre deixava aflorar seu lado esquerdista.&lt;br /&gt;- Ei, ei! Não vai começar com essas porras de discursos! E então? Vem pra cá?&lt;br /&gt;- Tá certo. Deixa eu me recuperar dessa dorzinha de cabeça e já saio daqui. Inté.&lt;br /&gt;- Inté.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt; Nelson foi até a cozinha para comer algo e olhou para as caixas de cerveja. Pensou que teria que levá-las na mão. Praguejou um pouco e cortou um pedaço da peça de queijo que estava na geladeira. Abriu um pão francês e ao passar manteiga nele, pensou que deveria ter colocado o queijo dentro. Bocejou e comeu o pão com um pouco de café velho esquentado no micro-ondas. Após a pequena refeição, trocou de calça e colocou uma camisa xadrez. Amarrou o cadarço do tênis e foi até a cozinha para pegar as caixas de cerveja. Flagrou uma barata perto do fogão e pulou em cima dela, fazendo o sangue branco e viscoso do inseto se espalhar por um longo raio de alcance. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- Deus eterno! Maldita barata desgraçada! – praguejou Nelson enquanto pegava um pano de chão, sujo e deplorável para variar. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Nelson limpou a carnificina e jogou o pano no lixo. Lavou as mãos e colocou as caixas de cerveja a frente do elevador. Trancou a porta e desceu até o térreo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;--------------------------------------------------------------------&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Eu não reclamo dessa vida que tenho. Eu simplesmente trabalho para pagar esses momentos. Não vejo beleza nenhuma na vida de família. Convidar outros casais e seus filhos para um churrasco em minha casa. Eu não consigo me colocar no lugar desses homens. Eu não me imagino com um filho sequer, tendo que educá-lo para a vida. Provavelmente um filho meu se transformaria em um tipo de maníaco, um bandido, um cafajeste odiado pelas mulheres. A Bárbara não queria ter filhos, era isso que eu gostava nela. Mas após alguns meses de relacionamento, tenho certeza de que, se despertasse nela um sentimento materno, com certeza eu não seria o eleito para plantar espermatozóides alucinados por um óvulo dela. Eu lhes digo: ela terminou o namoro com uma repulsa tão grande em relação a mim, que tudo o que eu fazia despertava ódio nela. O meu jeito de andar, o meu jeito de fumar um cigarro, o meu jeito de contar piadas. Ela me desprezou e com certeza vai me esquecer em um par de semanas. Malditas mulheres. Se aquele lance de Adão e Eva fosse verdade, as desgraçadas então deveriam ser amaldiçoadas. Era pra serem nossas auxiliares e agora querem tomar nosso lugar de líderes. Olha, pra ser sincero eu gosto muito das mulheres, mas acho que tenho um sério problema com elas. Acho que elas pedem muito e eu tenho pouco a oferecer. Os amigos são diferentes. Eles querem beber com alguém, falar sobre a vida com alguém, eles querem debochar de alguém e essas coisas eu tenho de sobra a oferecer. Agora se me pedirem dinheiro, será o mesmo que pedir alguma esmola para um mendigo. Simplesmente não faz sentido pedir dinheiro para mim. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Malditas caixas de cerveja, o plástico que as envolve está rasgando, vou ter que empilhá-las, só que preciso de uma mão livre para fumar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Acho legal o apartamento do Maulin. Tem uma pequena sacada para fumar e olhar para o céu. E o Maulin é um cara esperto pra caralho. Mas o trabalho de gerente comercial está deixando ele de cabelos em pé. Está muito estressado, se queixando muito de tudo, e ainda tem a Agnes para tirá-lo do sério. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Eu não entendo o porquê daquele miserável dar abrigo a ela. A mulher é um furacão de problemas. Nos anos noventa ela era uma porraloca que vivia de bar em bar, de balada em balada causando problemas, perturbando as pessoas com sua voz fina e levemente fanha. Sua presença sempre causava transtornos, mas como na vida nada é unanimidade, sempre existiam pessoas que andavam com ela, se drogavam com ela e bebiam com ela. Ela esteve presa algumas vezes, esteve em clínicas de reabilitação também, enfim, era a palavra problema encarnada. Ela finalmente saiu dessa vida porque envelheceu. Um dia acordou e sentiu que brincar de ser jovem era ridículo. Quando olhou ao seu redor e só viu amigos de vinte e poucos anos para conversar, Agnes sentiu falta de pessoas experientes, pessoas com conteúdo. À medida que você envelhece, é natural perceber a falta de malandragem nas pessoas mais novas. E ela abandonou seus círculos juvenis de amizade e falhou miseravelmente em ingressar em grupos mais maduros de amigos. Ela era uma eterna garota de vinte-e-poucos-anos e sendo dessa forma, vivia criando intrigas infantis com adultos de cabeça feita. Hoje em dia, ela rejeita seus amiguinhos e é rejeitada por seus amigões. Maulin é o único homem maduro que de alguma forma misteriosa suporta seu jeito. Eu tenho quase certeza de que Agnes tem uma queda fodida por ele, mas ainda careço de provas mais concretas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;--------------------------------------------------------------------&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Nelson chegou à porta do prédio e falou com o porteiro através do interfone. Após a confirmação com Maulin, a porta se abriu. Nelson o cumprimentou mas o velho porteiro nem virou o rosto. Ele sabia que a noite seria de perturbação e reclamações dos apartamentos ao redor de Maulin. Subiu o elevador e chegou à porta do apartamento. O prédio tinha quatro apartamentos por andar e era muito bem situado, ficando em Perdizes. Tocou a campainha.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- Entra aê, porra! – era Maulin gritando da cozinha. Ele preparava alguns frios para serem petiscados.&lt;br /&gt;- Maulin, seu bosta, a porta está trancada!&lt;br /&gt;- Agnes, porra, você trancou a porta! Que mania do caralho! Vai lá abrir!&lt;br /&gt;- Já vou! – Agnes enrolava uma toalha em seus cabelos molhados. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Depois de três minutos, Nelson já havia aberto uma lata de cerveja quente e havia acendido um cigarro. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- Olá Nelson! – Agnes simulava uma voz aparentemente despretensiosa e esnobe, com um ar de leve superioridade e pouco entusiasmo, como se tivesse mil coisas a fazer.&lt;br /&gt;- Opa, como vão as coisas? – Nelson deu um rápido beijo no rosto dela e seguiu direto pela cozinha.&lt;br /&gt;- E esse cigarro aceso aí, Nelson? Velho, vão reclamar logo, logo, por fumar no corredor – Maulin despejava orégano nos cubos de queijo cortados.&lt;br /&gt;- Se demorasse mais dois minutos, eu cagava na sua porta, seu lixo! – Nelson deu um abraço no amigo – Vou colocar as latas no congelador.&lt;br /&gt;- Deixe na geladeira, hoje ta frio pra caramba.&lt;br /&gt;- Você parece um australiano, man. Beber cerveja na temperatura ambiente? Eu vou deixar algumas latinhas no freezer, só pra garantir. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Maulin tinha um computador na sala, ligado ao seu aparelho de som e um jazz no mínimo alegre tocava freneticamente. Nelson se acomodou no sofá e acendeu outro cigarro. Reclamou da demora de Maulin e perguntou a Agnes se estava viva. Não recebeu resposta. De repente aquele jazz alegre se transformou em uma forma psicodélica e progressiva de tocar instrumentos. A bateria era tribal, experimental, era atraente como uma chama. Nelson ficou paralisado durante quatorze minutos, que era a duração da música. Após retumbantes batidas, insinuantes toques de saxofone e até ensandecidas dedadas em harpas, ele pulou do sofá e despertou de seu transe.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- Maulin! Que som é esse, pelo amor de Deus?!&lt;br /&gt;- Art Blakey! – gritou Maulin com a boca cheia de salame.&lt;br /&gt;- E ele toca exatamente o que?&lt;br /&gt;- A bateria. A banda chama The Jazz Messengers.&lt;br /&gt;- Puta que pariu! Isso que é som! – Nelson já havia se levantado e se postado junto à porta da cozinha.&lt;br /&gt;- Esse cara é sensacional mesmo. Muitos bateristas do rock têm ele como referência. O cara é foda.&lt;br /&gt;- Depois me lembre de te mostrar um músico etíope que achei. O cara é demais, de verdade. Música bem feita, sem frescura. Chama-se Mulatu Astatke.&lt;br /&gt;- Caralho, onde você encontra essas coisas?&lt;br /&gt;- Nesse caso foi num filme.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Os dois se juntaram na sala e começaram a discutir sobre música. À medida que as bebidas eram consumidas, as conversas começavam a descambar para um lado mais pessoal. Agnes se assentou no tapete da sala e ficou cutucando a unha do dedão do pé. A presença dela não os inibiu e eles continuaram falando mal de mulheres e citando suas bocetas, bundas e peitos. Ela apenas sorria, em silêncio, concentrada em suas unhas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- Velho, a Clara era muito gorda! Como você conseguiu meter naquela bunda? – Maulin dava risadas, exibindo dentes cheios de casca de amendoim.&lt;br /&gt;- Meter na bunda era fácil, o foda era meter naquela boceta velha. Mas sabe aquele papo de que as gordinhas têm mais tesão? Pura verdade. A garota era insaciável. E chupa muito bem por sinal.&lt;br /&gt;- Olha, ela pode até me prometer orgasmos múltiplos com uma boa chupada, mas eu passo essa! Ela é muito gorda!&lt;br /&gt;- Agora você me sentir mal – Nelson olhou pra baixo fazendo cara de menor abandonado.&lt;br /&gt;- Cara, que Deus tenha misericórdia do teu pau, porque você não tem! Hahaha!&lt;br /&gt;- Já chega desse papo. Ou quer que eu te lembre da Miss Jibóia?&lt;br /&gt;- Do que você ta falando, Nelson. Você já comeu traveco, porra – Maulin abocanhou mais alguns amendoins.&lt;br /&gt;- Mas eu não escondo isso de ninguém. Agora você estava se gabando de ter pego a melhor da balada, parecia uma miss Brasil e acabou sendo enrabado! Hahahaha!&lt;br /&gt;- Ela não me enrabou porra nenhuma, Nelson! Corta essa! Ela tentou, mas não conseguiu – Maulin falava enquanto se levantava para buscar mais uma cerveja.&lt;br /&gt;- Sei, sei. Miss Jibóia! Hahaha!&lt;br /&gt;- Deixa ele, Nelson – Agnes se intrometeu.&lt;br /&gt;- Você fica na sua, coração – e apontou o dedo para ela com ar de reprovação.&lt;br /&gt;- Seu grosso, comedor de gordas – sussurrou com sorriso sarcástico.&lt;br /&gt;- É melhor você ficar quietinha se não você vai começar a me chamar de comedor de loucas também.&lt;br /&gt;- Você tem pau pequeno, Nelson. Por isso que come traveco.&lt;br /&gt;- E o que tem a ver o cu com as calças?&lt;br /&gt;- Você não me engana, seu pica mole.&lt;br /&gt;- Mais uma palavra e além de comer gordas e travecos, vou comer seu cuzinho. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Agnes hesitou um pouco e considerou por alguns segundos o fato de Nelson poder cumprir sua ameaça. Ele estava bêbado e poderia fazer qualquer loucura. Ela também estava bêbada e começou a rir. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- Vai tomar no olho do seu cu, seu cuzão.&lt;br /&gt;- Agora você vai ver!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Nelson se jogou em Agnes e enfiou a mão em sua calça de lycra. Ela dava pequenas risadinhas até quando ele conseguiu dar uma dedada no cu dela. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- Chega, chega! Eu fico calada! Hahahaha!&lt;br /&gt;- Esse é um aviso, coração! Da próxima vez eu chupo seu rabo e meto nele – o tom de Nelson foi sensual e o seu olhar, maligno.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Maulin estava cagando enquanto essa pequena putaria acontecia. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- E a Bárbara, cadê ela? – Maulin perguntou enquanto enxugava suas mãos na camiseta.&lt;br /&gt;- É, a Bárbara já era. Terminamos ontem. Ela é uma puta ingrata! – Nelson estava claramente alterado pelas cervejas.&lt;br /&gt;- Bem, sei lá, é a vida, amigão. Elas sempre nos dão uma punhalada pelas costas – Maulin se juntava ao time dos bêbados e deixava a boca falar por si só.&lt;br /&gt;- Vocês dois são uns desgraçados! A Bárbara só queria uma vida normal, ela não pode ser culpada por querer isso! – Agnes novamente se intrometia na conversa.&lt;br /&gt;- Maulin, diz pra ela que eu vou comer o cu dela, diz! Diz pra ela, porra!&lt;br /&gt;- Calma Nelson, calma Agnes. Vocês dois são mesmo uns putos, derrubaram a cerveja no tapete! – Maulin se levantou e rumou até a cozinha.&lt;br /&gt;- Sua vaca, hoje eu vou gozar no seu rabo, pode escrever o que to dizendo - Nelson falava quase sem som.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Agnes apenas olhava para Nelson com um olhar levemente vesgo, um sorriso de canto e fazendo sinal positivo com a cabeça. Maulin tentou absorver o máximo de cerveja com o pano e voltou para a lavanderia. Agnes levantou-se e foi até o computador para trocar de música. ‘Evil Woman’ do Black Sabbath começou a rolar e Nelson captando a mensagem que Agnes tentou passar pra ele, a juntou nos braços.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- Você não ta mais pra crazy woman do que evil woman, sua puta. Hoje eu vou te possuir, ta me ouvindo?&lt;br /&gt;- Vai comer ela, Nelson? – Maulin novamente chegou secando as mãos úmidas em sua camiseta.&lt;br /&gt;- Se ela não sossegar o facho dela, vou dar surra de pau mole nela - dizendo isso, Nelson soltou Agnes e a empurrou rumo ao sofá.&lt;br /&gt;- Só pode ser de pau mole mesmo, seu comedor de baleias! Hahaha!&lt;br /&gt;- Sai daqui, sua vaca! – Nelson apontou para a porta, a expulsando do apartamento.&lt;br /&gt;- Ei Nelson, aqui não é sua casa! Se quiser, você saia fora! – Maulin se exaltou lembrando da noite anterior quando foi enxotado bêbado do apartamento do amigo.&lt;br /&gt;- Eu ficarei, pelo bem da nação! – respondeu Nelson com a mão erguida, apontando para cima, como se estivesse declarando a independência de algum país.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Os ânimos se acalmaram e eles voltaram a conversar civilizadamente. Maulin acendeu um charuto pra ele e pra Nelson e disse para Agnes que aquilo é coisa pra homem. Agnes contrariada foi trocar de música.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porra Agnes! Não dá pra ouvir uma música por inteiro? Tem que ficar trocando, trocando? Cacete! – Nelson reclamou com o charuto deslizando por sua boca.&lt;br /&gt;- Juro que é a última que coloco, sério!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Ela clicou na música e correu para a cozinha. ‘Ballade de Melody Nelson’ começou com a voz de Serge Gainsbourg, o grande ídolo de Nelson. O ritmo cheio de suingue da guitarra o fez rir. Prontamente ele se pôs em pé e foi até Agnes. Na cozinha, ela já o esperava com o mesmo sorriso diabólico e sedutor que ela tanto utilizara em seus trinta e tantos anos de vida. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- Você é foda, mulher. Vem aqui – Nelson a pegou pelo cabelo e lhe deu um beijo na boca.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;A língua de Agnes parecia uma serpente enlouquecida, longa, lisa e intensa. Nelson sentia dificuldade em acompanhar os movimentos da língua dela e para tentar quebrar o gelo, enfio a mão novamente dentro de sua calça apertada. Desta vez foi pela frente, e se ela era frenética com a língua, ele iria mostrar sua destreza com os dedos. Maulin dava risada com ‘En Melody’, a canção que se iniciava. Nela gemidos e risadas femininas serpenteavam pelas ondas sonoras. Até o momento que a mulher, na metade da música, dá uma risada longa e fanha.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- Ah, que putaria de som... – Maulin balbuciava com o charuto todo babado em sua boca. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;A atmosfera que se formou com o som de Gainsbourg apenas atiçou o desejo do casal na cozinha. Soltaram todos os seus demônios, como todo humano faz quando está bêbado. Nelson a virou para a pia e abaixou sua calça. Quando puxou a calcinha, ela rosnou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- O Maulin não vai gostar disso!&lt;br /&gt;- Corta essa, sua vaca! Agora você vai dar gostoso pra mim. Você ta gostando, olha como ta molhadinha – Nelson esfregava seu dedo médio no clitóris dela.&lt;br /&gt;- Não, Nelson, não! Pára de esfregar esse pau na minha bunda!&lt;br /&gt;- Filha de uma puta! – Nelson guardou seu pau e levantou a calça jeans surrada.&lt;br /&gt;- Ei, você vai pra onde?&lt;br /&gt;- Vou cagar e talvez bater uma punheta pra que meus bagos não fiquem doendo, sua vaca – respondeu enquanto acendia um cigarro e se dirigia ao banheiro.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;--------------------------------------------------------------------&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Maldita vaca. Maldita seja. Agora meu pau ta todo melado e nem consegui gozar. Eu detesto beber por isso, sempre acontece! Acabo comendo qualquer lixo que apareça, enfio em qualquer buraco. Vaca do caralho! Onde eu que eu tava com a cabeça? Eu nem sei onde essa boceta passou. A Agnes parece uma farofa de churrasco, todo mundo passa a linguiça, e eu metendo nela sem camisinha... Nelson seu cabaço do caralho! Deixa eu lavar essa merda.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;--------------------------------------------------------------------&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Nelson saiu do banheiro sem cagar e sem bater punheta. Ficou intrigado demais com as palavras AIDS, Cazuza, Freddie Mercury, gonorréia, sífilis, cancro mole e duro. Lavou seu pau três vezes, esfregando com afinco. Chegou na sala e viu Maulin adormecido no chão, encostado no sofá. Agnes estava só de calcinha e de bruços, apagada em cima do mesmo sofá. Nelson mandou eles para o inferno e tirou os sapatos e rumou para o quarto de Maulin. Avistou o mimo de seu amigo, uma pequena adega eletrônica cheia de garrafas caras de vinho. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- Um dia eu quebro essa merda, Maulin, e bebo tudo – Nelson desmoronou na cama confortável do amigo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Quando Nelson adormeceu, era quatro da manhã. Quando acordou, já era sete e meia, mais ou menos. Foi mijar, se dirigindo ao banheiro com passos lentos, apertando sua cabeça devido à ressaca assombrosa. Ao sacar seu membro, verificou uma textura diferente. Era a única palavra que ele não lembrou na hora em que tentara cagar há horas atrás. Verrugas. Eram três pequenas verrugas que nasceram bem distribuídas pela extensão de seu pau. Ele suou frio e esqueceu de mijar. Ficou tentando arrancá-las num ato de extremo desespero. Foi em vão, elas permaneciam firmes e nojentas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- Caralho, mas nasceram tão rápido! Saiam suas malditas! – Nelson riscava as anomalias com força.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Ele lembrou de que ia mijar. Manteve a calma, respirou fundo e mijou uma urina clara e abundante. Tocou a descarga porém não levantou sua calça, nem a cueca. Caminhou friamente até a sala e se assentou ao lado de Agnes que continuava apagada, agora dormindo de lado. Maulin havia despencado e dormia em posição fetal, aquecido e completamente entregue ao sono. Era sábado, não havia preocupação com o trabalho. Nelson iniciou uma masturbação descontraída, relaxante. Pensava em Bárbara, sua ex-namorada, uma descendente de italianos, de cabelos vermelhos e ondulados, seios fartos, bunda arredondada e sem excessos. Ela tinha um rosto com traços fortes, exatamente como as mulheres daquele canto da Europa. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- Ah Bárbara, só bastou você sair da minha vida para eu começar a fazer merda... – resmungou enquanto pensava na cena que mais o marcou no curto relacionamento, quando Bárbara cavalgava em seu pau, gritando como uma louca.       &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Nelson aumentou a intensidade de seus movimentos e começou a sentir o esperma chegar. A cabeça de seu pau estava roxa, tamanha era a força com que Nelson o apertava. Ele soltava pequenos gemidos e de repente levantou se inclinou sobre Agnes, levando seu pau até o rosto dela. Gozou fartamente, toda a porra acumulada da foda empatada da madrugada. Sêmen jorrava incessantemente entre o cabelo e o ouvido de Agnes. Ela não se mexeu, não manifestou um sinal de vida sequer. Maulin permanecia como um feto morto num útero quente. Nelson estendeu sua ejaculação através de boa parte do cabelo dela. Agnes sonhava com campos verdejantes, com vacas, com leite. E não se mexeu nem um pouco.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;- Sua vadia suja. Se eu peguei AIDS, eu te mato... – Nelson sussurrou lentamente no ouvido melado de Agnes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height:115%;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;font-family:&amp;quot;;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Limpou seu pau na calça de lycra dela, que jazia em cima de uma cadeira. Levantou sua cueca, sua calça e a abotoou. Sacou um Lucky Strike e o acendeu. Parou para pensar um pouco, na sacada do apartamento. Terminou seu cigarro e amassou a gimba no cinzeiro. Pegou o cinzeiro e o virou em cima da cabeça de Agnes, despejando muita cinza e gimbas amassadas. Nelson apenas deu uma risada, balançando a cabeça lentamente e negativamente. Pegou sua caixa de cigarro, seu celular e deixou o apartamento. O porteiro o olhou com reprovação novamente, mas estava feliz porque seu turno estava por terminar. Nelson apenas ganhou a rua do bairro de Perdizes. Seus olhos se fecharam pois o sol estava livre e bem vivo no céu, porém arremessava raios fracos naquela manhã fria. Ele sorriu porém logo fechou o seu semblante.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style=" line-height: 20px; font-size:medium;"&gt;-------------------------------------------------------------------&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style=" line-height: 20px; font-size:medium;"&gt;Preciso urgentemente fazer uns exames. Todos os que forem precisos. Deus do céu, um dia meu pau vai cair, com tanta cagada que faço. Como sou estúpido! Espero que o Maulin não fique chateado com o novo visual daquela vadia. E se ele ficar magoado, pau no rabo dele. Preciso de um croissant de presunto e queijo e um café espresso, daqueles bem fortes. E preciso comprar mais cigarro. Puta que pariu, onde acho uma padaria nessa merda de lugar?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-8538544036633631207?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/8538544036633631207/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=8538544036633631207' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/8538544036633631207'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/8538544036633631207'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2010/07/uma-foda-empatada.html' title='Uma Foda Empatada'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-8537823388310562437</id><published>2010-05-24T21:55:00.002-03:00</published><updated>2010-05-24T22:01:30.335-03:00</updated><title type='text'>A Calcinha de Emily Dickinson</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;- Emily Dickinson!&lt;br /&gt;- O que tem a Emily Dickinson? – perguntei esfregando na mesa meu copo cheio de cerveja.&lt;br /&gt;- Imagine a calcinha de Emily Dickinson! – gritou Homero, com pequenas porções de saliva lubrificando seu lábio inferior.&lt;br /&gt;- Pelo amor de Deus, Homero, cale essa maldita boca! É sério, estou comendo esse queijo todo, não me faça imaginar isso!&lt;br /&gt;- Por que não, meu chapa? O que tem de mais imaginar a doce calcinha de Emily Dickinson?&lt;br /&gt;- O que tem de mais? Você só pode estar brincando, campeão! – dei um gole curto na cerveja – Eu lhe digo o que há de errado em imaginar isso.&lt;br /&gt;- Se atreva, Nelson... – Homero se ergueu de sua cadeira.&lt;br /&gt;- Como assim? Atrever-me? Eu falo o que quiser!&lt;br /&gt;- E daí? E quem está te impedindo? – Homero me fitou confuso. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Ignorei suas perguntas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;- A mulher vivia no século dezoito...&lt;br /&gt;- Dezenove! – fui interrompido.&lt;br /&gt;- Ta, ta... Dezenove! Então, a desgraçada era reclusa, morava provavelmente numa caverna...&lt;br /&gt;- Na casa dos pais! – novamente interrompido.&lt;br /&gt;- Pelos deuses! É só um modo de falar, seu idiota! Pare de me interromper! Se você me atrapalhar novamente, que Deus me ajude, eu vou acabar com sua raça! – não pude me conter – Posso continuar?&lt;br /&gt;- Você é um palhaço mesmo – retrucou Homero com voz sóbria e claramente contrariada.&lt;br /&gt;- Pois bem, a mulher vivia isolada, revoltada e cuidando dos pais. Morava em Massachusetts, naquele frio todo, com toda aquela roupa. Você já imaginou a calcinha dela? Imaginou o fedor? Ela não tomava banho todos os dias, por todos os diabos!&lt;br /&gt;- Fedor, fedor... Tudo é fedor para você, Nelson! Deus fede, as ruas fedem, a merda fede...&lt;br /&gt;- E a merda não fede? – foi minha vez de interromper.&lt;br /&gt;- É uma forma de dizer que tudo fede pra você!&lt;br /&gt;- Então você deveria citar algo que realmente não feda!&lt;br /&gt;- Você me enoja, Nelson! &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Ergui minha garrafa de cerveja e servi mais um copo. Bebia lentamente enquanto observava a feição sofrida de Homero. Ele era apenas um garoto mimado, que conheceu gente errada na escola estadual para a qual foi transferido. Não conseguiu resistir à tentação de ser um moleque folgado e começou a fumar aos quatorze anos, roubava aos quinze e pegava sua primeira DST aos dezesseis. Uma ascensão incrível. Mas por ser magro, sempre andava com uma faca para se garantir. Nunca foi um bom lutador, mãos pequenas e leves, as pessoas sempre amassavam seus dedos durante os apertos de mãos, era um desastre concentrado. Sua face sofrida era esfolada por anos e anos de espinhas. Sua auto-estima atual foi totalmente minada pelas acnes de outrora. Seu nariz desengonçado era um pouco mais aberto que o convencional (cacete, o que é um nariz convencional?). Sua boca parecia que havia apodrecido. Seu lábio inferior era caído demais, e o superior grande demais, mas tinha uma coloração escurecida. Seu queixo pequeno demais, dava forma arredondada ao seu rosto. O cabelo grande amenizava a forma oval de seu rosto, porém ele definitivamente não nascera para ser um sucesso entre as garotas. Mas os seus olhos continham um brilho raramente visto, que se acentuava à medida que bebia. Talvez aquele fosse o grande trunfo de sua aparência bagunçada. Feio desse jeito se envolveu aos vinte e dois anos num acidente de carro. Era uma fuga veloz e não fugia da polícia. Fugia de traficantes que queriam sua cabeça por algumas mancadas que havia dado, envolvendo um pequeno estoque de maconha que ela simplesmente dera sumiço. Seu carro capotou diversas vezes e o corpo finalmente arremessado para fora. Seu estado era tão deplorável que os traficantes ao cercarem o corpo de Homero semimorto, preferiram deixar ao cargo de Deus a finalização da obra. Mas ele não morreu. Ficou em coma induzido e por dois meses internado no Hospital São Paulo. Saiu com muletas e novos conceitos. Mais firmes que essas muletas que sustentavam seus passos. Com incentivo dos pais terminou, em um supletivo, o segundo grau e fez o vestibular para o curso de jornalismo. Passou tranquilamente, impressionando toda sua família e alguns gatos pingados que se consideravam amigos. Parecia que havia nascido para escrever, para ler, para interpretar todas aquelas letras em conjunto. Nascera para se comunicar. Conseguiu um bom estágio, com um salário razoável, podendo sustentar-se e ainda conseguindo adquirir algumas regalias. Foi efetivado e passou a ganhar bem mais dinheiro. Passou a morar numa rua da Vila Mariana e finalmente poderia dizer que tinha uma vida normal (cacete, o que é uma vida normal?). Adorava conversar sobre literatura, principalmente comigo que embora não tivesse me formado em nada, tinha uma bagagem cultural bem pesada. Eu aceitava as ladainhas dele, aquelas conversas para ele eram discussões acadêmicas. Para mim um passatempo engraçado e na maioria de suas vezes, estressantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você é quem me enoja, Homero! Eu estou comendo queijo, e você vem comentar sobre as roupas de baixo de uma poetisa morta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O queijo Ementhal cortado em cubos estava suave e se despedaçava fácil a cada mordida. Espetei mais um com o palito e voltei a mastigar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu ainda não entendi a conexão entre a calcinha de Emely Dickinson e um pedaço inocente de queijo.&lt;br /&gt;- Após o acidente você ficou retardado? Você já chupou uma garota?&lt;br /&gt;- Já, já chupei sim.&lt;br /&gt;- Você já pegou muitas doenças venéreas, não?&lt;br /&gt;- Já, já peguei – dessa vez Homero respondeu com olhar direcionado ao chão, mostrando um pouco de constrangimento.&lt;br /&gt;- Já comeu gorgonzola? Ricota? – perguntei erguendo o palito com um queijo espetado.&lt;br /&gt;- Já, e isso não é gorgonzola, muito menos ricota – respondeu apontando para o queijo que eu levantei.&lt;br /&gt;- Ta certo, eu sei que não é! Então, vai viu uma garota feder lá embaixo na boceta?&lt;br /&gt;- Claro, muitas delas fedem!&lt;br /&gt;- E já olhou lá dentro para ver o que tinha de errado?&lt;br /&gt;- Não, nunca fiz isso, por que faria? – agora Homero que espetava um cubo grande de queijo e o colocava lentamente na boca.&lt;br /&gt;- Primeiro, pare de colocar o queijo na boca como se estivesse chupando uma pica. Segundo, a aparência de uma boceta mal lavada é parecida com um ralo de pia cheio de ricota ou gorgonzola. Escuro e com rastros brancos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homero travou. Tentou regurgitar o queijo tragado, porém foi &lt;/span&gt;&lt;st1:personname productid="em v￣o. Correu" st="on"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;em vão. Correu&lt;/span&gt;&lt;/st1:personname&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; para o banheiro, em vão de novo. Vomitou no caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que foi Homero?! Nunca ouviu falar nisso? Pelo amor de Deus! Você é um cabaço mesmo! – eu dava risadas altas e batia o pé em plena euforia.&lt;br /&gt;- Você é um desgraçado! – ouvi apenas a voz abafada de Homero percorrer o corredor do apartamento – Eu devia lhe obrigar a limpar isso tudo!&lt;br /&gt;- Tente! Apenas tente! – eu já preparava os jabs e ganchos, praticando contra o ar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Homero chegou com uma toalha e um copo de coca-cola na mão. Sentou lentamente no sofá e suspirou, como se estivesse cansado de viver. Apenas estava cansado de ouvir tanta baboseira. Fez sinal negativo com a cabeça e vagarosamente dispensou a toalha em sua nuca. Parecia abatido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Começamos falando de literatura e terminamos no vômito. Belo feito, hein senhor Nelson? – ao finalizar a frase, arrotou.&lt;br /&gt;- Eu diria que foi um nocaute ideológico. Você é uma gazelinha, Homero. Perdeu suas bolas naquele acidente. Como pode um homem vomitar por esse motivo? Pelo amor de Deus... – cocei a cabeça fazendo um ruído perturbador.&lt;br /&gt;- A literatura, Nelson, começamos com a literatura. E você sempre descamba para a sujeira.&lt;br /&gt;- Sim, literatura. E A CALCINHA DE EMILY DICKINSON &lt;/span&gt;&lt;st1:personname productid="EM ALGUM DIA FOI" st="on"&gt;&lt;st1:personname productid="EM ALGUM DIA" st="on"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;EM ALGUM DIA&lt;/span&gt;&lt;/st1:personname&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; FOI&lt;/span&gt;&lt;/st1:personname&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; CITADA NA LITERATURA?&lt;br /&gt;- Não! Nunca foi, mas foi um comentário à parte, a mesma coisa de citar as bolas de Jorge Amado.&lt;br /&gt;- O que você quer? Que eu vomite também? É isso? Está revidando?&lt;br /&gt;- Não, estou apenas fazendo uma colocação, apenas isso – olhou com indiferença para os meus olhos. Seus olhos pareciam vazios. O brilho se fora com o vômito. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Levantei-me e busquei meu casaco. Vasculhei meu maço de cigarros e não achei nenhum. “Pros diabos, compro um na padaria”, pensei. Fui até a cozinha e abri a geladeira. Não havia sobrado nenhuma garrafa, porém encontrei uma latinha esquecida no compartimento de verduras. Peguei-a e dei uma bela golada. Soltei um arroto e voltei para a sala. Estendi a mão para cumprimentar aquela mão pequena e ossuda, porém não tive retorno. Ele apenas olhava para a janela dando curtos goles em sua coca-cola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tem um cigarro aí, Homero?&lt;br /&gt;- Na gaveta da cozinha. Tem um maço de L&amp;amp;M lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei para a cozinha, porém no caminho, senti uma pancada na cabeça. Vi um clarão, como fogos de ano novo. Tentei me segurar em algum lugar, mas me senti caindo num abismo sem fundo. Quando finalmente caí, recobrei a consciência e olhei para o meu redor. Tudo normal. Um cinzeiro jazia ao meu lado, pesado, feito de puro ferro. Lembrei da cacetada que havia levado na cabeça e procurei por sangue. Nenhuma gota. O desgraçado havia jogado o cinzeiro em mim, maldito bêbado. Procurei por cortes no corpo e nada também. Lembrei do papo sobre as bolas de Jorge Amado e prontamente abaixei minhas calças procurando alguma violação no meu rabo e, graças ao bom Deus, nada. Aparentemente tudo estava em ordem, o apartamento estava arrumado, as garrafas estavam na lata de lixo, exceto pelo carpete da sala que estava imundo e cheio de pó. Mas até o cinzeiro que acertou minha cabeça não continha cinzas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; Lembrei do que Homero havia dito, sobre os cigarros na gaveta da cozinha. Ao procurá-los, encontrei um papel com meu nome. “Vamos ver o que esse merda preparou pra mim”, sussurrei enquanto abria o papel. &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Nelson,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;fui acertar umas contas antigas. Embora você seja meu grande amigo, infelizmente não pude contar muitas coisas para você. Me perdoe. Em breve lhe deixarei informado.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei um murro no armário da cozinha e o xinguei mentalmente. Tomei posse do maço de L&amp;amp;M vermelho e saí do apartamento, trancando a porta e despejando a chave dentro do compartimento da mangueira de incêndio que ficava no corredor do andar. Desci o elevador olhando para o chão, aguardando a chegada no térreo. Passei pela recepção suntuosa e bem decorada e cumprimentei o sr. Antônio, porteiro sofrido, com o bigode amarelado e quase desdentado. Ganhei a rua Bartolomeu de Gusmão e me dirigi à estação Vila Mariana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boa sorte, Homero, seu puto.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-8537823388310562437?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/8537823388310562437/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=8537823388310562437' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/8537823388310562437'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/8537823388310562437'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2010/05/calcinha-de-emily-dickinson.html' title='A Calcinha de Emily Dickinson'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-7296347656616323611</id><published>2010-05-16T22:44:00.000-03:00</published><updated>2010-05-16T22:45:44.253-03:00</updated><title type='text'>Nelson</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;Até hoje sou assombrado pelas escolhas que fiz durante minha curta vida. Nunca vendi minha alma ao diabo num pacto, mas cada ato, cada decisão que tomo, faz o tinhoso ter certeza que quero uma cadeira cativa no inferno. Não ouço vozes, sou apenas um andarilho, uma alma perdida fazendo o que qualquer ser humano faz durante o dia. Acordo com dores, cuspindo grossas camadas de catarro e entro no banheiro. Como um zumbi controlado por uma força sádica, tomo meu banho e me olho no espelho: meus olhos são vazios e sinto que o dia que se levantou não tem sentido em existir. Qual é o motivo do sol nascer e ordenar ao mundo que trabalhe? Eu não formei uma família, nunca fiz uma mulher feliz, não sei se os meus amigos me dariam suporte se eu caísse num hospital à beira da morte. Meus cabelos estão caindo, meus dentes amarelando e não vejo vida daqui uma semana. Apenas vou levando, apenas me arrastando. Coloco minha velha calça surrada, alguma camiseta e o meu tênis que está cada dia mais deplorável. Verifico o celular, verifica o maço de cigarros e o isqueiro. Deparo-me com a cozinha e procuro algo para comer. Pão de forma, manteiga e café. Mastigo com preguiça sem entender o porquê estou me alimentando. Como havia dito apenas um zumbi sem noção de seus atos, rastejando por um chão irregular, abraçado ao cotidiano, à rotina.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Abro a porta do apartamento e chamo o elevador. Sei que algum vizinho irá entrar no elevador e me desejar um bom dia. Sou um pensador por natureza e quanto respondo a saudação matutina de um vizinho, olho para os botões do elevador e penso: por que desejamos bom dia para alguém que não conhecemos? Queremos mesmo que esse alguém tenha um bom dia? E se ele espancou sua mulher? E se ele coleciona pedofilia em seu computador? Ele merece ter um bom dia? Acho que não. Saio do elevador e ganho a rua olhando para os lados e verificando se algum carro está por perto. Atravesso e me direciono ao ponto de ônibus. São as mesmas pessoas de sempre. Com a mesma cara de sempre. Algumas com ambição demais, outras sofrendo o mesmo dilema que eu: por que se locomover a um lugar para encher o bolso de um patrão filho da puta? Entro no ônibus e vejo que o motorista não é o mesmo de ontem. O cobrador também não, mas por incrível que pareça quase todos os passageiros de ontem estão lá de novo. Eles me olham com a mesma reação de sempre. As mulheres que sentem algum tipo de atração por mim, acompanham meus movimentos até eu achar um banco para sentar. Ou ficam me acompanhando enquanto fico em pé, vislumbrando a paisagem urbana de cada dia. As mulheres que não suportam meu estilo olham para mim e quando olho para elas, desviam o olhar e voltam sua atenção para um livro, algum best seller que a Veja indicou em sua lista semanal de livros mais vendidos. Alguns homens me dão atenção com os olhos, porém eu reajo com tanta repulsa que eles desistem de observar a estampa da minha camisa ou estado do meu tênis. Mas o que fode a minha manhã é caminhar através da rua do meu trabalho. São dezenas de marionetes de cabeça baixa, desanimadas, estressadas e nervosas. Eu sou uma delas. Ao colocar os pés na empresa, sinto calafrios e ao olhar o relógio que marca a entrada dos funcionários, vejo que estamos numa prisão onde o relógio é o carcereiro, e diz quem é bom e quem é incompetente, apenas usando os atrasos como provas. Olhos para as pessoas em suas mesas e aceno com as mãos e com a cabeça. Ligo o computador e a perturbação começa. Preciso acessar e-mails, sistemas, Windows, programas, todos com meu nome e com minha senha. Tudo é restrito, tudo é informação de extremo valor. Coloco minha mão na cabeça e prendo meus dedos aos fios de cabelo. Lentamente deslizo para baixo e quando olho na mesa, vários fios de cabelo estão lá. Alguém pergunta se estou bem e eu respondo que sim, digo que estou indisposto, desmotivado e sempre recebo uma cara de compaixão de volta. Por algumas horas, tenho paz e tento adiantar meu trabalho, sempre atrasado. Quando meu chefe chega, o ódio adormecido em meu coração desperta. Penso em algum plano catastrófico como uma bomba ligada a um dispositivo de detonação que é acionado por qualquer peso colocado em cima da cadeira do meu chefe. Eu apenas diria que iria comprar um pão de café no bar da esquina e enquanto fecho a porta da empresa, ouço a explosão. Mágico! Porém acordo do meu delírio assassino e fito meu patrão. Rico mas não esbanja. Roupas gastas, carro popular e sede de sangue. Chega à empresa e desfere um “bom dia” tão irônico que me causa náuseas. Vou até a máquina de café e aperto no botão do café longo. Despejo um pouco de açúcar e fico uns cinco minutos apreciando o sabor forte do expresso. Alguns colegas de trabalho encostam-se à máquina e começam a bater papo. Eu querendo morrer, querendo matar o chefe e eles falando de futebol, fórmula um e mulheres. De mulheres eu entendo, mas não sou tão alucinado como eles. Mulheres para eles são um bando de bucetas, enquanto eu as vejo como um tipo de diversão, seres que eu canso com minha existência sem o mínimo resquício de ambição. Pra mim as mulheres querem, sem exceção, formar família, morar na mesma casa, apresentar o homem pra família e cumprir o script dos bons modos. Eu não consigo, eu simplesmente não consigo. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;A hora do almoço é um bom momento. O sol está quente e a fome consegue chamar minha atenção. Passo do estado soturno para o estado de desespero e me abrigo em algum restaurante bagunçado que sirva um bom prato feito. Lembro da comida da minha mãe e também me lembro do tempo que estou sem comer um bom rango materno. Faz tempo que não a vejo. Não sei onde ela está. Devoro meu prato e vou para a rua fumar alguns cigarros. Preciso compensar a manhã inteira, quando não puder dar uma tragada sequer. Vou a banca de jornal e compro um jornal barato, apenas para me interar dos fatos. A mulher que trabalha na banca sempre me oferece o jornal e um sorriso amigável. Sinto tesão por ela, mas o marido dela trabalha lá também. Encosto na parede da empresa onde trabalho e verifico sempre as notícias em meio à nuvem de fumaça que despejo pelo ar. Volto sempre alguns minutos antes, pois não tenho saco para suportar o calor por muito tempo, nem o marasmo da rua onde trabalho.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Volto para minha mesa fedendo a cigarro. Alguém sempre faz algum tipo de piada quanto a isso, mas eu sempre respondo com um ‘arram’ desanimado e um sorriso de lado. Não procuro me isolar das pessoas, apenas vejo que não são iguais a mim. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Alfredo é um cara que trabalha comigo e parece muito comigo, gosta das mesmas músicas que gosto e já leu os livros que cultuo. Nossos horários de almoço são diferentes, mas sempre nos encontramos na máquina de café durante o turno da tarde. Trocamos poucas palavras, porém proveitosas. Ensaio algumas risadas e ele também. Pra ele, Bob Dylan é o grande gênio da música, pra mim é Serge Gainsbourg. Ele gosta de letras e eu gosto de atitude, embora Gainsbourg tenha escrito muita coisa boa. Não discutimos muito, até porque são estilos diferentes. E Bob Dylan é consagrado por toda a mídia musical enquanto muita gente na mesma mídia nunca ouviu uma canção do álbum Histoire de Melody Nelson. Aliás, meu pai meu nome vem desse disco: Nelson. Enfim, as pessoas acham que Gainsbourg é apenas música de hotel com Je T’aime Moi non Plus e a deliciosa voz da Brigitte Bardot cortando a música. Mas Gainsbourg era foda, cigarro em uma mão e em outra mão, sempre estava o coração de alguma mulher sensacional. Enfim, nunca fui a um happy hour com os funcionários da empresa. Mas as sextas, Alfredo e eu bebemos até cair em algum bar do centro. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt; &lt;/span&gt;Após trabalhar despretensiosamente durante a tarde, sigo até o ponto de ônibus fumando um cigarro atrás do outro. Pego um ônibus lotado e chego em casa rapidamente. Eu não posso reclamar de passar horas no trânsito. Os corredores de ônibus que a Marta Suplicy implantou são sensacionais. Chego em meu apartamento, pequeno mas confortável e me livro das roupas. Coloco um short qualquer e acendo um cigarro. Ligo a televisão e a deixo ligada enquanto esquento alguma comida, enquanto sirvo uma dose de uísque para relaxar. Termino o drinque e verifico a comida, Deus é sempre a mesma coisa, porém durante a noite existe um conforto, a sensação de que algo novo pode ser feito. A manhã é uma calamidade regida por uma ordem natural da sociedade. A noite é misteriosa, quando podemos extrapolar as horas e desferir uma bica bem servida no rabo do relógio e deixar que o outro dia sirva de purgatório para os excessos cometidos. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Às vezes recebo a visita de amigos beberrões. Cantamos canções antigas e fazemos muito barulho. Os vizinhos reclamam, mas nunca cessamos as reuniões sazonais que realizamos. Quando mulheres estão entre os convidados, dou completo sentido ao que descrevi linhas acima: extrapolar as horas e deixar que o outro dia sirva de purgatório. Quando as discussões descambam para o lado da religião, me levanto bêbado e começo a dispersar os falastrões. Sempre trôpego, despejo os mais inflamados. Não tenho religião. Não tenho Deus nem deuses. Não existe sentido em divindades. Somos apenas o resultado de uma série inconsciente de acontecimentos físicos e químicos e cá estamos: um monte de cus, pintos e bocetas perambulando pelo solo árido desse planeta cheio de vida. Todos querendo comer uns aos outros, enquanto algumas pessoas, como eu, estão pouco se lixando se são manipuladas, se são escravizadas. Pessoas querem mandar enquanto eu quero viver com algum tipo de respeito, nem que seja pra conquistá-lo na porrada. E onde podemos encaixar um deus bondoso nisso tudo? A bondade humana é fruto da diferenciação entre homo sapiens e as demais espécies. Não existe nada de mágico ou sobrenatural no amor. O amor é fruto do maior dom do humano: o dom de pensar. Desenvolvemos a comunicação, desenvolvemos filosofias e códigos de conduta, leis e sistemas de esgoto. O ser humano fez tudo isso. Deus definitivamente não se encaixa nisso tudo. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Diabos! Quero mais é que tudo vá para o inferno. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Eu sou um homem amargo por tudo que fiz na vida. Colho diariamente as jurubebas que brotam em minha horta. Amargas e rejeitáveis, assim como sou para a sociedade. Minha canção é assombrosa e ninguém quer ouvi-la. Minha solidão não pode ser sanada e meus crimes não têm solução. Eu tenho um acordo verbal com o fracasso, uma espécie de pacto de não-agressão com o pecado. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Preciso dormir, anseio pela canção de ninar entoada pelos fantasmas do meu passado. Um último cigarro e cama. &lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-7296347656616323611?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/7296347656616323611/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=7296347656616323611' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/7296347656616323611'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/7296347656616323611'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2010/05/nelson.html' title='Nelson'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-1690346754518677251</id><published>2009-12-08T14:35:00.003-02:00</published><updated>2009-12-08T14:38:05.948-02:00</updated><title type='text'>A Última Donzela e a Cartola</title><content type='html'>&lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;O cigarro de Fernando havia se consumido, chegando ao filtro branco adornado por uma linha prateada e pelo símbolo simétrico do Lucky Strike. Mas ele não imaginava este pequeno fato isolado no universo de fatos que orbitavam pelo bar. Risadas, gargalhadas histéricas, pequenos murmúrios e falácias, muita falácias entravam em simbiose no denso e escurecido ar do recinto. Catarina embriagada, vez em outra se achegava a Fernando e o abraçava, beijando-o no pescoço. Era um pequeno mimo que significava sua intenção em ficar com ele naquela noite. E Fernando sabia do costume de sua amiga, afinal, foram meses a fio beijando aqueles lábios, porém sem nunca fazerem sexo. Catarina era magra, no significado exato da magreza, mas mantinha um charme incrível e uma inconseqüência que atraía Fernando aos seus braços. Era uma inveterada fã do rock, e ele também, o que os fazia atravessarem horas em conversas sobre o assunto. Os dois sempre que possível andavam juntos, vestidos de maneira perecida, ostentando bandas de seus gostos em suas camisetas. As pessoas achavam que eram namorados, e não era só pelo fato de costumarem ficar um com o outro, mas também pela incrível compatibilidade de suas almas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos lá, porra! Mais vinho! – gritou Fernando em tom alcoolizado.&lt;br /&gt;- Vamos fazer vaquinha, todo mundo dá um real, dois reais e tá feito! – alguém agilizava a contribuição.&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;As mãos de algum pobre diabo disposto a arrecadar dinheiro, se formavam em concha e abordava um a um, procurando captar o máximo de recursos. O fim das doações havia chegado ao fim e a mixaria de quatro reais e quarenta e cinco centavos havia sido contada. Isso dava para duas garrafas de vinho, um vinho tão ruim que se aproximava do vinagre. Um verdadeiro suicídio, lento e devastador. Aquela era a sexta vez que o grupo entrava no mercado para comprar vinho. Novamente duas garrafas. Todas as vezes que o grupo entrou para comprar a bebida, sempre levavam ao caixa duas garrafas de um litro. Só que dessa vez o grupo cambaleava em meios às gôndolas da seção gelada de frios. Entraram à direita na seção de enlatados que lhes dava a distância de vinte passos da seção de bebidas. Parecia pouco, mas os passos eram calculados e lentos, para que não houvesse uma queda coletiva e constrangedora. Finalmente chegaram à seção cheia de garrafas, ataviada com as mais belas bebidas que o mundo pode comportar. Fernando e Catarina andavam de braços dados, rindo e procurando em meio aos giros da visão, as garrafas da perdição. E a perdição estava escassa, afinal, sobraram exatamente duas garrafas. Surrupiaram rapidamente as garrafas e continuaram a longa jornada até o caixa rápido. O casal já havia passado por porres bem piores que esse, e administravam a alegria gerada com generosidade, irradiando sorrisos, acenos, gritos eufóricos. Eles encantavam a todos no lugar e todos encantavam aos dois. Após o grupo beber de forma ensandecida cada gota do vinho amargo, cada um começou a decidir seu destino na noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah! Hoje eu vou ao pagode! – alguém cheio de entusiasmo exibia sua pretensão.&lt;br /&gt;- Credo! Pagode! Aff! – outro alguém protestava&lt;br /&gt;- Fernando, vâmo pra Augusta! – sugeriu Catarina com sorriso devasso.&lt;br /&gt;- Ah! Não sei, o que acha Marlon? – Fernando questionou olhando para seu amigo.&lt;br /&gt;- Vâmo, porra! Tá afim? Então vâmo, porra! – gritou Marlon esfregando uma mão na outra.&lt;br /&gt;- Cecília, você acompanha o Marlon? – perguntou Catarina.&lt;br /&gt;- Claro! Vamos pra lá... – aceitou a amiga do casal.&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;Marlon conhecia Fernando há quase um ano, e o pouco tempo não os impediu de cultivarem uma amizade baseada em confissões secretas, bebedeiras após o expediente e extensas conversas em meio ao trabalho. Cecília era amiga de Catarina, um tanto conservadora (virgem) e estava tendo algo com Marlon. Provavelmente alguns beijos acalorados.&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;O grupo se dispersou em breve despedida. Em poucos minutos o quarteto estava num ônibus rumo à região da avenida Paulista. Pode parecer que estavam conversando amistosamente, mas o álcool havia subido com maior intensidade. Marlon começou seu repertório de baixarias em público ao cantar o hino do Grêmio de Porto Alegre em meio a trabalhadores cansados da jornada pesada das obras e fábricas. Alguns olhavam de forma irritada, porém a maioria ignorava os versos berrados do tricolor gaúcho. Os trabalhadores apenas queriam um descanso, e a fadiga era tanta que o vidro da janela servia como confortável travesseiro no sono que aliviava a longa viagem até suas casas. Alguns roncavam, embaçando os vidros com seus bafos enquanto outros permaneciam com suas cabeças apoiadas no encosto duro dos assentos. O ônibus balançava e Fernando, em pé, já duvidava de sua capacidade em permanecer ereto e firme. Catarina ria muito enquanto Cecília observava seus amigos com um sorriso de quem estava perfeitamente consciente de tudo que ocorria. Finalmente o ônibus chegou ao ponto e os quatro desceram aos trancos e barrancos, sem a mínima noção do que estavam fazendo. E o álcool permanecia implacável na missão de entorpecê-los cada vez mais. A vista girava cada vez mais rápida e exceto Cecília, todos se arrastavam na subida até a avenida Paulista. Um verdadeiro sacrifício em meio às arvores que balançavam sob a força dos ventos que se intensificavam a cada minuto. Catarina compreendeu que Fernando já não tinha mais controle sobre suas pernas, o que a fez reunir suas últimas percepções e reflexos sóbrios e guiar o amigo até o bar na Augusta. O céu flertava com uma chuva rápida, mas tudo ficou na ameaça. Os quatros envolveram seus braços nos ombros de quem estava ao lado e caminharam como quatro camaradas bêbados, porém sabendo que daquele jeito era difícil cair. Caminharam pela maldita entrada do Parque Trianon e atravessaram até o MASP. Prosseguiram em meio a risadas e pequenas brincadeiras até chegarem à esquina com a rua Augusta. Marlon e Cecília conseguiram dobrar à direita tranquilamente, mas Fernando havia perdido o controle do lado direito do corpo e andava apenas para a esquerda, em direção à rua movimentada.&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;- Fernando! Porra, o que você está fazendo?! – gritou Catarina enquanto segurava o amigo pelo cotovelo.&lt;br /&gt;- Eu não sei... massss não consigo virar para a direita...&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;– respondeu Fernando totalmente alterado e com voz arrastada.&lt;br /&gt;- Puta merda, era só o que faltava!&lt;br /&gt;- Me puxa, Catarina! Sério!&lt;br /&gt;- Caralho! Caralho!&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt; Catarina empurrou Fernando para a calçada e continuou descendo a Augusta guiando o companheiro pelos ombros. Marlon acompanhava a cena às risadas junto de Cecília que contemplava o desastre com olhos de criança, ou seja, abismada. Com muitas dificuldades, os quatro chegaram ao bar Vitrine. Encontraram uma mesa vazia e repousaram por alguns minutos.&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;- Marlon, vem comigo no banheiro! – disse Fernando se levantando bruscamente e se dirigindo ao banheiro, tropeçando nas cadeiras.&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;Fernando chegou com velocidade descontrolada ao banheiro e se dirigiu à cabine vazia. Pôs-se de pé, diante da privada e com dificuldade abriu o zíper de sua calça. Enquanto o mijo descia, ele vacilava em sua posição e ria ao ver o reflexo de seu pau no botão metálico da descarga. Logo que terminou o mijo, correu para a pia e vomitou rios de vinho. O vômito era de uma roxo vivo, e inundava uma das pias e o chão do banheiro. Um francês se aproximou de Fernando abordando-o com sotaque:&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;- Vai maconha aí, amigo?&lt;br /&gt;- Vai se foderrrr... – cuspiu algumas ofensas e se afastou.&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;Marlon encarava o francês com olhar fulminante de raiva e ao mesmo tempo guiava seu sofrido amigo à mesa. Catarina preocupada ensaiou um cafuné no cabelo liso de Fernando, mas logo se levantou e, chamando Cecília, foi ao banheiro. Marlon acendeu um cigarro e permaneceu em sentinela, vigiando o amigo nocauteado pelo vinho. &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;- Puta que o pariu, hein Fernando?! Hoje você bebeu! – Marlon reclamou em tom irônico.&lt;br /&gt;- É, pode crer, mano. To foddddido...&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;As garotas chegaram à mesa e ficaram fumando e conversando alguns assuntos sem sentido, enquanto Marlon alternava seu olhar entre o amigo e o ambiente. Fernando permanecia com a cabeça reclinada na mesa, tentando sem sucesso falar alguma coisa, tentando demonstrar alguma dignidade. Alguns marmanjos tentavam se aproximar de Catarina.&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;- Ei! Vem sentar aqui com a gente, seu namorado abandonou você! – algum rapaz disse.&lt;br /&gt;- Ele não é meu namorado, é meu amigo. Jamais deixaria ele aqui. – disse Catarina virando as costas para os rapazes.&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;O rock tocava incessantemente e não havia idéias. Fernando geralmente proporia algo, mas lá estava ele, inerte aos estímulos da noite. &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;- A gente podia ir pra casa da Cecília e dormir lá! O que acha? – sugeriu Catarina.&lt;br /&gt;- Pode ser! Mas como vamos chegar lá com o Fernando desse jeito? – questionou Marlon.&lt;br /&gt;- A gente pega um táxi! Vamos fechar um preço com ele e vamos pra lá! – Catarina solucionava o impasse.&lt;br /&gt;- Onde diabos fica sua casa, Cecília? – perguntou Fernando com a cabeça na mesa.&lt;br /&gt;- Em Pinheiros, perto do largo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;Marlon e Catarina saíram do bar a fim de pegar um táxi. Ao combinarem o preço, correram ao bar para chamar Cecília e Fernando. Ele se levantou com dificuldade e foi em passos lentos até o táxi. Sentou no banco de passageiro, pois segundo Marlon, “se ele quisesse vomitar, ficava mais fácil de colocar a cara para fora”. E ele tinha razão: Fernando vomitou por muitas vezes durante o trajeto até Pinheiros. Após sucessivos vômitos, Fernando já estava mais lúcido e conversava sem problemas com o motorista. Mas ele nem imaginava o motivo de estarem dentro do táxi e muito menos imaginava quem iria pagar pela corrida.&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;Chegaram ao prédio de Cecília, pagaram o táxi e se dirigiram vagarosamente à porta. O prédio embora fosse antigo, era confortável, com um lobby bem espaçoso. Ao chegarem no apartamento, Fernando foi ao banheiro, abriu os botões da camisa e se contemplou no espelho. Deu um sorriso de malícia e se abaixou para cagar.&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;- Que se foda se é casa dos outros. Vou cagar. – pensou Fernando.&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;Marlon e Cecília se aconchegavam em um colchão que ficava ao lado de um vaso que exibia uma vívida planta de maconha, que devia ter pelo menos um metro e vinte de altura. Era realmente engraçado ver a maconha em seu estado bruto. Marlon e Fernando se sentaram ao lado do vaso e ficaram tocando nas plantas, rindo. Fernando arrancou uma folha e colocou no bolso da camisa.&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;- Vem logo, Fê! – Catarina chamou com voz manhosa.&lt;br /&gt;- Peraê, peraê!&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;Após o encanto da maconha ter acabado, os machos se aninharam com suas fêmeas. A luz apagada era o sinal de que havia liberdade para tudo naquela noite. Marlon havia abaixado as calças de Cecília e enfiado a mão dentro de sua calcinha. Ele brincava euforicamente com os dedos dentro de sua boceta enquanto alguns suspiros saíam de sua boca. Fernando ouvia a ação do casal ao lado e dava risadas, enquanto se concentrava em chupar caprichosamente os mamilos de Catarina. Decidiu avançar na ousadia e enfiou os dedos na boceta da amiga, cutucando seu clitóris. O pau estava duro como rocha, pois sua companheira gemia em seu ouvido sem parar, provocando-lhe arrepios generalizados pelo corpo. A bebedeira não havia surtido efeito negativo e a libido estava a todo vapor. Fernando pincelava o pau na boceta de Catarina que se derretia em longos suspiros. Ele conseguia sentir que algumas gotas de porra já ensaiavam a saída. Ao mesmo tempo, alguns gemidos eram ouvidos por parte de Cecília, que desfalecia como gelo no calor dos toques de Marlon. Em alguns momentos, os dois amigos se entreolhavam sob a luz da lua que cortava a sala e riam um do outro. Porém Fernando não estava totalmente são e como de costume, ficou romântico.&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;- Catarina, eu te amo. Eu tenho certeza que vamos namorar um dia! Eu amo você, eu amo ficar com você, amo tudo em você! – Fernando sussurrava com sentimentos exaltados.&lt;br /&gt;- Ai... Ah! Não pára! Não pára! – Catarina estava surda para as declarações inebriantes do amigo e só se concentrava no prazer.&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;Marlon ria do estilo cafajeste com o qual Fernando se dirigia à amiga. Marlon enfim sacou sua pica e enfiou profundamente dentro de Cecília, que enfim experimentou a textura de um membro masculino arrancar sem piedade sua pureza. A última donzela caía naquele colchão ao lado de um vaso de maconha. Ela dava pequenos gritos enquanto o olhar de Marlon era pernicioso, destilando luxúria que se misturava ao suor dos dois corpos. Enquanto um momento marcante surgia para Cecília, Catarina estava de quatro chupando com fervor o pau de Fernando e ele continuava com sua ladainha romântica dizendo “eu te amo”, “quero você pra sempre” e todas aquelas promessas baseadas em gozo de boceta. E quando Catarina estava sentada no pau de seu companheiro, o mesmo gozou em frenético coito, tanto foi o prazer que Fernando mordia o ombro da amiga, até que caiu para trás, sem reação, entregue ao relaxamento muscular. Marlon terminava seu trabalho, montado em Cecília, puxando seus cabelos. A ex-virgem mostrava-se empolgada com a nova experiência. Marlon caiu mórbido, com a camisinha envolta em seu pau, cheia de porra, cheia de desejo. As garotas foram ao banheiro se lavar e confabular sobre aquilo que já sabiam. Fernando e Marlon se livraram dos preservativos e permaneceram nus, deitados esperando suas garotas.&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;Após minutos de conversa, o cansaço se apoderou de suas mentes, e não havia mais espaço para vida inteligente naquela sala. Dormiram até as nove da manhã. Fernando acordou com uma dor de cabeça monumental, pensando se tratar de um derrame cerebral, mas logo lembrou que o vinho era uma porcaria e que sempre depois disso, a ressaca chegava. Marlon acordou com a mesma dor de cabeça e logo levantou para se vestir. Os dois se despediram de suas sonolentas mulheres e ganharam a rua que terminava no largo de Pinheiros. Compraram um maço de cigarros e tomaram um café sentados num bar, cada um com olhar fixo &lt;st1:personname productid="em algo. As" st="on"&gt;em  algo. As&lt;/st1:personname&gt; lembranças chegavam aos poucos e risadas eram lançadas na xícara de um café fraco e adoçado. Marlon não parava de cheirar o seu dedo médio.&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;- Fernando, cheira aqui! – levou seu dedo ao nariz do amigo.&lt;br /&gt;- PUTA QUE PARIU, Marlon! Vai se foder! – Fernando constatou que era cheiro de boceta seca, que havia permanecido no dedo que bolinara a vagina de Cecília.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo depois, se dirigiram ao ponto de ônibus na avenida Rebouças, sob uma fina garoa. Ficaram por uma hora esperando os ônibus esvaziarem, mas foi em vão. &lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt;- Vamos subir a pé. Que se foda! – sugeriu Fernando.&lt;br /&gt;- Vai, vâmo logo.&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt; À medida que subiam, deliravam em assuntos triviais e de pouca importância. Falavam apenas para ficarem animados o suficiente para terminarem o trajeto até a avenida Paulista. Era uma boa caminhada.&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="NormalTrebuchetMS"&gt;&lt;o:p&gt; - Sabe Fernando, quando eu for rico, quero andar de bengala, e com aquelas cartolas grandes, sabe?&lt;br /&gt;- Hahaha! Sei sim, seria demais. Olhar esnobe, com aquela cartola. Puta, seria foda!&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-1690346754518677251?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/1690346754518677251/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=1690346754518677251' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/1690346754518677251'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/1690346754518677251'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2009/12/ultima-donzela-e-cartola.html' title='A Última Donzela e a Cartola'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-2628639359136308343</id><published>2009-11-06T12:12:00.003-02:00</published><updated>2009-12-10T11:21:53.642-02:00</updated><title type='text'>A Vingança Romana</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;line-height: 13.5pt"&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;E lá estava ele de novo. Antonio Durval Correia. Católico apostólico romano, vezes dez. Papa Bento XVI é um alvo a ser alcançado. "Que homem!" ele pensava ao lembrar do líder máximo da fé católica (não era pra ser Jesus? Deus?). Que o Antonio não me ouça ou ele começaria uma discussão. Mas lá estava ele, como de costume, na espreita, encostado no muro da igreja de Nossa Senhora da Saúde. A avenida Domingos de Morais estava fervilhando. Pessoas com rostos padrões, cinzas, azulados, sem forma alguma se apinhavam na calçada, esperando o sinal vermelho para os carros. Antonio observava tudo com decepção moldando sua expressão. Diferente das pessoas que transitavam pela avenida, Antonio tinha um rosto colorido, nariz vermelho, olhos verdes, bochechas rosadas. Todas as cores do passado, das consequências impiedosas que um ex-alcoólatra sofre. Mas lá estava o guerreiro católico, ex-alcoólatra, vigiando as pessoas, como se pudesse detectar suas auras, detectar seus anjos e demônios.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Marco, são poucos. São pouquíssimos! - Antonio cabisbaixo falava ao telefone, num orelhão da rua Santa Cruz.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Poucos o quê? Do que você está falando?&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Eu vi tudo, na frente da igreja. É de partir o coração.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Mas o que você viu?, pelo amor de Deus!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- As pessoas, esqueceram de Deus.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Mas isso todo mundo sabe! Conte-me algo novo! Puta que pariu!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Me faça um favor: não fale palavrões, certo? Estou querendo desabafar com alguém e você me ofende?&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Mas eu não te ofendi, foi expressão apenas, pelo amor de Deus! E você não está desabafando, você está me deixando curioso e com raiva!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Sinal da cruz, Marco. Ninguém mais faz o sinal da cruz ao passar pela igreja.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Oras, e se forem evangélicos? Eles estão crescendo a todo vapor. Você tem que considerar isso.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Que nada, acho que eles são trinta por cento da população, ou seja, de cada dez pessoas que passam pela igreja, sete deveriam reverenciar a fé católica.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Você sabe que a vida não é assim. Estatísticas não passam de baboseiras. Sempre tem uma margem de erro. Se fosse algo exato, não teria margem pra erro.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- A matemática é exata, Marco.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Mas as pessoas não. A cada minuto, católicos viram evangélicos, filhos viram pais, homens viram viados.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Mas homossexualismo é um desvio de caráter, existe cura - retrucou Antonio, coçando o nariz.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Bem, foda-se, não é...&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Olha o palavrão, Marco...&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Olha Antonio, você me liga pra dizer que quase ninguém faz sinal da cruz. Depois entra num assunto que não faz sentido e ainda pede pra eu maneirar nos palavrões? Vai tomar no seu cu, seu puxa-saco do papa! Enfia um crucifixo no seu rabo e reza três ave-marias pra ver se você sara desse fanatismo boçal!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Olha, eu vou desligar. Você está descontrolado, não espere que eu desça ao seu nível - respondeu Antonio, assim como Jesus responderia.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Marco desligou.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Maldito o dia que eu fui aos Alcoólicos Anônimos e conheci esse babaca! - vociferou Marco contra o teto.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;O encontro de alcoólicos anônimos não havia rendido nenhum fruto bom para Marco. Ele continuava bebendo, sem esperança alguma, vivendo a libertinagem que sempre sonhou. Putas, travestis e mulheres aleatórias. O único fruto na verdade foi ter conhecido Antonio que não passava de uma figura deplorável, sem motivação alguma e que tentava de todas as formas se redimir consigo mesmo. Depois inclui Deus na lista de pessoas com quem devia se desculpar. Mas o fato é que Antonio parou de beber, se agarrou com unhas e dentes à igreja Católica e a Deus. Comprou uma imagem de Santo Onofre, protetor dos alcoólatras anônimos e sossegou o rabo. Passa o dia inteiro meditando na palavra de Deus, visitando igrejas, fazendo trabalhos voluntários. O padre da paróquia vizinha a sua casa garantia uma cesta básica a ele, frequentadores da mesma paróquia faziam contribuições para pagar as contas do bangalô de Antonio. Todos sabiam que ele não batia bem das ideias, e por isso era considerado pelas pessoas como inapto para se sustentar. Antonio se casou com Deus, com Maria (ainda virgem) e com todos os santos. Parecia um homem feliz.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Nossa Senhora de Aparecida, por que o mundo está assim? Por que o mundo virou as costas para a igreja? Por que o mundo esqueceu-se de reverenciar sua fé católica? Rogo a ti, que rogues ao teu filho Jesus para que os puna! Para que vejam que dar as costas para a fé é a mesma coisa que a morte! Confio nos teus bondosos braços, no teu olhar maternal, eu te amo, minha santa!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: 10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Fez o sinal da cruz lentamente e se ergueu do chão, onde estava ajoelhado. Quando se direcionava a bíblia enorme que permanecia na sala, uma voz gritou em seu ouvido, em sua mente:&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- MATE-OS!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Deixou o terço cair de suas mãos. Logo após o terço, Antonio caiu também.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- VINGUE-SE PELA IGREJA!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Uma voz feminina, poderosa - como se fosse o mar batendo contra as rochas - gritava em sua mente.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Minha santa? É a senhora? - perguntou Antonio, trêmulo, com palpitação e suor intenso.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Ele não ouviu mais nada. Nenhum assovio divino, nem uma tosse celestial. Silêncio. Antonio se ergueu, pegou o terço e o deixou na bíblia. Colocou suas sandálias surradas e correu até a paróquia.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Chegando às portas da paróquia, procurava atentamente pelo padre.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Padre Afonso! Padre Afonso! PADRE AFOOOONSO!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Silêncio. Ninguém respondia. Os santos parados no altar olhavam para ele com compaixão. Outros olhavam para cima. Jesus na cruz olhava para ele com frieza. Uma voz se revelou.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- VINGUE-SE POR MIM! PELA IGREJA! PELO SUCESSOR DE PEDRO!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Você quis dizer SÃO PEDRO, não?&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- TANTO FAZ! VINGUE-SE POR TODOS NÓS!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Mas quem seria a senhora? - Antonio sentia suas pernas cada vez mais vacilantes. Apoiou-se em um dos bancos.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Eu sou a mãe de todos os seres, a mãe de Deus, a mãe da humanidade!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- NOSSA SENHORA! - gritou e se prostrou, suando em bicas.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- LEVANTE-SE E VINGUE-SE POR NÓS!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;A voz se dissipou e Antonio já estava praticamente deitado de bruços, se retorcendo. Começou a balbuciar palavras sem sentindo, em uma língua estranha. O padre Adolfo se aproximou em alta velocidade e se abaixou para socorrer o pobre fiel.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Em nome de Cristo, o que você tem?&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Padre, eu ouvi a santa!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Qual delas?&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- A maior de todas! SANTA MARIA MÃE DE DEUS!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Quando? Como? Onde?&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Agora! Ela começou a falar! Na minha casa e aqui também! - gritava exaltado, com espumas de saliva nos cantos da boca.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Antonio, vamos beber água. Descanse um pouco e fale um pouco mais sobre isso.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Não padre! Não tenho tempo a perder. Eu recebi ordens divinas! Sou um servo obediente!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Que ordens?&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Divinas! Ordens divinas!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Meu Deus eterno! QUAIS ORDENS?&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Antonio se ergueu se desvencilhou das mãos do padre que o sacudia enquanto fazia as perguntas, e correu para fora da paróquia. O padre olhou para a estátua de Maria e esboçou um sorriso forçado.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Tem gente que não tem conserto - pensou o Padre, limpando os resquícios de saliva que Antonio deixara no chão.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;O céu estava limpo, o sol convidativo, os pássaros voavam em círculos e algumas nuvens desfilavam secas, isoladas. Antonio chegou em sua casa e sem pensar muito, correu até a cozinha. Abriu a gaveta e puxou uma faca de cortar carne. A faca devia ter vinte centímetros, afiada e com o cabo desgastado. Trocou sua camisa, bebeu um copo d'água, rezou um pai nosso e uma ave-maria e correu para a porta. Fez um sinal da cruz ao sair e foi até o ponto de ônibus. Aguardou pacientemente a chegada de seu ônibus. Paciência que só pessoas que sabem o que fazer na vida, têm. Antonio sabia o que fazer. Ele era um mártir, um santo maldito, um instrumento desafinado nas mãos de Maria. O terço estava enrolado em sua mão direita e a cada conta que desfilava pelos seus dedos, ele rezava um pai-nosso, uma ave-maria e um credo dos apóstolos.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;No ônibus, assuntos triviais permeavam o ar. Fofocas, mentiras, verdades. A humanidade se entrelaçava em verbos e substantivos. Eu faço, tu fazes, eles fazem. Primeira pessoas, segunda e terceira. Pessoa pra dar e vender. Mulheres com axilas mal raspadas, axilas cinzas. Braços gordos, cabelos mal penteados. O motor do ônibus tentava dialogar na mesma intensidade das pessoas. Decibéis e mais decibéis circulavam o ambiente. Janelas fechadas, janelas abertas. Espirros e tosses. Era o mundo em seu nível mais subterrâneo. A periferia tinha vida. A vida que Deus não desejou para seus filhos. Mas quem se importava?&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: 10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Antonio parecia alheio a tudo.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome...&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco...&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Creio em Deus Pai, todo-poderoso...&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;A linha chegava ao fim. Terminal Santa Cruz. Desceu lentamente e se dirigiu ao shopping. Atravessou a avenida e rumou para a igreja de Nossa Senhora da Saúde. Eram cinco horas da tarde e Antonio preferiu aguardar até o anoitecer. Ficou parado com sua faca parada entre a cintura e a calça. Continuou rezando e observando as pessoas, apressadas, cabisbaixas, passarem pela igreja e não prestarem reverência alguma com o sinal da cruz.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome...&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco...&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Creio em Deus Pai, todo-poderoso...&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Após uma hora de espera, foi até o orelhão.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Marco? Está mais calmo?&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Só me faltava essa! Só me faltava essa! - Marco berrava ao telefone.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- O que? O que lhe falta?&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Nada, Antonio. Esqueça! O que você quer?&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Marco, eu tive uma revelação. Maria, nossa querida mãe, falou comigo!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Mas que diabos! Como assim "nossa querida mãe"? Você tá louco?&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: 10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- A virgem santíssima!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Você diz a Maria, nossa senhora e tal?&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Isso! Ela falou comigo! Ela falou comigo! - repetia o acontecido enquanto apontava para o céu.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Hahahaha! Você está levando isso muito a sério, Antonio! Vamos num psicólogo, é sério...&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Ai de você que não acredita em mim! Ela falou comigo, ela é real! Ela pediu vingança!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: 10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Meu Deus do céu! Antonio, onde você está? - Marco captou a situação.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Aqui na Santa Cruz.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Espere aí! Espere aí, ouviu? Espere!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Marco desligou o telefone e se arrumou prontamente. Pegou seu celular e discou para o 190.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Polícia Militar de São Paulo, em que posso ajudá-lo? - uma voz fanhosa escorria do telefone.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Por favor, envie uma viatura para a igreja Nossa Senhora da Saúde! O mais rápido possível. Algo terrível está para acontecer! Sejam rápidos!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Mas do que se trata a ocorrência? Pode me detalhar? - a voz parecia se derreter.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: 10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Um lunático está para matar muita gente... coisa religiosa! - Marco corria até o metrô, enquanto falava de forma ofegante a atendente.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Qual seria o endereço?&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Avenida Domingos de Moraes! É ao lado do shopping!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Entendido. Uma viatura está indo até lá.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Mas tem que ser rápido! Obrigado!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Marco correu por mais alguns metros e alcançou a estação do Tucuruvi. Puxou o bilhete único e mirou a catraca que separava a área comum da área de embarque. Porém algumas notas de dois reais caíram no chão. Velha mania de pegar o troco da padaria e não se dar ao trabalho de puxar a carteira, abri-la e depositar o dinheiro lá. O troco sempre ficava pra fora da carteira.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- Com todos os diabos! - exclamou enquanto se prostrava para apanhar as notas fugitivas.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;As pessoas ziguezagueavam pelas escadas e Marco descia como um deslizamento de terra. Chegou ao embarque do trem, sentido Jabaquara (só existia esse sentido mesmo, afinal, o Tucuruvi é o outro extremo da linha azul do metro paulistano) e se dirigiu a uma das pontas da plataforma, porém não havia sinal de trem chegando. Agachou-se e pôs-se a respirar fundo. Uma frustração contaminou seu peito e a impaciência se refletia nos movimentos frenéticos de seus pés.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;------------------------------------------------------------------&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Na Santa Cruz, Antonio continuava sua observação. A revolta de sua mente se confundia com seus pensamentos. Explosões de confusão irradiavam toda sua cabeça.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome...&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco...&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Creio em Deus Pai, todo-poderoso...&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Pessoas riam e se encaravam. Animais em sua caça sexual, bancando idiotas para se exibirem, tentando mostrar suas penas de pavão, numa conquista artificial, com aquele fundo que fede a sexo e libertinagem. O carrinho do acarajé estava rodeado de pessoas que faziam seus pedidos, com dinheiro à mão, exigindo mais camarão, menos caruru, um capricho benevolente no vatapá. A Bahia e sua culinária se concentravam naquele metro quadrado a frente da igreja e ninguém dava bola para as imagens de pedra, imponentes à frente da igreja. Os portões de ferro estavam abertos, mas ninguém arriscava entrar. Ninguém seria um exagero. Algumas senhoras rastejavam suas carcaças velhas pela escadaria desgastada rumo ao templo.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;Antonio puxou sua faca e observou um homem, nos seus quarenta anos, passando pela igreja. Dirigiu-se a ele, decidido no intuito da vingança divina. Porém teve que recuar. O homem colocou sua pasta na mão onde tinha algumas sacolas e, olhando para a igreja, fez o sinal da cruz. Antonio sorriu. Porém aquilo não salvaria o dia. Virou seu olhar para a direita e acompanhou os passos de uma adolescente solitária, loira, vestindo uma saia média e all-star branco, tomando um sorvete de casquinha. Ela cuidava para que a massa do sorvete não derretesse e passou reto pela igreja, como se não houvesse nada por ali. Ele correu até a jovem e parou. Sincronizou seus passos ao da moça e esperou pelo seu trajeto. Virou na rua Santa Cruz. Antonio sorrateiro se apressou e puxou a faca. Um corte profundo se projetou nas costas da menina. Ela deu um passo largo para frente e tornou para ver quem a atingira. O cheiro perfumado de seus cabelos se alastrou pelo ar. Gritou. Porém Antonio não se abalou e em questão de milésimos, enfiou a ponta da faca em sua garganta. Jatos de sangue ganhavam o ar sujando a calçada. Sua casquinha caiu e se misturou ao sangue. Pessoas que viram a barbárie gritavam do outro lado da rua. Carros passavam às dezenas e não deixavam ninguém atravessar. Quem estava na mesma calçada de Antonio se deu ao trabalho de fugir do louco. Um homem pegou um cabo de vassoura abandonado num poste junto a uns sacos de lixo e correu em direção de Antonio. Parecia o fim da linha. Girou sobre seus calcanhares e correu novamente até a entrada da igreja. O homem com o cabo da vassoura se deteve ao passar pela garota ferida, que se contorcia no chão. Parou para socorrê-la aos gritos.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt; font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;- ASSASSINO! PEGUEM O ASSASSINO!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;O guerreiro católico com a faca exposta parou enfrente à barraca de acarajé e percebeu que os carros continuavam a transitar intensamente. Algumas pessoas do outro lado da rua gritavam desesperadamente. Antonio viu ali mais uma oportunidade de vingança. Um homem gordo, olhos vazios, calvo e cabisbaixo, caminhava com a classe de um andarilho maldito. Passou pela igreja, porém apenas vasculhou seu bolso direito. Não achou nada. Também não fez o sinal da cruz. Como um raio, a faca de Antonio trespassou a nuca do homem. Ele apenas ergueu suas mãos, não tão alto, e caiu de joelhos, logo em seguida, se esparramou pelo chão, como se estivesse num transe. Expirou.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;----------------------------------------------------------------&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;line-height: 13.5pt"&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;color:#333333;mso-fareast-language: PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;- ESTAÇÃO SANTA CRUZ - a voz feminina saía chiada do alto-falante do trem.&lt;br /&gt;- Cacete de trem maldito, vai logo, desgraça! - Marco rosnava junto a porta do trem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As portas se abriram e o cheiro de fast-food do shopping anexado à estação tomou conta do ambiente. Marco cortou aglomerações de pessoas e escolheu a escada convencional. Pulava de três em três degraus e em segundos chegou às catracas. Avançou pela saída da Avenida Domingos de Morais e ganhou a calçada. Jovens e mais jovens conversavam e gritavam, dando largos sorrisos e pequenos abraços uns nos outros. Marco não pôde observar toda a humanidade que seguia pela região. Ele precisava salvar essa humanidade, ou melhor, um pouco dela. Pessoas corriam por todos os lados. Gritos histéricos de mulheres permeavam a atmosfera do lugar, carros paravam curiosos e motoristas na altura da rua Loefgreen buzinavam sem parar. Marco encontrou o caos e ficou decepcionado, pois nenhuma viatura podia ser vista, nenhuma autoridade, apenas desespero. Correu erguendo sua vista, atrás de Antonio, dando pequenos saltos com o pescoço erguido, a fim de ver alguém que fosse o centro das atenções, o motivo de todo o alvoroço urbano que se instalara. De repente uma sirene se juntou a gritaria, cantadas de pneus e um cheiro de borracha queimada. Marco aliviou sua expressão, baixando as sobrancelhas, tirando a tensão de sua testa. Enfiou-se no meio da massa, procurando por Antonio, empurrando alguns curiosos, trombando em outros desesperados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele está armado! Ele está armado! - alguém gritou se descabelando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pessoas ficavam à espreita ao lado da banca de jornal, outras acendiam seus cigarros e observavam de longe, perto do ponto de ônibus. No meio da balbúrdia, Antonio estava eufórico, babando, girando a faca para o alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Virgem Maria! Rogai por nós pecadores! Despertai católicos! Despertai!&lt;br /&gt;- Antonio, seu desgraçado, o que você fez?! O que você fez?! - Marco juntos as mãos à frente de sua boca, incrédulo diante do homem esfaqueado na nuca.&lt;br /&gt;- Marco! Eu disse que me vingaria!&lt;br /&gt;- Vingaria o quê, seu maluco? - um popular questionou com ódio banhando cada palavra.&lt;br /&gt;- A igreja! A igreja católica apostólica romana!&lt;br /&gt;- Pela cruz de Cristo! Largue essa faca agora! - um cabo da polícia militar ordenou apontando sua arma - Eu vou atirar, largue essa faca!&lt;br /&gt;- Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco... - Antonio começou a rezar novamente, ignorando a intimação do policial.&lt;br /&gt;- Senhor policial! Eu conheço esse lunático. Deixe-me tentar negociar com ele! - Marco se antecipou a qualquer movimento da polícia.&lt;br /&gt;- Qual é o seu nome?&lt;br /&gt;- Marco Antônio Alves Nazário.&lt;br /&gt;- Tente alguma coisa com esse doido. Mas vá logo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carros das emissoras de televisão já disputavam espaço nas calçadas da região. Links ao vivo congestionavam a programação. Repórteres conversavam com cidadãos comuns que davam seus depoimentos, segundo o que haviam visto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Antonio, pelo amor de Deus, pare com isso. Largue essa merda agora, por tudo o que é sagrado!&lt;br /&gt;- Pelo o que é sagrado! Exatamente isso! Pelo o que é sagrado!&lt;br /&gt;- Cala essa boca e largue essa faca! Eles vão te matar se você fizer algum movimento idiota! Desista disso! Você já matou todo mundo que queria! Se entregue!&lt;br /&gt;- Creio em Deus Pai todo-poderoso, criador... - começou a mesma ladainha.&lt;br /&gt;- Tenha paciência! - Marco se virou e mirou o policial - Matem esse porra, pelo amor de Deus, ele é louco!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marco se afastou da multidão e sacou um cigarro. Acendeu-o lentamente e soltou um jato de fumaça. De repente uma dezena de repórteres rodeou-o, espetando todas as partes de seu corpo com seus microfones. Luzes fortes queimavam seu rosto e faziam seus olhos arder. Infinitas perguntas entravam por seu ouvido, deixando-o confuso. Um repórter da RedeTV esbarrou em seu cigarro fazendo-o cair. Outro repórter pisou. Foi a conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Saiam daqui, seus bostas! Saiam! Eu vou acabar com vocês, raça de merda! - e saiu esmurrando todo repórter que encontrava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conseguiu se desvencilhar da horda da imprensa e saiu correndo até a entrada do metrô. A zona sul de São Paulo sofria com o congestionamento causado pela interdição da avenida e as vias ao redor estavam entupidas de carros buzinando, pessoas estressadas. Padarias lotadas com pessoas acompanhando programas sensacionalistas que divulgavam os boletins médicos das vítimas de Antonio, comentários de senhoras com braços cruzados, cachorros mijando em postes. A cidade respirava com dificuldade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pela última vez, largue essa arma! - desta vez o negociador da polícia ordenou.&lt;br /&gt;- Qual é a necessidade de um negociador? Pelo amor de Deus! - um homem de terno comentou com uma mulher horrorizada - Desce a porrada nesse vagabundo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inesperadamente, uma pedra cortou o ar e atingiu a cabeça de Antonio. Ele largou a faca e colocou a mão na cabeça. Sangrava muito. Sentiu uma tontura e olhou para baixo, tateando o nada, procurando pela faca. O povo que estava num misto de horror e ódio se amotinou e correu na direção de Antonio. Um chute atingiu sua cabeça, alguém pisou em suas costelas, uma gota de saliva tocou sua fronte. Alguém se apoderou da faca do assassino e cravou a mesma na perna de Antonio. Ele estava liquidado. Um policial atirou pra cima e começou a gritar. A maioria se abrigou atrás dos carros e gritava. Alguns policiais correram para socorrer Antonio e se depararam com um homem quase sem vida. Seus olhos não abriam mais e a tonalidade de seu rosto era roxa. Ossos e mais osso quebrados. Ele não se movia. Mal respirava. Subitamente um sussurro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? - dizendo isso, Antonio expirou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marco assistiu a cena incrédulo, movendo sua cabeça negativamente, sem parar. Um investigador da polícia tocou no ombro dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você vem com a gente, meu chapa.&lt;br /&gt;- Que seja - respondeu Marco olhando por trás do ombro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram horas desgastantes, exaustivas, mas Marco finalizara seu depoimento. O investigador o agradeceu e pediu que entrasse em contato com ele caso soubesse de algo que pudesse ajudar na investigação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pelo amor de Deus, se eu soubesse diria - disse a si mesmo enquanto saía da delegacia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com sua frieza calejada de anos, acendeu um cigarro e caminhou lentamente ganhando a calçada. Arqueou a sobrancelha e avistou um bar. Hesitou um pouco e passou reto. Jogou o cartão do investigador em uma caçamba de entulhos e cuspiu catarro numa árvore. Ando pela rua Onze de Julho até virar na Domingos de Morais. Poucas pessoas esperavam ônibus num ponto. Chegou ao metrô Santa Cruz. Uma longa jornada até o Tucuruvi, zona norte de São Paulo. Apenas ele estava no vagão quando o trem chegou ao destino final. Enquanto andava pela rua Ausônia, acendeu mais um cigarro e permaneceu ligado. Virou na avenida Mazzei e se arrastou por poucos metros até seu prédio. Sem porteiro com condomínio baixo. Subiu as escadas até o terceiro andar e abria a porta. O cheiro de cigarro já havia sido anexado ao ambiente e as paredes pareciam cada vez piores. O taco no chão estava descolado e vez em outra, Marco tropeçava em um. Foi até à geladeira e não encontrou cerveja alguma. Foi novamente à sala e abriu um pequeno armário onde achou um terço de garrafa de uísque. Serviu um copo arredondado e colocou três pedras grandes de gelo. Pensativo, sentou na velha poltrona empoeirada, vencida pelo tempo, e pegou o telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alice, você viu no que deu toda a brincadeira? - em seguida tomou um gole do drink.&lt;br /&gt;- Eu vi, eu vi. Estou aterrorizada! E se me descobrirem? Eu tô fodida! - sussurrou de forma exaltada a amiga de Marco.&lt;br /&gt;- Cala essa boca, por Deus! O investigador se convenceu da história que os contei. Alguns conhecidos de Antônio, inclusive o padre da paróquia dele alegaram que ele tinha distúrbios mentais. E ninguém vai imaginar que a voz na casa dele e na igreja era sua. Fique tranquila - Marco girava o gelo no copo - executamos um plano perfeito!&lt;br /&gt;- Plano perfeito? Não era para ele morrer! Só ser preso, só isso!&lt;br /&gt;- E eu tenho culpa se a polícia demorou pra chegar? Se tivessem chegado, teriam prendido o Antonio com a faca na mão. Mas é um bando de incompetentes! Recebem uma denúncia, mas preferem ficar comendo coxinha. É foda, viu!&lt;br /&gt;- Tá, tá bom. Pelo menos você está livre dele. Assim, nem de um sanatório ele liga. Ele já era.&lt;br /&gt;- Sim, Alice. Vamos esquecer essa merda toda, ok? - Marco tentava finalizar o assunto enquanto tomava o último gole da bebida.&lt;br /&gt;- Claro. Mas me diga uma coisa: não era mais fácil você se mudar daí? Ou trocar o número do telefone? - Alice enrolava o fio do telefone com seu dedo indicador.&lt;br /&gt;- Você tá louca, Alice? Sabe o trabalho que é encontrar alguém que alugue apartamento sem seguro-fiança? Sem fiador? Quase impossível! Morou num apê legal, numa região legal, perto do metrô. O Antonio não servia pra nada mesmo, foda-se! Ele iria morrer de uma forma ou outra. Que se foda o Antonio!&lt;br /&gt;- Calma, calma! Só estava curiosa! Mas eu entendo seu ponto de vista. Bem, eu passo aí amanhã, pra gente meter um pouco, aliviar a tensão... - sua voz já se esparramava em desejo.&lt;br /&gt;- Vem agora. Te pego no metrô. Na catraca. Aproveito e passo no posto de gasolina pra comprar mais cerveja. Topa?&lt;br /&gt;- Tô lá em quarenta minutos. Beijo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-2628639359136308343?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/2628639359136308343/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=2628639359136308343' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/2628639359136308343'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/2628639359136308343'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2009/10/vinganca-romana.html' title='A Vingança Romana'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-8441533609199750055</id><published>2009-11-04T18:01:00.004-02:00</published><updated>2009-11-04T18:15:16.608-02:00</updated><title type='text'>Enxada, Regadores e Sacos de Esterco</title><content type='html'>do que adianta o canário fugir da gaiola&lt;br /&gt;se ele não sabe voar?&lt;br /&gt;do que adianta almejar as nuvens&lt;br /&gt;se ele não pode enxergar contra o sol?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a vida é engraçada&lt;br /&gt;fazemos o mal, mesmo sabendo o caminho a seguir&lt;br /&gt;mesmo sabendo que a chuva que alaga cidades&lt;br /&gt;também é a chuva justa&lt;br /&gt;que garante as coisas nos seus devidos lugares&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tem gente que ri de Deus&lt;br /&gt;e diz que o ama&lt;br /&gt;tem gente que desafia a natureza&lt;br /&gt;o fluxo natural da vida&lt;br /&gt;tem gente que acha que uma semente não germina&lt;br /&gt;e não teme uma colheita maldita&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tem gente que sabe plantar&lt;br /&gt;mas não quer colher&lt;br /&gt;mas quem é você, humano&lt;br /&gt;pra pensar que pode agir&lt;br /&gt;no crescimento de uma roseira?&lt;br /&gt;pode alguém evitar que nasça com espinhos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;somos todos agricultores&lt;br /&gt;da felicidade ou da solidão&lt;br /&gt;mãos calejadas pela enxada, regadores&lt;br /&gt;e sacos de esterco&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;você pode ignorar, mas isso nunca irá mudar&lt;br /&gt;a vida prega peças&lt;br /&gt;como um palhaço justo e impiedoso&lt;br /&gt;nesse circo previsível&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;você lembra daquele dia quando lhe confrontei?&lt;br /&gt;"você pode mentir pra mim, mas olhe no espelho.&lt;br /&gt;tente mentir pra ele"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;aliás, quando você se olha no espelho&lt;br /&gt;VOCÊ VÊ ALGO?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-8441533609199750055?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/8441533609199750055/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=8441533609199750055' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/8441533609199750055'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/8441533609199750055'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2009/11/enxada-regadores-e-sacos-de-esterco.html' title='Enxada, Regadores e Sacos de Esterco'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-1427818927610182231</id><published>2009-10-28T10:59:00.003-02:00</published><updated>2009-10-28T11:04:57.674-02:00</updated><title type='text'>É Melhor um Temor na Mão que Dois Relógios Contando</title><content type='html'>a vista dos apartamentos muda&lt;br /&gt;a vida não&lt;br /&gt;agora vejo casinhas bonitas rodeadas&lt;br /&gt;por prédios cada vez mais numerosos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a vida é o que vejo&lt;br /&gt;é o que sinto&lt;br /&gt;é o vento que bate no meu rosto&lt;br /&gt;um dia frio, outro dia quente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a vida não é o futuro&lt;br /&gt;você pode pensar nele&lt;br /&gt;pode planejar o futuro&lt;br /&gt;mas não pode vivê-lo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;você pode mudar o passado&lt;br /&gt;a não ser que tenha uma perna amputada&lt;br /&gt;a não ser que tenha matado alguém&lt;br /&gt;você pode modificar as consequências do que não é irreversível&lt;br /&gt;você pode fazer o futuro&lt;br /&gt;hoje você pode&lt;br /&gt;mas não pode viver o futuro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;agora é presente, opa agora já é o futuro&lt;br /&gt;peraê, o segundo que passou já é passsado&lt;br /&gt;opa! o segundo que vem é o futuro!&lt;br /&gt;alguém pode jogar o meu relógio no lixo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;esqueça seu relógio&lt;br /&gt;viva o hoje para hoje&lt;br /&gt;viva o hoje para o futuro&lt;br /&gt;mude seu passado&lt;br /&gt;tema o seu futuro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que horas são?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-1427818927610182231?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/1427818927610182231/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=1427818927610182231' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/1427818927610182231'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/1427818927610182231'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2009/10/e-melhor-um-temor-na-mao-que-dois.html' title='É Melhor um Temor na Mão que Dois Relógios Contando'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-4408864765427787623</id><published>2009-10-22T10:39:00.005-02:00</published><updated>2009-10-22T10:57:37.210-02:00</updated><title type='text'>Uma Ótima Mulher, um Bom Cachorro e um Time de Futebol</title><content type='html'>parece que tudo me foi tirado&lt;div&gt;a música, o dinheiro e o sorriso&lt;/div&gt;&lt;div&gt;não não, não sou infeliz&lt;/div&gt;&lt;div&gt;apenas não tenho alguns acessórios&lt;/div&gt;&lt;div&gt;tenho uma ótima mulher&lt;/div&gt;&lt;div&gt;um bom cachorro e um time de futebol&lt;/div&gt;&lt;div&gt;mas tenho dores de cabeça, sinusite&lt;br /&gt;e a leve impressão de que o tempo passa&lt;br /&gt;agressivo, sorrateiro, traidor&lt;br /&gt;e eu não tenho dinheiro nem pra comer um pastel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;as pessoas passam, carros, cachorros&lt;br /&gt;tartarugas nos esgotos&lt;br /&gt;peças de carnes em caminhões&lt;br /&gt;folhas secas aqui na janela&lt;br /&gt;do décimo quinto andar&lt;br /&gt;como voam alto!&lt;br /&gt;eu as invejo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;queria me livrar, me secar&lt;br /&gt;planar e sentir o vento me guiar&lt;br /&gt;soa como música, como poema barato&lt;br /&gt;de mente baratas que não valem um puto sequer&lt;br /&gt;mas é a verdade, simples e romântica&lt;br /&gt;miserável e ensurdecedora&lt;br /&gt;que me atordoa de manhã durante o café&lt;br /&gt;enquanto o pão esquenta na frigideira&lt;br /&gt;enquanto o apresentador dá risadas no rádio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu sou uma cópia barata dos meus medos de infância&lt;br /&gt;barata porém fiel ao original&lt;br /&gt;eu sou o vômito dos meus nervos&lt;br /&gt;eu sou o suor do meu cagaço&lt;br /&gt;EU SOU, me ajude!&lt;br /&gt;pareço abandonado por EU SOU&lt;br /&gt;parece que o ouvi dizer: TU ÉS&lt;br /&gt;um fracasso&lt;br /&gt;um lixo&lt;br /&gt;um medroso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;enquanto eu não for (alguma coisa)&lt;br /&gt;EU SOU será nada&lt;br /&gt;porque ninguém pode pedir e não ir atrás&lt;br /&gt;ninguém pode confiar em muletas e se conformar com elas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu quero andar, Deus, como eu quero!&lt;br /&gt;mas parece que a cada passo, uma pedra me derruba&lt;br /&gt;uma fraqueza me abala,&lt;br /&gt;um terror noturno me aflige&lt;br /&gt;uma seta que voa de dia me atinge&lt;br /&gt;uma peste que anda na escuridão me amedronta&lt;br /&gt;e temo a mortandade que assola ao meio-dia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;quando pequeno, ouvia vozes lúgubres ditarem salmos e mais salmos&lt;br /&gt;eu gostava do cento e trinta e nove&lt;br /&gt;me sentia em paz ao saber que Ele me cercava por todos os lados&lt;br /&gt;me sentia calmo ao saber que não poderia me esconder dEle&lt;br /&gt;por que faria isso?&lt;br /&gt;mas hoje tento me esconder por vergonha&lt;br /&gt;e me sinto perturbado ao saber que Ele pode ver tudo&lt;br /&gt;inclusive meu frágil coração&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;chora, poeta, chora&lt;br /&gt;chora enquanto existem lágrimas&lt;br /&gt;quando elas secarem e você olhar para trás pela milésima vez&lt;br /&gt;ENTÃO ELE SE LEMBRARÁ DE LHE TRANFORMAR&lt;br /&gt;EM UMA ESTÁTUA DE SAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;escutem o que eu lhes digo: olhem para frente, PARA FRENTE!&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;e agradeçam por ter uma ótima mulher&lt;/div&gt;&lt;div&gt;um bom cachorro&lt;br /&gt;e um time de futebol&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu te amo por tudo que fazes por mim&lt;br /&gt;NÃO, ESSE NÃO É O SEU POEMA&lt;br /&gt;mas você é a palavra que sai da minha boca&lt;br /&gt;é o açucar que corre escasso pelas minhas veias&lt;br /&gt;que me faz olhar pra frente&lt;br /&gt;e não me deixa morrer inerte&lt;br /&gt;esculpido nos meus temores&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;você é, e pra sempre será&lt;br /&gt;o meu amor.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-4408864765427787623?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/4408864765427787623/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=4408864765427787623' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/4408864765427787623'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/4408864765427787623'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2009/10/uma-otima-mulher-um-bom-cachorro-e-um.html' title='Uma Ótima Mulher, um Bom Cachorro e um Time de Futebol'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-5342951648499929315</id><published>2009-06-15T16:29:00.002-03:00</published><updated>2009-06-15T16:59:32.392-03:00</updated><title type='text'>Seja Bem-Vindo, Eu</title><content type='html'>nem a minha mãe acredita&lt;br /&gt;nem ninguém acredita na mudança&lt;br /&gt;quando tudo o que fazemos&lt;br /&gt;é mudar pra melhor&lt;div&gt;o bem não convence, o mal é aceitável&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;quando as coisas são tão perceptíveis&lt;div&gt;tão tangíveis&lt;br /&gt;existe a maldade e sua catarata&lt;br /&gt;escurecendo a visão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas sei quem enxerga&lt;/div&gt;&lt;div&gt;sei quem dá de costas &lt;/div&gt;&lt;div&gt;para o pó da sujeira do passado&lt;/div&gt;&lt;div&gt;eu vivo por isso&lt;br /&gt;eu vivo pra ELA&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;eu mudei de verdade&lt;br /&gt;não existe ânimo, nem motivação&lt;br /&gt;para errar novamente&lt;br /&gt;eu sou um novo homem&lt;br /&gt;com novos sonhos, novas aspirações&lt;br /&gt;um novo amor&lt;/div&gt;&lt;div&gt;e pra mim já basta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o brilho nos meus olhos&lt;br /&gt;a largura do meu sorriso&lt;/div&gt;&lt;div&gt;a força do meu abraço&lt;br /&gt;e o tamanho dos meus passos&lt;br /&gt;tudo evidencia o retorno&lt;br /&gt;a volta do antigo homem que fui&lt;br /&gt;sempre fez falta sê-lo&lt;br /&gt;agora que o sou, também sou feliz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sou feliz por amar novamente&lt;br /&gt;com intensidade&lt;br /&gt;e com paixão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;seja bem-vindo, eu. você fez muita falta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-5342951648499929315?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/5342951648499929315/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=5342951648499929315' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/5342951648499929315'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/5342951648499929315'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2009/06/seja-bem-vindo-eu.html' title='Seja Bem-Vindo, Eu'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-1593055850442701407</id><published>2009-05-13T12:53:00.003-03:00</published><updated>2009-05-13T13:38:27.731-03:00</updated><title type='text'>XXX Teaser XXX</title><content type='html'>&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;(...)&lt;br /&gt;- Tudo bem, querido. Aos diabos! – Claudia deu sorriso e puxou um cigarro.&lt;br /&gt;- E você está morando onde, coração?&lt;br /&gt;- Estou na casa de uma amiga travesti, lá na Santa Cecília.&lt;br /&gt;- Em nome de Deus! Hahaha!&lt;br /&gt;- O que foi? – perguntou contrariada, soltando fumaça pelo nariz, enqaunto guardava o maço na bolsa.&lt;br /&gt;- Calma, meu bem. Acho os travestis engraçados, só isso. Fico imaginando como deve ser morar com um.&lt;br /&gt;- É normal, se você quer saber. São gente como qualquer outra. O foda é o preconceito. Mas são gente finíssima.&lt;br /&gt;- Não duvido. Só acho curioso – acendi um cigarro também – Pois bem, arrume suas malas e vamos morar comigo. O que acha?&lt;br /&gt;- Tem certeza? Assim tão rápido?&lt;br /&gt;- Olha, tudo pra te ver todos os dias! Tudo, extremamente tudo! – ergui minha voz assim como ergui meu cigarro.&lt;br /&gt;- Que assim seja! – ela também ergueu seu cigarro.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;Não havia achado meu whisky nem o resto das compras. Que se dane.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;Rumamos para a Santa Cecília num ônibus lotado. Ficamos em pé durante todo o trajeto e me pus atrás de Claudia, encoxando sua bundinha redonda. Eu não me agüentava de alegria. Às vezes me beliscava, me ria, me tudo. Mordia sua nuca sem o mínimo pudor e ela dava um gemidinho sem se preocupar com o olhar dos outros passageiros. Eu estava a ponto de uma erupção de tesão, erupção de lava aquecida com paixão, amor e desejo. Eu era um vulcão ambulante, pronto para explodir com tudo a minha volta. Descemos há cinqüenta metros do prédio onde morava o travesti. Ela perguntou se eu queria subir e eu educadamente me recusei acendendo um cigarro. Fiquei observando o trânsito, as pessoas estranhas que passavam e o tempo passava. E ela não descia. Comecei a imaginar milhões de coisas. Talvez o travesti enfurecido pela saída brusca da amiga tenha feito Claudia como refém, ou dado facadas em seu lindo colo, ou entorpecido ela com éter ou ainda mais: trancado minha mulher num banheiro fedendo à vaselina e cheio de rastros de drogas! Fiz cara de nojo ao ver um travesti passar e cuspi no chão. Comecei a andar de um lado ao outro, acendi outro cigarro e pus as mãos no bolso. Cocei a cabeça e puxei um pouco do meu cabelo. “Cala a boca, cérebro idiota dos infernos”, eu murmurava. Avistei um boteco caindo aos pedaços e sai correndo até lá.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;- Um conhaque com limão!&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;O atendente me olhou com cara de mosca cagada e pegou a garrafa de Dreher. Cortou o limão lentamente e o espremeu no copo. Um gota de limão voou no olho do infeliz.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;- Caralho de limão! – gritou o atendente, abrindo a torneira, buscando água para aliviar o incômodo ácido.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;Olhei impaciente para o lado de fora e a Claudia ainda não havia descido. “Caralho, cérebro idiota, talvez ela tenha muitas roupas, maquiagens, chapéus, vibradores, discos entre outras coisas pra arrumar”, pensei enquanto voltava ao balcão. O atendente ainda coçava o olho e o meu copo continuava com umas gotas de limão e mais nada. Peguei a garrafa e servi uma dose. Peguei a outra banda do limão e a espremi. O drink estava pronto. Quando levantei o copo, o atendente puxou um pano e o ergueu.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;- Ei! Ei! O que é isso? Eu sirvo as doses aqui, camarada! – perdigotos voavam a esmo, como uma chuva de granizo em meu rosto. Me irritei.&lt;br /&gt;- Eu peço uma dose, e você demora! O que custa eu servir aqui a minha própria dose?&lt;br /&gt;- Eu sirvo as doses aqui!&lt;br /&gt;- E daí? Não estou falando nada contrário a isso! Estou apenas dizendo que preciso da dose rapidamente e tive que me servir! Tirei um pedaço de você? Você serve a dose de uma forma especial?&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;O atendente parou por alguns segundos e ficou me encarando. De repente, jogou o pano em minha cara. Atitude infantil. Peguei a dose, dei uma gole rápido e joguei o resto na cara dele.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;- Desgraçado! Desgraçado! – pulava e gritava como um macaco com pimenta no rabo – Meu olho, seu miserável, filho duma puta!&lt;br /&gt;- Vai tomar no seu cu! – revidei, aproveitando sua cegueira momentânea e dando o fora daquela pocilga.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;Cheguei perto do prédio do travesti e fiquei parado na esquina, observando de longe o movimento dentro do boteco. Nada aconteceu. Nem sinal do mocorongo. Acendi outro cigarro e nada da minha mulher chegar. “Puta que me pariu!”, rosnei enquanto andava em círculos. Senti um toque no meu ombro direito. Não podia ser a mão da Claudia. Era pesada e passava uma sensação de morte iminente. Me virei.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;- Campeão, ta afim de uma diversão essa noite? Boceta na cara a noite toda! Vinte conto pra entrar, quatro latinhas de Brahma pra beber! É só entrar ali – apontou para um puteiro sujo chamado Gengis Khan American Bar.&lt;br /&gt;- Gengis Khan? Hahaha! Puta merda, só me faltava isso mesmo! – exclamei em meio a risadas.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;O gorila que me abordou era um negro imenso, mãos gigantes, como meu ombro já havia sentido, e uma cicatriz na fronte, devia ter sido alguma facada de raspão. Ele me olhou confuso, coçou o queixo e franziu a testa.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;- O que tem o nome do lugar, campeão? – me questionou ainda com a mão no queixo.&lt;br /&gt;- Nada, cara, nada. Só achei engraçado.&lt;br /&gt;- Bem, se quiser, entra lá. Diversão garantida, falou?&lt;br /&gt;- Falou, mas eu passo. Já tenho mulher. Agradeço de verdade.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;Ele deu de ombros e voltou para a entrada do puteiro. Respirei fundo e me deparei com o que havia dito segundo atrás: “já tenho mulher”. Meu Deus, há poucas horas eu não me imaginava mais feliz. Me via em alguns meses como um mendigo, igual os que queria chutar e botar fogo. E agora tenho minha mulher. A vida era cheia de surpresas e eu, um moleque me esbaldando com o presente numa manhã de natal.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;Tive uma idéia. Corri para a entrada do prédio e nada. Apertei todos os botões de interfone, de todos os apartamentos. Em alguns segundos, várias vozes começaram a responder.&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;- Sou eu! – gritei com a mão na boca, abafando minha voz.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;Algumas pessoas perguntavam “eu quem?”, porém alguém que devia estar a esperar por um cara de voz embargada, abriu a porta do prédio sem a mínima cerimônia. Dei uma risada e pensei no que fiz: “sou um gênio!”. Fui de porta em porta tocando as campainhas. Peguei um papelzinho que estava no bolso de minha camisa e fingi ser uma referência de endereço.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;- Pois não? – era uma mulher descabelada, de roupão de banho, que havia atendido a porta.&lt;br /&gt;- É aqui que mora a Claudia? – perguntei olhando para o papelzinho.&lt;br /&gt;- Claudia? Não, você tocou no apartamento errado – respondeu me olhando com desconfiança. Ela só não desconfiou que um de seus seios saltou do roupão. &lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;Tentei olhar nos olhos dela, mas não resisti e mirei minha vista nos seus mamilos. Ela percebeu a investida dos meus olhos e percebeu sua nudez. Bateu a porta na minha cara. Pude ouvir ela praguejando contra tudo e todos lá dentro. Dei uma risada e fui para a porta ao lado.  &lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;A abordagem era sempre a mesma, e nada da Claudia. Eu desanimava toda vez que uma mulher ou homem atendia. Eu queria que um travesti atendesse, para dar um murro na cara dele, ameaçá-lo de morte caso chegasse perto de minha mulher de novo. Resgatar a pobre Claudia do cárcere do banheiro e voltar triunfante para o meu apartamento, trazendo minha donzela em segurança. Já estava no quarto andar e nada de travesti, nada de Claudia, nem cárcere privado e socos na cara. O que me tranqüilizava é que o prédio não tinha elevador, o que faria eu ver a Claudia descendo pelas escadas. No quinto andar, no segundo apartamento, toquei a campainha impaciente.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;- Já vai! – gritou uma voz de mulher.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;A porta se abriu e pra minha frustração, outra mulher. Como mandava o script, fiz a pergunta sobre a Claudia. Quando me preparava para dar as costas me desculpando pelo incômodo, a mulher pediu para eu entrar. Interrompi meu movimento de saída e olhei para dentro do apartamento. Claudia estava com uma toalha enrolada na cabeça, e outra enrolada em seu corpo.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;- Querido! Me desculpe a demora! Fui tomar um banho enquanto a Gisele arrumava minhas coisas. Ela estava dobrando minhas roupas. Pensei que não ia demorar tanto, e acabei atrasando. Entre!&lt;br /&gt;- Tudo bem, coração. Licença – limpei meus pés no capacho de entrada e adentrei o apartamento.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;Cumprimentei Gisele com um beijo e sentei no sofá. “Que bom, o traveco não está aqui”, pensei. O mulherão entrou na cozinha e ouvi barulho de copos. &lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;- O quê você bebe, Evandro? – perguntou Gisele, aos gritos.&lt;br /&gt;- O que temos aí? – e me direcionei para a cozinha.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;Gisele era uma mulher atraente, com seios fartos, pernas fortes, e um rabo redondo, perfeito. “Que a Claudia me perdoe, mas que mulher gostosa!”, pensei enquanto olhava para as pernas da moça. Ela tinha vodka no congelador e umas latas de cerveja.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;- As cervejas ainda estão gelando. A vodka está geladinha! Gosta de caipiroska? – me perguntou com voz suave e sedutora.&lt;br /&gt;- Eu amo caipiroska. Você sabe fazer? Qualquer coisa, eu faço. Não se incomode!&lt;br /&gt;- Não, não. Você está no meu apartamento e vai beber a minha caipiroska.&lt;br /&gt;- Tudo bem, tudo bem.&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;Voltei à sala e perguntei à Gisele se podia fumar no apartamento. Ela consentiu e eu saquei um cigarro. Acendi e relaxei no sofá. O amor da minha vida se arrumando lá no quarto e uma gostosa na cozinha fazendo um drink pra mim. A vida não podia ser melhor. Minutos depois, o cigarro chegava na reta final e a gostosona chegava com o drink.&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;- Caramba, você caprichou! Com canudinho e tudo mais! – me levantei olhando com afinco para os seios da moça. E por olhar somente para os seios, errei na hora de pegar o copo, tocando em sua mão.&lt;br /&gt;- Opa! Hahahaha! Aqui está o copo, xuxu!&lt;br /&gt;- Me desculpe, me desculpe. Eu sou um distraído! – dei uma risada tímida e uma bicada na bebida – Deliciosa! Docinha? Como você faz isso?&lt;br /&gt;- É só tirar uma parte branquinha do limão, aqui é o que deixa amargo. É rapidinho e a caipiroska fica doce.&lt;br /&gt;- Vou anotar esse truque!&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;A Claudia demorava para se arrumar. Eu ouvia o barulho do secador no quarto trancado e me conformava. Gisele foi ao quarto onde estava Claudia e trocou algumas palavras com ela. A moça era uma ótima anfitriã. Além de uma ótima conversa, ela cruzava e descruzava as pernas sem parar e isso foi me atiçando. Cruzei minhas pernas quando senti a ereção chegar. Fiquei sem graça e mantive as pernas cruzadas. Seus seios imploravam por uma bata, algo mais espaçoso. Naquela blusinha não respiravam. Me impressionei com as pernas fortes e torneadas da moça e comecei a sentir um calor danado. Tentei apreciar o apartamento, a decoração de bom-gosto, a televisão maravilhosa de LCD. Uma bandeirinha do São Paulo Futebol Clube. Nada tirava minha atenção dela. Eu queria levantar, mas meu pau estava duro como uma pedreira inteira, prestes a desmoronar. Ela continuava firme à minha frente. Quando ela olhos para um lado, derrubei um pouco de caipirinha no chão. Ela teria que ir para a cozinha buscar um pano.&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;- O pano fica na pia da área de serviço. Ele está torcido – me instruiu apontando para a cozinha.&lt;br /&gt;- Pega lá, meu bem. Não sei nem onde fica a área – tentei negociar.&lt;br /&gt;- Deixa de ser bobo, essa apartamento é um ovo. Você sabe onde fica a área de serviço.&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;Bufei. Blasfemei em pensamento. Ela começou a dar risadas. A desgraçada já havia percebido. Dei um profundo suspiro e pensei em minha avó, gorda, cheia de varizes, com um biquíni extremamente pequeno, dançando algum hit da Bahia. Não funcionou como de costume. Talvez eu não tenha me concentrado direito na cena bizarra. Pensei em todas as ereções que ocorriam naquele momento, em todo o mundo. Do quarto de motel mais vagabundo ao palácio mais suntuoso. A minha ereção era a mais vulgar, a mais desnecessária, a mais estúpida. Levantei de lado e virei rapidamente as costas para ela. Fiquei de frente com a parede e com o sofá. Enfim um quadro pra me salvar.&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;- Belo quadro, Gisele – o quadro era horrível. Parecia que o pintor havia dado o cu e logo em seguida pintado aquele lixo.&lt;/p&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;- Meu tio. Um grande artista. Me deu quando eu era moleque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Moleque?!”, pensei erguendo as sobrancelhas. Lembrei que tinha um travesti naquela história. Ele não estava ausente! Gisele era na verdade um Antônio, ou José ou Valdir! E eu impressionado com todo aquele corpo anormal, e nem percebi que a amiga da Claudia era um travesti asqueroso. Malditos transexuais! Senti vergonha de mim mesmo, e quando percebi, meu pau estava novamente em stand-by. Virei com todo orgulho para Gisele.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;- Vou até lá pegar o pano e limpar essa porcalhada que fiz! – anunciei alegre e satisfeito com minha condição sexual restabelecida.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;Caminhei até a cozinha, meio enojado, meio aliviado e alcancei o pano de chão. Quando virei as costas, Gisele estava à minha frente. Com um semblante tendencioso, olhou diretamente nos meus olhos e piscou um olho. Eu girei o pano transformando-o em um chicote improvisado, como fazem os atletas em vestiários, e me coloquei em posição de ataque. Se ela desse um passo em falso, eu a chicotearia com o pano enrolado. Mirei aquela reserva de silicone que ficava em seu busto e estava decidido a deformá-los à base de chicotadas.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;- Vai com calma, querido... Você sentiu tesão, não? Por que não me toca? Vai ver o que é uma mulher durinha!&lt;br /&gt;- Pela cruz de Cristo! Você não é mulher, porra! Se tentar algo, vai levar uma chicotada!&lt;br /&gt;- Por que o medo? Só porque eu tenho isso? – Gisele abriu a braguilha da calça e libertou uma enguia gigantesca. Pelos meus cálculos, tinha um metro de comprimento. Mole.&lt;br /&gt;- Guarda essa merda, seu veado! Guarda essa merda!&lt;br /&gt;- Ou então? Vai chupar essa merda? – enquanto falava, manipulava aquele pedaço de cipó gigante.&lt;br /&gt;- Cara, fica na sua com essa merda. É sério, eu to de boa aqui na minha. Essa cozinha é muito pequena pra nós dois! É o último aviso, ou você recua ou pico esse pano na sua rola. Você não vai ter ereção por anos!&lt;br /&gt;- Vem aqui, vem! – e partiu pra cima de mim com aquela lança medieval em riste.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;Se tocasse em mim, me furaria a barriga. Lancei o pano com violência, que ricocheteou na virilha dela. Ela deu um grito e virou seu membro pra cima de mim. Eu me esquivei batendo a cabeça num dos armários da cozinha. A manjuba dela tocou no meu braço. Eu gritei e ela gritava também. Peguei uma vassoura que estava parada num vão entre a parede e a geladeira e a ameacei. Ela recuou um pouco e segurou o seu pau. Eu gritei pela Claudia, que prontamente saiu do quarto, correndo e rindo. Eu já estava no corredor do prédio.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;- Do quê você está rindo, por Deus?&lt;br /&gt;- Hahaha! Nada, querido. Nada.&lt;br /&gt;- Tem caroço nesse angu! Claudia, me explique essa porra!&lt;br /&gt;- Calma, Vandinho. Era só uma brincadeira! Queria ver qual era sua reação se ela desse em cima de você! Quando ela foi ao quarto enquanto eu secava meu cabelo, propus a brincadeira. Queria ver qual seria a sua reação caso você levasse uma cantada dela... – Claudia explicava enquanto se aproximava lentamente.&lt;br /&gt;- Cantada, coração? Cantada?! Ela colocou aquela jibóia pra fora! Isso não é cantada, pelo amor de Deus! Foi quase um estupro!&lt;br /&gt;- Hahahaha! – Gisele gargalhava com o pau na mão.&lt;br /&gt;- Pela alma de São José, do que você está rindo, seu veado? E que merda é essa? Guarda isso aí! Nem sei como cabe numa calça tão apertada!&lt;br /&gt;- Calma, Vandinho. Já terminei de me arrumar. Leve essas malas pra baixo, por favor – ela me pedia, linda como nunca esteve antes.&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;Peguei as malas sem lembrar que não havia elevador no prédio. Estava encantado com a sua beleza e ao mesmo intrigado com o traveco que permanecia balançando aquela terceira perna, sem nenhum pudor ou respeito. Filho da puta. Uma maleta estava debaixo do meu braço direito e as outras duas, em cada mão. Fui com uma certa dificuldade me equilibrando nos degraus da escada.  &lt;br /&gt;(...)&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-1593055850442701407?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/1593055850442701407/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=1593055850442701407' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/1593055850442701407'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/1593055850442701407'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2009/05/xxx-teaser-xxx.html' title='XXX Teaser XXX'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-7132462363245813366</id><published>2009-04-01T14:29:00.002-03:00</published><updated>2009-04-01T14:58:08.742-03:00</updated><title type='text'>Presentes</title><content type='html'>o presente é um presente de grego&lt;br /&gt;um cavalo de tróia&lt;br /&gt;uma armadilha barata&lt;br /&gt;e não dou confiança pra ela&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tudo que eu tinha que fazer&lt;br /&gt;é pensar nele&lt;br /&gt;pois é ele que está presente&lt;br /&gt;mas prefiro olhar para o futuro&lt;br /&gt;igual minha teimosia em olhar&lt;br /&gt;para aquela que não mer quer&lt;br /&gt;do jeito que quero que me queira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;aí olho para trás e remexo velhos baús&lt;br /&gt;rasgo velhas feridas&lt;br /&gt;desejo a velha máquina&lt;br /&gt;que me faria corrigir velhos erros &lt;br /&gt;fantasio com traças e me atenho à ferrugem&lt;br /&gt;me esbaldando com tesouro que some&lt;br /&gt;assim como somem pessoas&lt;br /&gt;assim como some o sentido das coisas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu queria abrir o presente e me satisfazer&lt;br /&gt;mas sou insensato&lt;br /&gt;não abro o presente, guardo-o&lt;br /&gt;como um monumento ao meu desespero&lt;br /&gt;como uma homenagem morta ao medo&lt;br /&gt;medo de que os sonhos morram&lt;br /&gt;e os planos esfarelem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;se Deus alimenta os pássaros e veste os lírios&lt;br /&gt;só peço a Ele que me faça esquecer &lt;br /&gt;o ontem e o amanhã&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;engraçado, há poucos anos eu amava presentes&lt;br /&gt;e amanhã, será que voltarei?&lt;br /&gt;(tá vendo? já tô olhando pro futuro de novo)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-7132462363245813366?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/7132462363245813366/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=7132462363245813366' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/7132462363245813366'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/7132462363245813366'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2009/04/presentes.html' title='Presentes'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-1375961845329661957</id><published>2009-03-31T15:44:00.006-03:00</published><updated>2009-03-31T19:19:57.146-03:00</updated><title type='text'>Que Saudades Disso!</title><content type='html'>&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: arial;"&gt;Quase deixei o bule cair na pia. Bem, ao menos seria na pia. Mas o café estava bom, seria um desperdício deixar ir pelo ralo um êxito raro como aquele. A caneca estava cheia assim como a vista do meu apartamento: cheia de perdição e luzes piscando. Fiz cara de pirraça mesclada com descaso e alcancei meus cigarros. O computador já estava ligado, e na tela alguma notícia idiota que encontrei em algum portal idiota. Sempre tenho momentos onde esvazio a cabeça e fico procurando por notícias excêntricas, sei lá, vai entender. Eu não me entendo mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meio aos pigarros, acendi um cigarro e voltei a minha caixa de e-mails. Em menos de dez minutos chegaram quatro e-mails novos. Não, não quer dizer que eu seja um cara procurado. Eram apenas anúncios de sites de contrabando, de leilões via internet e essas merdas virtuais. Até que abri o quarto e-mail. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: arial;"&gt;achei que aquela coisa do verve earth fosse mais uma das inutilidades de internet&lt;br /&gt;mas ainda assim, resolvi fuçar e me dei com teu blog&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;gostei muito! &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: arial;"&gt;Diabos, me agitei na cadeira, matei o café ainda quente e repousei o cigarro no cinzeiro. Ergui minha postura e respondi a mensagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: arial;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;babe, vou pegar um tempo pra me esbaldar com tanta coisa boa no seu blog e flickr!! &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;e que bom que gostou! &lt;br /&gt;passe mais vezes!&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;beijo&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Queria ser mais esnobe, mas a verdade é que não podemos deixar escapar um elogio. Ainda mais de um ser tão misterioso que assinava seus e-mails com um simples 'M'. O mistério evaporou quando olhei o endereço dela. O nome era Marisa. Perfeito. Voltei às minhas notícias bizarras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOIVA BRIGA E PASSA NÚPCIAS NA CADEIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diabos, o quê eu tinha a ver com aquilo? Mesmo assim cliquei no link. Dei risadas, muitas risadas. Maldito artigo curto. De repente uma notificação do meu messenger: &lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;Marisa Lemos quer te adicionar&lt;/span&gt;. Me ajeitei novamente na cadeira e logo aceitei o convite. Aguardei ela aparecer on-line entre meus contatos. Aguardei. Dois minutos e nada. Voltei para as notícias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CARTÃO POSTAL É ENTREGUE COM 47 ANOS DE ATRASO NOS EUA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fico pensando se fosse um cartão postal do World Trade Center enviado em 2000 por uma garota caipira  aos seus pais no Alabama. Em 2047 eles iriam se perguntar: que porra de torres gêmeas são essas? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrotei e arrotei novamente. A Marisa ainda não havia aparecido e eu fui correndo pra cozinha encher minha caneca novamente. Voltei e pigarreei. Ela estava on-line. Estalei os dedos da mão e comecei a conversa. Uma garota inteligente de vinte anos. Linda, designer de mão cheia e especialista em literatura russa. Eu sou um cara que conversa sobre tudo, e quando começam a se aprofundar num assunto, fujo pra outro assunto similar. Assim aconteceu toda vez que ela enveredava para conversas sobre Dostoiévski, Turguêniev e todos os 'kis' e 'evs' da gélida Rússia. Puxei a sardinha pro meu lado e falei de um 'ki' que conheço muito bem: Bukowski. Ela torceu seu nariz virtual e eu dei o dedo do meio para a tela. Tudo bem, ela era linda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estava afim de tomar um café, babe - digitou a doce Marisa.&lt;br /&gt;- Onde? - digitei olhando no relógio do Windows.&lt;br /&gt;- Num lugar que seja neutro, meio termo.&lt;br /&gt;- Onde você mora, coração? - constatei que já eram onze da noite.&lt;br /&gt;- Vila Madalena. E você?&lt;br /&gt;- Vila Mariana.&lt;br /&gt;- Que tal Paulista?&lt;br /&gt;- Pra mim tá bom. Daqui uma hora te encontro onde?&lt;br /&gt;- Perto do Milo tem um ponto de ônibus, um pouco antes de virar na Angélica. Me espere ali, ou eu te espero ali, sei lá.&lt;br /&gt;- Pra mim tá bom. Qualquer coisa te ligo - respondi dando uma indireta. Ela cairia na minha armadilha?&lt;br /&gt;- Ah sim, anote meu telefone - respondeu Marisa, caindo na minha armadilha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mandei o meu pra ela, só pra compensar o favor e fui para o banho. Liguei o Tim Maia e o seu incrível monumento recional ao soul. Aquele baixo profundo de 'Imunização Racional' me fazia balançar a cabeça enquanto escolhia alguma calça decente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;Uh, uh, uh, que beleza! - &lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: normal;"&gt;cantavam as backing vocals do velho Tim.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: normal;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Em quinze minutos eu já estava dentro do elevador. Peguei o ônibus para a Pompéia e segui o caminho todo pensando no que ía dar. Tenho a estranha mania de pensar no pior, esperar pelo pior, assim não me decepciono. Comecei a prever o fracasso. Ela não gostaria de mim, eu provavelmente falaria um monte de merdas e ela iria me dispensar mais cedo. Tava bom assim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;Uh, uh, uh, que beleza..&lt;/span&gt;. - agora eu que cantava baixinho enquanto o ônibus cruzava a Paulista em alta velocidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei no local combinado. Fazia um frio de assustar. Coloquei minhas mãos nos bolsos da jaqueta de couro e andei a procurá-la. Passei por uma garota empacotada em seu sobretudo. Nem olhei para ela e segui o caminho. Quando estava na frente do Milo procurando por ela na fila imensa que se formou à frente da casa de rock, recebo uma mensagem no celular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;"Era você o cara barbudo de jaqueta de couro que passou aqui nesse instante?"&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Dei meia volta e apertei meus passos. Diabos, era a garota empacotada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei ao ponto de ônibus e lá estava ela sentada, olhando para a frente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Marisa? - perguntei enquanto guardava meu celular no bolso.&lt;br /&gt;- Sim! Você é o Fernando? - respondeu ela com dentes perfeitamente alinhados.&lt;br /&gt;- Sou eu! Caramba, nem desconfiava que fosse você! Desculpa, coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei-a pelas mãos e dei um beijo em seu rosto. Rosto branco e gelado. Ela usava luvas nas mãos. Achei legal, embora não tenha sentido nenhum calor do corpo dela, nem no rosto e nem nas mãos. Fomos beber na Bela Cintra e enquanto caminhávamos, pensava que poderíamos ter nos encontrado no metrô Consolação. Seria mais fácil, mais claro. Resumimos nossa conversa à noite gelada e a algumas personagens que cruzavam nosso caminho, como o mendigo que me pediu dinheiro (eu sou o grande para-raios de mendigos). Paramos no Exquisito! e ao entrar, olhei para a Funhouse no outro lado da rua e lembrei das minhas putarias. Balancei a cabeça e entrei no lugar. Povo muito moderninho pro meu gosto, igual na Funhouse. Fiz minha cara de superioridade, sorri para o atendente que retribuiu o sorriso. Sentamos numa mesa junto à parede e pegamos o menu. Eu estava um tanto incomodado e olhava para todos os lados, toda hora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu amo cachaças! - disse Marisa com risada infantil.&lt;br /&gt;- Eu também amo cachaça!&lt;br /&gt;- Nãaaao, babe! Eu digo aquelas artesanais!&lt;br /&gt;- Ah sim... eu gosto muito também, em nome de Deus! - disse em meio à risadas.&lt;br /&gt;- Ai não me fale em Deus, eu não acredito nele - desconversou com cara de bacalhau (coisa que nunca vi na vida).&lt;br /&gt;- Desculpe cortar seu tesão, babe.&lt;br /&gt;- Hummm não cortou não...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem a mínima intenção, descobri que ela queria algo mais que cachaça. E as cachaças chegavam, uma atrás da outra, sempre de um estado diferente. Uma era capixaba, que foi a melhor, diga-se de passagem. Outras três de Minas e claro, apareciam de São Paulo e Goiás. Bebíamos num gole só, e comecei a ficar alegre. Enquanto coçava minha cabeça, olhava para ela, tão doce e tão bêbada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fê, vamos sair daqui, estou trêbada, hahahaha!&lt;br /&gt;- Claro, coração, deixa eu pedir a conta... - respondi sentindo dores no bolso.&lt;br /&gt;- Eu pago tudo, babe, deixa comigo!&lt;br /&gt;- Que tal racharmos? É mais justo - disse eu apenas para parecer um cavalheiro.&lt;br /&gt;- Tá certo, babe!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pagamos a conta e ela levantou de uma vez. Fiz cara de piedade quando ela segurou na cadeira da mesa ao lado para se apoiar. Coloquei o braço dela em volta de meu ombro e fui carregando-a, meio arqueado, graças a baixa estatura da doce e ébria garota. Decidimos rumar para algum bar ali na Pamplona, onde depois dela se recuperar, poderíamos entrar na DJ Club e curtir o final da noite. No caminho, ela dizia ser lésbica e que queria fazer sexo com um homem, só que o penetrando com aquelas cintas que têm um pinto de borracha acoplado. Arqueei minha sobrancelha direita e me afastei um pouco. Ela deu uma longa gargalhada e apertou minha bunda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Diabos, quero ver ela gargalhar quando eu colocar meu pau na xoxota dela - pensei com o segundo sinal de malícia que apareceu em minha cabeça naquela noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Chegamos ao bar Verdinho e Marisa estava mole, se arrastando pelas paredes. Encontrei um velho amigo no bar e um monte de desconhecidos com ele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Onde vende cocaína nessa porra? - perguntou Marisa à atendente do balcão.&lt;br /&gt;- Caralho man, tira essa mina daqui, olha o que ela perguntou! - me alertou Vinícius, meu amigo.&lt;br /&gt;- Tô saindo fora, fica de boa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei ela o colo e sai andando pela Pamplona. Ela gritava muito e eu já constrangindo, coloquei-a no chão e perguntei, como se perguntasse à uma criança:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que você quer, coração?&lt;br /&gt;- Vamos para minha casa!&lt;br /&gt;- Mas você mora na Vila Madalena, e eu não tô afim de andar até lá. &lt;br /&gt;- Vamos de taxi!&lt;br /&gt;- Quero ver alguém aceitar débito nessa hora ainda.&lt;br /&gt;- Deixa que eu pago, tenho grana em algum lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamamos um taxi e ela começou a usar um sotaque de Pernambuco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sinhô motorista, mi lévi pra Vila Madalena?&lt;br /&gt;- Claro que levo, hahahaha! - respondeu o taxista em meio a risadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elas estava realmente chapada, e tudo o que eu fazia era dar um cafuné de leve. Estava temendo que ela vomitasse no meu colo. Eu estava bêbado, mas acho que minha preocupação cortou a brisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos ao prédio dela e ela, trôpega, se arrastou como uma aleijada trêmula até a porta do seu prédio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Peraí, bichinho... a chave está aqui. Não si aperreie, bichinho - continuava em seu sotaque pernambucano.&lt;br /&gt;- Olha só, babe, eu já vi a chave. Dá aqui - falei colocando a mão na bolsa dela.&lt;br /&gt;- Mas tá cheinho de chave aí, tu num vai achá a certa, bichinho.&lt;br /&gt;- Por Deus, babe, pare com esse sotaque.&lt;br /&gt;- Tá, tá, eu paro - e começou a soluçar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cena era triste e cômica: Marisa tentava de qualquer jeito enfiar a chave na trava, mas como um michê drogado, não acertava o buraco. Ela começou a riscar a porta. E eu a ficar impaciente. Puxei a chave da mão dela e abri a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Maria! Maria! - ela chamava pela zeladora - Maria! Ligue o elevador!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria apareceu injuriada, com o cabelo todo amarrotado. Quando me viu, arrumou o cabelo de qualquer jeito e me deu boa noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Marisa, bêbada de novo!&lt;br /&gt;- Só que hoje tô trazendo um homem pra casa e não uma mulher! Hahahaha! - sussurrou alto no ouvido de Maria.&lt;br /&gt;- Você curou a Marisa, hein? - me cutucou Maria com uma risadinha debochada.&lt;br /&gt;- Ela só precisa de um chá de picão pra ser curada hahahaha! - respondi olhando nos olhos dela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria deu um sorrisinho e se ligou que eu transaria com ela. Fechou a cara e foi ligar o elevador. Entramos no elevador e Maria gritou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cuida dela, hein?&lt;br /&gt;- Pode deixar, coração!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos no apartamento dela. Extremamente clean, moderno, com móveis de última moda, notebook na mesa, maconha na mesa, caneca de café vazia na mesa. Era uma moderninha. Era uma bêbada também. Ela se sentou no sofá e lá ficou. Tirei os sapatos dela e levei-a para a cama. Ela começou a rir, deu um salto e alcançou um LP do Chico Buarque. Malandro. Colocou a primeira faixa e A Volta do Malandro começou a rolar solta pela atmosfera confortável do quarto dela, que contava com pisca-piscas de natal como decoração. Ela começou a dublar o Chico, se retorcendo na cama, balançando seu pequeno quadril. Quando a segunda faixa "Las Muchachas de Copacapana" se iniciou, com aqueles arranjos tropicais, comecei a mentalizar trompetes tocando sozinhos em meio a abacaxis e uma Carmem Miranda sóbria, porém graciosa. Quando abri os olhos, Marisa estava em pé na cama, duplando Ney Matogrosso e sua voz excepcionalmente feminina. O som era excelente, as caixas davam tudo de si, e eu comecei a me atentar para a performance da boneca de porcelana inebriante. Ela imitava a Carmem Miranda, e tinha um sorriso que pelos deuses, conseguiu me tirar do sério. Quando me vi, estava derretido entre os lençóis de sua cama. Estava presenciando a melhor performance de todos os tempos e ela era particular para mim. Ney Latorraca e sua voz rasgada, debochada, começou a terceira faixa do disco, "Hino da Repressão". Aquela levada de tango empolgava, e ela dublava perfeitamente, com gestos firmes e um sorriso que vira e mexe aparecia. Ela abriu uma garrafa de vinho chileno e comecei a beber. Ela dava uns goles e me devolvia a garrafa. Eu bebia mais e mais. Até que enfim, a pilha dela acabou e ela deitou. Fiquei sentado ao lado dela, observando cada movimento dela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foda-se, vou tirar minha roupa - gemeu Marisa, com aquele sorriso revestido de malícia.&lt;br /&gt;- Fique a vontade, babe. Eu fecho os olhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fechei os olhos, e ela foi tirando toda a roupa. Ficou debaixo do edredon, enquanto eu ainda vestido, matava a garrafa de vinho. Fiquei constrangido por ela estar bêbada. Me senti um aproveitador dos infernos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fernando, me foda agora! - gritou Marisa deslisando sobre o colchão, dando risadinhas e me mordendo.&lt;br /&gt;- Você está bêbada, não rola, babe. Amanhã você vai me expulsar daqui na base da porrada e não quero que o povo nas ruas me vejam sendo enxotado daqui. Tenho classe, coração.&lt;br /&gt;- Cala a boca, meu! Vem me comer! Todo mundo diz que eu sou foda, que eu sou foda, que eu sou foda, mas ninguém tem coragem de me foder!&lt;br /&gt;- Será por causa do seu jeitinho blasé?&lt;br /&gt;- Blasé o caralho!&lt;br /&gt;- É blasé sim. Você precisa de mais porres como esse!&lt;br /&gt;- Tá bom, então me fode, Fernando!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei ela com medo de que quebrasse de tão frágil que era e comecei a beijá-la. Mordi a nuca dela, puxei seus cabelos, joguei-a com força em seu travesseiro. Tirei minha roupa e me enfiei embaixo do edredon. Ela tinha seios médios, perfeitos para colocar a boca, cabiam numa boa taça de champanhe. Sua bunda era redondinha, e à cada apertada que dava nela, mais excitado ficava. Meu pau estava flamejando e a boceta dela oferecia o alívio. Busquei uma camisinha em minha jaqueta e com pressa, me protegi. A primeira estocada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ahhhhh que saudades disso! - gritou Marisa fechando suas pernas em volta de minhas costas.&lt;br /&gt;- Hahahaha! Você gosta de cobra, não de aranha! - sussurrei essa sacanagem homofóbica no ouvido dela.&lt;br /&gt;- Não tire por nada essa cobra daqui!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sorria, levantava os braços e a Zizi Possi interpretava a canção de Chico, "Sentimental" com tanta paixão, que quase gozei. Tá bom, eu me liguei mais nas expressões de prazer da bonequinha de porcelana. Depois de um tempo alternando posições, ela travou suas pernas com tanta força que gritei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ai caralho, que merda do diabo!&lt;br /&gt;- Não goze por nada... me dê seu pau, Fernando.&lt;br /&gt;- Mas eu tô te dando, olha ele aí dentro de você...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela fez uma cara de impaciência e saiu da posição que estávamos. Tirou a camisinha do meu pau e o colocou em sua boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem melhor que uma boceta, né? - desafiei sem êxito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não respondeu. Se concentrava no trabalho do sexo oral. Ficou por dez minutos passando sua língua em meu pau até que num momento puxei seus cabelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tira a boca que eu vou gozar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não tirou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estou falando sério, tire da boca, eu vou gozar, e já não aguento mais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela continuou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Diabos, que se foda!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gozei litros de porra na boca dela. Ela engolia tudo. Eu ouvia cada golada que ela dava enquanto minha perna estremecia. Ela secou meu pau e caiu no colchão. Peguei ela no colo e joguei água no rosto dela. Fiz ela lavar a boca (por Deus, eu a beijaria posteriormente) e ela ainda caminhou à privada para mijar. Foi andando como um demônio errante e intoxicado até à cama. Deitou como um anjo. E roncou como Belzebu. Fiquei acordado a madrugada inteira preocupado se ela vomitaria, se morreria afogada com o próprio vômito. Nesse momento, o som já se dissipara e o silêncio estava com sua bunda gorda e estúpida sobre a situação. Ela acordava de vez enquando, me beijava e pedia pra eu dormir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tô bem assim. Agora por Cristo, durma. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A manhã chegava e eu me levantei para fumar um cigarro. Tomei o resto de vinho que restara e me arrumei. Ela ainda protestou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fique aqui, vamos almoçar juntos, pleeeease...&lt;br /&gt;- Não, não. Preciso dormir na minha cama. Vou indo nessa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixei o cigarro cair no lençol da cama dela, o que abriu um generoso buraco. Dei uns tapas para apagar o mini-incêndio enquanto olhava para o rosto dela. Ela dormia e sem roncos agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela levantou, colocou um shortinho, uma blusinha e um chinelinho. Foi toda pequenininha até a porta da casa e me deu o último beijo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fica aí, meu... &lt;br /&gt;- Não, babe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me senti desejado por uns minutos e depois esse sentimento passou. Pensei que minha cama estaria me aguardando e foi só nisso que pensei até chegar em casa. O sol raiava de forma idiota e eu suava como um porco toda cachaça que bebi. O vento remexia meu cabelo e apagava meu cigarro. Eu praguejava pelo dia e agradecia pela noite.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-1375961845329661957?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/1375961845329661957/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=1375961845329661957' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/1375961845329661957'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/1375961845329661957'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2009/03/que-saudades-disso.html' title='Que Saudades Disso!'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-4705117702419042642</id><published>2009-03-27T00:37:00.004-03:00</published><updated>2009-03-27T00:50:12.444-03:00</updated><title type='text'>Apenas uma Forca</title><content type='html'>nem tudo o que arquitetamos, vira concreto&lt;br /&gt;nem tudo que almejamos, vira vista&lt;br /&gt;nem tudo que desejamos, vira fogo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tudo o que me resta é você e um flash de um momento bom&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e quem sou eu nisso tudo? quando tudo é você quem escolhe?&lt;br /&gt;quem sou eu no meu corpo, se todo o calor do meu peito&lt;br /&gt;é você quem inflama&lt;br /&gt;quem sou eu afinal, se tudo em mim lembra você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;minhas mãos me lembram seus cabelos&lt;br /&gt;minha boca me lembra a sua&lt;br /&gt;os meus olhos, a sua alma&lt;br /&gt;porque eu realmente vejo sua alma&lt;br /&gt;brilhante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;qual é o meu espaço? se você ocupa tudo?&lt;br /&gt;quem é você, afinal?&lt;br /&gt;amor ou desilusão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;diabos, pareço o jovem Werther de Goethe&lt;br /&gt;e eu achava que não seria mais assim&lt;br /&gt;ao invés de pistolas para me matar por esse amor&lt;br /&gt;enforco aquilo que julgava ser o mais sincero em mim&lt;br /&gt;apenas pra estar perto de você&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu te amo&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-4705117702419042642?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/4705117702419042642/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=4705117702419042642' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/4705117702419042642'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/4705117702419042642'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2009/03/apenas-uma-forca.html' title='Apenas uma Forca'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-4206741345525250092</id><published>2009-03-23T12:37:00.002-03:00</published><updated>2009-03-23T12:58:30.292-03:00</updated><title type='text'>Coração com Neurônios</title><content type='html'>Pra quê correr atrás? Pra quê acelerar o coração? Pra quê aumentar a ansiedade que me sufoca, literalmente, todos os dias? Pra quê se apaixonar? Pra quê sentir a delícia da novidade? Pra quê dar risada e mostrar nos olhos tanta admiração? Pra quê sonhar em começar um nova história? Pra quê conhecer? Se apresentar? Chamar? Gritar? Abraçar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tantas perguntas e uma só resposta: pra confirmar que somos humanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria ser um alienígena travesti, ao menos não me sujeitaria à isso tudo. Eu não quero enganar ninguém mais. Prometi a mim mesmo que aquela a quem escolher amar, será amada de verdade. Pra valer. Estou me impressionando com a firmeza dos meus pensamentos, com andar da carruagem. Mas eu estou com medo de uma coisa, ou melhor, algumas coisas. Um medo digno de congelar a barriga e acelerar ainda mais o meu coração. A cada trago que dou em um cigarro, uma silhueta desfila pelo ar materializada pela fumaça. Risadas. Risadas de centenas de pessoas se unem em uma só. E qual é o motivo? Pra lembrar que sou humano e desejo passar por todo o processo que já passei diversas vezes? Começo-meio-fim? Fim? Fim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além de acelerado, é burro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por Deus, o que tiver que acontecer, acontecerá. E dessa vez vou lembrar que o cérebro não bate no peito e que o coração não tem neurônios.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-4206741345525250092?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/4206741345525250092/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=4206741345525250092' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/4206741345525250092'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/4206741345525250092'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2009/03/coracao-com-neuronios.html' title='Coração com Neurônios'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-3427655360065139035</id><published>2009-03-18T11:48:00.004-03:00</published><updated>2009-03-18T12:04:31.112-03:00</updated><title type='text'>Eu Sou o meu Herói Preferido</title><content type='html'>A vida pode ser medida pelo grau de segurança que você tem. Não, não é papo político. Não estou reivindicando mais polícia nas ruas, muito menos exército nas favelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você é seguro de si mesmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se alguém te provoca, você é seguro o suficiente para replicar o insulto? Quando te jogam um piano nas costas e pedem pra você carregá-lo por quilômetros, você encara? Ou as pernas tremem e você cai, sendo esmagado em seguida pelo piano?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo depende da sua segurança, da confiança que você tem em si. Da tranquilidade de saber que você tem a si mesmo pra se defender e recorrer a si mesmo para solucionar seus próprios problemas. Você dá conta de bater de frente com o mundo? Aguenta a pressão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo é mal, eu sei, você sabe. Mas quão mal ele é? Qual é o seu limite para suportar a maldade? E quando esse limite passa, como você reage?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Precisamos confiar mais em nós mesmos. Cerrar punhos e correr contra o adversário. Precisamos de amor próprio. Precisamos do amor dela ou dele. Mas antes de tudo, progredir, amadurecer e depois de encontrar seu próprio amor, poder se apropriar do amor de outra pessoa. Afinal, como você pode dar algo que é seu, mas que você não encontra? Pode prometer algum agrado sem tê-lo em mãos? Beijar, abraçar, querer bem é bom demais. Mas escolher alguém para viver até o fim é complicado. Fica uma dica: encontre seu amor e depois entregue-o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isso depende da sua segurança. Da confiança que você tem em si. Seja seu próprio super-herói. Defenda a si mesmo e depois defenda os outros.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-3427655360065139035?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/3427655360065139035/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=3427655360065139035' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/3427655360065139035'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/3427655360065139035'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2009/03/eu-sou-o-meu-heroi-preferido.html' title='Eu Sou o meu Herói Preferido'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-1405732527234045971</id><published>2009-03-18T11:17:00.004-03:00</published><updated>2009-03-18T11:44:23.690-03:00</updated><title type='text'>Diazepan</title><content type='html'>Uma lacuna de ar em meus brônquios, após um banho pra me renovar após uma chuva devastadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pânico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Liga pra minha mãe! Vai logo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ar vai acabando, acabando. Tudo adormece, os braços, as mãos, a nuca, as orelhas. Tudo estremece como um formigueiro remexido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Preciso descer, preciso andar um pouco!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas passam horrorizadas ao ver a cena: um homem batendo no peito, olhando para baixo, curvado, vencido pelo medo da morte. As pernas dormentes ameaçavam não obedecer, o tempo passava e nada acontecia. Apenas o coração ameaçava explodir a cada minuto que passava. Nenhum suor. Ergo o rosto e vejo no interior de um carro em movimento o rosto assustado de minha mãe. Entro correndo (ou me arrastando, não sei) e me acomodo. As pernas não param de balançar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cara, eu já passei por isso, é sério. Todos esses sintomas são ansiedade, isso é crise de ansiedade. Fica tranquilo, cara.&lt;br /&gt;- Não consigo, na boa. Meu rosto tá ficando dormente, minha boca!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Paulo estava num temporal maldito e o trânsito correspondia às expectativas. Parado como um monumento. Monumento à desordem, ao caos, à desconsideração com o povão. Em quinze minutos chegamos ao hospital. Tive que descer do carro no meio do trânsito e caminhar um quarteirão até o hospital. Eu sabia que não chegaria tão cedo até lá. A ponta das orelhas estava dormente e um lapso de desmaio tomou conta da minha cabeça. Puxei o ar e continuei andando. Chegamos ao hospital e corremos direto para a doutora que observava tudo com uma frieza confortadora. Cada palavra calculada dela amenizava meu desespero. A pressão estava boa. O coração acelerado, mas nada demais. Diazepan para acalmar e quinze minutos para que o remédio fizesse efeito. Gel de eletrocardiograma no meu peito e o resultado: nada de incomum. Apenas uma elevação que deveria ser observada para desencargo de consciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sai do hospital aos tropeços por causa do tranquilizante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem-vindo ao maravilhoso mundo da ansiedade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-1405732527234045971?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/1405732527234045971/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=1405732527234045971' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/1405732527234045971'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/1405732527234045971'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2009/03/diazepan.html' title='Diazepan'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-3088930958546468676</id><published>2008-08-24T21:01:00.006-03:00</published><updated>2008-08-24T21:11:26.421-03:00</updated><title type='text'>Faz meu Tipo</title><content type='html'>eu não sei se são crises&lt;br /&gt;é morte&lt;br /&gt;é lá e cá&lt;br /&gt;ela está aqui dentro, aí dentro, fora de tudo&lt;br /&gt;a música foi roubada por ela&lt;br /&gt;as risadas das ruas&lt;br /&gt;a confiança da segunda-feira&lt;br /&gt;a noite de um valente&lt;br /&gt;o levantar de um desempregado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;idiota, você existe&lt;br /&gt;eu sei que rasteja&lt;br /&gt;atrás de um negligente&lt;br /&gt;de um fraco&lt;br /&gt;do corpo que repousa na lona&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;te abraço e o convite vem&lt;br /&gt;convite à dança&lt;br /&gt;de uma banda de alucinados&lt;br /&gt;ébrios errantes em notas desorganizadas&lt;br /&gt;danço com a morte&lt;br /&gt;e ela não me causa espanto&lt;br /&gt;se me tocar, te abraçarei&lt;br /&gt;e se me deixar voltar para casa&lt;br /&gt;caminharei traçando planos&lt;br /&gt;e dormirei em paz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pois inevitável é&lt;br /&gt;iminente, já não sei&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;se eu danço com a vida?&lt;br /&gt;todos os dias me faz companhia&lt;br /&gt;pode não ser a mais bonita das damas&lt;br /&gt;mas faz o meu tipo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vida, sou tarado por você&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-3088930958546468676?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/3088930958546468676/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=3088930958546468676' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/3088930958546468676'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/3088930958546468676'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2008/08/faz-o-meu-tipo.html' title='Faz meu Tipo'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-2231163400698642051</id><published>2008-08-20T16:37:00.006-03:00</published><updated>2008-08-20T16:59:42.739-03:00</updated><title type='text'>Menino-Homem</title><content type='html'>quando o homem percebe&lt;br /&gt;"esse é o meu erro"&lt;br /&gt;e quando percebe também&lt;br /&gt;"essa é a solução"&lt;br /&gt;e ainda mais quando percebe&lt;br /&gt;"eu tenho preguiça"&lt;br /&gt;quem poderá adentrar o abismo?&lt;br /&gt;quem endireita a coluna do homem&lt;br /&gt;estufa seu peito e o empurra?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;todo começo de ano letivo&lt;br /&gt;era uma nova escola&lt;br /&gt;novos rostos, mesmas coisas&lt;br /&gt;coisas de menino-homem&lt;br /&gt;vigiar, conversar, tentar ser melhor&lt;br /&gt;erguer a vista e se apresentar à sala&lt;br /&gt;"meu nome é tal, estudava em tal escola"&lt;br /&gt;ah! como o caminho até a carteira era longo&lt;br /&gt;olhares veteranos de meninos-homens&lt;br /&gt;meninas-mulheres&lt;br /&gt;que dois dias depois mexiam no meu cabelo&lt;br /&gt;"queria ter um cabelo desses"&lt;br /&gt;meninas-mulheres de cabelo crespo&lt;br /&gt;ensebados em inveja e curiosidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o recreio começava e não tinha dinheiro para o lanche&lt;br /&gt;pedir para um colega? nem pensar&lt;br /&gt;passar vontade, esse era o estilo de vida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;jogar bola, driblar e ser derrubado&lt;br /&gt;levantar e aceitar a provocação&lt;br /&gt;covardia, esse era o estilo de vida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;voltar à aula com a testa suada, barriga vazia&lt;br /&gt;mente sem ânimo, "garoto, você é muito burro"&lt;br /&gt;passar em branco, esse era o estilo de vida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;voltar para casa, coluna curvada, pisando em folhas secas&lt;br /&gt;esperar o jantar, comer e depois brincar&lt;br /&gt;ser moleque, esse era o estilo de vida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;quem pode voltar e endireitar?&lt;br /&gt;quem poderia alertar o menino-homem?&lt;br /&gt;"não faça isso, não faça aquilo"&lt;br /&gt;nem um anjo do Senhor poderia fazê-lo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu poderia ser melhor, se tivesse a receita&lt;br /&gt;mas a minhas mãos grandes e finas&lt;br /&gt;não sabiam nem tocar um piano&lt;br /&gt;ontem não existia glória&lt;br /&gt;hoje muito menos&lt;br /&gt;mas amanhã, o que espera?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vai ter com a formiga, ó preguiçoso&lt;br /&gt;hoje eu entendo o provérbio&lt;br /&gt;a advertência&lt;br /&gt;mas quem pode erguer o menino-homem?&lt;br /&gt;quem pode fazê-lo dançar&lt;br /&gt;conforme a dança magnífica dos anjos?&lt;br /&gt;o vai e vem de asas causa nauseas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ora, somos humanos&lt;br /&gt;meninos ou homens&lt;br /&gt;somos peste, a origem do arrependimento&lt;br /&gt;o asco das rochas, a vertigem das árvores&lt;br /&gt;somos apenas isso, humanos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;super-homem? nietzsche, você estava louco&lt;br /&gt;o que não me mata, me debilita&lt;br /&gt;jamais me fortalece&lt;br /&gt;posso emprestar de ti essa loucura?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e quem poderá endireitar&lt;br /&gt;aquilo que foi criado para morrer?&lt;br /&gt;passos e mais passos&lt;br /&gt;quando o menino-homem olha para trás&lt;br /&gt;diabos, não há pegadas!&lt;br /&gt;apenas aves de rapina maliciosas&lt;br /&gt;inventando desdém&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;idiotas, pensam que me enganam?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;você lembra?&lt;br /&gt;passar em branco, esse era o estilo de vida&lt;br /&gt;ainda é&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-2231163400698642051?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/2231163400698642051/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=2231163400698642051' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/2231163400698642051'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/2231163400698642051'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2008/08/menino-homem.html' title='Menino-Homem'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-7435278728754329344</id><published>2008-08-03T11:39:00.003-03:00</published><updated>2008-08-03T11:56:15.009-03:00</updated><title type='text'>Existo, Logo Morro</title><content type='html'>penso, logo existo&lt;br /&gt;Descartes, sua bicha, você tinha razão&lt;br /&gt;mas será que o excesso de existência&lt;br /&gt;provocará explosão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;será que a cabeça inflada&lt;br /&gt;por considerações e cogitações&lt;br /&gt;anulará minha existência&lt;br /&gt;com tanta existência?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de tanto existir, esqueço de viver&lt;br /&gt;por isso que a máxima prevalece&lt;br /&gt;muitos são os que existem&lt;br /&gt;poucos são os que vivem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;muitos pensam demais&lt;br /&gt;poucos agem de verdade&lt;br /&gt;o coração tremula o punho&lt;br /&gt;e contra o cérebro vocifera&lt;br /&gt;o cérebro altivo olha com desdém&lt;br /&gt;e despreza&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pensa, existe, considera, pesa na balança&lt;br /&gt;mede o buraco e passa ao redor&lt;br /&gt;abraça o passado e despreza o futuro&lt;br /&gt;e despreza&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a roda da vida parou&lt;br /&gt;porque resolvi existir&lt;br /&gt;porque resolvi pensar&lt;br /&gt;porque não sei agir&lt;br /&gt;não sei sorrir&lt;br /&gt;e nunca mais chorei&lt;br /&gt;por você&lt;br /&gt;por eles&lt;br /&gt;por mim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o homem que existe, não chora&lt;br /&gt;porque esquece&lt;br /&gt;mas aquele que vive, sorri&lt;br /&gt;porque lembra&lt;br /&gt;lembra sem pensar&lt;br /&gt;lembra pra esquecer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sim Descartes, sua frase tem verdade&lt;br /&gt;mas você esqueceu&lt;br /&gt;não sei se por falta de tinta ou por falta de voz&lt;br /&gt;existo, logo morro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-7435278728754329344?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/7435278728754329344/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=7435278728754329344' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/7435278728754329344'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/7435278728754329344'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2008/08/existo-logo-morro.html' title='Existo, Logo Morro'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-8468792405306359294</id><published>2008-07-18T13:56:00.002-03:00</published><updated>2008-07-18T14:03:35.976-03:00</updated><title type='text'>Quero Viver</title><content type='html'>eu quero viver&lt;br /&gt;ou queria&lt;br /&gt;ver meu time campeão&lt;br /&gt;ver netos no sofá&lt;br /&gt;receber um diploma&lt;br /&gt;ser reconhecido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu quero envelhecer&lt;br /&gt;eu queria chegar lá&lt;br /&gt;eu quero casar&lt;br /&gt;eu quero caçar&lt;br /&gt;mas tenho medo&lt;br /&gt;dos meus sonhos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu quero acreditar&lt;br /&gt;fechar os olhos&lt;br /&gt;relaxar um pouco&lt;br /&gt;mas eu não sei&lt;br /&gt;eu não consigo&lt;br /&gt;parar de pensar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu quero amar pra sempre&lt;br /&gt;eu queria você pra sempre&lt;br /&gt;vocês todos pra mim&lt;br /&gt;queria ser desapegado&lt;br /&gt;odiar o materialismo&lt;br /&gt;repudiar a vaidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu estou com medo&lt;br /&gt;porque eu sou jovem&lt;br /&gt;porque tenho a perder&lt;br /&gt;porque sou materialista&lt;br /&gt;porque almejo&lt;br /&gt;porque desejo&lt;br /&gt;porque eu quero&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;quero viver&lt;br /&gt;ou queria&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-8468792405306359294?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/8468792405306359294/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=8468792405306359294' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/8468792405306359294'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/8468792405306359294'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2008/07/quero-viver.html' title='Quero Viver'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-8683997692975589999</id><published>2008-06-17T23:18:00.003-03:00</published><updated>2008-06-17T23:35:24.327-03:00</updated><title type='text'>A Morte e a Minha Morte</title><content type='html'>eu não tinha coragem, ó morte&lt;br /&gt;mas a senhorita a tem sobrando&lt;br /&gt;senhorita sim&lt;br /&gt;virgem, mal-amada, amarga e enegrecida&lt;br /&gt;virgem por desgraça&lt;br /&gt;mal-amada por opção&lt;br /&gt;amarga por vocação&lt;br /&gt;e enegrecida por consequência&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não havia sofá ou uma cadeira para teu agrado&lt;br /&gt;mas a senhorita cá está, em pé&lt;br /&gt;em minha casa, meu lar, meu refúgio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;exala cheiro de falta de estrada&lt;br /&gt;falta de caminho&lt;br /&gt;falta de ar&lt;br /&gt;em ti vejo o último abraço&lt;br /&gt;meus lamentos&lt;br /&gt;e minhas últimas pretensões&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;desgraçada mãe da saudade&lt;br /&gt;deixe que eu faça um último apelo&lt;br /&gt;ninguém nunca goza de tempo&lt;br /&gt;algumas últimas palavras&lt;br /&gt;víbora banhada em desalento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;amigos, divulguem o que criei;&lt;br /&gt;amor, você foi a única;&lt;br /&gt;mãe, queria ter aproveitado você&lt;br /&gt;bem mais do que uma simples infância;&lt;br /&gt;pai, queria ter entendido você;&lt;br /&gt;irmãos, eu os amo de verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ao resto, deixo a fiel descrição do rosto da morte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(expirei)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-8683997692975589999?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/8683997692975589999/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=8683997692975589999' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/8683997692975589999'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/8683997692975589999'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2008/06/morte-e-minha-morte.html' title='A Morte e a Minha Morte'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-2568558933964221815</id><published>2008-06-17T16:30:00.003-03:00</published><updated>2008-06-17T16:39:26.613-03:00</updated><title type='text'>Você e Eu Somos</title><content type='html'>você é meu jesus cristo&lt;br /&gt;aquele que vai voltar&lt;br /&gt;você é meu nirvana&lt;br /&gt;aquilo que vai me dispersar&lt;br /&gt;você é minha reencarnação&lt;br /&gt;que me colocará num corpo melhor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu te amo mais do que a compreensão&lt;br /&gt;da sua indiferença azulada poderá entender&lt;br /&gt;eu te amomais que a importância que você dá&lt;br /&gt;pra atos de uma alma nula e nublada&lt;br /&gt;chorona e apagada&lt;br /&gt;cega a tropeçar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu sou areia quente nesses pés de pequena&lt;br /&gt;eu sou vento que lança fina areia&lt;br /&gt;eu sou fumo marrom ou sou cinza fumaça&lt;br /&gt;eu sou o que você queria ser na juventude&lt;br /&gt;eu sou seu fracasso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;você é minha vida&lt;br /&gt;eu sou sua morte&lt;br /&gt;você é cor&lt;br /&gt;eu sou morte&lt;br /&gt;você é brilhante&lt;br /&gt;eu sou morte&lt;br /&gt;caralho, tudo é vermelho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ao diabo com o amor, meu amor&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-2568558933964221815?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/2568558933964221815/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=2568558933964221815' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/2568558933964221815'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/2568558933964221815'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2008/06/voc-e-eu-somos.html' title='Você e Eu Somos'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-3990932237623831051</id><published>2008-06-04T00:43:00.003-03:00</published><updated>2008-06-04T00:54:54.429-03:00</updated><title type='text'>Pré-morte</title><content type='html'>Envelhecendo, eu estou envelhecendo&lt;br /&gt;E o meu peito não é mais aquele de outrora&lt;br /&gt;É negro, frio e doente&lt;br /&gt;Antes eu corria, sorria, brilhava&lt;br /&gt;Meus vinte e poucos anos não são dignos de presunção&lt;br /&gt;Quando eu tinha oito anos, pensava nos meus dezoito&lt;br /&gt;Servindo o exército e comendo maça no sofá&lt;br /&gt;Meus dezoito anos já passaram&lt;br /&gt;E eu servia uma mulher e comia a maçã podre da vida&lt;br /&gt;Eu não sei o que fazer&lt;br /&gt;Eu me prendi demais às vaidades&lt;br /&gt;Eu não sei escapar&lt;br /&gt;Bem, eu sei o que fazer&lt;br /&gt;Preciso escapar&lt;br /&gt;Então o lamento é outro:&lt;br /&gt;Não sei escapar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou um covarde&lt;br /&gt;Um fracasso coberto de vaidades&lt;br /&gt;Vaidades filhas de putas&lt;br /&gt;Vaidade, tudo é vaidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu nunca mais vou correr&lt;br /&gt;Eu nunca viverei na época em que deveria ter vivido&lt;br /&gt;Eu não vejo lugar para mim nesse mundo&lt;br /&gt;Eu queria poupar o mundo de minha existência&lt;br /&gt;Mas sou covarde demais para recepcionar a morte&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-3990932237623831051?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/3990932237623831051/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=3990932237623831051' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/3990932237623831051'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/3990932237623831051'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2008/06/pr-morte.html' title='Pré-morte'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-1319083558650959817</id><published>2008-03-06T09:48:00.008-03:00</published><updated>2008-03-09T11:34:45.930-03:00</updated><title type='text'>Vista para o Matagal</title><content type='html'>Passei em branco. Nada daquelas histórias de comer mulher em ônibus de viagem. Só fósseis ambulantes travestidos de idosas, crianças sapecas atrapalhando meu sono e claro, trôpegos trabalhadores, esparramados por diversos assentos. Longe do luxo dos ônibus de leito ou semi-leito, estava eu num ônibus com o revestimento dos assentos rasgado, nenhum sinal de cinto de segurança, aliás, não havia sinal de segurança em lugar algum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O banheiro era o resumo de todos os meus pesadelos e a porta não podia fechar, pois se isso ocorresse, a mesma ficava trancada, fazendo o motorista exausto parar no acostamento e se dirigir aos fundos do veículo, para aplicar um macete que abria milagrosamente a porta. Havia um aviso estampado: "não feche a porta", mas do que adiantava? Dois terços dos passageiros eram analfabetos e o resto era tímido demais para cagar de porta entreaberta, sob risco de alguém flagrar o momento mais íntimo entre o ser humano e o seu corpo: a limpeza do cu. O medo de cagar com tamanho desconforto ocasionou momentos terríveis, quando os passageiros, sob as torturas do esfíncter, aliviavam-se em meio aos peidos mais nauseantes. O quê aquele povo comia? E eu matutava comigo mesmo: "se o peido tem apenas 1% de enxofre, que é o que faz ele ficar fedido, imagina o percentual desse povo! 10% no mínimo!". Mas meus pensamentos dissipavam no ar, como os inconvenientes peidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sou nenhum fresco, mas tive que colocar a mochila virada para o lado da frente e dormir abraçado à ela. Já tive experiências negativas demais ao confiar nos proletários sofridos da nação. Fodam-se eles. Que cortem infinitas toneladas de cana-de-açúcar, que peguem doença de Chagas e que continuem morando em casas de pau-a-pique. Honestos? O caralho. Fora o cheiro de sovaco com cachaça que permeava minhas narinas. Nada contra a cachaça, mas puta merda, passa um sabão de pedra nessa caverna cabeluda... Mas a verdade é que passei em branco novamente. Já contabilizo dezenas de viagens de ônibus, e seja leito, semi-leito ou pau-de-arara, sou um fracasso em todas as modalidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Más experiências à parte, eu desembarquei na rodoviária de São Silvestre do Campo. A bucólica região não é tão atraente. Sabe aquele papo de vida no interior? Então, tô fora. A rodoviária insignificante só ganhava algum significado quando uma telha caía em alguma velha. Bem, foi o que disse o motorista para um dos caipiras que saía do ônibus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cuidado com as telhas dessa porra. Tem hora que parece que chove concreto quando venta! Uma velha morreu nessa brincadeira! Hahahaha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o motorista se tornava cada vez mais evitável com um bafo de café que se misturava ao bafo proveniente do estômago, fazendo uma junção que me dava a idéia de como seria o cheiro se um dia eu quisesse fazer café dentro de um banheiro enquanto eu cagasse. Comparações à parte, eu encaixei um cigarro entre meus lábios e demorei pra acendê-lo. Tanto demorei que ao retirá-lo depois da primeira tragada, o papel do filtro grudou como se fosse colado aos meus lábios, e ao retirá-lo, levou junto um filete do meu lábio inferior. Praguejei. Xinguei a mãe de Deus e o padroeiro da cidade, São Silvestre (que pra mim não passa de uma maratona de fim de ano). O calor era insuportável e para tentar amenizá-lo, me movimentei a fim de sair daquele antro de caipiras sofridos e rastejantes. Perambulei pela avenida principal e de cada dez estabelecimentos, sete eram igrejas evangélicas. E todas cheias. Povo idiota do caralho. Minha mala começava a pesar à medida que o cansaço dominava minhas pernas. Parei num bar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Campeão, me vê uma Brahma gelada.&lt;br /&gt;- Não temos Brahma, só Malta.&lt;br /&gt;- Tem outro bar por aqui?&lt;br /&gt;- Não sei... - respondeu o atendente gorducho com olhar de desdém, evitando favorecer a concorrência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, prefiro evitar essas cervejas sofridas. Levantei minha mala e caminhei apressadamente. Era três da tarde, mas o Sol esqueceu de diminuir o calor e raiava como se fosse o meio-dia. Meu cabelo estava oleoso, e eu suava como um porco sofrido, e isso me deixa nervoso. O vento chegou com tudo, bagunçou meu penteado, jogando os fios pra direita, esquerda e pra frente. Larguei a mala e arrumei o penteado. Chutei uma pedra média para a rua, ela rolou com velocidade e quase acertou a frente de um carro em movimento. O motorista mostrou o dedo pra mim e tremulou o punho esquerdo. Retribui o gesto inicial e mandei ele tomar no cu. Ele passou reto. Entrei num segundo bar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Brahma, campeão!&lt;br /&gt;- Só Skol.&lt;br /&gt;- Tá, tá, me vê uma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O atendente abriu a geladeira abaixo do balcão e retirou uma garrafona de Skol. Meus olhos brilharam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dois e vinte. Tem que pagar antes.&lt;br /&gt;- Caralho, você corta o tesão da coisa, man! - murmurei puxando a carteira do bolso.&lt;br /&gt;- É foda, eu sei.&lt;br /&gt;- Toma. E me vê um maço de Lucky Strike branco - disse entregando uma nota de dez reais.&lt;br /&gt;- O que é isso?&lt;br /&gt;- É um cigarro!&lt;br /&gt;- Nunca vi!&lt;br /&gt;- Caralho! Sério? E o que você tem aí?&lt;br /&gt;- Esses aqui - apontou para o expositor de marcas acima do caixa.&lt;br /&gt;- Putz, me vê um Dallas então - era o menos pior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Balancei negativamente minha cabeça e abri o plástico do maço. Acendi o cigarro que cheirava mal. Cigarro bom você sente pela fumaça. Pelo menos o Dallas é de alguma indústria conhecida. Pedi mais duas garrafas e após finalizar a terceira, estava um pouco tonto. Acenei em despedida para o atendente que ergueu a mão num gesto negligente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Caipiras idiotas - disse em voz baixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu precisava de um hotel barato. Vaguei pelas ruas estreitas do centro e numa banca de jornal perguntei por um hotel. Indicaram-me o hotel Coronel Risotto. Que porra de nome era aquele? Devia ser um idiota. Os pássaros voavam rente à minha cabeça e eu não gostava disso. Cheguei à entrada do hotelzinho. Avaliação: menos duas estrelas. Era um pulgueiro fodido, com uma atendente descabelada que tomava sorvete naqueles potinhos plásticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois não?&lt;br /&gt;- Eu quero um quarto.&lt;br /&gt;- Prefere com vista pra rua ou não.&lt;br /&gt;- Qual é a diferença?&lt;br /&gt;- Se o senhor gosta de movimento, a vista da janela que dá pra rua é melhor.&lt;br /&gt;- E os outros quartos não têm janela?&lt;br /&gt;- Têm sim, mas tudo que o senhor vai ver é mato.&lt;br /&gt;- Me vê um desses aí, o do mato.&lt;br /&gt;- Vinte e cinco reais.&lt;br /&gt;- Puta merda, não vale nem cinco reais essa bosta - pensei franzindo a testa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entreguei o valor com relutância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quarto doze. Café da manhã é servido ali atrás das oito da manhã até às dez - disse a mulher apontando para a cozinha imunda e escura.&lt;br /&gt;- Tá certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subi as escadas até o primeiro andar. Abri a porta do quarto e até que não era ruim. Uma escrivaninha de madeira, uma cama grande e dura, uma televisão protegida por travas. Um telefone também estava lá ao lado de um cardápio para o "serviço de quarto". Olhei para o cardápio e o joguei na escrivaninha. Sentei na cama e tirei meu tênis. Me dirigi ao banheiro que à primeira impressão estava em ordem. Peguei a toalha dobrada acima da privada e a estendi sobre o box. Tomei um banho longo, de água gelada, lavando o corpo e a alma. Me enxuguei e fiquei de cueca. Olhei pela janela e sim, era só mato, um vasto matagal. Acendi um cigarro e parei em pé, pensando na vida. Precisava de uns dias nessa cidade. O meu chefe em São Paulo deve estar em seu carro, encarando o trânsito caótico, os motoboys malandros que arrancam retrovisores. Mas meu chefe é gente boa. Me deu uma licença de uma semana devido ao estresse. Um colega de trabalho me tirou do sério ao entrar na minha sala e ficar falando da vida dos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cara, você ficou sabendo que o Golveia...&lt;br /&gt;- Sai daqui, viado bocudo de merda! - gritei lavantando-me bruscamente, indo pra cima dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei-o pelo colarinho e o tirei da sala aos pontapés. Ele foi se queixar ao chefe, mas meu chefe sabia que ele era um puxa-saco fofoqueiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alberto, o quê tá rolando contigo? - disse o chefe com toda reserva possível.&lt;br /&gt;- Esse cara, me tira do sério...&lt;br /&gt;- Você precisa de descanso.&lt;br /&gt;- O foda é arrumar tempo pra descansar.&lt;br /&gt;- Que tal uma semana? Depois do pagamento, você fica uma semana descansando. O que acha?&lt;br /&gt;- Como assim?&lt;br /&gt;- Uma licença, Alberto. Olha os seus olhos, vermelhos! As olheiras, a fisionomia... Cara, você está mal.&lt;br /&gt;- Eu sei. Aceito a licença, chefe.&lt;br /&gt;- Maravilha. No dia seis você já está de folga, beleza?&lt;br /&gt;- Perfeito. Valeu mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E lá estava eu, de licença, tentando amenizar o estresse. Até que estava funcionando. Coloquei uma bermuda, uma camiseta do Sonic Youth e saí para dar uma olhada na cidade à noite. São Silvestre do Campo é uma cidade com seus quinze mil habitantes e o movimento da noite se concentrava, como em toda cidade do interior, na praça que fica no centro. Jovens e mais jovens se amontoavam em volta de um carro com porta-malas aberto, tocando hits de rádio. Todos os garotos usavam boné, e comiam churros. As garotas, mais gostosas impossível. Com roupas simples, passavam longe da sofisticação de São Paulo, mas o corpo delas não perdia em nada para as urbanas paulistanas. Elas circulavam de braço em braço, deixando os garotos atiçados, no tesão da juventude. Latinha de cerveja nas mãos, a vida não precisava de mais nada. E como em toda cidade de interior, eles tinham um detector de forasteiros. Cheiravam a modernidade da capital em cada 'turista' e obviamente detestavam. Tenho certeza que é o receio de que cheguemos na cidade deles e roubemos as mulheres deles. Cabaços. Caipira é foda. Para evitar confusão, ou olhava para baixo ou para frente, sem atentar para os meus lados. Qualquer olhar em falso e uma briga poderia rolar. Entrei numa cantina italiana que tinha uma placa que anunciava em letras garrafais: "A MELHOR LASANHA DA REGIÃO". Bem, não lembro de ter visto outro lugar que vendesse lasanha, mas tudo bem. Pedi uma à bolonhesa e uma coca-cola. Demorou uns trinta minutos pra chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Até que enfim! - disse com sarcasmo típico de cliente chato.&lt;br /&gt;- Desculpe, senhor! - respondeu a garçonete, sem graça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A calça jeans justa naquela bunda redonda me deixou faminto e num impulso maníaco, devorei a lasanha que era muito boa. Poderiam colocar naquela faixa algo como "A MELHOR LASANHA DO INTERIOR". Era muito boa, assim como era a bunda da garçonete. Pedi a conta e ela me entregou. Sete reais. A vida era um sucesso. Não cobravam os dez por cento de serviço. Ela merecia uns quinhentos reais por aquele rabo. Coloquei meu número de celular no papel da conta, junto ao dinheiro. No papel escrevi "me liga, coração - Alberto". Ela olhou para mim, deu um sorriso e pediu desculpa pela demora da lasanha. Pegou o papel da conta e o espetou num ferrinho pontudo. Nem olhou para o meu convite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Biscate gostosa - pensei ao me levantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí da cantina e comprei um latinha de cerveja. Acendi um cigarro e suspirei. Nada melhor que um cigarro após encher a pança. Levantei minha cabeça e avistei um banco de praça. Um bêbado dormia no chão ao lado. Cheguei ao banco em meio aos olhares hostis dos caipiras. Olhei para o chão e terminei minha cerveja. Lancei o filtro do cigarro no chão e fiquei mais uns cinco minutos. Me levantei lentamente e a praça continuava no fervor das risadas, provocações e xingamentos. Um garoto vomitava nas escadas da igreja matriz. Sob reprovação dos olhares dos idosos e dos santos imóveis na fachada da igreja, o garoto saiu cambaleando, caindo sentado e adormecido, vencido pela cerveja. Pobre diabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei para o hotel e subi as escadas após acenar para a mulher da recepção. Cheguei no quarto e tirei a camiseta. Atentei para uma mancha de infiltração na parede e dei uma risada. Olhei pra TV, ela olhou pra mim e virei de costas (não assisto TV desde quando tiraram Thundercats da grade de programação, quando eu era moleque). Acendi um Dallas e deitei com o cinzeiro na barriga. Pensei em diversas coisas, em São Paulo, nas garotas simples e gostosas dessa cidade pequena, na lasanha também. Fechei os olhos e o símbolo do Lucky Strike apareceu em meio à escuridão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Maldita cidade pequena - rosnei olhando para o céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E enquanto olhava fixamente para um furo na parede, uma gritaria no matagal me chamou a atenção. Apaguei a luz e fui para a janela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pára Sérgio! Você não vai me comer! Não dá! - uma garota falava baixo, mas com firmeza.&lt;br /&gt;- Vai porra! A gente namora há séculos, caraio! - um rapaz suplicou em voz baixa e tensa.&lt;br /&gt;- Mas não dá, eu sou virgem... - disse a garota quando foi interrompida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz encaixou um soco preciso na boca dela. A garota rolou pelo mato alto, fazendo ruídos. Eu ouvi barulho de galhos secos quebrando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Serginho, o que você está fazendo?!&lt;br /&gt;- Hoje você vai dar pra mim! Foda-se! - disse o rapaz apontando para a cara da garota.&lt;br /&gt;- Por favor, amor! Sou virgem! Não faz isso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvi barulho da fivela do cinto. Ela se debatia freneticamente, aos gritos. Somente o hotel estava por perto, e todos os hóspedes do hotel (outros três forasteiros) escolheram o lado da janela pra ficar. Ele deu mais um soco nela, agora na nuca e a ameaçou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mais um grito e eu te mato, sua puta!&lt;br /&gt;- Serginho, por favor! Eu sou virgem... Não faz isso! Vamos casar, vamos casar! - implorava aos prantos, num choro terrivelmente aflito.&lt;br /&gt;- Cala a boca! Você tá louca, Gisele? Eu não quero casar pra te comer! Eu quero te comer agora!&lt;br /&gt;- Ai meu Deus, me ajuda! - dizia ela de quatro, com a bunda virada para o rapaz.&lt;br /&gt;- Cala a sua boca! Você tá com medo de perder a virgindade, sua puta? Você me chupa toda a noite! Qual é o problema de dar essa buceta?!&lt;br /&gt;- Não! A buceta não! - a garota gritou se debatendo.&lt;br /&gt;- Ah! Então quer no cuzinho? Hoje eu vou te comer, seja por onde for!&lt;br /&gt;- Não, não! Socorro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu assistia a cena com olhar maligno, com vontade de ajudar, mas ao mesmo tempo excitado. O rapaz cuspiu no cu da namorada e no próprio pau e enfiou sem piedade, nem imaginando a dor que estava causando à garota. Começou a bombar violentamente e ao mesmo tempo, xingava a pobre vítima, que nesse momento chorava baixo, suplicando roucamente ao seu Deus. Deus não foi salvá-la. Talvez tentasse ajudá-la, me usando, mas eu sou preguiçoso demais para ser um instrumento de Deus. O rapaz finalmente suspirou e caiu em cima da garota, que gemia de dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que cu gostoso! Vai acostumando, que agora vou comer todo dia esse cuzinho, até você tomar vergonha e dar essa buceta pra mim!&lt;br /&gt;- Seu monstro! - sussurrou com voz trêmula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gozei também. Naquela altura do campeonato, se eu não fosse interromper aquele estupro, eu me masturbaria. E foi o que fiz. Gozei no chão do quarto e deitei na cama, com o pau amolecido. Alguns minutos de descanso e voltei à janela. O rapaz havia ido embora, e a garota estava lá, deitada na mesma posição. Pensei que ela estivesse morta, sei lá, mas ela conversava com seu Deus:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu pai, por quê? Por que não me ajudou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compadeci-me de sua ignorância e de seu desespero. Somente os grilos cantavam em alegria e os morcegos emitiam seu som insuportável. Imaginei o terror do estupro, o medo que ela deveria sentir naquela hora, sozinha e sem ajuda. Desprezada no chão, suja de terra e com o rabo gozado. Dei um murro na parede e coloquei a cueca e a bermuda. Camiseta no corpo e lá estava eu, correndo pela recepção. Dei a volta no quarteirão e vi que o matagal era protegido por arame farpado. Rastejei no chão e ao me levantar do outro lado, a camiseta prendeu no arame. Puxei com força e ela rasgou. Não me importei e corri pelo mato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tem alguém aí? Você pode me ouvir? Onde você está? - gritei desesperado.&lt;br /&gt;- Aqui! Eu tô aqui... - respondeu a garota com o braço levantado e trêmulo .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corri até onde a voz estava e a cena foi terrível. Acendi meu isqueiro e vi uma cena pavorosa. Ela estava roxa, com mechas de cabelo arrancadas e jogadas em suas costas. Seu rosto era uma mescla de lágrimas e terra. O cheiro era terrível: esperma, cu, boceta e suor. Chorei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem foi o filho da puta que fez isso com você?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não respondia, só choramingava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos, diga porra!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela continuava choramingando, reclamando de dores terríveis. Eu sabia quem era o bastardo, mas eu preferia disfarçar, afinal, não queria que ela soubesse que eu poderia ter evitado aquela situação toda. Levei um susto ao ver luzes, muitas luzes e uma gritaria ensandecida vindo de vários homens. Consegui ouvir uma frase em meio à gritaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Parado aí, filho da puta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era a polícia, três policiais apontando suas armas para mim. Levantei meus braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Peraê, amigo! Eu tô socorrendo ela! Ela foi estuprada!&lt;br /&gt;- Ah é? Cala a sua boca! Algemem esse filho da puta! - ordenou o delegado.&lt;br /&gt;- Calma aí! Eu fui socorrê-la, porra! - gritei apontando para a garota.&lt;br /&gt;- Ei, ei! Mão pra cima, caralho! - ordenou um dos policiais que chegou perto de mim com a arma apontada para minha cabeça, começando a me revistar.&lt;br /&gt;- Puta merda, o que vocês estão fazendo? Socorram a garota!&lt;br /&gt;- Cala a porra da boca! Não me diga o que fazer! - gritou o outro policial, me acertando um bom soco no fígado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caí no chão e lembro de ter sido chutado, pelo corpo inteiro. Desmaiei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando acordei, estava numa cela com mais vinte e três presos que confabulavam sobre mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha lá o estuprador! E nem é da cidade! - um preso negro e banguelo disse.&lt;br /&gt;- Eu não estuprei ninguém, filho da puta! - gritei enquanto notava que minha calça estava aberta.&lt;br /&gt;- Vou enfiar minha pica na sua garganta, seu safado! - outro me ameaçou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um policial chegou nesse momento e deu uma porrada na grade da cela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cala a boca aê, caralho! Alberto, venha pra cá! - me chamou enquanto abria a cela.&lt;br /&gt;- Eu disse pra vocês que não estuprei ninguém, caipira cuzão! - gritei já no lado de fora da cela.&lt;br /&gt;- Se voltar pra cá, te como, seu viadinho! - alguém me ameaçou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mostrei-lhes o dedo do meio e caminhei junto ao policial para dentro da sala do delegado. Enquanto andava, senti que estava sem cueca. Sentei numa cadeira velha e de perna vacilante, que ficava em frente à mesa do delegado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Seu filho da puta! Você vem para cá, pra nossa cidade, pra 'estrupar'? - o delegado lançou olhar cínico para cima de mim.&lt;br /&gt;- Eu não estuprei ninguém, senhor delegado. Eu estava socorrendo a garota, pois o meu quarto de hotel ficava de frente para aquele matagal. Eu vi a gritaria e saí correndo! Pergunte à recepcionista!&lt;br /&gt;- Ela disse que não lembra de ter visto você no hotel naquele horário - disse com sorriso de deboche e um cigarro entre os dentes amarelo-escuro.&lt;br /&gt;- Puta que pariu, só o que me faltava isso... - reclamei colocando as duas mãos entre meus cabelos.&lt;br /&gt;- E você pode me explicar isso? - me jogou um saco, onde se encontrava minha cueca, cheia de esperma da minha masturbação proibida.&lt;br /&gt;- É minha cueca! Ué? Não posso ter batido uma punheta durante o dia?&lt;br /&gt;- Você não me engana, rapaz. Olha isso aqui! - lançou uma conta de restaurante. Aquela conta onde coloquei meu número de telefone, lá na cantina.&lt;br /&gt;- Céus! Era a garçonete? Puta merda!&lt;br /&gt;- Então você sabe quem é a garota?&lt;br /&gt;- Agora sei! Quando fui socorrê-la, não deu pra ver o rosto dela!&lt;br /&gt;- Sei, sei. Não acredito nessa história toda... Pra mim é lenda sua.&lt;br /&gt;- Que mané lenda! Eu quero falar com meu advogado! - disse me levantando.&lt;br /&gt;- Ei, ei! Sossega aê, porra! Senta aí se não vai apanhar! - disse o delegado apontando pra mim - Vamos averiguar isso tudo, mas por enquanto vai ficar na cela!&lt;br /&gt;- Eu não volto pra lá, eu quero meu advogado! Você sabe o que é exame de esperma? Examine e verá! E a garota? Perguntaram pra ela?&lt;br /&gt;- Cala a sua boca, sabichão! Eu sei o que fazer e por enquanto é te colocar na cadeia! Ah! E a garota disse que não sabe quem a 'estrupou'!&lt;br /&gt;- Mas sabe que não fui eu! Maldito seja, maldito seja! - disse erguendo o punho direito, enquanto dois policiais me seguravam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levei dois murros, um em cada lado do rosto e fui retirado da sala, carregado por dois policiais. Enquanto caminhava entre os guardas, um senhor com seus setenta anos de idade levantou-se da cadeira de espera da delegacia e se dirigiu a mim com uma arma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Filho de uma puta! Nunca mais vai 'estrupar' ninguém! - gritou apontando a arma para mim.&lt;br /&gt;- Mas não fui... - fui interrompido pelo tiro da arma do velho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois policiais tentaram segurá-lo, mas o velho conseguiu atirar. No meu pau. Gritei olhando para o sangue saindo da minha calça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Velho filho da puta! Maldito seja! - gritei apontando para o velho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O delegado saiu da sala correndo e viu a cena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Levem o rapaz para o hospital! Medeiros! Coloque o velho na cela, já!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui levado às pressas para o hospital que ficava a um minuto dali. Desmaiei no carro. Três dias depois, acordei numa sala de hospital precária e o delegado estava à beira do leito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Rapaz, você está bem. Levaremos você para São Paulo. A garota disse que não foi você. Desculpe pelo inconveniente, mas precisamos prezar pela segurança dessa cidade.&lt;br /&gt;- Eu estou bem? Cadê o doutor?&lt;br /&gt;- Um momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O delegado voltou com o doutor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Doutor, como está meu pau?&lt;br /&gt;- Bem, ele precisou ser amputado, devido ao tiro - disse o médico olhando para o chão.&lt;br /&gt;- Santo Cristo! Mentira! Mentira! - gritei me debatendo.&lt;br /&gt;- Não tente se levantar, senhor Alberto. O senhor está em recuperação! - exclamou o doutor estendendo a mão em direção ao meu pau ou ao que sobrou dele.&lt;br /&gt;- Delegado, você é um miserável! Se não fosse o mal-entendido, nada disso teria acontecido! É isso que vocês fazem às pessoas que querem ajudar?&lt;br /&gt;- Não é bem assim... - respondeu o delegado constrangido pelos meus gritos.&lt;br /&gt;- Eu vou processá-lo! Pode esperar! Pode esperar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gritei por mais alguns minutos até que eles, sem paciência, se retiraram. Chorei olhando para os curativos na região íntima e lembrei dos curativos que estavam naquele mesmo lugar, mas num tempo distante, após uma cirurgia de fimose quando eu tinha quatro anos. Me levantei cuidadosamente e caminhei rumo ao corredor. Olhei ao redor e não havia ninguém. Parecia que o pronto-socorro estava vazio. Andei vagarosamente até uma outra sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Prefiro morrer a viver sem meu pau - sussurrei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei na outra sala, onde havia apenas um paciente cheio de tubos, dormindo. Avistei uma mesa e um bisturi acima dela. Segurei o bisturi e cortei a garganta do paciente adormecido. Um corte preciso, de um extremo ao outro. Depois desferi vários golpes de bisturi em seu peito, fazendo brotar um chuveiro de sangue em sua roupa. Limpei o sangue no lençol do leito e ganhei o corredor novamente. Lentamente me aproximei da recepção e uma mulher estava de costas, sozinha, sentada numa cadeira. Surpreendi a coitada com um murro em suas costas. Ela deu um grito agudo e caiu no chão. Cortei sua garganta também. A mesma precisão cirúrgica. Eu era bom nisso. O assassino sem pica. Enchi as costas dela de furos. Mais chuveiro, mais sangue. Dei uma risada e me levantei. Os pontos da minha região pubiana soltaram e começou a aparecer focos de sangue na minha calça larga de hospital.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foda-se! Não sou mais ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei do que um amigo meu, o Eduardo, disse um dia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Man, o homem sem grana é um apenas um pênis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu já não tenho grana. Agora não tenho pênis. Logo não sou nada. Dei outra risada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Du, você fará falta lá no inferno! - falei em voz moderada, enquanto lipava o bisturi no vestido da moça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sangue jorrava cada vez mais na minha calça, e eu começava a sentir uma fraqueza. Minhas pernas tremulavam e eu sentia uma tontura horrível. Voltei ao corredor, aos tropeços, e encontrei outra sala. Um dos pacientes dormia, mas o outro estava com os olhos abertos, soturnos, mirando a parede. Ele me avistou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ei! O que você tá fazendo, rapaz?&lt;br /&gt;- Cala a sua boca, maldito!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me aproximei do paciente que dormia e cortei sua garganta. Corte fácil, o rosto era pequeno, foi rápido. Mais furos no peito. Mais chuveiro, mais sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Minha Nossa Senhora! Socorro! Socorro! Me ajudem aqui! - gritou o paciente desesperado, batendo no suporte de soro.&lt;br /&gt;- Cala a boca, caralho! - ordenei enquanto me dirigia a ele.&lt;br /&gt;- Sai daqui! Sai daqui, desgraçado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente a porta se abre com violência. Era o delegado com a arma apontada para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Largue o bisturi, Alberto!&lt;br /&gt;- Então me dá sua arma! Quero morrer! - respondi ao delegado, enquanto eu segurava a cabeça do paciente que estava desesperado.&lt;br /&gt;- Sem chance, rapaz! Largue o bisturi!&lt;br /&gt;- Você vai me matar? Me mata!&lt;br /&gt;- Você está louco! Solte esse bisturi!&lt;br /&gt;- Delegado, seja sincero - o paciente tentava se debater e sem querer o cortei no queixo - você viveria sem seu pau?&lt;br /&gt;- Eu não sei! Mas largue o paciente!&lt;br /&gt;- Não! - gritei e comecei o corte da garganta, esperando um tiro fatal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O delegado não pensou duas vezes e atirou duas vezes, no meu braço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Desgraçado! Atira na minha cabeça! - praguejei me contorcendo de dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O delegado chutou o bisturi e deu um chute na minha perna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vai pra cadeia, moleque!&lt;br /&gt;- Não, por favor, me mata agora! Diz que foi legítima defesa. Matei três pessoas aqui, você será o herói!&lt;br /&gt;- Você tem razão, desgraçado - disse o delegado apontando a arma pra minha cabeça.&lt;br /&gt;- Obrigado. Você me devia essa - agradeci sorrindo, olhando para cima, para o rosto do delegado.&lt;br /&gt;Ele fechou os olhos e atirou. Meus miolos voaram por todos os lados. O paciente com o queixo cortado fazia o sinal-da-cruz em meio ao desespero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, lá em São Paulo, meu chefe segurava um jornal e comentava junto ao funcionário puxa-saco e fofoqueiro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Puta merda! O Alberto não só estuprou com assassinou pessoas em série! Caralho!&lt;br /&gt;- É chefe, ainda bem que o senhor deu a licença pra ele, hein? Já pensou?&lt;br /&gt;- Já pensei o quê?&lt;br /&gt;- Já pensou se ele tem esse surto aqui na empresa? Estupra a recepcionista e esfaqueia a gente?&lt;br /&gt;- Pensando por esse lado...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-1319083558650959817?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/1319083558650959817/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=1319083558650959817' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/1319083558650959817'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/1319083558650959817'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2008/03/vista-para-o-matagal.html' title='Vista para o Matagal'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-3101307644514037027</id><published>2008-02-26T00:45:00.010-03:00</published><updated>2008-02-27T07:19:38.407-03:00</updated><title type='text'>Gelo, Porra e uma Iguaria Bizarra</title><content type='html'>Sobrancelha arqueada e testa franzida. A fumaça entrava maliciosamente, cheia de curvas, pelas narinas de Alfredo. "Deve haver um lugar pra mim nessa cidade", pensava o homem sinistro que aparentava - pelas rugas profundas e olheiras escuras - bem mais que seus vinte e sete anos. Os dentes não eram radiantes como na infância e ele pensava nisso enquanto esfregava os dentes da frente com o dedo indicador. Olhou para o chão e alcançou o maço caído, dedilhou o interior da embalagem e encontrou um cigarro. Engatilhou o coitado na boca e o acendeu rapidamente. A janela de vidro estava fechada, e ficou assim por alguns instantes, enquanto Alfredo repousava sua testa no vidro e a fumaça se elevava, encobrindo a sua vista com uma espessa e irritante neblina, afinal, a vista estava perfeita aquela noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- São Paulo não costuma ser tão bela nesse horário, aliás, que céu! Dá pra ver estrelas! - falou impressionado, enquanto afastava a névoa com as mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soltou um pouco de fumaça pelo boca e nariz ao mesmo tempo e deu uma cusparada. Olhou o trajeto do cuspe em queda livre até que o mesmo se partiu em dois, se chocando contra o telhado de uma casa à frente do prédio. Fumou o cigarro até queimar o dedo, até o gosto do fumo ficar insuportável. Lá na rua, um carro não respeitou o cruzamento e quase carregou uma moto pela avenida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por Cristo, que filho de uma puta! - murmurou enquanto lançava o filtro pela janela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi até o banheiro e lá na banheira havia água e gelo, muito gelo envolvendo garrafas de vodka e de cerveja. Coçou a cabeça e fitou por alguns segundos - olho fixo - a tampa vermelha de uma garrafa de Smirnoff. Até que sacudiu a cabeça num despertar repentino e se curvou para retirar uma garrafa verde de Heineken. Apoiou a parte de baixo da tampa na quina da pia de granito e bateu com força no topo da garrafa, fazendo a bela tampa soltar da garrafa, como uma magia. E a magia acabou quando a graciosa tampa desfaleceu ao lado da privada. Grande destino, tampa. Caminhou como uma marcha para a morte, olhando para os detalhes de infiltração na parede do corredor. Apagou a luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Merda de infiltração - sussurou - um dia dou um jeito nessa porra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu um gole generoso em sua cerveja meio-amarga e seguiu até a sala. Olhou para os rasgos do sofá e sentou no infeliz móvel de couro fajuto. Cruzou as pernas e olhou para o teto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esse sofá - falou com desânimo incontestável - um dia compro um de couro legítimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soltou um peido e com certa dificuldade, ergueu-se e rumou para a janela. No meio do caminho, olhou para o toca-discos. Voltou-se para o aparelho de som e abriu o protetor de acrílico. Levantou o braço do aparelho e aproximou o seu rosto da agulha e ficou alguns segundos olhando para cada detalhe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Seja lá quem diabos inventou essa porra, ele é um gênio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devolveu cuidadosamente o braço ao suporte e abriu sua caixa de discos. Passou os dedos por várias capas. Fechou os olhos e continuou o passar de dedos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pronto! Este aqui. Vejamos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era Highway 61 Revisited, do Bob Dylan.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bob, essas sua camisa é um sucesso... quem será esse cara atrás dele, com uma câmera fotográfica nas mãos? - disse Alfredo passando a mão com carinho pela capa de papelão do LP.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cuidadosamente tirou o vinil do plástico de proteção e caprichosamente o instalou no prato giratório. Levantou o braço do aparelho e o disco rodou, como um pião nas brincadeiras de sua infância amarga. Suavemente, despejou a agulha sobre o disco e o ruído inicial, fetiche de qualquer apreciador de um bom som, serpenteou pelo ar, entrando pelos seus ouvidos, fazendo-o sorrir timidamente. A harmonia perfeita de 'Like a Rolling Stone' flutuava em sua introdução magistral, até que Alfredo sentou no chão e ensaiou um choro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pai...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantou-se e ergueu o braço até agarrar um maço novo de Lucky Strikes. Violou o lacre e cheirou o conjunto de cigarros novos. Cheiro de chá fresco. Retirou um Lucky e com classe o colocou na boca, fazendo-o girar de uma extremidade à outra. Acionou o isqueiro e baforou uma coluna de fumaça. A Heineken estava acabando. Enquanto Dylan cantava, ele voltava ao banheiro ou melhor, à banheira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;How does it feel&lt;br /&gt;To be on your own&lt;br /&gt;With no direction home&lt;br /&gt;Like a complete unknown&lt;br /&gt;Like a rolling stone?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pode crer, Dylan! Sozinho, man, sozinho! - gritou erguendo e cerrando o punho direito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abaixou as calças e mijou olhando pra trás, mirando as garrafas. Selecionou a Smirnoff e desrosqueando a tampa, sentiu seu pau ficar duro. Olhou para ele e acariciou o membro por alguns segundos. Começou uma punheta lenta, jeitosa, enquanto dava goles na vodka gelada. Sentou-se no chão do banheiro e começou a pensar na ex-cunhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que não comi aquela gostosa?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ficou lentamente segurando seu pau, num vai-e-vem sensual e precavido. Queria prolongar o prazer, nada de punheta precipitada de adolescente. Fechou os olhos e vislumbrou sua ex-cunhada Gisele, de quatro, com aquele rabo escultural em sua cara, oferecido como oferenda valorosa, pronto pra ser penetrado, centímetro por centímetro, cada um dos dezessete centímetros de seu pau dentro do cu apertado dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Na praia, quando eu a flagrei pelada no quarto, enquanto se trocava... puta merda! Ela nem reclamou, nem gritou... Deu uma risada e eu, cabaço, pedi desculpas de pau duro! BURRO! - gritou Alfredo, aumentando a intensidade dos movimentos da masturbação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acalmou os nervos com mais dois goles da vodka e novamente estava aproveitando cada pensamento, cada fantasia com a Gisele, a ex-cunhada gostosa. Gotas de suor deslizavam sem cessar de sua cabeça e em poucos minutos seu peito exibia manchas vermelhas, enquanto a cabeça do pau estava lambuzada pelo líquido seminal pré-ejaculação. A densidade dos gemidos se alternavam com o baile das formas que a fumaça do cigarro projetava. Ele não aguentava mais. Levantou-se e num urro de alívio, gozou com abundância poucas vezes vista. Gozou dentro da banheira de gelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após limpar o pau, ele estava completamente relaxado e alegre pela bebida. Abriu mais uma cerveja e Dylan permanecia na sala, com sua voz inconfundível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Well, I wanna be your lover, baby&lt;br /&gt;I don't wanna be your boss&lt;br /&gt;Don't say I never warned you&lt;br /&gt;When your train gets lost&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ouvir a música, olhou para a foto de sua ex-namorada, que também é irmã da ex-cunhada gostosa. Agarrou a fotografia e apertou-a com desespero. Lágrimas rolavam pelo seu rosto e ao limpá-las com raiva, lançou a foto no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu tinha tudo, sua filha de uma puta! Você era tudo pra mim! Maldita!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cuspiu na foto amassada e correu até a cozinha com seu pau mole balançando. Abriu a geladeira e a fechou. Velha mania dos tempos de fome, quando de dez em dez minutos, abria a geladeira na esperança de que alguém com bondade suficiente tivesse deixado algum alimento. Era sempre a mesma ilusão. E Alfredo lembrou dessa época. Voltou para a sala e sentou sua bunda desnuda no chão frio e olhou para um quadro, pendurado no centro da sala. Um barco velho e um pescador o empurrando. Uma paisagem incrível ao fundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Carlinhos, meu irmão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pegou o quadro e o abraçou. Sentou-se de novo, e como um pai acolhe o filho, acolheu o quadro e o acariciou. De repente, lançou o quadro na parede, fazendo o mesmo se despedaçar em vários pedaços. Viu que havia silêncio na casa. O lado A havia terminado. Virou o disco com cuidado e ouviu a voz de Dylan regredir com seu descaso e inquestionável brilho. Com os olhos marejados, perambulou bêbado até o quarto e encontrou Mariana nua na cama. Ela havia bebido demais, mas se recuperava e recobrava a consciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fredo, que porra é essa? Tá chorando por quê?&lt;br /&gt;- Me abraça, babe. Só me abraça!&lt;br /&gt;- Mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mariana era uma drogada, sofrida como o Alfredo. Aparenta uma idade bem superior, mas mantinha uma sensualidade honesta e sim, era bem atraente, embora seu braço fosse marcado por manchas roxas, bem distribuídas. Estava bebendo junto ao amigo, mas apagou em meio à gargalhadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alfredo pulou na cama e se encolheu, puxando os braços da amiga para si. Mariana estava confusa e enquanto mirava a nuca do triste companheiro, cedeu à pressão e o envolveu em seus braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que está chorando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alfredo não respondeu. Apenas se aconchegou. Enquanto se aconchegava, Mariana esqueceu do estado sofrível do amigo, desejando secretamente o seu corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fredo, não faça nada do que vá se arrepender...&lt;br /&gt;- Fazer o quê?&lt;br /&gt;- Você sabe...&lt;br /&gt;- Eu não sei de nada, Mari.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto Mariana desfalecia em constrangimento, seu amigo permanecia encolhido, como um animal acuado, fechado e decidido a permanecer daquele jeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que você tem, Fredo?&lt;br /&gt;- Dá pra você me abraçar, porra?&lt;br /&gt;- Tudo bem, mas tá muito estranho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mariana sentia sua calcinha umedecer. Foram raras as vezes que teve alguma experiência sexual com o amigo. Um sexo oral rápido, mas sempre embriagados. Nada que pudesse lembrar direito. Agora ela estava num pós-porre consciente, poderia conseguir algo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que você está fazendo, Mari?&lt;br /&gt;- Relaxa, Fredo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mari levou sua mão até o pau do amigo e começou a masturbá-lo. Alfredo arregalou os olhos, mas logo voltou ao seu ritual soturno de pranto. Mas enquanto suas lágrimas desciam, seu pau subia, de forma estranha. Ela saiu de trás e se postou à frente da triste figura do parceiro até encaixar sua boceta no membro rígido e roxo. Alfredo chorava, mas logo estava executando o vai-e-vem como se fosse uma trepada normal. Gozou dentro dela. Não tanto como na banheira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bob Dylan estava firme e forte, como um trovador de interior, cantando os versos de 'Desolation Row'. A melancolia estava no ar e Alfredo lentamente retirava seu pau das entranhas meladas de sua amiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Gostou, Fredo?&lt;br /&gt;- Vá se foder.&lt;br /&gt;- Como assim?&lt;br /&gt;- Já conseguiu o que queria, certo?&lt;br /&gt;- Você é louco...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alfredo se levantou com porra escorrendo pela extensão de seu pau, descendo até ao saco, agarrando-se nos pêlos escuros. Adentrou o banheiro e abriu outra garrafa verde de cerveja. Deitou sem cerimônias na banheira, em meio aos cubos de gelo e algumas garrafinhas que sobraram. Tremeu muito e arrepiou-se de um extremo ao outro. Deu um grito de insatisfação e cerrou os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mariana levantou-se da cama e deu passos apressados em direção ao banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Right now I can't read too good&lt;br /&gt;Don't send me no more letters no&lt;br /&gt;Not unless you mail them&lt;br /&gt;From Desolation Row&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alfredo olhou a sombra da amiga cada vez maior. Segurou o secador de cabelos e o ligou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, porra! Não! - gritou Mariana começando uma corrida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá da sala, o solo desconcertante de gaita rolava solto. Era o fim do disco. Era lindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alfredo soltou o secador e a lâmpada do banheiro e do corredor piscaram com força. Faíscas voavam para todos os lados, num espetáculo de horror. Mariana aterrorizada, brecou sua corrida e andou rapidamente de costas, tropeçando. Caiu nua, pasma e paralisada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu Deus do céu! Meu Deus do céu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A amiga rastejou, tentando levantar-se e, ao conseguir, correu até a cozinha. Abriu a pequena porta do registro geral de energia e o desligou. Ligou para o 192 e foi ao banheiro desligar o secador da tomada. Voltou à cozinha e ligou o registro novamente. Vestiu uma bermuda cinza e uma camiseta do Queen. Olhou para o estado deplorável do amigo e chorou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fredo, Fredo... esse era o meu lugar, idiota! Eu não tenho nada, ninguém. Pra quê tudo isso? Esse era o meu lugar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mariana agachou-se ao lado da banheira e abaixou os cabelos arrepiados do amigo. Os olhos dele estavam arregalados e ela tentou fechá-los, sem êxito. Chorava muito, em plena confusão de sentimentos e lembranças. Foi até a cozinha e pegou uma faca afiadíssima e voltou ao banheiro. Levantou a perna de Alfredo até visualizar a coxa magra do amigo. Passou com destreza a lâmina da faca na parte inferior, que estava dura, graças à abundância de gelo contida na banheira. Conseguiu destacar uma lasca da coxa do amigo e sem pensar duas vezes, colocou entre os dentes. Mastigou a carne doce e dura do companheiro, sem o mínimo sinal de ânsia. Estava ávida pela iguaria bizarra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A campainha tocou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mariana ignorou o alerta que soava da porta e permanecia fatiando a perna de Alfredo e a consumindo, cada vez mais e maiores pedaços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O enfermeiro tentou a maçaneta e viu que a porta não estava trancada. Com passos curtos e silenciosos, entrou pela cozinha. Olhos para os dois lados e permaneceu caminhando até ganhar a sala. Quando pensou em chamar alguém, Mariana, completamente descontrolada, surgiu à sua direita e o esfaqueou nas costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas que diabos... - praguejou o enfermeiro caíndo de joelhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mariana deu mais quatro facadas nas costas do pobre enfermeiro e o deixou na sala, agonizando em seus últimos suspiros. Correu até a cozinha e trancou a porta. Se dirigiu ao quarto e dentro de uma caixa comemorativa do Lucky Strike, apanhou um três oitão. Conferiu o tambor e lá estavam as oito balas brilhantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A campainha tocou novamente. Era o outro enfermeiro, que havia ficado na ambulância para retirar a maca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Puta que pariu, cadê o viado do Gilberto? - questionava o enfermeiro sobre o seu colega de trabalho esfaqueado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mariana pegou um pino de cocaína e arrumou rapidamente uma carreira desleixada. Aspirou com força todo o pó, ficando com rastros brancos no buço e na ponta do nariz. Tremeu e de um suspiro violento. Alcançou a arma e num rápido movimento, colocou o cano apontado para o céu da boca. Apertou o gatilho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estrondo da barulhenta arma de calibre trinta e oito, fez o enfermeiro que estava tocando a campainha ligar para a polícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em doze minutos dois policiais estavam na porta, juntos ao enfermeiro, tocando a campainha. Em três minutos de curta paciência, um dos soldados arrombou a porta. Com armas em prontidão, apontadas para a frente, os policiais faziam movimentos bruscos, vasculhando cada canto. Chegaram à sala e um dos policiais contemplou o corpo ensangüentado do enfermeiro esfaqueado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chame uma ambulância - avisou um dos policiais.&lt;br /&gt;- Já temos um enfermeiro vivo aqui - retrucou o outro policial.&lt;br /&gt;- Aquilo ali? - treplicou o policial apontando para o enfermeiro trêmulo e pálido no canto da sala.&lt;br /&gt;- Tudo bem, vou chamar a ambulância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos policiais correu até a viatura estacionada afim de chamar a ambulância. Dentro da casa, Mariana, que havia atirado para cima num acesso de loucura, apareceu na sala, sorrateira e enxergou o policial de costas olhando para os pequenos detalhes da sala, revistando a varanda à procura do homicida. Quando o policial voltou de sua revista, deu de cara com Mariana, descabelada e rindo de forma malévola, apontando a arma contra o policial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Calma, minha senhora. Muita calma - o policial tentou amansar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mariana sem responder aos apelos, deu dois tiros no peito do policial, que ao cair, olhou para o próprio peito, e apagou. O enfermeiro que havia presenciado a cena, estático, deu um salto e correu para fora de casa, berrando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Viadinho de merda! - gritou Mariana ao ver o enfermeiro escandaloso fugir de sua vista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ouvir os passos na cozinha se aproximando, Mariana não hesitou e apontou novamente o cano para o céu da boca. O policial chegou e apontou a arma em direção à ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Largue a arma! - ordenou o policial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mariana acenou em despedida para o policial e apertou o gatilho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-3101307644514037027?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/3101307644514037027/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=3101307644514037027' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/3101307644514037027'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/3101307644514037027'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2008/02/porra-e-gelo-na-banheira.html' title='Gelo, Porra e uma Iguaria Bizarra'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-6236424062093676243</id><published>2008-02-22T00:47:00.003-03:00</published><updated>2008-02-22T01:11:33.656-03:00</updated><title type='text'>prazer-fêmea</title><content type='html'>seios voadores, nenhum instinto materno&lt;br /&gt;apenas bicos ardentes em direção&lt;br /&gt;ao sexo&lt;br /&gt;leite para sustento, não&lt;br /&gt;sustento das fantasias dos homens, sim&lt;br /&gt;e não haverei de descer às suas coxas&lt;br /&gt;e o perigo de suas cercanias&lt;br /&gt;ando pequeno, miúdo por um terreno vívido e fértil&lt;br /&gt;humana clara de alma escura&lt;br /&gt;girei meu corpo por cima do seu&lt;br /&gt;procurando a fonte do cintilante calor&lt;br /&gt;que se emaranhou desde os meus pés até a ponta da cabeça&lt;br /&gt;e vi, de um extremo ao outro, que ali se originava&lt;br /&gt;tesão, paixão, excitação&lt;br /&gt;nas suas mãos lá estão&lt;br /&gt;fabricados, embalados e negligentemente distribuídos&lt;br /&gt;ao seu bel prazer&lt;br /&gt;o seu prazer&lt;br /&gt;dentro do seu prazer&lt;br /&gt;porque você é o prazer-fêmea&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20072492-6236424062093676243?l=vivanegativo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://vivanegativo.blogspot.com/feeds/6236424062093676243/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20072492&amp;postID=6236424062093676243' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/6236424062093676243'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20072492/posts/default/6236424062093676243'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://vivanegativo.blogspot.com/2008/02/prazer-fmea.html' title='prazer-fêmea'/><author><name>Felipe Pipoko</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15288406112699188743</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='27' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/-RpXxb2aXEMM/TrAPkMZ_VSI/AAAAAAAACY8/Tb4D9siSPNQ/s220/fe.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20072492.post-1114794673577204650</id><published>2008-02-16T19:02:00.008-02:00</published><updated>2008-02-17T23:23:23.215-03:00</updated><title type='text'>Liso, Escorregadio</title><content type='html'>Homero estava convencido de que havia efetuado o crime perfeito. Sem pistas, sem o mínimo rastro, ele sorria enquanto vasculhava seu bolso procurando um cigarro solto. Lá estava um Marlboro vermelho, enrugado pelo lugar hostil onde se encontrava. Cigarro aceso, perfeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Preciso dormir - pensou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrastou-se pela cozinha apagando a luz. Bateu a cinza no chão, sem se preocupar com um eventual incêndio, tendo em vista que o chão era revestido por um carpete que por sinal, fazia tempo que não era aspirado. Pó, muito pó. À cada passo, pó. Apagou a luz da sala desabotoando sua camisa azul marinho e ao entrar no quarto, fitou o cinzeiro cheio pela metade - cinzas, gimbas e embalagem plástica do maço - e bateu novamente a cinza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Puta merda, que frio! De manhã tá quente, à noite esfria! Eu odeio essa cidade! Vai tomar no cu, São Paulo! - gritou olhando as ruas salpicadas de luzes, pela janela do décimo terceiro andar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lançou a camisa na cama e sentou-se para tirar a calça. Coçou a cabeça exausto, olhando para uma lasca que permanecia pendendo em sua escrivaninha. Lançou a calça na parede e a fivela do cinto arranhou a pintura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foda-se!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pegou o Slanted and Enchanted do Pavement e o colocou cuidadosamente no CD Player. Summer Babe começou a jorrar pelas caixas de som. Ao invés da euforia proposta pela canção (pelo menos ele sempre se animava com ela), Homero olhou melancólicamente para seu guarda-roupas, puxou uma bermuda e uma cueca e se dirigiu ao banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;----------------------------------------------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As sirenes na rua Bartolomeu de Gusmão não paravam de escandalizar a paz dos moradores da Vila Mariana. Azul e vermelho cintilavam pelas paredes das pizzarias e prédios até que os dois carros destacados para o caso frearam bruscamente na frente de um prédio de tijolos, bem alto por sinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porra, deve ter uma bela vista lá em cima! - disse Osvaldo olhando para cima e limpando o suor da testa com sua carteira de identificação.&lt;br /&gt;- É, Osvaldo... Como é bom entrar em ação no berço da burguesia! - retrucou Ulisses, com ares de revolta e satisfação.&lt;br /&gt;- Você é um comunista idiota, isso é o que você é. - treplicou Osvaldo, levando um cigarro fumado pela metade à boca.&lt;br /&gt;- E você é um cego. Foda-se você Osvaldo, não vou discutir agora - retrucou ao se dirigir à guarita do prédio - sei que seu cu tá piscando pra que eu me esquente e discuta, só pra você rir, se divertir. Vá se foder.&lt;br /&gt;- Tá bom, tá bom. Mas pára com esse papo de burguesia. Isso me cansa, sabia?&lt;br /&gt;- Depois a gente fala sobre isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia estava frio. O céu começava a juntar imensas bolas de nuvens negras, porém esse baile celestial era disfarçado pela escuridão da noite. O pizzaiolo largou a massa na mesa de manipulação e saiu envolto em farinha para verificar a ação dos homens que pararam na frente do adorável prédio de tijolos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Armando, volta aqui! Temos seis pizzas para entregar! - gritou seu João dos fundos da pizzaria.&lt;br /&gt;- Seu João, a polícia colou aqui na frente, vai entrar no prédio!&lt;br /&gt;- Pro diabo com a polícia! Volte pra massa! Sério!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Armando voltou murmurando alguns palavrões e continuou a manusear a massa pálida de pizza, enquanto se esticava para tentar ver algum movimento. Ele queria um tiroteio, uma perseguição. Mas sabia que seu João é um chefe implacável. Faria pizzas para um exército em meio a um front de batalha. Ele queria dinheiro, muito dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;---------------------------------------------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porra, vou cagar primeiro! - sussurrou Homero, enquanto procurava uma revista no quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achou um encarte de ofertas de um supermercado e correu para a latrina. In The Mouth A Desert tocava ao fundo. Ele deixou a po
